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Observatório do Jornal Nacional
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Realidade brasileira
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25 de julho, 2005
Ausência fatal
Na reportagem sobre o padre ligado às vítimas da chacina de março na Baixada e assassinado hoje (25/7) em Nova Iguaçu, o JN ouviu de um amigo do padre que as ameaças aos parentes das vítimas eram constantes.

Questão: se eram constantes - e a imprensa alternativa as conhece bem - por que não recebiam atenção do Jornal Nacional? Precisa morrer alguém próximo para o tema entrar em pauta? Ou pior: o assunto sequer voltará à pauta, ou novamente cairá no esquecimento?

Boa noite, e até a próxima morte. (GB)

26 de maio, 2005
O exemplo que vem de cima. E fica lá
A punição 'exemplar' de Elias Maluco mostra o que dá mexer com jornalistas da Globo - ainda mais se rola uma pequena crise de consciência. O tom de indignação com que William Bonner falava o nome do ex-traficante contrastou com o sentimento de dever cumprido das promotoras e do juíz.

Algo é 'exemplar' quando serve de modelo, ou de lição dentro de determinado tema. No Brasil, não são poucos os juízes que denunciam a farsa de se prender um grande nome (com o devido destaque na mídia), ao mesmo tempo em que a justiça criminal como um todo pune apenas ladrões de galinha, quase sempre com penas desproporcionais (tipo: dois anos por tentativa de roubo de dois sabonetes). Trata-se de remédio eficaz para a consciência burguesa, mas não para o problema da segurança pública. Cadê os números estruturais? Não são bons.

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Leitora comenta: "O mais hilário de toda essa demagogia em torno do assassinato de Tim Lopes é que a imprensa noticiou que o Elias maluco é acusado de 60 outros homicídios, e por nenhum deles foi julgado. Só quando a vítima foi um jornalista, e da Globo, é que a imprensa e a Justiça foi atrás do 'bandido'." (Glória Costa Reis, no CaféConsciência, 26/5/2005)

17 de maio, 2005
“Banquete para Análise de Discurso”
Leitor comenta: "Os PMs foram feridos, "dois policiais tiveram o nariz quebrado", mas "alguns manifestantes também SE FERIRAM". Talvez conste no manual de redação da TV Globo que os policiais devem sempre sofrer ações na voz passiva, enquanto os sem-terra, grevistas e comunistas atuam no reflexivo. Os PMs SÃO FERIDOS pelos sem-terra, mas estes apenas SE FEREM sozinhos.

Mais adiante, "começou a pancadaria", "os sem-terra atiraram pedaços de ferro", e "os agressores continuaram" até que "os policiais conseguiram controlar os manifestantes". Eu vi agressores nas imagens: polícia montada, dezenas de cavalos, contra pessoas a pé. Eu vi um policial de capacete e escudo bater de cassetete numa mulher desarmada. Mas não há por que se preocupar, já que a polícia conseguiu restaurar o CONTROLE sobre os sem-terra - por oposição, descontrolados, anárquicos." (Pedro Aguiar)

5 de maio, 2005
O que é educado dizer
Ao noticiar as rebeliões dos jovens em São Paulo, o JN destacou nesta quinta (5/5) frases como “Febem parecia praça de guerra” e “4 meses, mais de 20 rebeliões”. Pecou novamente pelo discurso da autoridade, fechando a matéria com o secretário de Justiça de São Paulo e presidente da FEBEM, Alexandre de Moraes, dando sua "solução" final e mágica para o problema.

Por sinal, Moraes teve o privilégio de aparecer duas vezes, pois foi citado no final da edição por ter sido eleito para o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), órgão responsável pelo controle externo do Poder Judiciário. Faltou dizer que Moraes foi indicado pelo PFL e PSDB, em parceria com o nada popular Severino Cavalcanti, para derrotar o governo, como informa o jornal O Globo de sexta (6/5).

Em outras palavras, não foi possível deduzir que aquele cara que, no primeiro bloco, dava a solução final para o problema na FEBEM - mesmo que, como presidente da instituição, seja um dos principais responsáveis pela situação - era o mesmo que ganhava uma vaga no CNJ, com apoio do "barrigudo" da Câmara que acha que empregar parentes no Congresso e favorecer amigos é fazer um serviço para o Brasil.

