Diário de Bordo do seu Pedro Oliveira
E sua maravilhosa viagem pelo oceano

    Pedro Oliveira se levantou naquele dia exatamente atrasado 30 minutos para pegar o ônibus. Quando olhou para o relógio, se levantou, colocou a camisa que estava jogada no chão e saiu correndo do quarto com a escova de dentes na mão. Ao chegar na cozinha deu uma mordida na mulher, um beijo no pão e disparou pela porta dos fundos. Seus dois filhos não entenderam o que passou por ali, se foi um homem ou se foi seu pai. Atingiu a calçada desesperado para pegar o ônibus e percebeu que algo estava faltando: suas calças. Estava no meio da rua com sua charmosa cueca samba-canção com desenhos de beijinhos. “Bom, agora é que eu não vou voltar para botar calças.” Pulou a cerca do vizinho e logo estava vestido com uma bonita calça do terno que estava no varal, mas não combinava com sua camisa amarela e tênis brancos.
    Chegou ao ponto bem a tempo de ver o último ônibus descendo a rua e poeticamente desaparecendo na linha do horizonte. Agora sim estava meio preocupado. Um menino vinha descendo a calçada na sua bicicleta e pensou: “Já roubei as calças do Carlinhos, roubar a bicicleta da criança vai ser o de menos.” Em alguns minutos estava no chão com o olho arrebentado. Ao se afastar, viu a estampa do Jiu-Jitsu nas costas do menino. Estava ficando sem tempo. Precisava pensar em algo.
    Chamou o primeiro táxi que passou. Entrou. Não tinha um puto no bolso, ficou calado. O motorista tinha umas cicatrizes estranhas no rosto, mas isso não era o seu maior problema agora. Começou a se lembrar da feijoada que comeu fria ontem às dez horas da noite antes de ir se deitar. O que trouxe isso a sua memória foi seu sfíncter, ou seja,  a válvula que decide o que sai e o que não sai (quando) do seu intestino grosso. Em outras palavras, estava com a merda na boca do cu. A situação é a seguinte: Pedro num táxi, o motorista tem marcas no corpo que indicam que não é uma pessoa dócil. Não tem uma nota de dinheiro ou moeda no bolso (tinha sequer um real para o ônibus, percebeu agora) e as morenas estão batendo na porta de saída. Chegando na reta do estacionamento do aeroporto, Pedro tem uma idéia maravilhosa: arreou as calças e sutilmente soltou uma lama no banco de trás daquele táxi. Ninguém percebeu, por longos cinco segundos. Depois, Pedro escuta:
    - Que porra de fedor é esse?
    Não poderia mais esconder a situação. Denunciando-o como um traidor, seu estômago prepara aqueles gases letais para saírem com toda pressão. Não tem escolha. Apóia todo o seu peso na perna esquerda e deixa o veneno fluir.
    - Caralho! Se você peidar mais uma vez eu juro que te dou um tiro na cara! Já tá fedendo pra caralho isso aqui!
    Opa. Tiro? Pronto. Agora sabia a real gravidade da situação. Quando o motorista visse a obra de arte que tinha feito no lado esquerdo do banco de trás, Pedro saberia que teria apenas alguns minutos para viver. Mas era cheio de surpresas e idéias. Outra coisa lhe ocorreu.
    Chegaram. Estavam na reta final e agora já passavam pelos táxis estacionados que deixavam os passageiros. O motorista pára o táxi e se levanta para abrir o banco. O cheiro era insuportável. Ele estava pronto para comentar talvez que nunca mais pegaria um passageiro sem antes conferir o que havia comido antes de entrar no táxi. Pedro já havia passado por tanto que estava disposto a chegar no nível mais baixo da sujeira humana. Passou a mão naquele barro e juntou um pedaço de bolo na sua mão esquerda. Se levanta com o prêmio na mão em concha e fica de frente para o motorista, este comenta:
    - Caralho... eu nunca peguei um passageiro que fede tanto quanto... ei, peraí, que porra é ess....
    Antes de dizer qualquer coisa, aconteceu. Pedro sem compaixão e sem piedade acerta o pedaço de fubá na cara do motorista e sai correndo.
    Estava livre. Corria como um louco. Com medo que o motorista não se importasse com a sujeira que tinha se metido e pegasse sua arma mesmo com a cara cheia de lama para correr atrás dele. Mas felizmente isso não aconteceu. O motorista saiu correndo para um banheiro para lavar o rosto. Pedro era um homem de sorte. Poderia agora pegar seu avião tranqüilo.
    Após derrubar uma série de velhinhas que estavam em seu caminho e ser xingado até em javanês, chega ao seu portão bem a tempo; de ver seu avião indo embora. Exclama:
    - Filho da puta.
    - Tá falando comigo? – ao olhar para o lado, percebe que um modesto negão se preparava para pedir-lhe informações. Quando olha o tamanho do jumento e depois olha seu avião voando para longe, decide entregar o dia ao diabo:
    - Tô sim, porque?

