Narcotráfico: o que você precisa saber
Revista Carta Capital: “O Chefão das Drogas”

Financiador dos paramilitares que combatem as Farc, Don Diego amplia suas atividades e manda heroína e cocaína para o Brasil

Por Walter Fanganiello Maierovitch

Diego Montoya Sánchez, de 41 anos, está com a cabeça a prêmio. Cabeça que vale US$ 2 milhões, mas que deve subir de preço. Há dois anos o colombiano Don Diego está sendo caçado pela DEA, pela CIA, pelo FBI e pela polícia colombiana. Existe um mandado internacional de captura contra ele. Motivo: Diego Montoya é o número 1 do tráfico internacional de drogas e controla o Cartel do Valle Norte.

A heroína que começou a chegar ao Brasil provém de papoulas cultivadas nos seus campos e é refinada nos seus laboratórios. Don Diego está apostando no mercado brasileiro, em face da redução do consumo dessa droga narcótica (depressora, reduz a atividade cerebral e dá sonolência de um Morfeu) nos EUA e na Europa.

Os consumidores americanos e europeus migraram para as metanfetaminas, que são drogas sintéticas psicoativas. Preferem ficar agitados, ligados. Daí o Cartel do Valle Norte estar ofertando a heroína aos brasileiros. Antes, forneciam 90% da produção aos EUA e o restante ao México. O cartel de Don Diego usa o Brasil como corredor de passagem da cocaína destinada à Europa. Ele sabe da regra que todo país de trânsito vira grande consumidor. Isso já aconteceu com o Brasil, uma alegria para o bolso de Don Diego e seus dependentes.

O prêmio pela sua captura está estampado em panfletos espalhados pelas regiões colombianas de plantio e refino de coca, papoula e marijuana. Poderá subir e aproximar-se do oferecido por Pablo Emilio Escobar Gaviria. Em 1993, a encomenda pela morte de Escobar chegou a valer US$ 6 milhões. Para localizar Escobar, os norte-americanos selecionaram e treinaram um grupo policial de elite, imune à força corruptora do Cartel de Medellín. Essa elite integrou o comando batizado como Bloque de Búsqueda.

Esse comando de elite sustentou-se nas informações dos paramilitares de direita, envolvidos no combate às duas guerrilhas de esquerda. As Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), por meio do seu coordenador, Carlos Castaño, tiveram papel fundamental na eliminação de Escobar. Na busca de Escobar, a norte-americana Drug Enforcement Administration (DEA) chegou a empregar aviões dotados de equipamentos radiogoniométricos. A DEA procurava captar, em algum lugar da Colômbia, a voz de Pablo Escobar. Também os sonoros estampidos de uma pistola Sig Sauer, de 9 milímetros, sua inseparável arma.

A captação de voz foi eficaz quando, avisados pelos paramilitares de Castaño, os vôos deixaram a região de selva e concentraram-se no espaço de Medellín. Escobar escondia-se numa casa da sua propriedade, no bairro Los Olivos, e comunicava-se por rádio. Tal sistema de triangulação radiogoniométrico não serviu para surpreender o terrorista Bin Laden. A premiação ou a troca sempre integram as estratégias norte-americanas. O dinheiro serve para atrair mercenários e incrementar a deduragem, quer pela cupidez individual, quer pelo desejo hegemônico de organizações criminosas rivais.

Exemplo conhecido de troca envolveu Carlos Lehder, um dos maiores narcotraficantes do século passado. Lehder escolheu as Bahamas para montar seu entreposto de cocaína. Preso e extraditado para os EUA em 1987, Lehder acabou condenado a 135 anos de prisão. Delatou o ditador panamenho Manuel Noriega. Recebeu, em troca, a redução da pena! , de modo a ganhar a liberdade vigiada. Noriega, o general narcotraficante, continua preso. Está condenado à pena de prisão perpétua, graças à contribuição de Lehder.

