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Observatório
do Jornal Nacional
www.consciencia.net/jornalnacional
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Realidade brasileira
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25 de julho, 2005
Ausência fatal
Na reportagem sobre o padre ligado
às vítimas da chacina de março na Baixada e assassinado
hoje (25/7) em Nova Iguaçu, o JN ouviu de um amigo do
padre que as ameaças aos parentes das vítimas eram constantes.
Questão: se eram constantes
- e a imprensa alternativa as conhece bem - por que não recebiam
atenção do Jornal Nacional? Precisa morrer alguém
próximo para o tema entrar em pauta? Ou pior: o assunto sequer voltará
à pauta, ou novamente cairá no esquecimento?
Boa noite, e até a próxima
morte. (GB)
26 de maio, 2005
O exemplo que vem de cima. E fica
lá
A punição
'exemplar' de Elias Maluco mostra o que dá mexer com jornalistas
da Globo - ainda mais se rola uma pequena crise de consciência. O
tom de indignação com que William Bonner falava o nome do
ex-traficante contrastou com o sentimento de dever cumprido das promotoras
e do juíz.
Algo é 'exemplar' quando serve
de modelo, ou de lição dentro de determinado tema. No Brasil,
não são poucos os juízes que denunciam a farsa de
se prender um grande nome (com o devido destaque na mídia), ao mesmo
tempo em que a justiça criminal como um todo pune apenas ladrões
de galinha, quase sempre com penas desproporcionais (tipo: dois anos por
tentativa
de roubo de dois sabonetes). Trata-se de remédio eficaz para a consciência
burguesa, mas não para o problema da segurança pública.
Cadê os números estruturais? Não são bons.
* *
*
Leitora comenta: "O mais hilário
de toda essa demagogia em torno do assassinato de Tim Lopes é que
a imprensa noticiou que o Elias maluco é acusado de 60 outros homicídios,
e por nenhum deles foi julgado. Só quando a vítima foi um
jornalista, e da Globo, é que a imprensa e a Justiça foi
atrás do 'bandido'." (Glória Costa Reis, no CaféConsciência,
26/5/2005)
17 de maio, 2005
“Banquete
para Análise de Discurso”
Leitor comenta:
"Os PMs foram feridos, "dois policiais tiveram o nariz quebrado", mas "alguns
manifestantes também SE FERIRAM". Talvez conste no manual de redação
da TV Globo que os policiais devem sempre sofrer ações na
voz passiva, enquanto os sem-terra, grevistas e comunistas atuam no reflexivo.
Os PMs SÃO FERIDOS pelos sem-terra, mas estes apenas SE FEREM sozinhos.
Mais adiante,
"começou a pancadaria", "os sem-terra atiraram pedaços de
ferro", e "os agressores continuaram" até que "os policiais conseguiram
controlar os manifestantes". Eu vi agressores nas imagens: polícia
montada, dezenas de cavalos, contra pessoas a pé. Eu vi um policial
de capacete e escudo bater de cassetete numa mulher desarmada. Mas não
há por que se preocupar, já que a polícia conseguiu
restaurar o CONTROLE sobre os sem-terra - por oposição, descontrolados,
anárquicos." (Pedro Aguiar)
5 de maio, 2005
O que é educado dizer
Ao noticiar as rebeliões
dos jovens em São Paulo, o JN destacou nesta quinta (5/5) frases
como “Febem parecia praça de guerra” e “4 meses, mais de 20 rebeliões”.
Pecou novamente pelo discurso da autoridade, fechando a matéria
com o secretário de Justiça de São Paulo e presidente
da FEBEM, Alexandre
de Moraes, dando sua "solução" final e mágica
para o problema.
Por sinal, Moraes teve o privilégio
de aparecer duas vezes, pois foi citado no final da edição
por ter
sido eleito para o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), órgão
responsável pelo controle externo do Poder Judiciário. Faltou
dizer que Moraes foi indicado pelo PFL e PSDB, em parceria com o nada popular
Severino
Cavalcanti, para derrotar o governo, como informa o jornal O Globo
de sexta (6/5).
Em outras palavras, não foi
possível deduzir que aquele cara que, no primeiro bloco, dava a
solução final para o problema na FEBEM - mesmo que, como
presidente da instituição, seja um dos principais responsáveis
pela situação - era o mesmo que ganhava uma vaga no CNJ,
com apoio do "barrigudo" da Câmara que acha que empregar parentes
no Congresso e favorecer amigos é fazer um serviço para o
Brasil.