    Pedro (ou o que sobrou dele) chega em casa semi-nu com sua camisa rasgada e um pouco de pele entre os seus hematomas e feridas. Olha para a esposa, os dois filhos (que por algum motivo não tinham ido a aula – melhor não perguntar) e diz:
    - Hoje eu vou vender a casa. A casa, o carro, e tudo mais que a gente tiver.
    -  A gente só tem a casa e o carro mesmo. – interrompe Vó Lurdes, sua sogra (que também por algum motivo estava ali, melhor não perguntar).
    - Tudo bem então. Vou vender a casa e o carro e comprar um barco. E a gente vai embora daqui.
    - Meu amor, você deve estar cansado, pelo sangue na sua testa eu imagino que teve um dia difícil. Mas não é motivo pra gente ir embora assim... – esta é Maria, sua mulher. Sempre dócil, calma e controlada.
    Para os dois garotos não fazia diferença, ou tinha até suas vantagens. Não teriam que estudar e não teriam horário pra fazer nada, e era isso o que realmente importava.
    Mas haviam dois naquela casa que eram realmente sensatos. O gato e o cachorro. Santo e Bobs. Santo era um gato, e provavelmente o ser mais inteligente daquela casa. Enganava Pedro e Maria todos os dias escondendo sua tigela quando um já tinha-o alimentado, assim receberia sua comida duas vezes. Bobs era um cão fiel. Porém tinha suas dúvidas quanto a essa viagem. Sabia que na maioria das vezes (pra ser delicado e não falar todas as vezes) tudo que Pedro fazia dava sempre errado e não via porque essa viagem daria certo. Porém Bobs não poderia prever o que realmente o esperava... Em uma semana estavam partindo.

    Rio, 6 de Janeiro de 1997.

    Caro Diário,

    Estamos prontos para partir. Já mandei Juninho puxar a âncora e Flavinho tomar o leme. Os garotos têm que aprender os ofícios do mar logo, pois a partir de agora nossa vida será nele. Tudo será mais tranqüilo e acho que foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Exceto pelo fato de estarmos levando a Lurdes, minha sogra, que não estava nos meus planos, mas felizmente logo ela morrerá de um ataque do coração ou algo assim. Não há hospitais em alto mar.
    Mal posso esperar para atingir o completo azul do oceano. Poderia ver o cais se afastando cada vez mais e mais... Espera aí? Porque não estamos nos movendo ainda? Já faz mais de uma hora que mandei esses meninos levantarem âncora! Vou ver o que estão fazendo. Pronto. Estavam brigando. Juninho não conseguiu puxar a âncora porque Flavinho tem mania de jogar as coisas na água e toda vez que ele puxava, Flavinho jogava de volta. Ai essas crianssas... Hum, crianssas não é com dois s. Cadê a borracha? Flavinho, cadê a borracha! O que? Jogou na água? Peraí que agora você vai levar uma surra! Cadê meu chinelo? Jogou também? Ai.

         Pedro Oliveira

    Rio, 6 de Janeiro de 1997.

