Bob Fernandes
Carta Capital, 18/03/02
‘O importante é a comunicação de massa’. [Fernando Henrique Cardoso]
Jornalistas, no mais das vezes, têm um trabalho penoso no juntar de fatos, dados, histórias, frases, pessoas, sinais e muito mais, que sejam conectáveis, que formem um todo com sentido e utilidade para quem quer ler, ouvir, ou ver as notícias e seus desdobramentos. De quando em quando os fados, ou os fatos, ajudam. Uma conjunção, quiçá astral, torna tudo cristalino sem que seja necessário o repórter, a repórter, se esfalfar. Basta ouvir, olhar, ligar o gravador ou recolher as frases soltas por aí. O que está dito, tendo sido dito por quem disse, resume e explica tudo. Nessa segunda semana de março a colheita foi mais fácil do que catar maná naquele deserto, umbu no sertão da Bahia ou mosquito da dengue Brasil afora. Vamos à primeira fase, resumida, do fraseado, que é auto-explicativo.
Roberto Civita, diretor-presidente e editor da Editora Abril, ao jornalista Paulo Henrique Amorim: “Se for assim, eu também quero”.
Antônio Teles, vice-presidente da Rede Bandeirantes, em entrevista a Cartacapital (mais à frente). “Esse empréstimo do BNDES à Globocabo é um escândalo. Em época eleitoral, como agora, será uma sombra sobre todo o processo...”
Fernando Portella, vice-presidente- executivo do jornal O Dia, do Rio de Janeiro, a CartaCapital: “A operação BNDES-Globo foi montada com o objetivo, do ponto de vista do negócio, de capitalizar e arrumar a empresa para, numa segunda fase, depois de votada a emenda ao artigo 222, atrair um sócio estrangeiro. Ora, todas as empresas querem arrumar o seu balanço, eu também quero arrumar o meu...”
Silvio Simões, diretor do jornal A Tarde, da Bahia, para CartaCapital: “Qual o critério que levou o BNDES a fazer essa operação com a Globocabo? Se foi eleitoral e político, eu discordo de forma radical e absoluta. Se a operação não tem rentabilidade, eu sou contra, isso é prejuízo para a sociedade. É preciso ter critérios, e no caso não se sabe quais foram os critérios”.
O diretor de uma das maiores redes de rádio, tevê e jornais do País, que pede anonimato, para CartaCapital: “Essa não é uma operação normal. Não fossem o volume e a natureza, poderia ser até justificável, mas não é. O volume chama a atenção. É um momento eleitoral, um momento infeliz, pois o governo, que tem um candidato, chama para ele, governo, a dívida de um grupo tão poderoso. Esse não é um caso estratégico para o País, vai ficar essa coisa no ar...”
Boris Casoy, âncora do Jornal da Record: “(...) A dívida total das Organizações Globo é de 1 bilhão e oitocentos milhões. É claro que essa é uma operação de ajuda. O que se espera é um tratamento igual para todas as emissoras. SBT e Band chiaram, dizem que não têm recebido o mesmo tratamento. E chama a atenção essa operação num final de governo e a poucos meses das eleições presidenciais”.
O CEO de um dos mais populares jornais do País, a CartaCapital: “Olha, é normal a gente sempre se acertar com o governo numa eleição, mas essa é a primeira vez que eu vejo prepayment...”
O Macaco Simão, da Folha de S.Paulo: “GLOBOCABO VIRA GLOBOCABO ELEITORAL! Globocabo eleitoral do Serra. Rarará”. As Organizações Globo como um todo têm uma dívida total de US$ 1,3 bilhão. O fraseado se refere à operação Bndespar/Globocabo, a empresa de tevê por assinatura do grupo.
Ao final e ao cabo esta operação, agora, de socorro à Globo pode custar ao BNDES R$ 284 milhões. Disso, R$ 125 milhões em debêntures de 1999 o banco troca por ações na operação desta semana. Há três anos o BNDES já entrara com outros R$ 284 milhões. No total, sem ser feita a conta real-dólar de 1999, e incluindo-se um financiamento de outros R$ 220 milhões em 1997, desde então a parceria com o BNDES rendeu à Globo R$ 639 milhões. Fora penduricalhos: R$ 58 milhões para o parque gráfico em 1998, outros R$ 12 milhões para o Projac em 2001. O que a turma logo acima está a dizer é o que se poderia ouvir nos barracos do Jardim Angela, em São Paulo, pelas palafitas de Alagados, Brasil adentro: “Se é assim, eu também quero”.
