EUA, Rússia e UE teriam acordo sobre Estado palestino
Beirute – Bassam Abu
Sharif, conselheiro político do líder palestino Yasser Arafat,
disse ontem que existe um acordo entre Estados Unidos, Rússia e
União Européia para a criação de um Estado
independente palestino com Jerusalém oriental como sua capital.
Sharif,
citado pelo jornal internacional árabe Asharq al-Awsat, afirmou
que as três partes definiram a criação de um Estado
palestino como "condição essencial para a paz e a estabilidade
internacional".
Segundo
Sharif, as visitas a Washington do chanceler russo, Igor Ivanov, e do chefe
da política externa da UE, Javier Solana, antes dos ataques terroristas
de 11 de setembro, foram organizadas para "dar os últimos retoques
ao mecanismo" para um novo plano de paz para o Oriente Médio.
O presidente
norte-americano, George W. Bush, de acordo com Abu Sharif, deveria anunciar
a nova iniciativa à Assembléia Geral da ONU, postergada depois
dos ataques a Washington e Nova York.
"Toda
Jerusalém oriental, incluindo os lugares santos islâmicos
e cristãos, estarão sob controle palestino e forças
de segurança norte-americanas, russas e européias contribuirão
temporariamente com as forças palestinas no controle da fronteira
do novo Estado", afirmou Sharif.
Ultranacionalistas abandonam Sharon
Jerusalém –
Em uma tentativa de manter intacta a sua coalizão, o primeiro ministro
de Israel, Ariel Sharon, alertou os ultranacionalistas – que anunciaram
ontem sua saída do governo – que, caso eles consigam derrubá-lo,
estarão fazendo o jogo do líder palestino Yasser Arafat.
"Vocês
fizeram o dia de Arafat", disse Sharon a seus ex-aliados durante um inflamado
discurso no Parlamento. O radical Partido da União Nacional afirmou
ter decidido deixar a coalizão depois que o Governo Sharon implementou
uma de suas promessas de trégua – a retirada de tropas de duas localidades
palestinas na cidade de Hebron, na Cisjordânia.
Israel
invadiu as áreas 10 dias atrás, em uma tentativa de acabar
com disparos contra enclaves de colonos judeus. Ao mesmo tempo, o comandante
militar e o ministro da Defesa se envolveram numa áspera disputa
pública – sinais do aprofundamento da divisão em vista dos
esforços liderados pelos Estados Unidos para consolidar um trégua
no Oriente Médio.
O União
Nacional, que tem sete cadeiras no Parlamento de 120 membros, é
um grande patrocinador do movimento de colonos. O líder do partido,
Avigdor Lieberman, que servia como ministro da Infra-Estrutura, disse que
sua facção iria deixar o governo para protestar contra o
que considera pressão norte-americana para fazer gestos conciliatórios
aos palestinos.
Autoridades
palestinas confirmaram, na semana passada, que os EUA estavam trabalhando
em iniciativas de paz que pedem pelo eventual estabelecimento de um Estado
palestino com presença em Jerusalém.
Os americanos
não têm feito comentários sobre detalhes, mas afirmam
que o plano pode ser tornado público durante a Assembléia
Geral da Organização das Nações Unidas (ONU)
em novembro.
Apoio
Os norte-americanos
tentam conquistar o apoio de estados árabes e muçulmanos
para suas respostas aos atentados terroristas do dia 11 de setembro. Vários
líderes árabes têm dito que é importante para
eles ver progressos na resolução do conflito israelense-palestino.
Em seu
discurso ontem ao Parlamento, Sharon tentou afastar dúvidas sobre
sua política de direita. "Não estou sujeito a qualquer pressão
e não tenho a intenção de assumir qualquer compromisso
que coloque em perigo a segurança de Israel".
Alertou
também para o fato de, na década passada, a debandada de
partidos de linha dura de governos de direita ter resultado na chegada
ao poder de partidos de esquerda, levando a mais concessões de Israel
aos palestinos. "Pergunto a vocês, meus amigos, o que desejam: uma
campanha contra o terror ou uma campanha eleitoral?", indagou Sharon.
Premier mantém maioria parlamentar
A saída
do Partido da União Nacional não significa que Sharon perdeu
maioria parlamentar – sua ampla coalizão controla confortáveis
78 das 120 cadeiras no Parlamento.
Entretanto,
a deserção serve como uma advertência de que o governo
Sharon pode rapidamente desmoronar, caso retome conversações
de paz com os palestinos.
Sharon
pode ter agora que se apoiar cada vez mais em seu maior parceiro de coalizão,
o centro-esquerdista Partido Trabalhista, o que pode causar novos problemas
a ele com seus eleitores tradicionalmente linhas duras.
"Quem
quer que tenha votado em Ariel Sharon nas últimas eleições,
em grau não pequeno registrou um protesto contra os acordos (interinos
de paz) de Oslo", avaliou o líder do União Nacional, Avigdor
Lieberman.
A disputa
entre o comandante do Estado-Maior, tenente-general Shaul Mofaz, e seu
superior, o ministro da Defesa Binyamin Ben-Eliezer, também teve
início, com a questão de Hebron como pano de fundo.
Pouco antes da reunião ministerial de domingo, Mofaz emitiu um comunicado
dizendo que se opunha à retirada porque ela poderia colocar em risco
as vidas de civis e soldados israelenses.
Comandantes
das Forças Armadas são rotineiramente consultados pelo governo
sobre questões de segurança, mas não têm a permissão
de emitir críticas públicas a decisões ministeriais.
Sharon
e Ben-Eliezer tomaram conhecimento do comunicado de Mofaz durante a reunião
ministerial e ficaram furiosos, segundo notícias da mídia
israelense.
Um irritado
Ben-Eliezer se dirigiu a Sharon e murmurou: "Vou demiti-lo, aquele Mofaz",
escreveu o diário "Yediot Ahronot". Sharon esmurrou a mesa e disse:
"O que ele está planejando, uma carreira política?", relatou
o jornal. Na noite de domingo, Ben-Eliezer anunciou que havia reprimido
severamente Mofaz, que ainda tem de completar nove meses de seu mandato
de quatro anos.
Vários
comentaristas de jornais e políticos pacifistas, incluindo o parlamentar
trabalhista Yossi Beilin, exigiram a renúncia de Mofaz. "Eu renunciaria,
porque um comandante do Estado-Maior não pode operar em uma situação
na qual o primeiro-ministro o acusa, em uma reunião ministerial,
de conluio político", escreveu o comentarista militar Alex Fishman,
no "Yediot".
Netanyahu é visto agora como a maior ameaça
O comandante
do Estado-Maior, tenente-general Shaul Mofaz, disse ontem que não
iria renunciar, apesar da reprimenda vista por muitos como uma grande humilhação.
Ele disse que as palavras que escolheu em seu comunicado foram infelizes
e que não pretendia desafiar a autoridade do governo.
Alguns
comentaristas especularam que Mofaz irá entrar na política
ao fim de seu mandato, possivelmente se unindo ao ex-premier Benjamin Netanyahu,
que liderou o direitista Partido Likud antes de ser derrotado nas eleições
de 1999.
Netanyahu
está trabalhando para retornar à vida política e é
visto como a maior ameaça a Sharon, que agora lidera o Likud.
Mofaz
vem sendo criticado há meses por pacifistas israelenses e muitos
árabes, que dizem que as Forças Armadas fizeram uso excessivo
da força contra os palestinos nos primeiros dias da intifada (levante),
inflamando paixões e ajudando a enterrar esforços de paz
feitos pelo ex-primeiro ministro Ehud Barak.