| Por que Veja se voltou contra Serra?
Autor desconhecido, maio de 2002 Ao construir um caso contra Serra de forma tão incisiva e estudada, a partir de fatos que já eram conhecidos, Veja derruba as teorias que colocavam a revista, e o os meios convencionais de comunicação em geral, como fechados com a candidatura Serra. O que aconteceu? As teorias estavam erradas? Ou o racha no bloco de poder é mais profundo do que se imaginava? Há pelo menos três explicações para a virada de Veja, todas compatíveis entre si. A hipótese da competição jornalística A explicação mais inocente para a reportagem de Veja contra Serra é da competição jornalística pura e simples. Veja precisa disputar com Época um mercado cada vez mais difícil, em que vem ocorrendo queda tanto de vendagem quanto de publicidade. Esse é o mecanismo virtuoso, da competição jornalística, que faz com que cada veículo queira superar o outro, com "furos" de reportagem. O leitor e a democracia, em tese, saem ganhando. Foi esse mecanismo de competição virtuosa que levou o Washington Post e o The New York Times a perseguirem incessantemente o escândalo Watergate, até a derrubada de Nixon. O processo se reproduziu no Brasil, duas décadas depois, quando Veja e Istoé competiram pela primazia do "furo" na devassa do governo Collor, que finalmente levou também a seu impeachment. Esta semana, Época também saiu com uma informação nova sobre o escândalo das privatizações, reforçando a hipótese de que, mesmo havendo outros motivos, as duas revistas entraram em regime de competição virtuosa pelo "furo". A hipótese patrimonialista Mas o "furo" de Veja foi forçado: uma cozinha de coisas já sabidas. Uma segunda hipótese, que não exclui a primeira, é a de que os Civita decidiram atacar o esquema Serra por considerarem que é também o esquema Globo. Na campanha de 1994, houve uma guerra de religiões subjacente à guerra política. Nesta campanha pode estar havendo uma guerra entre grupos de comunicação, subjacente à disputa eleitoral. Tanto assim que Silvio Santos foi descartado como solução do PFL, porque empurraria a Globo para outros candidatos, talvez até para Lula. A crise do setor de comunicações é profunda e generalizada, fazendo com que cada empresa se sinta ameaçada pelas demais. E cada uma tenta cobrir os prejuízos operacionais mamando patrimônio nas tetas do Estado: empréstimos e concessões de bandas de rádio, TV e TV a cabo. A gota d´água, para a Abril, seria o empréstimo de US$ 500 milhões que a Globo acaba de receber do BNDES. A Globo é hoje a grande predadora do mercado da Abril, justamente através do lançamento de Época. Veja é a grande máquina de fazer dinheiro dos Civita. A semanal da Globo não tirou inicialmente muitos leitores de Veja, mas tornou impossível o crescimento desta revista e ainda abocanhou parte de sua publicidade, além de levar parte de seus quadros jornalísticos. O próximo ataque da Globo contra a Abril é o lançamento da "Vejinha de Época", a partir do diagnóstico de que a Vejinha é hoje o pilar de sustentação da Veja. A hipótese da rearticulação política Essa é mais forte. A fritura de Serra teria sido uma decisão do grande empresariado, para permitir a recomposição do bloco de poder e assim zerar a campanha e derrotar Lula. Vinicius Torres Freire, na Folha de hoje, fala em "campanha da direita do governo para derrubar (Serra)".O próprio Serra "acha que está sendo vítima de um complô articulado por setores políticos e empresariais interessados em trocar o candidato tucano...", conforme reportagem da Folha de hoje. O Estadão de ontem diz que o comando (do PFL) está sendo "pressionado por empresários, banqueiros e investidores" para recomporem a aliança com o PSDB, temendo o cenário do turno único com Lula. O sacrifício de Serra é necessário a essa recomposição, como Bornhausen não se cansa de dizer. Veja pode ter tomado a iniciativa como parte dessa manobra. Mesmo considerando as outras hipóteses, a da competição jornalística e da competição patrimonialista, Veja não teria estruturado sua reportagem para atingir Serra se isso não fosse compatível com algum tipo de articulação política das elites dirigentes. E essa articulação só pode ter como objetivo tentar impedir a vitória de Lula. A hipótese da rearticulação do bloco de poder é reforçada pela participação ativa de tucanos na denúncia. Claro que todos eles magoados pela escolha de Serra, mas esse é o fator subjetivo da crise. Já há claramente uma ala de tucanos que propõe tirar Serra para reconstruir o bloco de poder. O risco da operação é o envolvimento do governo FHC, por improbidade ou prevaricação. Por isso a reportagem de Veja é cuidadosa e faz questão de isentar o presidente.
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