Talvez não seja educado expor essa ligação. Até porque é o PSDB. (GB)

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Solução instântanea: desarmamento civil
Já está virando prática na Globo dar como resposta para qualquer vandalismo armado o Estatuto do Desarmamento. Agora que ele foi aprovado, parece restar uma estranha campanha pelo plebiscito contra as armas. Pra quê, se a opinião já está controlada?

Desta forma, o JN divulgou ontem uma espécie de ranking da violência, com o Brasil em segundo lugar em mortes por arma de fogo e a Venezuela - para eles, o satã - em primeiro. “Israel, que vive um conflito armado, ficou em 26º”.(GB)

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Lutas “despercebidas”
Continuando a onda irracional de ataques ao movimento dos sem-terra - o que rompe brutalmente com a tal imparcialidade jornalística -, o Jornal Nacional mostrou nesta quinta (5/5) imagens da Marcha a Brasília, organizada por quatro entidades ligadas aos movimentos sociais - e não só pelo MST, como afirmou o JN. Antes, fez duas chamadas (uma no começo e outra antes do intervalo): “Dinheiro público financia a marcha dos sem-terra a Brasília”. Dava a nítida impressão de que vinha bomba. O tom era de denúncia.

O conteúdo: a ajuda vinha de governos estaduais, municipais, ONGs e igrejas. Veja a diferença entre “Dinheiro público financia a marcha dos sem-terra a Brasília” e o fato de o dinheiro vir de um monte de lugares, incluindo ONGs e igrejas. O único embasamento que poderia - e apenas poderia - se tornar uma denúncia é o seguinte: "(...) o ministério público estadual de goiás estuda a possibilidade de abrir inquérito sobre o repasse de verbas públicas".

Antes, William Bonner havia feito um pequeno melodrama sobre o caso de uma adolescente grávida na cidade de Marabá, no Pará. Ela não havia feito pré-natal - "como muitas nesse país" - e, para sua surpresa, teve tri-gêmeos. A cidade, de 200 mil habintantes, não tinha condições de atender um caso mais grave como o dela e não possuía ambulância adequada. Como a capital, Belém, ficava a 580 quilômetros, os três bebês morreram.

William Bonner, em tom de indignação: "Vamos destacar uma informação que poderia passar despercebida, mas que o JN faz questão de destacar". Aí entra o jornalismo messiânico, para "chamar a atenção de autoridades".

Se há, como eles dizem, preocupação com a vida de pessoas humildes, porque o descaso com os camponeses do MST? A indignação serve apenas para pessoas isoladas que não conseguem seus direitos? O direito à propriedade para todos, no campo ou na cidade, não é igualmente importante? Pelo jeito, não quando há a "ameaça" da auto determinação dos povos.

Como a propriedade (da mídia) é deles - e estamos falando de pessoas que não aceitam que uma emissora de televisão é concessão pública, e não deixa ninguém saber disso - nós temos que continuar lidando com a desonestidade diária contra o povo organizado e consciente.

PS: Só mesmo na Globo o caso dessa adolescente "poderia passar despercebido". Quem não publicaria esse fato lamentável?! (GB)

27 de abril, 2005
“Vida em laboratório”
A matéria de hoje (27/4) que, entre outras reportagens e vinhetas, comemora os 40 anos da Rede Globo é uma espécie de reprodução in vitro da própria Rede Globo. "Vida em laboratório" fala sobre os avanços da ciência na área da reprodução e da "criação" da vida. Falou sobre o primeiro bebê in vitro, as experiências de clonagem e pesquisa embrionária.

Criar a vida é próprio desta emissora. Do jeito dela, com os atores dela, os jornalistas dela, a visão dela da História e do mundo.

Fátima Bernardes anuncia com um sorriso aberto reportagem amanhã (28/4) sobre o fim de mais um regime comunista. O fato de comemorar o fim do uma forma de governo após demonizá-lo por décadas e décadas é um posicionamento, uma visão histórica. Esquecer de fazer com a mesma ênfase a crítica do nosso próprio regime é outra visão histórica.