Talvez não seja educado expor
essa ligação. Até porque é o PSDB. (GB)
* *
*
Solução instântanea:
desarmamento civil
Já está virando prática
na Globo dar como resposta para qualquer vandalismo armado o Estatuto do
Desarmamento. Agora que ele foi aprovado, parece restar uma estranha campanha
pelo plebiscito contra as armas. Pra quê, se a opinião já
está controlada?
Desta forma, o JN divulgou ontem
uma espécie de ranking
da violência, com o Brasil em segundo lugar em mortes por arma
de fogo e a Venezuela - para eles, o satã - em primeiro. “Israel,
que vive um conflito armado, ficou em 26º”.(GB)
* *
*
Lutas “despercebidas”
Continuando a onda irracional de
ataques ao movimento dos sem-terra - o que rompe brutalmente com a tal
imparcialidade jornalística -, o Jornal Nacional mostrou
nesta quinta (5/5) imagens da Marcha a Brasília, organizada por
quatro
entidades ligadas aos movimentos sociais - e não só pelo
MST, como afirmou o JN. Antes, fez duas chamadas (uma no começo
e outra antes do intervalo): “Dinheiro público financia a marcha
dos sem-terra a Brasília”. Dava a nítida impressão
de que vinha bomba. O tom era de denúncia.
O conteúdo: a ajuda vinha
de governos estaduais, municipais, ONGs e igrejas. Veja a diferença
entre “Dinheiro público financia a marcha dos sem-terra a Brasília”
e o fato de o dinheiro vir de um monte de lugares, incluindo ONGs e igrejas.
O único embasamento que poderia - e apenas poderia - se tornar uma
denúncia é o seguinte: "(...) o ministério público
estadual de goiás estuda a possibilidade de abrir inquérito
sobre o repasse de verbas públicas".
Antes, William Bonner havia feito
um pequeno melodrama sobre o caso de uma adolescente grávida na
cidade de Marabá, no Pará. Ela não havia feito pré-natal
- "como muitas nesse país" - e, para sua surpresa, teve tri-gêmeos.
A cidade, de 200 mil habintantes, não tinha condições
de atender um caso mais grave como o dela e não possuía ambulância
adequada. Como a capital, Belém, ficava a 580 quilômetros,
os três bebês morreram.
William Bonner, em tom de indignação:
"Vamos destacar uma informação que poderia passar despercebida,
mas que o JN faz questão de destacar". Aí entra o jornalismo
messiânico, para "chamar a atenção de autoridades".
Se há, como eles dizem, preocupação
com a vida de pessoas humildes, porque o descaso com os camponeses do MST?
A indignação serve apenas para pessoas isoladas que não
conseguem seus direitos? O direito à propriedade para todos, no
campo ou na cidade, não é igualmente importante? Pelo jeito,
não quando há a "ameaça" da auto determinação
dos povos.
Como a propriedade (da mídia)
é deles - e estamos falando de pessoas que não aceitam que
uma emissora de televisão é concessão pública,
e não deixa ninguém saber disso - nós temos que continuar
lidando com a desonestidade diária contra o povo organizado e consciente.
PS: Só mesmo na Globo o caso
dessa adolescente "poderia passar despercebido". Quem não publicaria
esse fato lamentável?! (GB)
27 de abril, 2005
“Vida em
laboratório”
A matéria
de hoje (27/4) que, entre outras reportagens e vinhetas, comemora os 40
anos da Rede Globo é uma espécie de reprodução
in vitro da própria Rede Globo. "Vida em laboratório" fala
sobre os avanços da ciência na área da reprodução
e da "criação" da vida. Falou sobre o primeiro bebê
in
vitro, as experiências de clonagem e pesquisa embrionária.
Criar a vida
é próprio desta emissora. Do jeito dela, com os atores dela,
os jornalistas dela, a visão dela da História e do mundo.
Fátima
Bernardes anuncia com um sorriso aberto reportagem amanhã (28/4)
sobre o fim de mais um regime comunista. O fato de comemorar o fim do uma
forma de governo após demonizá-lo por décadas e décadas
é um posicionamento, uma visão histórica. Esquecer
de fazer com a mesma ênfase a crítica do nosso próprio
regime é outra visão histórica.