Fernando Portella, de O Dia, explica: “Não causaria estranheza se fosse uma linha de crédito disponível para todo o mercado de comunicação. Este mercado, ainda numa fase de transição no negócio, é de famílias que no momento se preparam para a busca de sócios estrangeiros. No momento em que se está saindo de uma fase analógica para uma fase digital, não há como bancar isso como pessoa física. Então, se é para abrir financiamento, o BNDESPar deveria, com clareza, abrir uma linha de crédito para todo o setor”.
Silvio Simões, de A Tarde, diz: “Tem sustentabilidade e retorno? É democrático? Há critérios? Se não cumpre essas condições, sou contra. O risco é parte da vida empresarial”.
A operação se divide, do ponto de vista do negócio, em três partes. Primeiro, busca capitalizar a empresa e arrumar seu balanço. Reduz a alavancagem financeira, o endividamento (melhora muito a proporção capital próprio/capital de terceiros) e aumenta a liquidez (entram R$ 155 milhões no caixa). Segundo: dívidas da empresa com acionistas e debêntures da Globo em poder de acionistas serão convertidos em capital. Terceiro: a emissão de novas debêntures conversíveis. Com garantia de recompra pelos sócios até o limite de R$ 298 milhões serão emitidas as debêntures. O banco que vai executar a operação no mercado – ao que se diz o Banco do Brasil – assume o compromisso de recompra de até R$ 20 milhões do que não for colocado. Resta a dúvida se a Globo arruma seu balanço para atrair um sócio estratégico ou se já existe o sócio e o que se fez agora foi um trabalho antes que se aprove o ingresso de capital estrangeiro nas empresas de mídia.
No dia 1º de Março, quando a Polícia Federal entrou na Lunus, empresa do casal Roseana Sarney-Jorge Murad, em São Luís, o sistema de poder montado há sete anos por Fernando Henrique Cardoso começou (para se ter uma data-símbolo) a rachar. O racha se aprofundou na quinta-feira 7, quando do desembarque do PFL do governo. É certo que o desembarque ainda é parcial, é seguro que se buscará uma recomposição para mais adiante. Inegável é a rachadura. Enquanto isso, amadores em geral seguem a discutir quem é ladrão e quem não é ladrão, oportunamente esquecidos da sólida parceria dos últimos sete anos. Melhor, dos últimos 14 anos, 28 anos, 54 anos, 108 anos...
De repente se descobre que o vento venta e que a água molha. Amadores em geral tentam fazer crer a amadores em geral que tudo a que se assiste no País desde que março começou é obra do acaso.
O Ministério Público tem o dever de apurar e indicar os crimes cometidos. A Polícia Federal está obrigada a cumprir ordens judiciais. Ponto. Mas quem ainda não sabe que a Polícia Federal, cada dia mais empobrecida, é cada vez mais uma polícia refém da política, não sabe nem o início. De resto, a chusma de manchetes e matérias dos últimos dias dando conta de detalhes da arapongagem e presença de agentes da inteligência do governo na operação cata-Roseana dispensa a necessidade de maiores comentários.
Tedioso, e sinal de miopia, seria a essa altura – quando as investigações avançam – seguir a discutir ainda as empresas de Roseana e sua dizimada candidatura, o milhão e trezentos em notas de R$ 50, etc., etc. O que as reações à Operação Salva-Globo evidenciam é que a rachadura no sistema de poder amplia-se para além do espectro político-partidário. A virulência e a ansiedade inoculadas no processo político em busca de consolidação da candidatura Serra dividem, por ora, também outros atores, decisivos em uma eleição no Brasil: os donos da mídia.
A ajuda à Globo trouxe à tona algo que já cozinhava na panela. Explique-se: está no Senado, depois de aprovada em dois turnos na Câmara, a emenda ao artigo 222 da Constituição Federal, que permite o ingresso de capital estrangeiro nas empresas de comunicação. O que significa a ajuda à Globo num instante em que praticamente todas as empresas de comunicação do País enfrentam enormes dificuldades financeiras? Significa que, quando aprovada a emenda ao 222, apenas uma empresa – das tantas que precisam – terá arrumado sua casa, estará em condições de bem negociar com novos sócios: a Globo.