    Querido Diário,

    Com muito sufoco consegui convencer Pedro a levar a mamãe. Espero que ela goste da viagem e que tudo corra bem. A minha sorte são esses hospitais flutuantes que Pedro jurou que haviam construído no meio do oceano para marinheiros que passam mal. Assim mamãe não corre o risco de sofrer um ataque cardíaco no meio do mar. Mas mesmo assim ela é muito forte. Me lembro que sem querer Pedro a trancou na despensa por um mês e ela passou todo esse tempo comendo sardinhas estragadas em conserva, saiu de lá como se nada tivesse acontecido. Pra falar a verdade ela pensava que estava perdida numa ilha deserta e tinha pescado todas aquelas sardinhas. Mas mamãe não está tão senil assim, só precisamos tomar cuidado.

      Maria Oliveira

    Rio, 7 de Janeiro de 1997.

    Seu diário,

    Tá um saco essa viagem e já estamos no segundo dia e eu não agüento mais. Meu irmão só sabe jogar as coisas na água e já jogou fora tudo que eu tinha trazido pra me distrair: meus livros, minhas revistas, meus brinquedos. Não sei porque ele não se joga já que gosta tanto de jogar coisas.
    O papai tá achando que está tudo a mil maravilhas e que é um capitão nato. Mas a verdade é que estamos desde ontem rodando aqui no cais e ainda nem conseguimos encontrar a saída pelo canal. Eu até sei onde fica, mas quem sabe assim ele não desiste e a gente volta pra casa.
    A vovó teve que ser amarrada na cama porque estava confundindo o bote salva-vidas com uma cama e achava que a corda de soltar o bote era onde acendia a luz do quarto. Quando ela acordou e puxou a corda, o bote caiu na água e quase ficou pra trás. Sorte que o Bobs percebeu e começou a latir. Papai viu mas disse que estava ocupado verificando os coletes salva-vidas (que aliás são 4 e nós somos 5, não sei como ele não percebeu que está faltando um) e tivemos que ajudar a vovó.

       Juninho Oliveira

    Rio, 20 de Janeiro de 1997.

    Caro Diário,

    Finalmente conseguimos sair do cais. Já estamos no barco há uns 14 dias e eu não encontrava a saída pelo canal. Por sorte Juninho sabia onde ficava. Eu acho que ele já sabia há mais tempo, mas se pensava que eu ia desistir, estava muito enganado. Vovó teve que ser desamarrada ontem para amarrarmos Flavinho na cama. Ele está ficando pior com essa mania de jogar coisas na água. Já começou a jogar coisas importantes como a nossa bússola, os mapas e o nosso rádio. Mas isso não importa. Homens navegaram pelos mares há muito tempo e vou confiar nos meus instintos.
    Maria tem ficado enjoada com o oceano e parece não estar se adaptando muito bem. Mas não tem problema, com o tempo ela acostuma.
    Juninho já está se adaptando melhor. Passou horas trancado no quarto com um marinheiro simpático que conhecemos no cais, provavelmente aprendendo tudo que podia sobre a vida em alto-mar. Este é o meu filho. Sempre me deixando orgulhoso.
    Agora sim as coisas vão ficar mais divertidas e mais calmas. Não há nada no meio do oceano que possa acabar com a minha tranqüilidade.

     Pedro Oliveira

    Rio, 21 de Janeiro de 1997.

    Diário,

    Está ficando cada vez mais difícil conseguir coisas pra jogar na água. Quando as coisas são muito pesadas tenho que fazer muito força e quando são muito leves não tem graça. Minha sorte que hoje descobri onde o papai guarda a comida. Aquelas latas de comida são ótimas pra arremessar bem longe na água. Pena que o Bobs e o Santo me arranham e mordem, senão já tinham ido também.
    Vou embora agora que o papai deve estar me procurando porque joguei todas as suas camisas na água.

      Flavinho Oliveira

    Rio, 30 de Janeiro de 1997.