É direito
das Organizações Globo ter essa visão, comunicar o
que pensa, preparar processos sutis de comunicação para impor
essa visão. O que me incomoda é que ninguém mais pode
ser sério, caso não faça parte do esquema. Pior: por
conta do oligopólio e do predomínio nas agências de
publicidade, ninguém mais pode questionar com o mesmo impacto tais
posicionamentos.
Como disseram
alguns dos participantes da festa de 40 anos da emissora, dia 26/4, a Globo
"é uma grande família" que "faz o Brasil". Cria a vida, dita
a vida, determina quais avanços devemos ter, quem é conservador
– na edição de hoje (27/4), por exemplo, todo mundo que é
contra a pesquisa com embriões –, quem é progressista e quem
deve julgar essas coisas. Enfim, quem é da "família" e quem
não tem mãe e, portanto, não existe. (GB)
* *
*
Quando a vida acaba
"Sabemos onde
a vida acaba, mas não sabemos onde ela começa", diz a reportagem
do Jornal Nacional de hoje (27/4), sobre os avanços científicos
relatados. A visão hipócrita de uma classe fica absolutamente
clara aqui, mas a campanha de estagnação do pensamento humano
é tão antiga que poucos conseguem enxergar.
Nós
– que somos brancos, cristãos e semi-europeus – sabemos, em grande
parte, onde a vida acaba. Temos nossos empregos idiotas, ilusões
de conforto e pseudo-sentimentos de "amor" e "entretenimento". Lá
pelos 80, nossa vida acaba – coração ou pulmão –,
mas antes disso nos encontramos abandonados por nossos filhos e netos,
que estão muito ocupados em ganha dinheiro para, no fim da vida,
repetir o ciclo medíocre. "Que sorte tem esse senhor", me disse
um homem em seus 60 anos no elevador, ontem, depois que desceu um senhor
de 80 que tem a companhia de dois netos, todos os dias, para lhe dar amor.
Eles – que
são negros, abandonados por 'Deus' e africanos – não sabem
quando que vão morrer, não. Podem levar um tiro a qualquer
momento, porque no caminho para casa, dia sim dia não, tem tiroteio.
Logo logo ganham uma hérnia de presente, pelo excesso de peso nas
costas. Ficam doentes mais facilmente, porque trabalham mais do que podem,
ganham menos do que deveriam e valem nada.
Podemos, nós
brancos-cristãos-semi-europeus, ter alguma idéia sobre quando
a vida acaba. Mas já perdemos completamente a percepção
do valor da vida, no início ou no fim. E quando a vida não
vale nada – ou melhor, só vale se você tem –, aí
sim é que ela acaba. (GB)
2 de abril, 2005
Um minuto. E só
Morre o papa João Paulo II.
William Bonner foi para a Itália e só conseguiu chegar no
sábado (2/4), após a morte confirmada, lá pras 4 da
tarde. Falou da "longa agonia" do "estadista da fé", que "se agravou
desde a última quinta". Foram dados detalhes de horários,
os lugares e personagens do Vaticano, o sofrimento pelo mundo. Falou sobre
a hierarquia, nomes que perdem e que podem ganhar cargos. Todo o procedimento
foi descrito. Mostrou pessoas chegando de todos os cantos, "gente que veio
de longe, sem medir sacrifícios".
O Brasil é a Nação
que concentra a maior parte dos 960 milhões de fiéis em todo
o mundo.
A reportagem começou às
20h16. Terminou 20h33, para o intervalo. Recomeçou 20h36 e terminou
20h50... para novo intervalo. Recomeçou às 20h53 e terminou
21h05, com mais um minuto sobre as homenagens no mundo do futebol. Quando
tinha tudo para acabar, recomeçou às 21h18 e foi até
às 21h26. Não perca a conta: foram 56 minutos no total. Todas
as outras reportagens não somaram nem 4 minutos.
Logo no começo, Fátima
Bernardes anunciou que o presidente Lula havia decretado luto de sete dias.
Desinformado, cheguei a pensar que o ato era em lembrança dos 30
mortos numa chacina na Baixada Fluminense, sete deles com menos de 18 anos.
Lula promete ir ao enterro do papa, mas não teve condições
de ir à Baixada Fluminense hoje à tarde.