Anote-se. Assim como dispõe de condições e poderes para tentar recompor, em outros termos, uma aliança político-partidária, Fernando Henrique tem nas mãos a arma para quietar o brado retumbante da mídia: a emenda ao 222. O PFL, ferido, também percebeu o poder dessa carta. Com a relatoria nas mãos, ameaça sentar em cima da emenda ao 222 no Senado. Vai negociar com quem detém o poder de erguer ou dizimar candidaturas: os senhores da mídia. Aguarde-se o desfecho.
Não será fácil a composição de interesses conflitantes, nem se conhece o apetite, e em que medida há, dos gringos pelo mercado midiático verde-amarelo. Certo é que estão quase todos, os grupos de mídia, reféns do presidente da República, e antes do PFL, em pleno processo eleitoral. O brado retumbante diz muito. E não é obra do acaso a escalada de março. No plano interno, basta ler, ouvir, ou ver na tevê: Fernando Henrique e Serra atacam o FMI; Fernando Henrique diz que não precisou do PFL para se eleger; essas oligarquias nordestinas não prestam mesmo...
Com uma inacreditável oposição a si mesmo e ao seu governo, reverberada pelos sócios e apaniguados no poder midiático, o sociólogo FHC aplaina o caminho para o economista Serra. Análises e mais análises sobre a genial jogada para deixar de lado as oligarquias do PFL. Bem, mas agora parece que o negócio será com o PMDB do Geddel, do Newtão Cardoso, do Padilha e do Jader? É bom evitar o tema. Provoca em alguns profunda irritação e tédio. Há que focar apenas na grana da Roseana.
O Jornal Nacional da terça-feira 12 é uma lição para quem quer entender o jogo. Uma seqüência para semiólogo perder o fôlego. Minutos e minutos de Roseana, Murad, a dinheirama. Segue-se, sem tomar fôlego: ‘Pesquisa patrocinada pelo Bank of America mostra Serra em segundo lugar’. Seqüência, sem pausa: ‘Bolsa sobe em São Paulo’. Comerciais, por favor.
Comerciais. Da revista Época. Mas a Época não é do grupo Globo? Quanto a Época, da Globo, paga para anunciar no Jornal Nacional da Globo? E o Cade, diz o quê? Cerveja com cerveja não pode, pasta de dente com pasta de dente não pode. Caracteriza monopólio, concorrência desleal. E pode, pagando o que, revista do mesmo grupo anunciar na mesma televisão? Que é, recordemos, uma concessão do Estado. Se tudo isso pode, CartaCapital solicita desde já uma linha de crédito, ao BNDES, para fazer-se anunciar nos comerciais do Jornal Nacional. Com essa capa que está nas bancas.
Esse será um jogo pesado, de idas e vindas. Na quinta-feira 14, em artigo na Folha de S.Paulo, o diretor de redação do jornal, Otavio Frias Filho, observou: “(...) trata-se do mais impressionante rolo compressor já montado na política recente. Dinheiro, recursos políticos, mídia, pressões, ameaças, tudo é usado para favorecer o candidato oficial. Detalhe importante: está sendo organizada uma estrutura paralela ao governo e a seu partido, algo sem precedentes”.
Idas e vindas. Roberto Civita, na segunda 11 dizia a Paulo Henrique Amorim: “Se for assim, eu também quero”.
Na quinta 14, Mônica Bergamo registrava na Folha nova opinião do mesmo Civita: “A operação me parece correta”. Para que se entenda qual e tamanha é a relação entre poderes constituídos no Brasil, vale uma rápida visita ao gabinete de Civita, no 24º andar do número 7.221, Marginal Pinheiros, São Paulo. O edifício é dos tais inteligentes. Monumental, debruça-se sobre o fétido Rio Pinheiros, uma espécie de divisa entre o primeiro e o quarto mundos: a favela do Jaguaré não muito distante da Abril, a meio caminho da Editora Globo.
A visita. Antes de sua sala, uma outra, mesa enorme, de reunir ministério, escura como as águas do rio. À entrada de sua sala, à esquerda, uma escadinha leva ao mezanino e à pequena biblioteca, estilo norte-américa. A mesa de Civita fica diante do aparador. Sobre ele, fotos. A mulher, os filhos, a família. Além dos Civita, mais uma, só mais uma foto. De Fernando Henrique Cardoso.
Por mais de uma vez, a mais de um amigo, Civita explicou: “Pensam que a Abril apóia o programa governo do Fernando Henrique. A questão está mal colocada. Não é a Abril que apóia o programa do Fernando Henrique. É o Fernando Henrique quem apóia o programa de governo da Abril”.
Fonte: Carta
Capital
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