    Seu Diário,
    Apesar de o papai não admitir, estamos completamente perdidos. Não temos mapas nem rádio, e a comida está cada vez sumindo mais depressa. Juninho conseguiu convencer a vovó que todas as coisas estavam fazendo peso e que se jogássemos na água, o barco não afundaria tão rápido. Desde então ela começou a ajudar ele a jogar as coisas pra fora. Ele está dormindo. Papai conseguiu injetar uma dose de calmante na veia dele. A vovó está sumida. De vez em quando ela desaparece, não entendo como, esse barco é bem pequeno pra alguém sumir assim. Mamãe tá desconfiada que esquecemos ela numa parada que fizemos numa ilha deserta.

        Flavinho Oliveira

    Rio, 3 de Fevereiro de 1997.

    Querido Diário,

    Hoje eu estou realmente preocupada. Convenci Pedro a dar a volta pra gente ver se a mamãe não ficou realmente naquela ilha. Já faz muito tempo que ela sumiu e apesar de ser boa em esconder, não é possível que ainda esteja no barco. Estou receosa que Flavinho tenha jogado ela na água. Mas não vou pensar assim. Afinal, ela é muito pesada e poderia oferecer alguma resistência.
    Eu ainda preciso decidir como vou contar pro Pedro que só temos comida pra mais um mês e se não pararmos em algum lugar que tenha mantimentos vamos começar realmente a passar fome aqui. As coisas estão bem ruins já como estão.

         Maria Oliveira

    Rio, 10 de Fevereiro de 1997.

    Caro Diário,

    Estamos de volta à ilha que paramos há uns dias atrás. Difícil de acreditar, mas reencontramos a velha. Tínhamos deixado ela aqui mesmo. Na verdade, ela tinha se apaixonado por uma tartaruga gigante e resolveu ficar. Maria não conseguiu convencer que aquilo não era uma tartaruga, mas convenceu Lurdes que aquela tartaruga não era a pessoa certa pra ela e ela merecia algo melhor. Enfim, houve muita choradeira mas conseguimos partir. O problema é que pegamos uma tempestade enorme quando saímos da ilha. O barco resistiu bastante mas algumas coisas foram mudadas. Por exemplo, agora não temos mais paredes entre os quartos. Ou teto. Mas o importante é que ele não afundou e ainda temos comida pra pelo menos um ano.

      Pedro Oliveira

    Rio, 23 de Fevereiro de 1997.

    Querido Diário,

    A comida realmente acabou. Apesar de eu estar sempre avisando Flavinho que se a comida acabasse iríamos morrer de fome, ele continuou jogando tudo na água.
    Pedro ainda não sabe, mas os meninos já estão começando a mostrar sinais de fome. Bobs está com medo de dormir porque as crianças têm olhado estranho pra ele. Santo pulou pra fora do barco quando Juninho correu atrás dele com uma faca de açougueiro na mão. Que pena, bem que Santo daria um churrasco bom.
    De qualquer maneira, amanhã Pedro vai querer comer com certeza. Já não consigo mais inventar desculpas pra me desviar quando ele pede comida. Vou pensar em algo.

       Maria Oliveira

    Rio, 25 de Fevereiro de 1997.

    Lista de Supermercado

    - 1 kg de carne
    - 100 g de presunto
    - 1 dúzia de ovos
    - farinha
    - fubá
    - 1 garrafa de azeite

        Lurdes Oliveira

    Rio, 25 de Fevereiro de 1997.

    Seu Diário,

    Peguei a vovó escrevendo aqui e vi que estava fazendo uma lista de supermercado. Bom, ela provavelmente também está com fome. Pelo menos a situação dela é melhor porque ela pensa que estamos num ônibus e podemos saltar a qualquer momento.
    Desde que a tempestade na ilha da tartaruga destruiu o leme, estamos andando na mesma direção. E como o leme estava meio virado pro lado quando foi destruído, tenho a impressão que estamos andando em círculos. Vou mandar Flavinho jogar a âncora para eu poder ir consertar isso lá embaixo e pelo menos botar o barco pra andar em linha reta ou não vamos chegar a lugar nenhum.
    Papai finalmente percebeu que não temos um grão de comida na despensa e não me pareceu tão preocupado. Está mais preocupado com o jeito como a mamãe tem agido e perguntado coisas estranhas como: “Qual deve ser o gosto de um fígado?” ou “Será difícil abrir uma caixa craniana se precisássemos comer um cérebro?”. Desde então, eles têm dormido em camas separadas.