A reportagem do Jornal Nacional sobre
esta
terrível tragédia durou... um minuto. E só.
Provavelmente eu devo estar maluco
por me importar com 30 pessoas inocentes executadas e, em sua grande maioria,
jovens.
Não se contesta a importância
histórica de João Paulo II, assim como não se pode
negar a virada conservadora que a Igreja Católica deu nas últimas
décadas, como o desrespeito à diversidade sexual, ao sacerdócio
das mulheres e a perseguição à Teologia da Libertação,
que sempre foi mais ligada à parcela pobre da população.
O Brasil, no entanto, está
cometendo um crime contra seu povo pobre, que está sendo eliminado.
No Rio, isso está em evidência na periferia, mas aparece como
"ocasional" nas zonas ricas do Estado. E não há fato histórico
que possa apagar a importância destes acontecimentos. Mas foi exatamente
isso o que aconteceu. Até as 16 horas deste sábado (2/4),
a chacina ocupava boa parte da atenção da mídia. Subitamente,
desapareceu. (GB)
25 de março,
2005
Estimulando a mesmice
Após uma semana de observação,
vale destacar: apesar de fazer reportagens sobre seqüestros nos cinco
dias da semana (21 a 25/3), em nenhum momento falou-se sobre a origem dos
seqüestradores. Foram tachados de animais, selvagens, desumanos e
até "o diabo falando". Esta última definição
vem de uma vítima, na edição da segunda (21/3), mas
o corte jornalístico - sempre é bom lembrar - foi do Jornal
Nacional.
Trata-se de uma espécie de
naturalização da selvageria. Levanta a velha tese de que
existiriam pessoas más por natureza, que "não teriam mais
jeito" e que, portanto, poderiam muito bem ser eliminadas. É um
fascismo branco, não-declarado, adaptado aos novos tempos.
Não passa pela cabeça
dos editores do Jornal Nacional que existem vidas ali? Que tais atrocidades
- que são horríveis mesmo - têm uma origem política?
Que há um contexto? Por que não investigar a origem dos seqüestradores
- bairros, escolas onde estudaram, o que faziam quando criança etc.
- e tentar achar um passado comum? Não é difícil,
ainda mais para um jornal que se gaba por possuir 600 jornalistas em 118
cidades, cobrar 380 mil reais por um comercial de 30 segundos e ter 31
milhões de espectadores todas as noites.
Isso poderia oferecer pistas para
evitar novos seqüestros em um futuro próximo, fornecer material
à imprensa para cobrar medidas mais eficazes junto às autoridades
competentes e reforçar, por fim, o papel fiscalizador que o jornalismo
deve ter. Em vez disso, preferem dar um papel aos seqüestradores -
o de diabo na Terra -, estimulando dessa maneira a mesmice superficial
que assola o jornalismo brasileiro. (GB)
O papel do futebol
Nunca fiz pesquisas técnicas
sobre os temas mais presentes no Jornal Nacional. No entanto, é
possível afirmar com tranqüilidade que o futebol é um
dos principais assuntos. Este é um dos temas que extrapolam o diário
televisivo. O futebol está presente em quase toda a programação
das Organizações Globo, inserido nos diversos telejornais
da Rede Globo, meios impressos, rádios e Internet. Não é
por menos: este esporte é de fato uma paixão nacional.
Não vence a tese de que o
futebol é, por si só, um tema "alienante", até porque
grandes escritores da esquerda nutrem paixões notáveis pelo
mundo da bola. É o caso de Eduardo Galeano e Luis Fernando Verissimo.
No entanto, a Rede Globo se aproveita com grande eficiência desse
fator de atração do grande público. Por conta disso,
é estratégico que a Globo domine os horários televisivos
e quase que com exclusividade o dia-a-dia da Seleção Brasileira.
Por que a maior parte dos jogos dos
campeonatos regionais/nacionais e da seleção começa
após a novela das oito? Tais jogos fazem parte da programação
da Globo? Além disso, o horário de término das partidas
da noite - já quase meia-noite - não condiz com o expediente
do trabalhador, que muitas vezes mora distante do trabalho e precisa acordar
às seis, cinco e até quatro horas da manhã.