É direito das Organizações Globo ter essa visão, comunicar o que pensa, preparar processos sutis de comunicação para impor essa visão. O que me incomoda é que ninguém mais pode ser sério, caso não faça parte do esquema. Pior: por conta do oligopólio e do predomínio nas agências de publicidade, ninguém mais pode questionar com o mesmo impacto tais posicionamentos.

Como disseram alguns dos participantes da festa de 40 anos da emissora, dia 26/4, a Globo "é uma grande família" que "faz o Brasil". Cria a vida, dita a vida, determina quais avanços devemos ter, quem é conservador – na edição de hoje (27/4), por exemplo, todo mundo que é contra a pesquisa com embriões –, quem é progressista e quem deve julgar essas coisas. Enfim, quem é da "família" e quem não tem mãe e, portanto, não existe. (GB)

* * *
Quando a vida acaba
"Sabemos onde a vida acaba, mas não sabemos onde ela começa", diz a reportagem do Jornal Nacional de hoje (27/4), sobre os avanços científicos relatados. A visão hipócrita de uma classe fica absolutamente clara aqui, mas a campanha de estagnação do pensamento humano é tão antiga que poucos conseguem enxergar.

Nós – que somos brancos, cristãos e semi-europeus – sabemos, em grande parte, onde a vida acaba. Temos nossos empregos idiotas, ilusões de conforto e pseudo-sentimentos de "amor" e "entretenimento". Lá pelos 80, nossa vida acaba – coração ou pulmão –, mas antes disso nos encontramos abandonados por nossos filhos e netos, que estão muito ocupados em ganha dinheiro para, no fim da vida, repetir o ciclo medíocre. "Que sorte tem esse senhor", me disse um homem em seus 60 anos no elevador, ontem, depois que desceu um senhor de 80 que tem a companhia de dois netos, todos os dias, para lhe dar amor.

Eles – que são negros, abandonados por 'Deus' e africanos – não sabem quando que vão morrer, não. Podem levar um tiro a qualquer momento, porque no caminho para casa, dia sim dia não, tem tiroteio. Logo logo ganham uma hérnia de presente, pelo excesso de peso nas costas. Ficam doentes mais facilmente, porque trabalham mais do que podem, ganham menos do que deveriam e valem nada.

Podemos, nós brancos-cristãos-semi-europeus, ter alguma idéia sobre quando a vida acaba. Mas já perdemos completamente a percepção do valor da vida, no início ou no fim. E quando a vida não vale nada – ou melhor, só vale se você tem –, aí sim é que ela acaba. (GB)

2 de abril, 2005
Um minuto. E só
Morre o papa João Paulo II. William Bonner foi para a Itália e só conseguiu chegar no sábado (2/4), após a morte confirmada, lá pras 4 da tarde. Falou da "longa agonia" do "estadista da fé", que "se agravou desde a última quinta". Foram dados detalhes de horários, os lugares e personagens do Vaticano, o sofrimento pelo mundo. Falou sobre a hierarquia, nomes que perdem e que podem ganhar cargos. Todo o procedimento foi descrito. Mostrou pessoas chegando de todos os cantos, "gente que veio de longe, sem medir sacrifícios".

O Brasil é a Nação que concentra a maior parte dos 960 milhões de fiéis em todo o mundo.

A reportagem começou às 20h16. Terminou 20h33, para o intervalo. Recomeçou 20h36 e terminou 20h50... para novo intervalo. Recomeçou às 20h53 e terminou 21h05, com mais um minuto sobre as homenagens no mundo do futebol. Quando tinha tudo para acabar, recomeçou às 21h18 e foi até às 21h26. Não perca a conta: foram 56 minutos no total. Todas as outras reportagens não somaram nem 4 minutos.

Logo no começo, Fátima Bernardes anunciou que o presidente Lula havia decretado luto de sete dias. Desinformado, cheguei a pensar que o ato era em lembrança dos 30 mortos numa chacina na Baixada Fluminense, sete deles com menos de 18 anos. Lula promete ir ao enterro do papa, mas não teve condições de ir à Baixada Fluminense hoje à tarde.

