Uma visão consciente da guerra
Consciência.Net: (des)cobrindo a guerra no
Iraque, Síria, Irã e sabe lá Deus mais quem

Quinta, 10 de abril de 2003

O impacto humanitário da guerra no Iraque pode continuar por muitos anos após o fim da conflito, adverte o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. O total impacto da crise humanitária só vai começar a ser medido depois que todo o Iraque e os ativistas de organizações de ajuda puderam circular livremente, acreditam as ONGs.

As imagens dos iraquianos celebrando a queda do regime de Saddam Hussein em Bagdá, na quarta-feira, provocaram especulações de que o trabalho humanitário poderia começar de verdade. Mas agências de ajuda admitiram que não vão entrar na cidade de Basra, no sul do Iraque, controlada por tropas britânicas há quatro dias, até que elas recebam garantias sobre a sua segurança.

Segundo Ann Bouvier, porta-voz da Cruz Vermelha em Genebra, instalações essenciais para a população civil estão sendo destruídas. "Escritórios, escolas, usinas de tratamento de água e hospitais estão sendo vítimas de saques", disse Bouvier. Um canadense, funcionário da Cruz Vermelha, foi morto em Bagdá na terça-feira. Vatche Arslanian, de 48 anos, morreu instantaneamente quando seu carro foi pego no meio de um tiroteio entre as tropas iraquianas e americanas, explicou a agência humanitária.


Quarta, 9 de abril de 2003

O mais importante centro médico de Basra, um dos três nesta cidade do sul do Iraque capturada recentemente pelas forças britânicas, está um caos. Seus médicos lutam para compensar a falta de material humano e tentam tratar as vítimas da guerra da melhor maneira que podem. Aqui, como em todos os hospitais, existem dor e profundos sentimentos. Mas há raiva, também - contra as forças britânicas, responsabilizadas pela vítimas inocentes e o caos nas ruas.

"Pensávamos que quando eles entrassem na cidade, eles iriam preparar uma administração para assumir o controle", lembrou o médico Janan Peter al-Sabah, o cirurgião-chefe do hospital. "Não precisamos de água ou comida. O que falta é segurança e proteção", disse ele esta manhã. "Nossa mensagem para as tropas da coalizão é para assumirem responsabilidade pela segurança do povo, de suas casas, das instalações".

No hospital, 200 pessoas morreram e 750 foram tratadas de ferimentos de bombardeios e estilhaços. Hoje, apenas 50 dos 150 médicos apareceram para trabalhar; muitos permaneceram em casa para proteger suas famílias de saqueadores.

Pacientes e suas famílias, enquanto isso, estão revoltados com a devastação humana causada pelos ataques militares britânicos para capturar Basra. "Eles nos feriram sem qualquer motivo. Não fizemos nada para eles. Não fizemos nada para merecer esse tratamento", reclamou Abdizahar Zidane, 46 anos, um funcionário público. Ao seu lado, seu neto de um ano se recuperava de ferimentos na cabeça e tórax.

"Muitas famílias como a nossa foram destruídas por causa das agressivas forças militares", acusou Zidane. O médico Mohammed Jassim lembrava do mais pesado bombardeio na semana passada - 80 pessoas chegando ao mesmo tempo com sérios ferimentos. "Este não foi o único hospital a ver isso", relatou. "Estamos trabalhando dia e noite".

O capitão da Marinha Frank Thorp, porta-voz do Comando Central dos EUA, explicou que a região de Basra está no meio de uma transição de operações de combate para "operações de segurança e estabilidade". "Viemos como combatentes de guerra, e agora estamos no ramo de mantenedores da paz", disse o capitão Al Lockwood, porta-voz das forças britânicas no Golfo Pérsico.

A família de Abdul Hassan não concorda. Hassan, 28 anos, foi trazido por sua família de Nasiriya, logo a noroeste, para o Hospital Escola de Basra. Hoje ele respirava por aparelhos. Sua cabeça estava enfaixada, assim como o que sobrou de suas duas pernas. "Não podemos fazer nada contra os militares", explicou o primo de Hassan, que recusou-se a dar o nome. "Estamos muito revoltados. Somos pessoas inocentes". [Agência Estado]

O embaixador do Iraque nas Nações Unidas disse que “o jogo acabou”, e expressou a esperança de que o povo iraquiano consiga viver em paz. A fala de Mohammed Al-Douri foi o primeiro sinal de reconhecimento, por parte de uma autoridade do Iraque, da derrota do regime iraquiano para as forças americanas. “Meu trabalho agora é a paz”, disse. “O jogo acabou e espero que a paz prevaleça. Espero que o povo iraquiano tenha uma vida feliz”. Al-Douri disse que não tem conseguido se comunicar com o Iraque, por causa da guerra.

