Desmedida
Os heróis gregos
eram punidos pelos deuses por ultrapassarem o "justo meio", pela desmedida
com que buscavam igualar-se aos deuses. A Justiça grega era a divina,
com deuses para todos os fins. A nossa, dizem, é cega. Não
por se fazer, mas por ter de aplicar leis feitas à semelhança
de políticos como Jader Barbalho e ACM, que sempre usam antolhos
em suas operações. Ainda assim há juízes que
consigam tirar leite de pedra. Repousa na esperança de tais julgadores
a análise do comportamento da RBS, que ousa fazer-se incontinente
de polícia, juiz e carrasco.
Um terreno cevado há
tanto tempo, construindo um imaginário de que a atual administração
é a grande responsável pelo caos nosso de cada dia. A razão
está no fato de ter um desafeto como secretário de Segurança.
A questão da segurança, que é um problema nacional,
foi enfrentada com método e planejamento. Sabia-se o quanto haveria
de resistência da polícia civil, mas não se imaginava
encontrar na RBS o principal opositor às reformas. A unificação
começada aqui foi sugerida até pelo professor Cardoso para
os Estados da Bahia, Minas e Tocantins resolverem o problema da Segurança
Pública e as greves de policiais.
A introdução
de disciplina de Direitos Humanos nos cursos de formação
foi ridicularizado pela RBS.
A ONU reconheceu, elogiou
e recomendou para as polícias de todos os estados. A punição
dos policiais corruptos desencadeou uma guerra. A tentativa de acabar com
a caixinha do jogo do bicho nas delegacias foi rechaçada, como seria
de esperar, pelos policiais corruptos, alguns inclusive já denunciados
pela CPI do Narcotráfico, do Congresso Nacional, mas que hoje assessoram
alguns membros da CPI criada para tratar da política de segurança
do Estado. E a reação tomou corpo através de um grupo
de delegados sob investigação, e repercutiu com a adesão
da RBS.
O que já vinha
sendo cultuado de forma constante pela RBS, tachando o governo ora de comunista,
de baderneiro ou pró-Cuba, acabou ganhando novo impulso devido a
um diálogo gravado pelo ex-delegado de Polícia Luiz Fernando
Tubino com um petista presidente de um Clube de Seguros e amigo do governador,
Diógenes de Oliveira. A partir da divulgação daquela
gravação, a Zero Hora substituiu as manchetes da guerra do
Bush pelas suspeições desencadeadas pela CPI. Do dia 4/11
a 10/11 todas as manchetes foram no sentido de colocar sob suspeita a relação
do governo do estado com o jogo do bicho.
Seria razoável
se a RBS desse o mesmo tratamento, por exemplo, ao caso Eduardo Jorge,
amigo do professor Cardoso, versus Lalau. Silenciou.
Quantas vezes Eliseu Padilha,
também chamado de Padilha Rima Rica, teve o nome envolvido com falcatruas
no DNER? Várias, mas nunca na Zero Hora. Sempre ou no Correio Braziliense,
Jornal do Brasil ou Folha de S. Paulo. Desde os famosos 30% para azeitar
a ordem dos precatórios aos dólares de seu assessor jurídico.
Silêncio na RBS. Pior: não só silencia como faz a defesa
do ministro dos Transportes.
Como na história
da mãe que vê somente o seu filho marchando certo, a RBS foi
a única que deu manchete desde o dia 4/11 com acusações
contra o governo estadual. E sempre de forma opinativa, sugerindo mais
do que informando. Os demais jornais locais, como o Correio do Povo, Jornal
do Comércio e O Sul, não deixaram de divulgar, mas não
fizeram juízo antecipado. Seria o caso de perguntar: esses jornais
estariam envolvidos de alguma forma com o governo do estado? Seria muito
interessante constatar. Afinal, seria a primeira vez que grandes jornais
brasileiros estariam "de caso" com um partido de esquerda.
Durante o depoimento do
principal acusado, Diógenes de Oliveira, este acusou o grupo RBS
de lavagem de dinheiro na Ilhas Cayman. Apresentou nomes e endereços.
Isso seria suficiente para condenar a RBS? Também falou na insolvência
técnica da empresa, que estaria passando por mau momento em decorrência
do corte em publicidade, com a entrada do governo petista no estado, em
comparação com o governo de Antônio Britto, na ordem
de 60 milhões. Isso vale ou não uma manchete?
A RBS é um caso
clínico. Uma pesquisa substancial resultou num livro que diz com
muito mais propriedade o modus operandi desse grupo de comunicação.
Trata-se de Psicologia Social Comunitária: da solidariedade à
autonomia, da Editora Vozes, organizado por Regina Helena de Freitas Campos.
De especial interesse, para o caso, o estudo do professor Pedrinho A. Guareschi:
"Relação comunitária; relações de dominação".
Somente Petrônio explicaria a tolerância da RBS na gestão
anterior em comparação com o ódio destilado diariamente
contra o atual. Afinal, pode ser verdade que "uma mão lava a outra",
do mesmo modo que "cada dedo ajuda outro dedo", e a RBS já deu provas
que não repudia tal comportamento.
(*) Gilmar Antonio Crestani é jornalista – http://www.crestani.hpg.com.br/
Texto publicado no Observatório
de Imprensa
Consciência.Net