A reportagem do Jornal Nacional sobre esta terrível tragédia durou... um minuto. E só.

Provavelmente eu devo estar maluco por me importar com 30 pessoas inocentes executadas e, em sua grande maioria, jovens.

Não se contesta a importância histórica de João Paulo II, assim como não se pode negar a virada conservadora que a Igreja Católica deu nas últimas décadas, como o desrespeito à diversidade sexual, ao sacerdócio das mulheres e a perseguição à Teologia da Libertação, que sempre foi mais ligada à parcela pobre da população.

O Brasil, no entanto, está cometendo um crime contra seu povo pobre, que está sendo eliminado. No Rio, isso está em evidência na periferia, mas aparece como "ocasional" nas zonas ricas do Estado. E não há fato histórico que possa apagar a importância destes acontecimentos. Mas foi exatamente isso o que aconteceu. Até as 16 horas deste sábado (2/4), a chacina ocupava boa parte da atenção da mídia. Subitamente, desapareceu. (GB)

25 de março, 2005
Estimulando a mesmice
Após uma semana de observação, vale destacar: apesar de fazer reportagens sobre seqüestros nos cinco dias da semana (21 a 25/3), em nenhum momento falou-se sobre a origem dos seqüestradores. Foram tachados de animais, selvagens, desumanos e até "o diabo falando". Esta última definição vem de uma vítima, na edição da segunda (21/3), mas o corte jornalístico - sempre é bom lembrar - foi do Jornal Nacional.

Trata-se de uma espécie de naturalização da selvageria. Levanta a velha tese de que existiriam pessoas más por natureza, que "não teriam mais jeito" e que, portanto, poderiam muito bem ser eliminadas. É um fascismo branco, não-declarado, adaptado aos novos tempos.

Não passa pela cabeça dos editores do Jornal Nacional que existem vidas ali? Que tais atrocidades - que são horríveis mesmo - têm uma origem política? Que há um contexto? Por que não investigar a origem dos seqüestradores - bairros, escolas onde estudaram, o que faziam quando criança etc. - e tentar achar um passado comum? Não é difícil, ainda mais para um jornal que se gaba por possuir 600 jornalistas em 118 cidades, cobrar 380 mil reais por um comercial de 30 segundos e ter 31 milhões de espectadores todas as noites.

Isso poderia oferecer pistas para evitar novos seqüestros em um futuro próximo, fornecer material à imprensa para cobrar medidas mais eficazes junto às autoridades competentes e reforçar, por fim, o papel fiscalizador que o jornalismo deve ter. Em vez disso, preferem dar um papel aos seqüestradores - o de diabo na Terra -, estimulando dessa maneira a mesmice superficial que assola o jornalismo brasileiro. (GB)

O papel do futebol
Nunca fiz pesquisas técnicas sobre os temas mais presentes no Jornal Nacional. No entanto, é possível afirmar com tranqüilidade que o futebol é um dos principais assuntos. Este é um dos temas que extrapolam o diário televisivo. O futebol está presente em quase toda a programação das Organizações Globo, inserido nos diversos telejornais da Rede Globo, meios impressos, rádios e Internet. Não é por menos: este esporte é de fato uma paixão nacional.

Não vence a tese de que o futebol é, por si só, um tema "alienante", até porque grandes escritores da esquerda nutrem paixões notáveis pelo mundo da bola. É o caso de Eduardo Galeano e Luis Fernando Verissimo. No entanto, a Rede Globo se aproveita com grande eficiência desse fator de atração do grande público. Por conta disso, é estratégico que a Globo domine os horários televisivos e quase que com exclusividade o dia-a-dia da Seleção Brasileira.

Por que a maior parte dos jogos dos campeonatos regionais/nacionais e da seleção começa após a novela das oito? Tais jogos fazem parte da programação da Globo? Além disso, o horário de término das partidas da noite - já quase meia-noite - não condiz com o expediente do trabalhador, que muitas vezes mora distante do trabalho e precisa acordar às seis, cinco e até quatro horas da manhã.

