“Os comandos norte-americanos não terão ‘livre passeio no Afeganistão’”, afirma ex-coronel da KGB
“Os comandos norte-americanos não terão ‘livre passeio no Afeganistão’”, afirma Leonid Birukov, coronel do Serviço de Inteligência – ex-KGB – reformado, chefe da Divisão de Procura e Resgate de prisioneiros de guerra do Comitê para os assuntos de veteranos de guerra
    O início de bombardeios norte-americanos no Afeganistão assinalou uma nova etapa do combate ao terrorismo internacional. Os ataques aéreos foram precedidos de declarações emocionais e precipitadas do presidente dos EUA, George W.Bush, inspiradas pela morte de milhares de civis no dia 11 de setembro último em conseqüência de atentados bárbaros em Manhattan. O presidente norte-americano quis punir, o mais rapidamente possível, os terroristas e talibãs, e fazê-los voltar à idade de pedra por meio de bombardeios. No entanto, o bom senso venceu, e o alto comando norte-americano teve bastante tempo para estudar a situação naquele país, selecionar alvos a atacar e só depois desferir o primeiro golpe de retaliação.

    Não podemos deixar de mencionar que decisões precipitadas em assuntos como este são demasiadamente perigosas, pois, tanto no Afeganistão como no Paquistão, as tendências antiamericanas são muito fortes. Na verdade, os EUA não conhecem bem a situação que se vive atualmente naqueles dois países. A sua especificidade é a de que um afegão comum, que, regra geral, é analfabeto, acredita mais no que diz o seu mulá, acusando os EUA de terrorismo, do que nas promessas de Washington de alvejar exclusivamente os terroristas e os seus sequazes. E a sua lógica é clara: já que os norte-americanos lançam bombas, tenho que combatê-los, e a capacidade dos afegãos de combater não deixa dúvidas.
    Se os norte-americanos desembarcarem no território afegão e realizarem ações militares de grande envergadura, eles terão uma sorte muito pior do que as unidades soviéticas que ali estiveram 10 anos combatendo sem resultado. Podemos supor, com elevado grau da probabilidade, que essa campanha se torne um outro Vietnã para os EUA, e as suas conseqüências serão muito piores. As ações militares causarão muitas vítimas entre os civis e os efetivos norte-americanos.
    Além disso, se as perdas entre os civis, como conseqüência de ações militares, chegarem a números significativos, a opinião pública mundial deixará de estar a favor dos EUA. Mais do que isso, não se pode excluir a hipótese de que todos os afegãos passem a encarar os norte-americanos como inimigo comum e a Aliança do Norte se vire, em determinada etapa, contra os EUA.
    Depois, com a “expulsão do invasor”, as partes, anteriormente hostis, voltarão a combater-se, envolvendo novamente o país numa guerra intestina semelhante à que vemos hoje e que pode durar anos.
    Acho que a solução poderia passar por um melhor aproveitamento das determinações antitalibãs que se registam presentemente no Afeganistão e que são bastante fortes. Vem crescendo o descontentamento com o governo talibã entre algumas tribos patães. Um outro aspecto importante é o de que, por uma série de razões, o Movimento Talibã já não é tão homogêneo e consolidado como antes. Nas suas fileiras pode-se ver pessoas estranhas que, diferentemente dos primeiros militantes, não possuem educação ideológica e religiosa fundamental. Há também aqueles que estudaram e trabalharam na União Soviética. Alguns deles juntam-se aos talibãs para sobreviver, embora, no seu íntimo, os detestem. Basta dizer que, após a queda do Governo de Najibullah, no território controlado pelos talibãs ficaram mais de quatro mil soldados e oficiais das mais diversas estruturas militares e de segurança do governo derrubado. Trata-se de efetivos bem treinados e, outrora, considerados como apoio firme e seguro do governo afegão. Atualmente, eles estão dissolvidos na população afegã, mas é pouco provável poder-se encontrar entre eles adeptos convictos do Talibã. Alistados, por necessidade, na milícia talibã, eles não podem ser vistos como apoio seguro do regime talibã. Esta pode ser uma das razões porque, ultimamente, têm sido freqüentes os casos de passagem de unidades inteiras de talibãs para o lado da Aliança do Norte.
    É também difícil dizer se serão bem sucedidas as ações das forças especiais norte-americanas no Afeganistão. As montanhas afegãs é um cenário ideal para uma guerra de guerrilha. No desfiladeiro de Pandsher, por exemplo, há muitas cavernas e veredas das ratazanas conhecidas apenas aos locais, e é pouco provável o comando norte-americano dispor de “guardas-florestais” (rangers) em número suficiente para executar permanentemente operações especiais exaustivas na região montanhosa.
    Pelo que me lembro, a tropa soviética no Afeganistão fez muitas tentativas para dominar o desfiladeiro de Pandsher, percorrendo-o em todos os sentidos, inclusive em carros de combate, bombardeando-o com mísseis e projeteis, vibrando golpes “precisos” e maciços. Aos bombardeios seguiam-se operações de “limpeza” que foram tão escrupulosas que nem um rato podia passar despercebido. Ademais, em todas as vilas adjacentes se colocavam administradores fiéis ao governo legítimo do Afeganistão. Entretanto, bastava os soviéticos saírem de uma das vilas, os mojahedin logo voltavam. Escondidos nas montanhas, eles aguardavam ilesos um momento oportuno para voltar. Assim, os soviéticos andavam por um círculo vicioso. O mesmo espera, certamente, os comandos norte-americanos, assim que começarem a “limpar” numerosos desfiladeiros do Afeganistão indisciplinado.
    Pode-se esperar que, com o início de operações terrestres, surjam os primeiros desaparecidos e prisioneiros aos quais os talibãs darão tratos muito maus, pois os encaram como agressores. Portanto, surgirá a necessidade de resgate, por dinheiro ou por força, de prisioneiros de guerra. Este processo poderá prolongar-se por anos, inclusive em tempos de paz.
    Por exemplo, após a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão, em 1989, no território daquele país ficaram, como cativados ou desaparecidos, 314 soldados e oficiais soviéticos. Hoje em dia, dessa lista constam 292 pessoas. Segundo os dados disponíveis, cerca de 15 a 20 ex-soldados soviéticos continuam vivos e permanecem no território afegão. No entanto, a maioria, pelos vistos, não conseguiu sobreviver.
    Não tenho dúvida de que muitos dos militares norte-americanos também terão de beber um cálice amargo de cativeiro no Afeganistão e que o seu destino não será melhor do que o dos prisioneiros soviéticos.
    Mesmo assim, a muitos postos de recrutamento russos já estão a chegar as cartas de ex-soldados soviéticos no Afeganistão com o pedido de serem enviados, novamente de armas na mão, àquele país. Claro que a sua experiência seria lá extremamente útil, mas valerá a pena “pisarmos o mesmo ancinho”?

Leonid Birukov

Fonte: RIA “Novosti”


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