      Juninho Oliveira

    Rio, 1 de Março de 1997.

    Diário,

    Juninho finalmente conseguiu consertar tudo lá embaixo e parece que agora chegaremos em algum lugar. Ontem à noite aconteceu uma coisa muito triste (pelo menos pro papai). Eu ouvi um grito horrível e assustador e quando cheguei no quarto do papai, mamãe tinha cortado seu pinto enquanto ele dormia. Ela olhou pra mim e disse que ele não usava pra nada mesmo. Bom, no final das contas todo mundo saboreou o petisco e até o papai exclamou: “Vou confessar, até que não estava mal.”
    A propósito, desde que consertamos o barco e seguimos viagem a vovó sumiu de novo. Desta vez é meio complicado porque não paramos em nenhum lugar e estamos em alto-mar. E aqui no barco ela com certeza não está, até porque depois da tempestade ficou mais fácil de achar todo mundo aqui. Agora me dá licença que eu vou jogar os talheres e pratos na água. Não tem mais nada pra comer mesmo.

         Flavinho Oliveira

    Rio, 7 de Março de 1997.

    Caro Diário,

    Estava andando pela proa (eu nem sei o que é proa, enfim, estava na parte de trás da bosta do barco) procurando o Bobs (pois afinal temos que comer alguma coisa) e senti um cheiro estranho.
    Era como se minha sogra estivesse por perto mas tinha um quê de algas marinhas. Quando olhei para a corrente da âncora, vi um peixe-boi coberto de algas preso lá. Estava explicado. Ele deve ter se prendido quando Flavinho jogou a âncora em alto-mar e desceu para consertar o barco. Bom, deixei ele lá para semana que vem. Hoje teremos um churrasco em homenagem ao querido Bobs, se eu conseguir achar aquele maldito cachorro.

       Pedro Oliveira

    Rio, 10 de Março de 1997.

    Querido Diário,

    Avistamos terra! É maravilhoso! Depois de tanto tempo passando fome chegamos a um lugar onde poderemos comer alguma coisa. O primeiro a descer foi Juninho e logo fez contato com um nativo que o levou para seu quarto. Depois Flavinho saiu para colher alguns frutos e Pedro foi tirar um peixe-boi que estava preso na corrente da âncora. Era bem grande e feio. O peixe-boi quero dizer.

         Maria Oliveira

    Rio, 13 de Março de 1997.

    Caro Diário,

    Tenho duas novidades hoje. Uma boa e outra ruim. A boa é que o animal preso na âncora que estava fedendo não era um peixe-boi. Era a mãe da Maria. Lavei-a com cuidado e cortei suas partes para preparar um churrasco inesquecível. Todos comemos até ficar enpanturrados. Acho que foi a melhor carne que já comi na minha vida. Maria comeu também, lambeu os dedos, adorou e ainda comentou: “Queria que mamãe estivesse aqui.”
    Mal sabia ela que estava.

       Pedro Oliveira

    Rio, 14 de Março de 1997.

    Seu Diário,

    Estamos saindo da ilha. Foi ótima nossa estadia aqui, conseguimos vários mantimentos que roubamos da aldeia nativa e ainda comemos um churrasco ótimo ontem. Eu sabia que era a vovó porque a aliança dela veio parar na minha boca, mas tava morrendo de fome. Guardei a aliança com carinho e tenho certeza que a vovó aprovaria o que fizemos. É como o papai disse, sempre que estávamos com fome na casa dela, ela trazia alguma coisa pra gente comer.
    Juninho acabou se casando com um menino da aldeia e ficou morando lá na ilha mesmo. Mal sabe ele que o casamento foi arranjado pelo papai em troca de uma garrafa de uísque. Bom, ele de qualquer maneira não me pareceu tão infeliz quando nos despedimos. Pra falar a verdade, deu um sorrisozinho de como se tivesse saído de uma encrenca bem a tempo. Às vezes penso se não teria sido melhor eu ter ficado também.

