Com a Palavra Michael Warchawski
"Façamos abstração
das posições israelenses extremistas que põem toda
a responsabilidade do conflito nas costas dos palestinos (...) Examinemos
antes as posições e as percepções que guiaram
os parceiros do processo negociado, sustentados, ambos, pela maioria de
suas opiniões públicas.
Para os israelenses,
o conflito coloca face a face duas entidades assimétricas que disputam
um território do qual cada um reivindica a posse em sua totalidade.
Eles devem, entretanto, encontrar um compromisso razoável capaz
de pôr um fim ao seu litígio. Essa posição é
retomada, desde 1994, pelas diferentes administrações americanas
que não falam mais de 'territórios ocupados' mas de 'territórios
cujo estatuto final está em negociação'. É
lógico que, com uma tal abordagem do conflito, a relação
de força entre os protagonistas é um dos elementos a tomar
em consideração, o mais fraco devendo assumir mais compromissos
do que o mais forte.
Para os palestinos,
ao contrário, o conflito visa reparar um erro que foi feito a eles
e a recuperar direitos, como aqueles reconhecidos pelas resoluções
da ONU, pela 4a Convenção de Genebra e pela Carta das Nações
Unidas. Consciente da relação de forças, a OLP já
assumiu um imenso compromisso, reconhecendo o Estado de Israel nas suas
fronteiras de 4 de junho de 1967, que é bem mais do que o previsto
pela resolução da ONU de novembro de 1947 para o futuro Estado
judeu.
O processo negociado
tem, portanto, para os palestinos, como único objetivo decidir as
modalidades da implementação das resoluções
da ONU e do direito internacional: retirada do exército israelense
da Cisjordânia (inclusive aparte de Jerusalém que Ihes pertence),
desmantelamento das colônias habitacionais consideradas como crimes
de guerra pela 4' Convenção de Genebra e o retorno dos refugiados.
Esses objetivos não são negociáveis, somente as modalidades
e os ritmos de sua implementação. Pode-se admitir, eventualmente,
algumas exceções: troca de territórios, status particular
dos lugares santos judeus em Jerusalém Oriental...
Contrariamente à
posição israelo-americana, a Cisjordânia (inclusive
Jerusalém Oriental) e a Faixa de Gaza são territórios
ocupados, portanto destinados a ser evacuados tão logo um acordo
seja encontrado. As colônias habitacionais, por sua vez, são
entidades ilegais e destinadas a ser desmanteladas. E os refugiados são
refugiados, tendo, portanto, o direito inalienável de voltar a seu
país e de recuperar suas propriedades. É a posição
da comunidade internacional, com exceção dos Estados Unidos
e da Micronésia. Essas profundas divergências sobre a natureza
do conflito e, portanto, sobre o objetivo das negociações
tiveram, com certeza, repercussões sobre a natureza da paz. Esta,
é preciso lembrar sempre, está destinada a ser o objetivo
último das negociações israelo-palestinas. Para os
palestinos, a paz é o resultado da concretização –
mesmo que imperfeita – do direito. Para os israelenses, ao contrário,
a paz é a neutralização da luta nacional palestina
e a separação.
Tudo o que puder garantir
mais separação é um passo à frente em direção
à paz, não importa que opinião os palestinos façam
disso. O bloqueio dos territórios ocupados, colocado em prática
desde o início do processo negociado, é vivido pelos palestinos
como uma verdadeira agressão contra sua liberdade de movimento.
Para a maioria dos pacifistas israelenses, ele é visto como um dos
avanços mais significativos da paz, porque é um início
da realização do 'nós em nossas casas e eles nas deles'.
Quando a paz de uns
é vivida como uma agressão pelos outros, as chances de desembocar
em 'negociações de paz' são evidentemente mínimas.
(...) Como indicou o jornalista Uri Avneri em varias ocasiões, depois
de reconhecido o fracasso de Camp David, 'o que se confirma, na incapacidade
atual dos pacifistas israelenses de compreender a responsabilidade israelense
no fracasso do processo de paz, é o fato de que não soubemos,
durante estes seis últimos anos, tratar os palestinos em pé
de igualdade'. As negociações e a construção
dos acordos reproduziram a relação dominadores-dominados:
Israel ditou suas condições, impôs sua leitura dos
acordos e sua concepção de segurança, fixou seus parâmetros
das negociações. E se retraiu cada vez que precisou, a seus
olhos, 'punir' os palestinos.
