O vice-presidente da Band e a ‘operação obscura’: "Uma sombra sobre as eleições"
Carta Capital, 18/03/02

CartaCapital: A Band anunciou há três semanas sua saída da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, a Abert...

Antonio Teles: Saímos há coisa de um ano e meio, o que fizemos agora foi comunicar ao público que a Abert não fala em nome das três emissoras – Band, Record e SBT. Não fala por uma razão que agora se comprovou em toda sua extensão; nos últimos anos a Abert representa os interesses da Globo. A Abert é um braço avançado da Globo para gestionar privilégios junto ao poder público, como se representasse todo o setor de rádio e tevê, quando só representa a própria Globo. Isso se comprova e fica transparente agora.

CC: Como e por quê?

AT: Em nenhum momento a Abert se manifestou abertamente diante desse escândalo, em época eleitoral, que envolve a concessão de um privilégio financeiro a uma rede de tevê, a Globo. Se representasse o setor, teria a obrigação de vir a público e dizer o que pensa. Poderia até dizer que este é um tratamento merecido, que a Globo deveria até ter um apoio maior, uma vez que foi e é tão importante na construção de uma sociedade livre e democrática. Por favor, essa última frase entre aspas.

CC: Os telejornais da Band, na qual o senhor é vice-presidente, têm usado o termo ‘esquema’ para se referir à operação Globo-BNDES. Que sentido tem a expressão ‘esquema’. O que quer dizer isso?

AT: Uma operação como essa, urdida da maneira mais obscura, só pode ter obedecido a um esquema. Tamanho cuidado e sutileza, a pretensão do sigilo até o final, até a última hora, só se toma tais e tantas precauções se há um esquema. Um esquema bem organizado, diga-se.

CC: O senhor usa acima a expressão ‘escândalo em época eleitoral’. O que exatamente quer dizer isso?

AT: No momento em que o poder público prioriza qualquer grupo econômico já é um espanto para a sociedade. As regras do bom capitalismo, para dizer o mínimo, é que todos tenham direitos iguais. Falamos aqui de linhas de financiamentos, créditos, oportunidades, etc., etc. Essa é inclusive uma questão de moralidade pública. Especialmente numa época pré-eleitoral, quando se antevê uma campanha presidencial que será a mais disputada que o País já teve na história recente, a prudência e a cautela deveriam ser maiores ainda. Qualquer sombra que pairar sobre uma operação dessa natureza – sobretudo para um grupo de comunicação com um imenso poder de penetração na opinião pública – fará com que todo o processo eleitoral seja posto em questão em algum momento. Eu não posso acreditar que isso tenha sido intencional. Quem sabe não foi um deslize da burocracia, dos tecnocratas, não é mesmo?

CC: Deve ter sido, deve ter sido... O senhor crê que tal ‘esquema’ tem por intenção beneficiar alguém?

AT: Eu detestaria fazer qualquer ligação com os fatos que estão acontecendo simultaneamente no País, embora para nosso espanto tudo esteja acontecendo no clímax de um processo.

CC: Mas essa não é uma velha história, não é sempre assim nesse setor?

AT: A história toda da Rede Globo é pontuada de situações semelhantes. Primeiro o acordo com a Time-Life, depois aqueles famosos incêndios sucedidos pela importação privilegiada de equipamentos de primeira geração. Qualquer manual básico da história da Globo, de fácil acesso, conta isso. E o resultado é sempre o fortalecimento sucessivo da empresa que resulta na liquidação, ou tentativa de liquidação, da concorrência. Apesar das denúncias, os fatos são sempre consumados. E já dizia Zezinho Bonifácio, lá de Minas: ‘Contra o fato consumado não se luta’.

CC: O que há mais nesta operação, ou ‘esquema’ como o senhor prefere?

AT: Parece que o Banco do Brasil também vai participar do resgate aos náufragos, desse imenso naufrágio.

CC: Isso é certo?

AT: Pelo andar da carruagem deve se consumar. Não é e não será novidade. Mas, para você ter uma idéia do que isso representa: na Copa 98, a Band, o SBT e a Globo pagaram, juntos, US$ 9,8 milhões. Em 2001, a Globo, para afastar a concorrência, negociou isoladamente e pagou pelas copas 2002 e 2006 US$ 240 milhões. Uma atitude perdulária, insustentável, dessa natureza só é tomada quando se pode contar com o erário, público como sabemos, para suprir dificuldades de caixa.

CC: Repito a pergunta: no setor de vocês isso não foi sempre assim? Cinco anos para o Sarney em troca de mil emissoras de rádio, tevês...

AT: Na época do Sarney, sem defendê-lo, pelo contrário, aquilo foi um reembolso por favores prestados. Deram o quinto ano, levaram rádios e tevês, mas aquilo foi dado a políticos. Agora não. Isso é um favor, mas eu não sei qual a motivação.

CC: O senhor admitiria estar em curso uma manobra em favor da candidatura à Presidência patrocinada pelo governo?

AT: Eu detestaria acreditar nisso. Ainda tenho esperança na democracia brasileira. Apesar de tudo isso.

CC: ‘Tudo isso’, o quê?

AT: Como diria o conterrâneo Guimarães Rosa, eu só sei que eu não sei de nada, mas desconfio de quase tudo.


‘Eles que se dirijam ao BNDES’
Carta Capital, 18/03/02

Presidente da Globocabo diz que trata apenas do seu problema

CartaCapital procurou João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, para falar sobre a bateria de críticas à operação BNDES-Globocabo. Marinho pediu que a conversa, abaixo, se desse com Luis Antonio Viana, presidente da Globocabo.

CartaCapital: São muitas as críticas ao processo BNDES-Globocabo. De Antônio Teles, vice-presidente da Bandeirantes, e de outros donos e dirigentes de grupos de mídia. O senhor...

Luis Antonio Viana: Eu não comento críticas. Eu posso falar sobre o trabalho que foi feito. Quando entrei na companhia, em 1º de outubro, após avaliar a situação, comecei a construir um plano de negócios que teria de se basear em quatro grandes pontos. Mercadológico, operacional, estratégico e de reestruturação financeira. Não necessariamente nessa ordem. Em conseqüência disso, cerca de um mês depois apresentei o plano a todos os acionistas, inclusive ao BNDES. A partir daí estamos discutindo não só aspectos financeiros como também os aspectos de governança cooperativa, que resultaram na montagem que ora se conclui. Um processo exaustivo, detalhado e profissional. Esta é a verdade. O resto eu não comento.

CC: Entendo que esta seja a sua verdade, mas o senhor não admite que outros donos de empresas de comunicação tenham suas razões. Quem está chiando pode ter lá a sua razão ao dizer ‘eu também quero o meu’?

LAV: Bem... o que... o que eles querem ou não, não é da minha alçada...

CC: Imagino que não...

LAV: Eles, eles têm de se dirigir ao BNDES, equacionar seus problemas do jeito que puderem. Meu negócio é a Globocabo. Ponto. Acho que cada um deve tratar do seu problema. O meu é a Globocabo. Eu estou focado na Globocabo.

CC: E quanto às críticas...

LAV: Não comento nada, isso não é questão minha.

CC: O senhor foi do BNDES, não?

LAV: Saí em 1985! Respeito muito a casa, tenho grande admiração e respeito pela casa BNDES e creio que lá sou respeitado”.

Fonte: Carta Capital


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