Estes e outros questionamentos são
feitos há algum tempo, mas pesquisa rápida pelos butequins
cariocas constata uma fácil aceitação popular da tese
do "poder global" como "imbatível" e de sua força junto às
entidades desportivas. Mito? Nesse contexto, tanto o Jornal Nacional quanto
outros meios das Organizações Globo ficam muito mais à
vontade do que outras emissoras para trabalhar e editar o conteúdo
que move milhões e ajuda, em parte, na manutenção
do monopólio da concessionária.
Nunca é demais lembrar: a
Rede Globo é uma concessão estatal e deve, como tal, estar
submetida às regras estabelecidas. (GB)
21 de março,
2005
Os dois lados da exclusão
Ninguém discorda que o seqüestro
é uma coisa terrível. Não se justifica, a dor pode
virar um trauma e nunca ser superada, as conseqüências podem
ser fatais. Nunca passei por um, assim como a maior parte das pessoas.
Seria insensível não me comover com tamanha tragédia:
a de ser vítima de um seqüestro. No entanto, as causas de um
seqüestro podem ser explicadas. Talvez demore mais que quatro minutos.
Mas podem ser explicadas. Para isso há o jornalismo (entre outras
áreas): para investigar e divulgar esta investigação.
O que não dá para aceitar
é essa persistência do Jornal Nacional em menosprezar pessoas
humildes. Como já relatamos por diversas vezes, essa prática
é comum e estava presente novamente na edição desta
segunda (21/3), exatamente quando o tema era seqüestro.
Para começar, vamos lembrar
que os seqüestradores visam pessoas ricas, que tenham dinheiro. Não
há, como na Colômbia, seqüestradores com objetivos políticos.
Querem dinheiro. "Qualquer um está sujeito a seqüestros", relata
o JN. É verdade, pode ser qualquer um, mas evidentemente que os
mais visados são pessoas de maior poder aquisitivo. Um "desempregado"
- única informação do exemplo citado pelo JN - corre
esse risco e passará por momentos terríveis, mas não
é um exemplo. A maior parte das vítimas estão muito
bem empregadas, e por isso foram escolhidas pelos seqüestradores.
No entanto, a reportagem falha principalmente
quando pinta os seqüestradores como animais desumanos que buscam apenas
dinheiro. Uma das vítimas fala ao repórter e separa este
ato de violência em dois lados. De uma lado, a família do
seqüestrado. Estes só pensam em amor, em valores humanos, na
vida. Do outro lado, ainda segundo uma vítima mostrada pelo JN,
estariam pessoas sem amor, que só possuem "valores financeiros",
"sem humanismo nenhum". No dia seguinte, terça 22, uma mulher resume:
"Pra te definir o que é essa energia, é o diabo falando".
De certa forma, o depoimento está
correto. Do outro lado não há amor nem humanismo. Mas há
pessoas. Vidas. Um dia, essas vidas foram geradas. Neste momento, criou-se
mais um ser que deveria receber amor e humanismo. Mas não teve nada
disso. Do outro lado, só há desespero, dor, violência.
Não teve saúde, educação, cultura, comida -
e os responsáveis por isso estão soltos, discursando em Brasília.
O outro lado, de alguma forma, tem que levar a vida. E o que recebe? A
cultura do consumismo, da busca da riqueza de forma rápida e sem
esforço, da corrupção e ilegalidade. Esta é
a cultura que o outro lado tem. São suas únicas opções.
O lado de cá tem Sartre, Nietzsche,
Paulo Coelho. Tem psicólogo, analista e até algum dinheiro
para ser, da fato, consumista. O outro lado só tem a vontade mesmo,
que não pára de crescer e continua sendo estimulada pela
crescente onda de mercantilização da vida. Um dia, o outro
lado cansa de nada ter e vai em busca do dinheiro, da grana, depois de
tanta privação de amor e humanismo e de tanto estímulo
consumista. Poucos são os que tentam ajudá-los antes que
cometam uma loucura.
Para julgá-los e divulgar
as atrocidades que cometem na condição de animais selvagens,
no entanto, há o apoio "humanista" da mídia. (GB)
--
Publicado também no Tem
Notícia.
10 de março,
2005
Posicionamento
político claro
Na edição
de hoje (10/3), mais uma "denúncia" contra o MST, que estaria fazendo
"uma espécie de pedágio" no Sul — sem
dizer ao certo o que o movimento diz em sua defesa ("a direção
(?) do movimento no RS diz que são infundadas as acusações").
