A responsabilidade de Israel, por José Arbex Jr.
    O nazista Ariel Sharon está feliz: soube provocar a "segunda Intifada" que enterrou de vez o processo anunciado pelos Acordos de Oslo. A nova onda de violência foi deliberadamente insuflada, em 28 de setembro de 2000, quando Sharon, protegido por um exército de guarda-costas, desfilou pela esplanada das Mesquitas, no coração da Velha Cidade de Jerusalém. A partir de então, todos os dias o sangue corre, dos dois lados. Mas não há simetria: a imensa maioria das vítimas palestinas é formada por crianças e adolescentes, mulheres e velhos, que, quando têm a sorte de não morrer ou sofrer mutilações provocadas por soldados armados com as engenhocas mais mortíferas, são humilhados e obrigados a ver suas casas sendo destruídas por tratores e tanques de guerra. A população civil israelense também sofre com a perspectiva de, a qualquer momento, ser vítima de atentados, não raro praticados por palestinos suicidas.

    Mas denunciar Sharon não é suficiente para explicar como aconteceu uma deterioração tão grave e acelerada de um quadro que, em setembro de 1993, parecia oferecer uma chance de paz.
    Uma boa interpretação, que aqui reproduzimos parcialmente, é oferecida pelo filósofo e jornalista Michael Warchawski, em artigo originalmente publicado na revista Foi Et Developpement n° 297, outubro de 2001. Nascido em 1949, em Estrasburgo, de uma família de judeus ortodoxos, Warchawski vive em Jerusalém desde 1965, onde cursou a escola talmúdica. Em 1984, fundou o Centro de Informação Alternativa (AIC – Alternative Information Center), com base em Jerusalém e Belém, uma ONG de palestinos e isralenses. Casado, pai de três filhos, foi preso em 1987 por "apoio a organizações palestinas ilegais". Dois anos mais tarde, foi condenado a trinta meses de prisão, pena comutada, em 1990, para oito meses de reclusão.