Com o El Patrón, apelido de Escobar, a população silenciou. Nada de delações. Ele era considerado um benfeitor, como ficou evidente no seu concorrido funeral. Escobar criou 3 milhões de empregos, para dar sustentação ao seu Cartel de Medellín. Para isso, transferiu o plantio e o refino da coca do Peru e do Equador para a Colômbia. As coisas estão acontecendo de forma diferente na busca a Don Diego. Os representantes do governo W. Bush vacilam, pois são conflitantes muitos dos interesses políticos em jogo. Tudo porque Don Diego financia os paramilitares das AUC, chefiados por Carlos Castãno, sempre em luta permanente contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Don Diego injeta pesadamente dólares no Bloque Calima, das AUC, que atua no Departamento de Cauca, onde se encontra parte substancial da reserva petrolífera colombiana. Financia, ainda, as Autodefensas Campesinas Rojo Ata (Acra), no Departamento de Tolima. E é Don Diego quem, na região do Valle, investe no refino e plantio de papoula em Tolima, Cauca e Nariño.

Uma outra peça desse quadro interesseiro diz respeito ao recém-empossado presidente Álvaro Uribe. Sempre gozou da fama de aliado dos direitistas das AUC. Quando era governador, armou civis num projeto para enfrentar a violência dos insurgentes das Farc. Vale acrescentar possuir Don Diego um coeso e bem armado “exército privado”. Recentemente, colocou seu potente “exército” para combater o denominado Bloque Ocidental das Farc, chefiado pelo guerrilheiro comunista Pablo Catatumbo.

Os chefes militares do Cartel do Valle atendem pelos apelidos de Chocolate e Pelé – mas não são brasileiros. O brasileiro que negocia a compra de drogas com o Cartel do Valle é conhecido por Pedro Brá (de Brasil). Desconhece-se até hoje a identidade real de Pedro Brá. A batalha entre o Cartel do Valle e o Bloque Ocidental das Farc iniciou-se após o grupo de Catatumbo seqüestrar, em 11 de abril passado, 12 deputados regionais do Departamento do Valle. Fora do campo de batalha, Don Diego e Catatumbo figuram como os maiores suspeitos do assassinato do monsenhor Isaías Duarte Cancino, de muito prestígio na região. As suspeitas recaíram em Don Diego e em Catatumbo em face de o clérigo criticar com veemência, nas prédicas, o narcotráfico promovido pelo Cartel do Valle e a guerrilha do bloco ocidental das Farc. Desejava motivar uma reação social.

Evidentemente, os paramilitares não têm interesse na prisão de Don Diego. Muito menos os mercenários, que são financiados pelas AUC, com dinheiro dele e não do Plano Colômbia, hoje rotulado de IRA (Iniciativa Regional Andina).

Muitos dos mercenários integram a força armada do cartel de Diego Montoya. Pelo divulgado na imprensa colombiana, os comandados de Don Diego massacraram 107 camponeses, na cidade de Trujillo, pertencente ao Departamento do Valle. Os camponeses executados eram considerados simpatizantes das Farc. Em 1999, Don Diego acendeu ao high-ranking elaborado pela DEA e pela Interpol. Além da cocaína, seu Cartel do Valle fornece heroína e marijuana aos EUA e ao México. A carreira delinqüencial de Don Diego Montoya Sánchez começou no Cartel de Cáli, subordinado aos irmãos Rodríguez Orejuela. Atuou com os maiores nomes do narcotráfico internacional, como Alejandro Bernal Madrigal (Juvenal), Hermano Gómez (Rasguño), Helmer Pacho Herrera, José Santacruz Condono, Victor Julio Patino (Fomeque). Esteve ligado aos irmãos Ochoa, potentíssimos narcotraficantes do Cartel de Medellín, que, depois das extradições para os EUA, se tornaram colaboradores da Justiça norte-americana. Hoje, os três irmãos Ochoa – Fabio, Juan David e Jorge Luis – exploram suas grandes fazendas e criam cavalos de raça. No acordo com os norte-americanos, conseguiram preservar a fortuna conseguida com o tráfico de cocaína.