A apresentadora chega a se inclinar um pouco ao falar a palavra "pedágio",
como uma sábia senhora que explica aos netos sobre a vida.
O Sul, por
sinal, é dominado pela filiada da Globo: a Rede Brasil Sul de Comunicação
(RBS). Um dos três pilares comerciais deste grupo é a “Gestão
Rural”. Para ficar claro: o maior grupo de comunicação da
região sul do país tem como um dos três pilares comerciais
a gestão rural. Não é crime, estou apenas registrando.
Para tanto,
criou em 1998 a “Planejar Brasil” — ou “Planejar
Informática e Certificação Ltda” — organização
com sede em Porto Alegre (RS), com negócios voltados ao setor de
agronegócios (ver em www.planejar.com). Não se discute, aqui,
porque um grupo tão grande de Comunicação teria como
“um dos três pilares comerciais” a gestão rural. E até
que ponto isto influencia na linha editorial dos seus meios de comunicação.
Daí
você entende porque as reportagens produzidas pelo grupo RBS e reproduzidas
pela Globo (ou vice-versa, que seja) são quase sempre contrárias
ao MST e comprometidas com o agronegócio
— e, conseqüentemente, com latifundiários
da região. (GB)
25 de fevereiro, 2005
Indígenas
maltratados
Não
é possível continuar tratando a questão indígena
de forma tão superficial como foi tratada hoje. Dois minutos e meio
mais ou menos, com suposta ênfase na mortalidade infantil.
O JN
informou que os indígenas de uma determinada aldeia não possuem
terras para plantar, pois estas estão sendo vendidas. E que "nem
todo o dinheiro vai para a alimentação". A reportagem termina
com a seguinte frase: "O problema do alcoolismo na aldeia preocupa a FUNASA".
E ponto final.
Quer dizer:
para o JN, não era necessário saber por que os indígenas
estão vendendo suas terras. Por que? Não sei, porque a preocupação
que o JN sugere para mim é outra: seriam os indígenas
bêbados? Seriam eles os culpados pelas mortes das crianças
por desnutrição, já que se renderam aos vícios
do homem-branco?
* *
*
O Jornal
Nacional insiste em procurar a todo custo falhas no MST, mas não
está nem aí para os exemplos positivos - que são maioria.
É claro que há irregularidades. Em qual organização
não há? Na Globo? Lá também tem, conheço
um monte. É normal acontecerem.
No entanto,
colocar casos isolados em matérias do JN é torná-los
"verdades" incontestáveis - "deu na televisão" -, pela concentração
de telespectadores que possui o diário televisivo. Um crime midiático
contra uma organização comprometida com o andar de baixo.
DIARIAMENTE na mídia, e hoje no JN.
Alguns diriam
que eu estou defendendo o MST sem ao menos saber do que estou falando,
já que o JN pode visitar com freqüência os assentamentos
e nós, da imprensa alternativa, não. No entanto, é
evidente a falta de preocupação do JN com os pobres.
Quer um exemplo?
Quantas reportagens
mostram casos de assentamentos - quaisquer que sejam - que estão
dando certo? Exemplos a serem seguidos: há algum? Então eles
não existem? Quer dizer que, quando pobre pega na grana para administrar
terra, sempre dá errado? Então precisa dar tudo na mão
do fazendeiro, o mesmo que persegue as Dorothy Stang's da vida? Viva o
Agronegócio, o mesmo que persegue ambientalistas?
Como o brasileiro
comum é urbano - um típico "urbanóide", para ser mais
exato -, acredita neste preconceito.
* *
*
Se você
pensar nas reportagens dos indígenas e dos sem-terra como uma coisa
só, hoje o JN tratou em boa parte de tentar convencer o telespectador
de que o problema da corrupção está mais na base do
que em Brasília. E as "denúncias"
de Lula sobre corrupção no BNDES durante a gestão
de FHC, ninguém vai apurar? É só ouvir as patotas
de PT e PSDB que tá bom?
Fica aqui o
elogio, entre tantas críticas, por terem dado voz a Carlos Lessa,
reproduzindo sua opinião sobre o caso - que, infelizmente, vai morrer.
Boa parte dos
jornalistas já sabem de muita coisa que foi feita à época.
