Anarquistão, por Isaac Bigio
    O que acontece com o Afeganistão pós-Taleban?

    Foi transformado no país da anarquia: Anarquistão.
    Os Estados Unidos queriam que o novo Afeganistão fosse governado pelo ex-rei Zahir (destituído pelo seu primo em 1973, vive no exílio em Roma desde então), mas ele quase não tem tropas. A Rússia e o Irã se opõem e apoiam Rabbani (presidente do Afeganistão entre 92 e 96, ano da chegada do Taleban ao poder) , que a ONU reconhece desde 1992 como o único presidente afegão.
    Rabbani e seu partido Jamiat controlam Cabul, mas os moderados e militares do Jamiat estão dispostos a sacrificar tal presidência para que possam formar um governo amplo. Muitos generais do Jamiat desconfiam de Rabbani e suspeitam que ele possa estar por trás do assassinato no início de setembro do caudilho militar Massud. O monopólio que o Jamiat tem sobre a capital vem sendo ameaçado pelo Partido Unidade, que está marchando sobre Cabul e quer dominar seus bairros hazaras (etnia de um terço da população).
    Os tadjiques (etnia minoritária no Afeganistão) do Jamiat e os hazaras do Partido Unidade se massacraram mutuamente, destruindo Cabul em 1995. Khan, autoridade religiosa tadjique da cidade de Herat, representa outra ala do Jamiat. Ele anuncia que quer marchar a Sudeste e conquistar Kandahar, a sede do Taleban. Isso implicará um choque com os pashtus anti-taleban que não querem que os tadjiques controlem cidades pashtus.
    Separando os territórios do Jamiat (nordeste e noroeste afegão), é onde se encontra a zona uzbeque do general Dostum, centralizada em Mazar-e Sharif. Nessa cidade, a maior zona urbana do norte, as tropas da Unidade e da Jamiat também têm seus próprios bairros. Em Mazar-e Sharif, aconteceram numerosos massacres, saques, violações e disputas entre os vencedores.
    Entre 1978 e1992, Dostum apoiou as tropas soviéticas contra o Jamiat e a Unidade. Os antigos bandoleiros militares que usurpavam cidades pashtus, antes dos talebans, voltaram agora aos seus domínios. Hekmaytar, o fundamentalista pashtu que arrasou Cabul e apoiou o Taleban contra os Estados Unidos, estaria controlando uma província oriental. Os talebans ainda dominam o sudeste e estão à espera de que seus inimigos voltem a se enfrentar.
    O ex-rei Zahir denuncia que o Jamiat rompeu o acordo e invadiu Cabul. A Aliança do Norte, após ter sido beneficiada pelos bombardeios ocidentais, agora se opõe a todas as tropas britânicas. O Paquistão e a Aliança do Norte são inimigos mortais, e não existe maneira de se consolidar um governo aberto afegão incluindo todos. A ONU e os EUA querem realizar um amplo consenso. Mas, entre os anos de 92 e 96, essas tentativas fracassaram e o único partido que pôde unir quase todo o país foi o Taleban. Hoje o Afeganistão não tem uma figura ou uma força capaz de uni-lo. Diversos caudilhos regionais e países vizinhos possuem interesses opostos. O principal interesse dos Estados Unidos é caçar Bin Laden, mas não se pode descartar a possibilidade de um entendimento dele com os novos vencedores.
    Osama chegou ao Afeganistão através de um convite de Rabbani, que também é islâmico. O Afeganistão ainda viverá por muitos anos sob um estado cheio de enfrentamentos fratricidas e sob uma desgastante intervenção ocidental.

Isaac Bigio é professor na London School of Economics & Political Sciences, Londres, Inglaterra

[Nota do leitor: Que salada, hein?]


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