O Cartel do Valle do temido Don Diego estabeleceu-se na região ocidental colombiana, onde a principal unidade militar do país conta, na cidade de Tulua, com 110 homens. Os domínios do Cartel do Valle alcançam, também, parte do importante vale do Rio Magdalena. O cartel domina plantios em Cauca, Tolima e Nariño e controla todas as saídas da droga pelo Pacífico. Mantém mais de 50 laboratórios de refino de heroína e cocaína nas áreas rurais de Roldanillo, El Guamo, Ortega e Ibaguè. Seus laboratórios refinam grande parte da coca produzida em Guaviare, Vaupes, Caquetà e Putumayo. Ao Cartel do Valle atribuiu-se o aumento internacional de oferta da cocaína. No último ano, a Colômbia conquistou outros 5% do mercado consumidor de cocaína. Ou seja, a Colômbia já fornece 85% da cocaína consumida no planeta. Por baixo, a ONU, pela sua agência de drogas sediada em Viena (UNDCP), estimou em 1.200 toneladas a quantidade de cocaína exportada anualmente pela Colômbia.

Nos EUA, Don Diego foi condenado por liderar organização criminosa colombiana dedicada ao tráfico internacional de cocaína e heroína. A sentença é de 4 de novembro de 1999. A pena imposta pelo juiz federal Stephen Brow foi a de prisão perpétua. O processo condenatório derivou do fato de Don Diego ter exportado para os EUA mais de mil toneladas de cocaína pura em um ano. Essa droga foi embarcada em portos do Equador e do México.

No México, houve acordo entre os cartéis do Valle e de Tijuana. Este último cartel foi mostrado no filme Traffic e leva o nome da cidade que faz fronteira com a norte-americana San Diego. O cartel de Tijuana sempre cuida da remessa de drogas, a partir do Golfo da Califórnia.

Em termos de fortuna, Don Diego está distante da amealhada por Escobar. O Cartel do Valle não possui frota de aviões, preferindo terceirizar o transporte e usar pilotos autônomos. Ao contrário, Escobar mantinha uma frota de pequenos aviões, conhecida como Expresso da Cocaína. E a cocaína acabava chegando a Miami, Los Angeles, Nova York, Chicago, etc. Com o tempo, a apelidada “Rota da Farinha” alcançou a África e a Ásia.

Assim como Escobar, Don Diego celebrou acordo com as máfias da Galícia – espanhola – que anualmente redistribuem 650 toneladas de cocaína colombiana para a Europa. Por Cauca e Tolima, Diego Montoya circula em um velho jipe Willys. Muitas vezes, ao lado de uma conhecida modelo fotográfica. Como todos nessas cidades sabem, o casal passa os finais de semana às margens do Lago Calima.

No Brasil, a propaganda norte-americana pretende vincular as Farc com personagens sem importância no tráfico internacional, como Fernandinho Beira-Mar. E nada revelam a respeito das ligações entre Diego Montoya Sánchez e os paramilitares das AUC. A heroína que está chegando ao Brasil é refinada pelos laboratórios do Cartel do Valle, de Don Diego. Como se pode perceber, Don Diego tem papel relevante com os paramilitares. Sua imagem, no entanto, macula a de Carlos Castaño, que se apresenta como o chefe de uma organização paramilitar que conseguiu, patrioticamente, vencer o narcotraficante Escobar.

As organizações paramilitares dependem dos financiamentos de Don Diego e, por si, não conseguem, no caso da sua prisão ou eliminação, operar internacionalmente o tráfico. Não conseguiriam sair da venda a varejo, no seu próprio território. Importante lembrar que as novas e principais rotas de drogas percorridas pelos cartéis colombianos passam pelo Brasil. Do nosso país seguem em direção à Europa. No traçado das rotas, o Brasil conecta-se com países africanos: Senegal, Guiné, Libéria, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Gabão, Angola, Namíbia e África do Sul.

No Senegal, parte da droga é remetida para a Argélia e, pelo Mediterrâneo, chega à Espanha e a Portugal. Numa outra rota, há um giro pela Nigéria e ingresso na Ásia pelo Sudão e pela Somália. São os cartéis que operam as redes internacionais e cuidam da reciclagem do dinheiro da droga em atividades formalmente lícitas. Para seus chefes, os movimentos rebeldes, de esquerda (insurgentes) ou de direita (paramilitares), promovem a extorsão, ou seja, exigem dinheiro para permitir o plantio, o refino e a circulação da droga.

Um dos lavadores do dinheiro da droga do Cartel do Valle chama-se Ever Villafagne. Foi preso na Colômbia no fim de 2000 e teve sua extradição para os EUA aceita pelo Judiciário. Antes de ser extraditado, no entanto, fugiu, em maio deste ano, do presídio colombiano de segurança máxima de Itagüí. Desde os tempos de Escobar, um presídio em muito similar ao nosso Bangu.

