Blair defende Estado palestino
Londres Após uma reunião de 90 minutos com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, o líder palestino Yasser Arafat afirmou ontem que o atual turbilhão causado por ações terroristas e militares não é razão para adiar a retomada de negociações de paz com Israel.

    "Pelo contrário, digo que é hora de se revigorar o processo de paz", disse Arafat em uma entrevista coletiva conjunta com Blair em Londres. "É o momento certo para se pôr fim à ocupação israelense, para acabar com o conflito entre os dois lados, para se estabelecer um Estado palestino independente, com Jerusalém Oriental como sua capital", disse Blair.
    "Não estamos pedindo a lua. Estamos pedindo a implementação de resoluções das Nações Unidas", afirmou Arafat. "O fim que desejamos... é uma paz justa na qual israelenses e palestinos vivam lado a lado, cada um em seu próprio Estado, seguros e capazes de prosperar e se desenvolver", acrescentou Blair.
    "Esse é o único resultado sensível, e temos de aproveitar este momento para fazermos progressos em direção a esse fim". Tal acordo, disse Blair, "é importante por sua própria justeza, independentemente do que ocorreu em 11 de setembro".
    O escritório de Blair divulgou que o premier conversou por telefone com o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, e ambos concordaram em se reunir quando o israelense visitar Londres, caso não surja uma oportunidade anterior.
    Arafat, que desembarcou no domingo, reuniu-se com o secretário do Exterior, Jack Straw, e com Blair antes de voar para a República da Irlanda, onde se reuniria com o primeiro-ministro Bertie Ahern.
    "Peço ao governo israelense para se unir imediatamente a nós em negociações sobre o status permanente para que possamos alcançar uma solução justa, ampla e duradoura para todas as questões na agenda. Que é uma agenda acertada: Jerusalém, assentamentos, fronteiras, refugiados, segurança, água", afirmou Arafat.
    Blair disse que não existe alternativa à retomada do processo de paz. "Qualquer coisa que façamos entre agora e o reinício do processo de paz, em algum momento ele terá de ser reiniciado, porque essa é a única forma", afirmou.
    "E a única questão, na minha mente, é: quanto mais derramamento de sangue, violência e rancor iremos gerar antes de que façamos o que sabemos que temos de fazer a fim de resolvermos essa questão?"
    Perguntado que pressão ele poderia fazer sobre Sharon, Blair respondeu: "No fim esse processo só poderá seguir em frente se as pessoas quiserem. Mas o que estamos tentando fazer é criar as condições nas quais ele possa seguir em frente".
    Straw disse que o apoio britânico a um Estado palestino é uma posição antiga, e não uma resposta direta aos ataques terroristas nos EUA. "Todos sabem que não existe nenhuma justificativa para o que ocorreu em 11 de setembro, mas as pessoas também entendem e esse é um ponto também entendido pelas pessoas dentro do gabinete israelense que ao mesmo tempo temos de reduzir as tensões nas quais o terrorismo cresce e o terrorismo pode se esconder", afirmou Straw em uma entrevista à rádio BBC.
    Straw disse que a Grã-Bretanha exortou os dois lados a implementarem um plano de paz proposto em maio por uma comissão internacional liderada pelo ex-senador americano George Mitchell.
    A comissão afirmou que os palestinos deveriam fazer "100% de esforços" para evitar ações terrorista e punir seus praticantes, e Israel deveria congelar todas as atividades de assentamento e não usar força letal para dispersar manifestantes palestinos desarmados.
    "Tem havido uma desesperada frustração, um hesitante processo para se chegar aos pés do plano Mitchell", disse Straw. "Estamos agora olhando para um progresso muito mais ativo dos dois lados e o reconhecimento de um Estado palestino em nosso julgamento tem de ser parte de um caminho de longo prazo para a paz na região".

EUA, Rússia e UE teriam acordo sobre Estado palestino

Beirute Bassam Abu Sharif, conselheiro político do líder palestino Yasser Arafat, disse ontem que existe um acordo entre Estados Unidos, Rússia e União Européia para a criação de um Estado independente palestino com Jerusalém oriental como sua capital.
    Sharif, citado pelo jornal internacional árabe Asharq al-Awsat, afirmou que as três partes definiram a criação de um Estado palestino como "condição essencial para a paz e a estabilidade internacional".
    Segundo Sharif, as visitas a Washington do chanceler russo, Igor Ivanov, e do chefe da política externa da UE, Javier Solana, antes dos ataques terroristas de 11 de setembro, foram organizadas para "dar os últimos retoques ao mecanismo" para um novo plano de paz para o Oriente Médio.
    O presidente norte-americano, George W. Bush, de acordo com Abu Sharif, deveria anunciar a nova iniciativa à Assembléia Geral da ONU, postergada depois dos ataques a Washington e Nova York.
    "Toda Jerusalém oriental, incluindo os lugares santos islâmicos e cristãos, estarão sob controle palestino e forças de segurança norte-americanas, russas e européias contribuirão temporariamente com as forças palestinas no controle da fronteira do novo Estado", afirmou Sharif.

