"Durante
o primeiro semestre de 1984, todo o Brasil foi sacudido pela campanha chamada
de ‘diretas-já’, pedindo o imediato restabelecimento das eleições
diretas para a Presidência da República, suprimidas pelo regime
militar imposto em 1964. Num primeiro momento, a Rede Globo de Televisão
– principal veículo de comunicação do país
– foi contra a campanha.
Era seu direito
fixar tal posição. Mas ela ultrapassou claramente a fronteira
entre opinião e informação, ao tentar fazer passar
a seus telespectadores que o primeiro grande comício pelas diretas-já
em São Paulo (25.01.1984) fora apenas uma manifestação
a mais dentro das comemorações ao aniversário da cidade,
que transcorre justamente no dia 25 de janeiro".
Clóvis Rossi, Vale a pena
ser jornalista? São Paulo: Moderna, 1986, p. 9
* *
*
(...)
O “Jornal
Nacional” não deu manchete com o comício pela diretas, que
levou mais de duzentas mil pessoas à praça da Sé.
Logo, não o considerou um dos grandes fatos jornalísticos
do dia. O título da matéria do Paglia também omitiu
que se tratava de uma manifestação pelas diretas. O tema
das diretas ocupa metade do tempo da reportagem, cerca de trinta segundos.
Nela, dois entrevistados falam, D. Paulo Evaristo Arns e Franco Montoro,
e apenas o governador se refere às diretas. A reportagem cita o
nome de dez artistas e apenas o de dois políticos: a então
ministra da Educação, Ester Figueiredo Ferraz, e Montoro.
(...) Todos
os órgãos da grande imprensa cobriram o ato público
na Sé de maneira extensa e intensa. Para os seus diretores e proprietários,
ele foi a grande notícia do dia e da semana. Só o “Jornal
Nacional” fez diferente. Ele reduziu drasticamente a relevância e
o impacto da notícia. Ele colocou dentro da notícia informações
que visavam disfarçar o seu sentido, a sua verdade – a de manifestação
popular contra a ditadura.
(...) Nessas
quase duas décadas, acho que li boa parte do que foi publicado a
respeito. Conversei com dezenas de colegas da Globo. Entrevistei alguns
deles e lhes fiz perguntas específicas sobre a campanha das diretas.
Pois nenhum deles, jamais, defendeu a tese do “bom jornalismo”. Alguns
falaram em “erro”, outros se referiram a “pressões”, muitos disseram
que “foi feito o possível”. Nenhum deles se vangloriou do que foi
levado ao ar. A começar por Roberto Marinho.
Mario Sergio Conti,
original
aqui.