As forças militares
não mudaram em nada sua atitude em relação aos habitantes
palestinos da Cisjordânia e de Gaza; os tribunais militares continuaram
como se nada tivesse acontecido em Washington, em setembro de 1993. A recusa
em libertar todos os presos políticos é, nesse sentido, muito
simbólica: só depois de longas negociações
é que a maioria dos prisioneiros, detidos por lutar contra a ocupação,
foi libertada. Muitos permanecem na prisão até hoje.
A relação
de forças nunca deixou de se exprimir, perpetuando uma assimetria
cada vez mais humilhante: os palestinos devendo mostrar permanentemente
suas intenções pacificas, particularmente reprimindo as forças
políticas internas hostis aos acordos, enquanto que em Israel a
extrema direita e os colonos estavam no governo e promoviam uma campanha
cheia de ódio contra os Acordos de Oslo. Os palestinos se viam castigados
(reforço do bloqueio, supressão da permissão de trabalho,
recusa do acerto de dívidas devidamente assinadas) se não
conseguissem prender tal líder islâmico suspeito, com ou sem
razão, de ser responsável por um atentado. Enquanto os israelenses
libertavam – se é que eles os tivessem aprisionados – os assassinos
notórios de civis palestinos.
A violação
sistemática dos acordos assinados não decorria unicamente,
por parte de Israel, de uma simples má vontade ou de uma desonestidade
gratuita, mas muito mais de uma atitude: a do professor frente ao aluno,
do pai frente à criança, do diretor da prisão frente
ao prisioneiro. Em todos os casos dessa imagem, seria preciso delimitar
uma linha divisória que revele quem tem o poder, o direito e os
meios de aplicá-lo. É uma atitude tipicamente colonial.
Tipicamente colonial,
igualmente, é a falta de escuta do outro. Do ponto de vista do colonizador,
o colonizado não tem uma palavra autônoma, também não
tem o verdadeiro conhecimento da realidade. Tal como uma criança,
é preciso lhe dar a palavra, convencê-lo daquilo que ele é
e deve ser, ensinar-lhe o que é bom e o que é ruim, inclusive
o que é bom para ele. Essa é a razão profunda pela
qual não se negocia, dita-se, dá-se... E repreende-se para
punir. Felicita-se quando os palestinos demonstram que aprenderam bem e
repreende-se quando se fazem de surdos. Tal atitude não é
somente típica de negociadores teimosos e de militares obtusos,
é própria de toda a sociedade israelense, inclusive de seus
intelectuais de esquerda. É o que o editor do Haaretz, Doron Roseblum,
denunciou com ironia pela expressão 'estilo didático'.
É isso que explica
também os limites de autocrítica israelense face aos cem
últimos anos de conflito. Ela não concerne nunca ao fundamento
das relações israelo-palestinas (racismo, colonização...),
mas o fato de nunca ter prova de uma inteligência suficiente para
compreender que é extremanente difícil impor sua posição
unicamente pela força. Como os bons mestres do fim do século
19, teria sido necessário saber usar a cenoura e o bastão,
a firmeza e a doçura, as recompensas e as punições.
(...) É sobre
a base de uma verdadeira mentalidade racista e de comportamentos de conquistadores
que Israel reconheceu a OLP, em 1993, e tenta resolver o conflito em seis
anos. (...) Se quisermos criar as condições de uma verdadeira
paz e não apenas de um cessar-fogo, não podemos nos contentar
em cortar a pêra em duas partes. Ou, pior, em reduzir ao máximo
as concessões à parte responsável pela ocupação.
É preciso devolver aquilo que foi tomado, completamente. É
preciso que o ocupado sinta que o ocupante de ontem fez a escolha de mudar
por completo sua atitude e seus objetivos."
Fonte: Lista de Direitos Humanos
Consciência.Net