Ultranacionalistas abandonam Sharon

Jerusalém Em uma tentativa de manter intacta a sua coalizão, o primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon, alertou os ultranacionalistas que anunciaram ontem sua saída do governo que, caso eles consigam derrubá-lo, estarão fazendo o jogo do líder palestino Yasser Arafat.
    "Vocês fizeram o dia de Arafat", disse Sharon a seus ex-aliados durante um inflamado discurso no Parlamento. O radical Partido da União Nacional afirmou ter decidido deixar a coalizão depois que o Governo Sharon implementou uma de suas promessas de trégua a retirada de tropas de duas localidades palestinas na cidade de Hebron, na Cisjordânia.
    Israel invadiu as áreas 10 dias atrás, em uma tentativa de acabar com disparos contra enclaves de colonos judeus. Ao mesmo tempo, o comandante militar e o ministro da Defesa se envolveram numa áspera disputa pública sinais do aprofundamento da divisão em vista dos esforços liderados pelos Estados Unidos para consolidar um trégua no Oriente Médio.
    O União Nacional, que tem sete cadeiras no Parlamento de 120 membros, é um grande patrocinador do movimento de colonos. O líder do partido, Avigdor Lieberman, que servia como ministro da Infra-Estrutura, disse que sua facção iria deixar o governo para protestar contra o que considera pressão norte-americana para fazer gestos conciliatórios aos palestinos.
    Autoridades palestinas confirmaram, na semana passada, que os EUA estavam trabalhando em iniciativas de paz que pedem pelo eventual estabelecimento de um Estado palestino com presença em Jerusalém.
    Os americanos não têm feito comentários sobre detalhes, mas afirmam que o plano pode ser tornado público durante a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em novembro.

Apoio

    Os norte-americanos tentam conquistar o apoio de estados árabes e muçulmanos para suas respostas aos atentados terroristas do dia 11 de setembro. Vários líderes árabes têm dito que é importante para eles ver progressos na resolução do conflito israelense-palestino.
    Em seu discurso ontem ao Parlamento, Sharon tentou afastar dúvidas sobre sua política de direita. "Não estou sujeito a qualquer pressão e não tenho a intenção de assumir qualquer compromisso que coloque em perigo a segurança de Israel".
    Alertou também para o fato de, na década passada, a debandada de partidos de linha dura de governos de direita ter resultado na chegada ao poder de partidos de esquerda, levando a mais concessões de Israel aos palestinos. "Pergunto a vocês, meus amigos, o que desejam: uma campanha contra o terror ou uma campanha eleitoral?", indagou Sharon.

Premier mantém maioria parlamentar

    A saída do Partido da União Nacional não significa que Sharon perdeu maioria parlamentar sua ampla coalizão controla confortáveis 78 das 120 cadeiras no Parlamento.
    Entretanto, a deserção serve como uma advertência de que o governo Sharon pode rapidamente desmoronar, caso retome conversações de paz com os palestinos.
    Sharon pode ter agora que se apoiar cada vez mais em seu maior parceiro de coalizão, o centro-esquerdista Partido Trabalhista, o que pode causar novos problemas a ele com seus eleitores tradicionalmente linhas duras.
    "Quem quer que tenha votado em Ariel Sharon nas últimas eleições, em grau não pequeno registrou um protesto contra os acordos (interinos de paz) de Oslo", avaliou o líder do União Nacional, Avigdor Lieberman.
    A disputa entre o comandante do Estado-Maior, tenente-general Shaul Mofaz, e seu superior, o ministro da Defesa Binyamin Ben-Eliezer, também teve início, com a questão de Hebron como pano de fundo.
     Pouco antes da reunião ministerial de domingo, Mofaz emitiu um comunicado dizendo que se opunha à retirada porque ela poderia colocar em risco as vidas de civis e soldados israelenses.
    Comandantes das Forças Armadas são rotineiramente consultados pelo governo sobre questões de segurança, mas não têm a permissão de emitir críticas públicas a decisões ministeriais.
    Sharon e Ben-Eliezer tomaram conhecimento do comunicado de Mofaz durante a reunião ministerial e ficaram furiosos, segundo notícias da mídia israelense.
    Um irritado Ben-Eliezer se dirigiu a Sharon e murmurou: "Vou demiti-lo, aquele Mofaz", escreveu o diário "Yediot Ahronot". Sharon esmurrou a mesa e disse: "O que ele está planejando, uma carreira política?", relatou o jornal. Na noite de domingo, Ben-Eliezer anunciou que havia reprimido severamente Mofaz, que ainda tem de completar nove meses de seu mandato de quatro anos.
    Vários comentaristas de jornais e políticos pacifistas, incluindo o parlamentar trabalhista Yossi Beilin, exigiram a renúncia de Mofaz. "Eu renunciaria, porque um comandante do Estado-Maior não pode operar em uma situação na qual o primeiro-ministro o acusa, em uma reunião ministerial, de conluio político", escreveu o comentarista militar Alex Fishman, no "Yediot".

Netanyahu é visto agora como a maior ameaça

    O comandante do Estado-Maior, tenente-general Shaul Mofaz, disse ontem que não iria renunciar, apesar da reprimenda vista por muitos como uma grande humilhação. Ele disse que as palavras que escolheu em seu comunicado foram infelizes e que não pretendia desafiar a autoridade do governo.
    Alguns comentaristas especularam que Mofaz irá entrar na política ao fim de seu mandato, possivelmente se unindo ao ex-premier Benjamin Netanyahu, que liderou o direitista Partido Likud antes de ser derrotado nas eleições de 1999.
    Netanyahu está trabalhando para retornar à vida política e é visto como a maior ameaça a Sharon, que agora lidera o Likud.
    Mofaz vem sendo criticado há meses por pacifistas israelenses e muitos árabes, que dizem que as Forças Armadas fizeram uso excessivo da força contra os palestinos nos primeiros dias da intifada (levante), inflamando paixões e ajudando a enterrar esforços de paz feitos pelo ex-primeiro ministro Ehud Barak.

Fonte: Tribuna da Imprensa


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