Estes e outros questionamentos são feitos há algum tempo, mas pesquisa rápida pelos butequins cariocas constata uma fácil aceitação popular da tese do "poder global" como "imbatível" e de sua força junto às entidades desportivas. Mito? Nesse contexto, tanto o Jornal Nacional quanto outros meios das Organizações Globo ficam muito mais à vontade do que outras emissoras para trabalhar e editar o conteúdo que move milhões e ajuda, em parte, na manutenção do monopólio da concessionária.

Nunca é demais lembrar: a Rede Globo é uma concessão estatal e deve, como tal, estar submetida às regras estabelecidas. (GB)

21 de março, 2005
Os dois lados da exclusão
Ninguém discorda que o seqüestro é uma coisa terrível. Não se justifica, a dor pode virar um trauma e nunca ser superada, as conseqüências podem ser fatais. Nunca passei por um, assim como a maior parte das pessoas. Seria insensível não me comover com tamanha tragédia: a de ser vítima de um seqüestro. No entanto, as causas de um seqüestro podem ser explicadas. Talvez demore mais que quatro minutos. Mas podem ser explicadas. Para isso há o jornalismo (entre outras áreas): para investigar e divulgar esta investigação.

O que não dá para aceitar é essa persistência do Jornal Nacional em menosprezar pessoas humildes. Como já relatamos por diversas vezes, essa prática é comum e estava presente novamente na edição desta segunda (21/3), exatamente quando o tema era seqüestro.

Para começar, vamos lembrar que os seqüestradores visam pessoas ricas, que tenham dinheiro. Não há, como na Colômbia, seqüestradores com objetivos políticos. Querem dinheiro. "Qualquer um está sujeito a seqüestros", relata o JN. É verdade, pode ser qualquer um, mas evidentemente que os mais visados são pessoas de maior poder aquisitivo. Um "desempregado" - única informação do exemplo citado pelo JN - corre esse risco e passará por momentos terríveis, mas não é um exemplo. A maior parte das vítimas estão muito bem empregadas, e por isso foram escolhidas pelos seqüestradores.

No entanto, a reportagem falha principalmente quando pinta os seqüestradores como animais desumanos que buscam apenas dinheiro. Uma das vítimas fala ao repórter e separa este ato de violência em dois lados. De uma lado, a família do seqüestrado. Estes só pensam em amor, em valores humanos, na vida. Do outro lado, ainda segundo uma vítima mostrada pelo JN, estariam pessoas sem amor, que só possuem "valores financeiros", "sem humanismo nenhum". No dia seguinte, terça 22, uma mulher resume: "Pra te definir o que é essa energia, é o diabo falando".

De certa forma, o depoimento está correto. Do outro lado não há amor nem humanismo. Mas há pessoas. Vidas. Um dia, essas vidas foram geradas. Neste momento, criou-se mais um ser que deveria receber amor e humanismo. Mas não teve nada disso. Do outro lado, só há desespero, dor, violência. Não teve saúde, educação, cultura, comida - e os responsáveis por isso estão soltos, discursando em Brasília. O outro lado, de alguma forma, tem que levar a vida. E o que recebe? A cultura do consumismo, da busca da riqueza de forma rápida e sem esforço, da corrupção e ilegalidade. Esta é a cultura que o outro lado tem. São suas únicas opções.

O lado de cá tem Sartre, Nietzsche, Paulo Coelho. Tem psicólogo, analista e até algum dinheiro para ser, da fato, consumista. O outro lado só tem a vontade mesmo, que não pára de crescer e continua sendo estimulada pela crescente onda de mercantilização da vida. Um dia, o outro lado cansa de nada ter e vai em busca do dinheiro, da grana, depois de tanta privação de amor e humanismo e de tanto estímulo consumista. Poucos são os que tentam ajudá-los antes que cometam uma loucura.

Para julgá-los e divulgar as atrocidades que cometem na condição de animais selvagens, no entanto, há o apoio "humanista" da mídia. (GB)

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Publicado também no Tem Notícia.

10 de março, 2005
Posicionamento político claro
Na edição de hoje (10/3), mais uma "denúncia" contra o MST, que estaria fazendo "uma espécie de pedágio" no Sulsem dizer ao certo o que o movimento diz em sua defesa ("a direção (?) do movimento no RS diz que são infundadas as acusações"). A apresentadora chega a se inclinar um pouco ao falar a palavra "pedágio", como uma sábia senhora que explica aos netos sobre a vida.