Fonte: Carta Capital


Revista Fórum: “Coca para americano ver”

Por Renato Rovai

A Bolívia tem boa parte do seu território e do seu povo vivendo em estado de guerra. Na prática isso não tem nada a ver com política de combate ao narcotráfico

Tínhamos chegado à região de Chapare na noite anterior,depois de uma viagem de 6 horas num coletivo pior que os que atendem à periferia de São Paulo. Sorte que estávamos acompanhados de Leonilda Zurita, 33 anos, de quem vou falar na próxima edição, mas já antecipo tratar-se daquelas pessoas que a gente conversa e fica arrepiado...

Aquela manhã estava reservada para entrevistar os líderes do pequeno Vilarejo de Eterazama, em Chapare, região de 25,5mil quilômetros quadrados onde vivem aproximadamente 300 mil indígenas bolivianos que sobrevivem do cultivo e da comercialização da folha de coca. Conversávamos com Nicolas Rodrigues, secretário geral do sindicato local, quando irrompeu na sala um garoto: “Estão pedindo pros jornalistas irem a Rio Alto. Tem conflito lá”. Alugamos um táxi e fomos. Foram 15minutos de ansiedade. Ao chegar ao local, cerca de cinqüenta indígenas com roupas rasgadas, pés descalços e aparência de fome nos cercaram. Falavam todos ao mesmo tempo. Contavam o que havia ocorrido.O conflito já havia acabado. Era o segundo dia do governo de Gonzalo Sánchez de Lozada (Goni), que havia derrotado num segundo turno de eleição indireta o líder cocalero Evo Morales (veja entrevista à pág. 17), um quase mito local. A partir da história desse conflito foi possível entender melhor o que se passa na Bolívia em relação à plantação de coca, ao narcotráfico, à miséria e à dominação norte-americana,entre outras coisas.

No dia seguinte

Ainda no fim da tarde do mesmo dia estivemos com o defensor do povo da região, Godofredo Reinicke Borda. A defensoria é um órgão independente e de alta credibilidade.Atua para impedir que o cidadão seja desrespeitado nos seus direitos humanos e nas relações com o Estado. Borda nos informou que na região existem 650 sindicatos, cada qual com 60 a 150 famílias filiadas.Que as famílias têm necessidade de produzir a coca para sobreviver e por essa razão são tão organizadas.

Apontou que a lei 1.008, que dá ao Estado o direito de combater a plantação de coca, tem aspectos anticonstitucionais e que não existe o tal desenvolvimento alternativo financiado pelos EUA. Pelo projeto de desenvolvimento alternativo os habitantes locais receberiam financiamentos e condições para substituir o cultivo de coca por outras culturas como palmito, laranja e abacaxi. Mas, dos 160 a 220 milhões de dólares ao ano enviados pelos EUA para o país, 70% são destinados à guerra.

São muitas as revelações do Defensor do Povo, mas uma coisa ele não conseguiu explicar naquele fim de tarde: por que os militares atacaram em Rio Alto, após 48 horas da eleição do novo presidente e depois do novo ministro da Justiça anunciar que iria desmilitarizar a região?

A resposta estava estampada em todos os jornais do dia seguinte. As capas mostravam homens fortes de passa-montanha (máscara preta com abertura apenas nos olhos) atacando militares. Completamente diferentes dos indígenas famélicos que entrevistamos (veja depoimentos à frente).E ao mesmo tempo o novo ministro da Justiça anunciava: “não é possível desmilitarizar o Chapare, a situação ainda é muito tensa por lá”. A população havia sido atacada para justificar a operação de guerra montada no local e para que a intervenção norte-americana pudesse prosseguir.Para que a ação mentirosa de combate ao narcotráfico pudesse continuar sendo uma cortina de fumaça para esconder outros interesses.