Se ninguém falou até hoje, muito difícil será
acontecer agora que temos um presidente que olha apenas "para frente" e
pede para que um alto companheiro "feche a boca aí para fora", depois
de ter tomado "uma decisão muito pessoal".
* *
*
Hoje tem
Globo
Ecologia de novo. Imperdível, é sobre focas!!! (GB)
23 de fevereiro, 2005
A edição
desta noite mostrou uma reportagem rápida sobre a incapacidade do
poder público em levar crianças à escola em um pequeno
município, fato que se contrapôs ao messianismo da própria
Globo: em parceria com a Petrobrás, a emissora anunciou (!) que
o programa "Amigos
da Escola" conseguiu a parceria de 27 cidades do Estado do Rio.
Em tempo: o
Jornal Nacional deveria ser um programa jornalístico, mas serve
também como instrumento de propaganda institucional. Pode? No Brasil,
pode, pois não se tem a noção de que a Globo é
uma concessão pública.
Para João
Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo,
o Amigos da Escola é uma "via de mão dupla" entre sociedade
e escola. Acontece que, além de causar mais desemprego na categoria,
pois substitui professores profissionais por voluntários, transfere
responsabilidades que são dos municípios e do Governo Federal
e que podem ser perfeitamente cumpridas, como demonstram
os especialistas. Recursos há.
Com um pouco
mais de dinheiro em caixa, prefeitos corruptos e um governo federal que
privilegia o pagamento de juros agradecem a ingenuidade dos voluntários,
que acabam por servir a interesses obscuros, sob o manto da solidariedade.
Como bem definiu Paulo Freire, esse ato se constitui, na verdade, como
falsa
generosidade. É ação desprovida de contextualização
política e de consciência maior de existência. Um tipo
de ação facilmente manipulável. (GB)
* *
*
A Globo reforça
o que propõe o Banco Mundial: saída do Estado da política
educacional (privatização) em favor do mercado e do terceiro
setor (ONGs, sociedades do tipo amigos da escola, etc). A educação
não é mais direito, mas uma mercadoria e, como tal, deve
circular "livremente" na sociedade.
E a Globo,
como monopolizadora da mídia no Brasil, acaba fazendo essa circulação
com muita imagem e poucas idéias. Afinal, não são
necessárias nessa época onde predomina o pensamento único
dos ‘Bushs’, nossos "donos". (RM)
21 de fevereiro, 2005
Estava
mais uma vez presente no Jornal Nacional desta segunda o desprezo
da Rede Globo por pobres. Um enorme incêndio numa favela da zona
leste de São Paulo, que deixou 180 famílias desabrigadas,
mereceu apenas dez segundos da edição de 21 de fevereiro
e nem sequer é lembrado na página do JN na
internet. Pessoas que não tinham quase nada estão passando
neste momento por dificuldades incalculáveis, mas que poderiam ter
sido pelo menos gravadas.
Se houvesse
o mínimo de sanidade, os repórteres pesquisariam a fundo
a causa do incêndio, tentariam achar responsáveis e levantariam
soluções. Necessária seria uma contextualização
rápida sobre a questão da moradia nas favelas de São
Paulo. Isso se houvesse sanidade entre os editores.
E quem disse
que alguém foi no local do incêndio? Passaram de helicóptero,
de longe, até porque pobreza é contagioso. Como se não
bastasse, a Globo se preocupou em culpar os próprios moradores
pelo "fato" - se bem que, com dez segundos, é impossível
dizer qualquer coisa, apenas dar uma manchete vazia.
Não se sabe qual foi a causa.
Repito: não se sabe qual foi a causa. Mas o Jornal Nacional nem
se preocupou com isso: foi logo dizendo que o problema foi na rede elétrica,
que é supostamente
clandestina. Pronto: culpa dos moradores, quem mandou não ter
dinheiro para ficar dentro da lei?
Em outro momento,
dez leões apreendidos pela IBAMA no interior de Minas Gerais e doados
a um zoológico na África do Sul receberam generosos dois
minutos. "Não deve ser muito bom ter um companheiro desse
na viagem", brincou um homem, sem saber que ainda pior é esta emissora
que, apesar do discurso de um diário popular, "para as massas",
prefere leões a pobres (nada contra os bichos).
Péssimos "companheiros de
viagem", os editores do JN tratam os telespectadores como selvagens e se
consideram os reis da selva. (GB)
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