O Sul, por sinal, é dominado pela filiada da Globo: a Rede Brasil Sul de Comunicação (RBS). Um dos três pilares comerciais deste grupo é a “Gestão Rural”. Para ficar claro: o maior grupo de comunicação da região sul do país tem como um dos três pilares comerciais a gestão rural. Não é crime, estou apenas registrando.

Para tanto, criou em 1998 a “Planejar Brasil”ou “Planejar Informática e Certificação Ltda”organização com sede em Porto Alegre (RS), com negócios voltados ao setor de agronegócios (ver em www.planejar.com). Não se discute, aqui, porque um grupo tão grande de Comunicação teria como “um dos três pilares comerciais” a gestão rural. E até que ponto isto influencia na linha editorial dos seus meios de comunicação.

Daí você entende porque as reportagens produzidas pelo grupo RBS e reproduzidas pela Globo (ou vice-versa, que seja) são quase sempre contrárias ao MST e comprometidas com o agronegócioe, conseqüentemente, com latifundiários da região. (GB)

25 de fevereiro, 2005
Indígenas maltratados
Não é possível continuar tratando a questão indígena de forma tão superficial como foi tratada hoje. Dois minutos e meio mais ou menos, com suposta ênfase na mortalidade infantil.

O JN informou que os indígenas de uma determinada aldeia não possuem terras para plantar, pois estas estão sendo vendidas. E que "nem todo o dinheiro vai para a alimentação". A reportagem termina com a seguinte frase: "O problema do alcoolismo na aldeia preocupa a FUNASA". E ponto final.

Quer dizer: para o JN, não era necessário saber por que os indígenas estão vendendo suas terras. Por que? Não sei, porque a preocupação que o JN sugere para mim é outra: seriam os indígenas bêbados? Seriam eles os culpados pelas mortes das crianças por desnutrição, já que se renderam aos vícios do homem-branco?

* * *
O Jornal Nacional insiste em procurar a todo custo falhas no MST, mas não está nem aí para os exemplos positivos - que são maioria. É claro que há irregularidades. Em qual organização não há? Na Globo? Lá também tem, conheço um monte. É normal acontecerem.

No entanto, colocar casos isolados em matérias do JN é torná-los "verdades" incontestáveis - "deu na televisão" -, pela concentração de telespectadores que possui o diário televisivo. Um crime midiático contra uma organização comprometida com o andar de baixo. DIARIAMENTE na mídia, e hoje no JN.

Alguns diriam que eu estou defendendo o MST sem ao menos saber do que estou falando, já que o JN pode visitar com freqüência os assentamentos e nós, da imprensa alternativa, não. No entanto, é evidente a falta de preocupação do JN com os pobres. Quer um exemplo?

Quantas reportagens mostram casos de assentamentos - quaisquer que sejam - que estão dando certo? Exemplos a serem seguidos: há algum? Então eles não existem? Quer dizer que, quando pobre pega na grana para administrar terra, sempre dá errado? Então precisa dar tudo na mão do fazendeiro, o mesmo que persegue as Dorothy Stang's da vida? Viva o Agronegócio, o mesmo que persegue ambientalistas?

Como o brasileiro comum é urbano - um típico "urbanóide", para ser mais exato -, acredita neste preconceito.

* * *
Se você pensar nas reportagens dos indígenas e dos sem-terra como uma coisa só, hoje o JN tratou em boa parte de tentar convencer o telespectador de que o problema da corrupção está mais na base do que em Brasília. E as "denúncias" de Lula sobre corrupção no BNDES durante a gestão de FHC, ninguém vai apurar? É só ouvir as patotas de PT e PSDB que tá bom?

Fica aqui o elogio, entre tantas críticas, por terem dado voz a Carlos Lessa, reproduzindo sua opinião sobre o caso - que, infelizmente, vai morrer.