Coca não é cocaína

Na região do Chapare o principal distrito é o de Vila Tunari. Para o padrão local tem razoável qualidade de vida. Estudo realizado nas escolas da região com 220 crianças revelou que 87% delas tinham parasitas e, 30%, anemia. Os filhos daqueles indígenas atacados pelos militares têm, com certeza, ainda menos saúde que os pesquisados. O principal motivo dessa tragédia é a falta de renda, e muito se deve ao combate ao cultivo da folha de coca.É verdade que é dela que se produz a pasta de coca. E que depois é refinada em laboratório num processo químico e vira a demolidora cocaína. Mas o que se diz é que é da mesma coca que se produziu o extrato que tornou a Coca-Cola um refrigerante tão popular. E a Coca-Cola não é droga.

Da folha de coca também se produz um chá, como da folha de boldo ou da erva-mate. Esse chá é consumido livremente e tradicionalmente na Bolívia. Como também é habitual o indígena mascar a folha.O cidadão boliviano consome coca como o paulista bebe café, o gaúcho chimarrão ou o morador de Mato Grosso do Sul relaxa com o tereré. “A coca nos dá um alento espiritual para trabalhar. Por conta de nossa pobreza ela substitui a verdura”, tenta explicar Marcos Fernandes, morador da região. A folha de coca, como a cocaína, tira a fome, dá a sensação de saciedade.E tem proteínas. Ou seja, no popular, “sustenta”. Além disso, é associada a muitas tradições populares e indígenas. Quando dois jovens decidem se casar, a mãe do pretendente vai com uma folha de coca pedir a mão da moça para o pai. Também se lê a sorte na folha de coca.

Os perigosos cocaleros

“Às vezes comemos só azeite. É o que temos. Aqui se você fizer um exame todos vamos ter anemia”, Angel Zandolba, 40 anos, casado com Trijonia Lopez, 39, sete filhos. Diz que nunca recebeu dinheiro do desenvolvimento alternativo. E que é muito comum ver as crianças desmaiarem de fome e desnutrição.

“Colocaram uma escopeta na minha orelha e no meio dos meus seios e me bateram com um pau”, Delia Moreira, 56 anos.

“Não há nenhum desenvolvimento alternativo aqui. O que eles querem são nossas riquezas naturais. Eles sabem que aqui há petróleo”, Marcos Fernandes.

“Eles não estão aqui para erradicar a coca, estão mais preocupados em nos maltratar e em nos expulsar desta terra”, Eusébio Rubios, 39 anos, executivo de Chimoré.

“Eu estava levando as crianças para a escola, que é uma coisa que todos nós taxistas fazemos quase como uma missão. Como não há ônibus, cada família paga quanto pode. No caminho vi os militares atacando o povo. Fiquei com raiva, muita raiva. Vi que não podia ficar quieto e me juntei a eles, atirando pedras nos soldados.”, Ernan Guandarilhes, 26 anos, taxista

Na Bolívia, segundo o jornalista mexicano Luis Gomez, que trabalha para o sítio narconews.com, até existe produção de pasta de coca, mas os indígenas não têm relação com esse processo. Ele suspeita que boa parte da produção de pasta de coca seja controlada por gente diretamente ligada às Forças Armadas do país e mesmo que trabalha para o Estado. “Principalmente da Força Naval. E por incrível que pareça Lei 1008 (antitóxico – já citada pelo Defensor do Povo) penaliza a planta e a coca em pó, não a pasta”. Luis Gomez vive há cinco anos na Bolívia e é um especialista no tema. Diz que há registrado apenas um único caso de laboratório de refino de coca na Bolívia. Ele levanta uma questão apontada por todos aqueles que discutem seriamente a questão do narcotráfico. “Há 5 bilhões de dólares no sistema financeiro dos EUA, segundo a própria ONU, que são oriundos do narcotráfico. Isso o governo gringo não combate”, provoca.

Qual é a dos EUA na Bolívia?

A questão acima não deve ser respondida com generalizações e simplismo, mas,de certa forma, pelo mesmo motivo que os EUA buscam a guerra contra o Iraque, atacaram o Afeganistão recentemente. No conflito que presenciamos, as bombas e armas usadas eram em sua grande maioria norte-americanas. Para ter uma idéia de como a lógica de combate à coca é irracional, hoje se gastam na Bolívia só com refeição dos militares 15 mil dólares por dia. Comesse valor pode-se construir uma escola diariamente na região do Chapare. Além disso, gastam-se 150 mil dólares extras de salários, sem contar logística, helicópteros etc. Em cada disparo, na média, se desperdiçam 20 dólares. O cálculo é que 1 milhão de dólares/mês, só no Chapare, é gasto como combate a alguns pés de coca. “Em tudo que envolve a droga, gastaram-se 220 milhões de dólares no ano passado”, sustenta o Defensor do Povo. Em suma, o governo norte-americano precisa de guerras, seja contra o que e quem for, para justificar investimentos na indústria bélica.