      Flavinho Oliveira

    Rio, 22 de Março de 1997.

    Caro Diário,

    Não entendo como Flavinho continua conseguindo jogar as coisas na água. Já cortei 7 dos 10 dedos das suas mãos e ele ainda mostra uma habilidade incrível com apenas 3 dedos.
    Finalmente encontrei Bobs e já está amarrado no convés (também nem sei o que é convés, enfim, a parte de baixo da bosta do barco) para o caso de passarmos por outra crise de fome.
    Maria tem andado triste. Provavelmente por causa do Juninho. Mas tenho certeza que quando mostrar o que ganhei com a troca ela vai ficar mais feliz.

       Pedro Oliveira

    Rio, 25 de Março de 1997.

    Querido Diário,

    Estou muito triste porque um negão maravilhoso me pediu em casamento na ilha e eu não aceitei. Não sei o que me deu, e agora estou aqui de novo em alto-mar, provavelmente navegando pra minha própria tumba que vai ser algum ponto no meio do oceano.
    Maldito juramento de casamento. O problema foi aquele churrasco que Pedro deu que foi maravilhoso. Eu estava morrendo de fome e ele soube matar o animal certo pra saciar meu desejo. Até que o Pedro não é tão mal assim.

    Rio, 6 de Abril de 1997.

    Caro Diário,

    Estou escrevendo estas últimas palavras para dar o tempo exato da duração da minha aventura: 3 meses. Míseros 3 meses pra dar tudo errado e chegar onde cheguei. Maria ao sair da ilha começou a chorar e só falava num certo negão chamado Akuna. Pulou na água e foi a nado na direção do horizonte. Tomara que ela tenho chegado lá. Flavinho ficou tão entediado e sem opções pra jogar na água que finalmente acabou se jogando. Agora somos só eu e Bobs. E estamos no meio de uma tempestade que não vai perdoar esse monte de madeira velha que eu ainda chamo de barco enquanto não afunda.
    Um relâmpago acabou de atingir a popa (não sei o que é isso, enfim, atingiu a parte da frente da bosta do barco), só restam agora alguns pedaços de madeira boiando na água.

      Pedro Oliveira

    Rio, 6 de Abril de 1997. – uns dez minutos depois.

    Prezado Diário,

    Conheço a impossibilidade que envolve cães escrevendo em diários, porém faço um apelo a vossa imaginação pois fui o único sobrevivente desta triste ficção. Sim, eu mesmo. Bobs o cão.
    Devo narrar nestas últimas linhas como se deu o desfecho da história. Pedro ao ser atingido pelo raio caiu na água e o barco se desfez em mil pedaços (apenas para poetizar esta narrativa preto e branca). Ficou meio desorientado no meio do mar quando viu que eu estava confortavelmente alojado em um enorme pedaço de madeira que flutuava como se fosse meu próprio iate particular. Veio nadando em direção a mim. A água estava gelada e Pedro mal conseguia bater os braços . Estava prestes a sucumbir ao deus Poseidon – mestre dos mares. Após lutar como um guerreiro para atravessar uns honestos 7 metros a nado, chegou o meu local. Colocou suas mãos na minha prancha de madeira e se posicionou para subir. Como todo cão fiel e companheiro, eu o ajudei rapidamente a sub... Tudo bem. Não serei desonesto. Na verdade, quando ele colocou a mão na minha prancha dei-lhe uma mordida nos dez dedos e arranquei uns 5 com a boca. Ele afundou que nem um poste. Dali há uns 30 minutos passou um barco e o capitão me colocou pra dentro e além de me aquecer e lavar, me alimentou com uma deliciosa ração de carne com legumes.
    Pra quem achou que todos iriam se dar mal na história, me desculpem. Mas o problema dos humanos é justamente serem racionais demais às vezes e morderem de menos.

       Bobs, o cão

Fonte: (?)


Consciência.Net