Boa parte dos jornalistas já sabem de muita coisa que foi feita à época. Se ninguém falou até hoje, muito difícil será acontecer agora que temos um presidente que olha apenas "para frente" e pede para que um alto companheiro "feche a boca aí para fora", depois de ter tomado "uma decisão muito pessoal".

* * *
Hoje tem Globo Ecologia de novo. Imperdível, é sobre focas!!! (GB)

23 de fevereiro, 2005
 
A edição desta noite mostrou uma reportagem rápida sobre a incapacidade do poder público em levar crianças à escola em um pequeno município, fato que se contrapôs ao messianismo da própria Globo: em parceria com a Petrobrás, a emissora anunciou (!) que o programa "Amigos da Escola" conseguiu a parceria de 27 cidades do Estado do Rio.

Em tempo: o Jornal Nacional deveria ser um programa jornalístico, mas serve também como instrumento de propaganda institucional. Pode? No Brasil, pode, pois não se tem a noção de que a Globo é uma concessão pública.

Para João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, o Amigos da Escola é uma "via de mão dupla" entre sociedade e escola. Acontece que, além de causar mais desemprego na categoria, pois substitui professores profissionais por voluntários, transfere responsabilidades que são dos municípios e do Governo Federal e que podem ser perfeitamente cumpridas, como demonstram os especialistas. Recursos há.

Com um pouco mais de dinheiro em caixa, prefeitos corruptos e um governo federal que privilegia o pagamento de juros agradecem a ingenuidade dos voluntários, que acabam por servir a interesses obscuros, sob o manto da solidariedade. Como bem definiu Paulo Freire, esse ato se constitui, na verdade, como falsa generosidade. É ação desprovida de contextualização política e de consciência maior de existência. Um tipo de ação facilmente manipulável. (GB)

* * *

A Globo reforça o que propõe o Banco Mundial: saída do Estado da política educacional (privatização) em favor do mercado e do terceiro setor (ONGs, sociedades do tipo amigos da escola, etc). A educação não é mais direito, mas uma mercadoria e, como tal, deve circular "livremente" na sociedade.

E a Globo, como monopolizadora da mídia no Brasil, acaba fazendo essa circulação com muita imagem e poucas idéias. Afinal, não são necessárias nessa época onde predomina o pensamento único dos ‘Bushs’, nossos "donos". (RM)

21 de fevereiro, 2005
Estava mais uma vez presente no Jornal Nacional desta segunda o desprezo da Rede Globo por pobres. Um enorme incêndio numa favela da zona leste de São Paulo, que deixou 180 famílias desabrigadas, mereceu apenas dez segundos da edição de 21 de fevereiro e nem sequer é lembrado na página do JN na internet. Pessoas que não tinham quase nada estão passando neste momento por dificuldades incalculáveis, mas que poderiam ter sido pelo menos gravadas.

Se houvesse o mínimo de sanidade, os repórteres pesquisariam a fundo a causa do incêndio, tentariam achar responsáveis e levantariam soluções. Necessária seria uma contextualização rápida sobre a questão da moradia nas favelas de São Paulo. Isso se houvesse sanidade entre os editores.

E quem disse que alguém foi no local do incêndio? Passaram de helicóptero, de longe, até porque pobreza é contagioso. Como se não bastasse, a Globo se preocupou em culpar os próprios moradores pelo "fato" - se bem que, com dez segundos, é impossível dizer qualquer coisa, apenas dar uma manchete vazia.

Não se sabe qual foi a causa. Repito: não se sabe qual foi a causa. Mas o Jornal Nacional nem se preocupou com isso: foi logo dizendo que o problema foi na rede elétrica, que é supostamente clandestina. Pronto: culpa dos moradores, quem mandou não ter dinheiro para ficar dentro da lei?

Em outro momento, dez leões apreendidos pela IBAMA no interior de Minas Gerais e doados a um zoológico na África do Sul receberam generosos dois minutos. "Não deve ser muito bom ter um companheiro desse na viagem", brincou um homem, sem saber que ainda pior é esta emissora que, apesar do discurso de um diário popular, "para as massas", prefere leões a pobres (nada contra os bichos).

Péssimos "companheiros de viagem", os editores do JN tratam os telespectadores como selvagens e se consideram os reis da selva. (GB)

 

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