Por outro lado, o Chapare é uma das zonas de maior biodiversidade da terra e também uma das mais ricas em reservas minerais e gás da Bolívia. Há ainda estudos de que há muito petróleo no Chapare. Mas, segundo o jornalista Luis Gomez, dominar territorialmente essa região andina é muito importante do ponto de vista geopolítico para os EUA. “O nascedouro de todos os principais rios da Amazônia está na cordilheira e 2/3 da água doce do mundo encontram-se ali”, revela. Como se sabe, a água em pouco mais de uma década deve ser um bem natural mais valioso que o petróleo.Por isso, os EUA já trabalham com o objetivo de ter presença na região.

O prefeito de Vila Tunari, Felipe Cáceres Garcia, faz coro às acusações. Diz que há um poço de petróleo fechado em São Mateus, a 6 quilômetros do centro de Chimoré, outro distrito. Segundo ele não há interesse em explorar o poço agora. “Eles estão esperando os indígenas abandonarem suas terras por conta da violência”, denuncia.Cáceres defende a industrialização da folha da coca e diz que produziria riqueza na região. E também diz que a Coca-Cola compraria a folha local. “De um lado apontam a espada, do outro compram que você tem”.
 

"A transformação da coca em cocaína é um processo químico. No país não há tecnologia para isso. Nem caixa de fósforos a Bolívia fabrica"
 

Ele repete que a transformação da coca em cocaína é um processo químico e que no país não há tecnologia para isso. Nem caixa de fósforos a Bolívia fabrica. Elas são importadas. E dá outro dado significativo dessa história. “Por conta da erradicação da coca um sargento dos EUA dá ordens a um coronel boliviano. Por isso Evo Morales (candidato dos cocaleros) venceu as eleições nos quartéis locais”, diz o prefeito.

Os militares norte-americanos na região são menos de uma centena, mas mandam.“Para fazer um vôo de helicóptero aqui preciso pedir autorização para a embaixada dos EUA. Da parte deles, se querem usar aviões não pedem para ninguém”, diz Cáceres.

A norte-americana George Ann Potter, que reside em Cochabamba, tem denunciado muito o que os entrevistados até aqui afirmaram. Seus relatórios têm sido encaminhados ao Senado dos EUA e já vêm surtindo efeitos. Alguns senadores defendem o corte da ajuda militar à Bolívia por estar sendo usada em violações de direitos humanos. (Continua na próxima edição.)

"Só exportamos gás e seres humanos"

Ele talvez seja hoje a maior liderança indígena do globo. Sua coragem e seu discurso são referências para uma boa parte do povo boliviano que já tinha aprendido a viver sem esperanças

Evo Morales Ayma, 42 anos,só não ganhou o segundo turno da eleição na Bolívia porque ela não é direta. Os deputados é que escolhem entre os dois mais votados pelo povo. Líder cocalero, é um quase mitono Chapare. Teve 86,3% dos votos para presidente na região. No país foram 21,88%.

O sucesso desse índio, porém, não é tão meteórico como se imagina. Há quinze anos ele já tem participação ativa na vida política boliviana. Em 1988, quando foi aprovada a lei vigente antinarcóticos, que entre as substâncias penalizadas incluía afolha de coca, foi eleito secretário executivo das Seis Federações do Trópico de Cochabamba,máxima organização cocalera.

Foi à frente dessa entidade que ganhou notoriedade nacional liderando bloqueios de estradas, greves e marchas de até uma semana. Mesmo assumindo posições radicais, Evo Morales está longe de ser um guerrilheiro mascarado ou um índio franco-atirador. Com 1,78 metro de altura, alto para a média boliviana, foi trompetista de uma banda que tem certa projeção nacional (Imperial) e ganhou medalhas disputando maratonas, além de ter quase se tornado jogador de futebol profissional.