Com a Palavra Michael Warchawski

    "Façamos abstração das posições israelenses extremistas que põem toda a responsabilidade do conflito nas costas dos palestinos (...) Examinemos antes as posições e as percepções que guiaram os parceiros do processo negociado, sustentados, ambos, pela maioria de suas opiniões públicas.
    Para os israelenses, o conflito coloca face a face duas entidades assimétricas que disputam um território do qual cada um reivindica a posse em sua totalidade. Eles devem, entretanto, encontrar um compromisso razoável capaz de pôr um fim ao seu litígio. Essa posição é retomada, desde 1994, pelas diferentes administrações americanas que não falam mais de 'territórios ocupados' mas de 'territórios cujo estatuto final está em negociação'. É lógico que, com uma tal abordagem do conflito, a relação de força entre os protagonistas é um dos elementos a tomar em consideração, o mais fraco devendo assumir mais compromissos do que o mais forte.
    Para os palestinos, ao contrário, o conflito visa reparar um erro que foi feito a eles e a recuperar direitos, como aqueles reconhecidos pelas resoluções da ONU, pela 4a Convenção de Genebra e pela Carta das Nações Unidas. Consciente da relação de forças, a OLP já assumiu um imenso compromisso, reconhecendo o Estado de Israel nas suas fronteiras de 4 de junho de 1967, que é bem mais do que o previsto pela resolução da ONU de novembro de 1947 para o futuro Estado judeu.
    O processo negociado tem, portanto, para os palestinos, como único objetivo decidir as modalidades da implementação das resoluções da ONU e do direito internacional: retirada do exército israelense da Cisjordânia (inclusive aparte de Jerusalém que Ihes pertence), desmantelamento das colônias habitacionais consideradas como crimes de guerra pela 4' Convenção de Genebra e o retorno dos refugiados. Esses objetivos não são negociáveis, somente as modalidades e os ritmos de sua implementação. Pode-se admitir, eventualmente, algumas exceções: troca de territórios, status particular dos lugares santos judeus em Jerusalém Oriental...
    Contrariamente à posição israelo-americana, a Cisjordânia (inclusive Jerusalém Oriental) e a Faixa de Gaza são territórios ocupados, portanto destinados a ser evacuados tão logo um acordo seja encontrado. As colônias habitacionais, por sua vez, são entidades ilegais e destinadas a ser desmanteladas. E os refugiados são refugiados, tendo, portanto, o direito inalienável de voltar a seu país e de recuperar suas propriedades. É a posição da comunidade internacional, com exceção dos Estados Unidos e da Micronésia. Essas profundas divergências sobre a natureza do conflito e, portanto, sobre o objetivo das negociações tiveram, com certeza, repercussões sobre a natureza da paz. Esta, é preciso lembrar sempre, está destinada a ser o objetivo último das negociações israelo-palestinas. Para os palestinos, a paz é o resultado da concretização – mesmo que imperfeita – do direito. Para os israelenses, ao contrário, a paz é a neutralização da luta nacional palestina e a separação.
    Tudo o que puder garantir mais separação é um passo à frente em direção à paz, não importa que opinião os palestinos façam disso. O bloqueio dos territórios ocupados, colocado em prática desde o início do processo negociado, é vivido pelos palestinos como uma verdadeira agressão contra sua liberdade de movimento. Para a maioria dos pacifistas israelenses, ele é visto como um dos avanços mais significativos da paz, porque é um início da realização do 'nós em nossas casas e eles nas deles'.
    Quando a paz de uns é vivida como uma agressão pelos outros, as chances de desembocar em 'negociações de paz' são evidentemente mínimas. (...) Como indicou o jornalista Uri Avneri em varias ocasiões, depois de reconhecido o fracasso de Camp David, 'o que se confirma, na incapacidade atual dos pacifistas israelenses de compreender a responsabilidade israelense no fracasso do processo de paz, é o fato de que não soubemos, durante estes seis últimos anos, tratar os palestinos em pé de igualdade'. As negociações e a construção dos acordos reproduziram a relação dominadores-dominados: Israel ditou suas condições, impôs sua leitura dos acordos e sua concepção de segurança, fixou seus parâmetros das negociações. E se retraiu cada vez que precisou, a seus olhos, 'punir' os palestinos.
    As forças militares não mudaram em nada sua atitude em relação aos habitantes palestinos da Cisjordânia e de Gaza; os tribunais militares continuaram como se nada tivesse acontecido em Washington, em setembro de 1993. A recusa em libertar todos os presos políticos é, nesse sentido, muito simbólica: só depois de longas negociações é que a maioria dos prisioneiros, detidos por lutar contra a ocupação, foi libertada. Muitos permanecem na prisão até hoje.
    A relação de forças nunca deixou de se exprimir, perpetuando uma assimetria cada vez mais humilhante: os palestinos devendo mostrar permanentemente suas intenções pacificas, particularmente reprimindo as forças políticas internas hostis aos acordos, enquanto que em Israel a extrema direita e os colonos estavam no governo e promoviam uma campanha cheia de ódio contra os Acordos de Oslo. Os palestinos se viam castigados (reforço do bloqueio, supressão da permissão de trabalho, recusa do acerto de dívidas devidamente assinadas) se não conseguissem prender tal líder islâmico suspeito, com ou sem razão, de ser responsável por um atentado. Enquanto os israelenses libertavam – se é que eles os tivessem aprisionados – os assassinos notórios de civis palestinos.
    A violação sistemática dos acordos assinados não decorria unicamente, por parte de Israel, de uma simples má vontade ou de uma desonestidade gratuita, mas muito mais de uma atitude: a do professor frente ao aluno, do pai frente à criança, do diretor da prisão frente ao prisioneiro. Em todos os casos dessa imagem, seria preciso delimitar uma linha divisória que revele quem tem o poder, o direito e os meios de aplicá-lo. É uma atitude tipicamente colonial.
    Tipicamente colonial, igualmente, é a falta de escuta do outro. Do ponto de vista do colonizador, o colonizado não tem uma palavra autônoma, também não tem o verdadeiro conhecimento da realidade. Tal como uma criança, é preciso lhe dar a palavra, convencê-lo daquilo que ele é e deve ser, ensinar-lhe o que é bom e o que é ruim, inclusive o que é bom para ele. Essa é a razão profunda pela qual não se negocia, dita-se, dá-se... E repreende-se para punir. Felicita-se quando os palestinos demonstram que aprenderam bem e repreende-se quando se fazem de surdos. Tal atitude não é somente típica de negociadores teimosos e de militares obtusos, é própria de toda a sociedade israelense, inclusive de seus intelectuais de esquerda. É o que o editor do Haaretz, Doron Roseblum, denunciou com ironia pela expressão 'estilo didático'.
    É isso que explica também os limites de autocrítica israelense face aos cem últimos anos de conflito. Ela não concerne nunca ao fundamento das relações israelo-palestinas (racismo, colonização...), mas o fato de nunca ter prova de uma inteligência suficiente para compreender que é extremanente difícil impor sua posição unicamente pela força. Como os bons mestres do fim do século 19, teria sido necessário saber usar a cenoura e o bastão, a firmeza e a doçura, as recompensas e as punições.
    (...) É sobre a base de uma verdadeira mentalidade racista e de comportamentos de conquistadores que Israel reconheceu a OLP, em 1993, e tenta resolver o conflito em seis anos. (...) Se quisermos criar as condições de uma verdadeira paz e não apenas de um cessar-fogo, não podemos nos contentar em cortar a pêra em duas partes. Ou, pior, em reduzir ao máximo as concessões à parte responsável pela ocupação. É preciso devolver aquilo que foi tomado, completamente. É preciso que o ocupado sinta que o ocupante de ontem fez a escolha de mudar por completo sua atitude e seus objetivos."

Fonte: Lista de Direitos Humanos


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