Fórum – O presidente eleito Gonzalo Sánchez de Lozada já afirmou que vai continuar com a política zero de coca em Chapare, o que isso vai gerar?

Evo Morales – Se continuarem com essa política vão se encontrar com a forma dos seus próprios sapatos – ditado que significa que terão uma reação na medida de sua ação. A solução não é uma operação de força. Além do mais, não podemos continuar fazendo das nossas Forças Armadas um instrumento do imperialismo americano.Não podemos deixar militares estrangeiros armados em nosso território. Isso é um abuso e os nossos militares não estão concordando. Prova maior é que ganhamos em todos os quartéis e postos policiais de Chapare.

Fórum – Muita gente não entende os motivos que o levam a defender tão fortemente o direito de o agricultor plantar coca na Bolívia, o senhor poderia explicar isso melhor?

Evo Morales – A folha de coca é um produto natural e tem importância do ponto de vista da tradição e da cultura do nosso povo. Além de servir para o uso medicinal, econômico e, agora, inclusive, ideológico, já que nós ao lutar por nossas tradições estamos também defendendo nossa soberania. Afinal, de que luta contra o narcotráfico os EUA podem falar. Segundo os últimos dados das Nações Unidas, 50% dos narco dólares estão depositados em bancos norte-americanos. Se combatem o narcotráfico, por que não começam combatendo isso? Claro que a droga é uma desculpa para que os EUA controle mas economias e os territórios de nossos países.

Fórum – O argumento do governo norte-americano é que a coca plantada na região do Chapare não é boa para o consumo e por isso essas plantações só servem para a produção da pasta de coca?

Evo Morales – A coca produzida em Chapare é de qualidade inferior ao da região de Yungas, que por isso é mais cara, o que leva nosso campesino a consumir a coca de Chapare. Não é verdade que ela não serve para o consumo. É bobagem.

Fórum – Qual sua opinião a respeito da Alca?

Evo Morales – Não podemos aderir à Alca. O México, que é um país maior, passou,depois do Nafta, a ter mais problemas que já tinha. A tortilla norte-americana entrava mais barato no México do que a mexicana.Com a Alca, para a gente vai piorar.Quem vai ganhar são as transnacionais de no máximo cinco países, mas não os povos.

Fórum – O senhor costuma dizer que o MAS (partido que lidera) é o instrumento político de um movimento em defesa dos campesinos, não está na hora de ampliar esse caráter?

Evo Morales – Há muitos militantes que têm várias propostas a respeito do papel político que o MAS deve desempenhar a partir de agora. Estou convencido de que é preciso refundar o MAS como instrumento político do povo, da dignidade, da liberdade.Isso vai fazer com que mais setores de trabalhadores urbanos se incorporem a ele.Até o momento poucas federações urbanas participam do MAS e muitas já têm demonstra do seu desejo de participar. Agora, não podemos mais pensar em uma dicotomia entre os trabalhadores do campo e da cidade. Lembro-me de uma passagem em que um antigo comunista discursava e disse: “os índios têm que carregar os operários para que eles cheguem ao poder”. Isso não pode ser assim.

Fórum – Pra finalizar, qual a sua opinião a respeito da globalização do modelo neoliberal?

Evo Morales – Depois que fracassou o capitalismo de Estado, agora vem a fracassar o neoliberalismo. O problema é a concentração de riquezas, pressuposto do capitalismo. Então você vai me perguntar, então qual o modelo você defende? Defendo um em que se produza para o bem comum, pela solidariedade, para a reciprocidade, e não só para produzir riquezas. É verdade que precisamos ter comércio internacional e que por isso precisamos de grandes empresas, mas o que a Bolívia exporta hoje? Exporta seres humanos, que não conseguem emprego aqui e vão buscá-los em outros países, e recursos naturais, como petróleo e gás. Só. Isso não é mais possível.

Fórum – E o Fórum Social Mundial, no seu entendimento, é um instrumento global da luta dos povos de diferentes partes?

Evo Morales – É um instrumento de interação muito importante, principalmente na América Latina.

*Renato Rovai é editor da revista Fórum

Fonte: Revista Fórum


Consciência.Net