Quando perguntado sobre o que queria dizer com “o jogo”, Al-Douri respondeu: “a guerra”. Sobre a situação atual do líder iraquiano Saddam Hussein, o embaixador disse que não tem “nenhum relacionamento com Saddam”. [Agência Estado]

Os hospitais de Bagdá recebem cerca de cem feridos por hora, afirmou hoje um médico entrevistado na capital iraquiana pela emissora alemã N-TV. Ele acrescentou que os médicos e enfermeiros estão trabalhando muitas horas por dia para atender ao crescente número de feridos. Segundo o médico, com freqüência chegam aos hospitais pacientes que perderam tudo, suas casas e suas famílias.  [Agência Estado]

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha anunciou nesta quarta-feira a suspensão de suas atividades em Bagdá devido à perigosa situação na qual encontra-se a capital iraquiana. Um funcionário canadense da entidade morreu na cidade. "O caos e a situação precária e perigosa que reinam em Bagdá obrigam o Comitê Internacional da Cruz Vermelha a suspender suas atividades nesta cidade", anunciou hoje Moin Kassis, porta-voz da entidade em Amã. Segundo ele, no entanto, a suspensão dos serviços da Cruz Vermelha em Bagdá é temporária.


Terça, 8 de abril de 2003

Os jornalistas em Bagdá da rede de tevê por satélite Al-Jazira acham que o bombardeio americano que causou hoje a morte de um dos correspondentes da TV foi intencional. "Estou quase certo de que o escritório foi bombardeado de modo deliberado. Estivemos fazendo nosso trabalho de uma forma neutra, mas a partir de agora já não podemos continuar assim. Este bombardeio é parte da agressão criminosa lançada pelos EUA contra o povo iraquiano", disse um dos correspondente, Mayid Abdelhadi.

A rede Al-Jazira - com sede no Catar e criada em 1996 - é a primeira rede árabe via satélite a perder um correspondente na atual guerra do Iraque. O jordaniano Tareq Ayub, correspondente da rede, morreu hoje pela manhã quando o escritório da Al-Jazira em Bagdá foi atingido por um míssil lançado por um caça americano. Um cinegrafista iraquiano, Zouhair al-Iraqi, que havia começado a trabalhar para a rede dias atrás, ficou ferido. Ayub era um dos cinco correspondentes enviados pela Al-Jazira a Bagdá para cobrir a guerra.

"Americanos e britânicos sabem muito bem que o Hotel Palestine estava ocupado pelos jornalistas e por isso (o ataque) não pode ter sido uma casualidade." Ele acrescentou que os americanos já haviam manifestado, aos jornalistas da Al-Jazira e outros em geral, suas diferenças por causa da exibição das imagens dos soldados americanos mortos e tomados como prisioneiros pelos iraquianos. "Eles não nos perdoaram", disse o chefe de redação da Al-Jazira, Hussein Abdel Ghani.

E completa: "É diferente da 1ª Guerra do Golfo, onde a CNN foi a única a divulgar imagens. Primeiro no Afeganistão e agora no Iraque estamos nós e também estão os outros, jornalistas da imprensa escrita, europeus e não europeus, que contaram que o Afeganistão não era uma guerra ganha. Em suma, creio que os EUA e Israel serão os grandes derrotados desta guerra, pois sabem muito bem que antes de ganhar no terreno, a guerra dos meios de comunicação é a primeira que deve ser vencida. E não estão conseguindo. Durante anos receberão o ódio do mundo árabe e não só dele. Estes crimes são piores que os atos das guerras coloniais da França e da Inglaterra".

A Anistia Internacional (AI) condenou hoje em Londres o grande número de civis mortos devido ao uso de bombas de fragmentação por parte das forças anglo-americanas no Iraque e pediu a investigação dos crimes de guerra e das violações da lei internacional na região. 

"A Anistia Internacional exige de imediato uma moratória para frear o uso de bombas de fragmentação por parte dos EUA e da Grã-Bretanha, ao lado de outras armas de destruição. Mas também a investigação imparcial da morte de centenas de civis inocentes", declarou Irene Khan, porta-voz da AI em Londres.

O ex-primeiro-ministro da Espanha Felipe González disse que o mundo ficará à beira de um conflito amplo e generalizado se a ação liderada pelos Estados Unidos contra o Iraque não parar. "Acredito que entraremos numa Terceira Guerra Mundial se este conflito não for encerrado em breve", disse González a jornalistas, no lançamento de seu livro "Memórias do Futuro". González atribuiu a culpa pela atual situação ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. 

"Sua ignorância não lhe permite entender a gravidade da situação na qual embarcou", acredita o ex-primeiro-ministro espanhol. González governou a Espanha entre 1982 e 1996. Em sua opinião, a invasão anglo-americana do território iraquiano era "perfeitamente evitável", ao contrário da Guerra do Golfo Pérsico, em 1991. A guerra somente "alimentará mais violência e mais terrorismo", disse o ex-líder do Partido Socialista espanhol. Ainda de acordo com ele, a invasão do Iraque "levará a uma situação de humilhação para os mundos árabe e islâmico no pós-guerra".

González diz que Bush deve ser levado a sério quando diz que a guerra durará mais que o esperado, mas acredita que o líder norte-americano não se refere somente ao Iraque, mas revela sua intenção de estender a guerra à Síria e ao Irã.


Segunda, 7 de abril de 2003

Carochinhas norte-americanas. Um oficial da inteligência militar norte-americana informou que os tambores encontrados pela 101ª Divisão de Infantaria, e que se supunha conter gás de nervos, na verdade continha apenas pesticidas. "Eles pensavam que era gás de nervos. É o que os testes preliminares mostraram. Mas é pesticida", afirmou o capitão Adam Mastrianni. Segundo ele, passam bem todos os soldados que haviam sofrido mal-estar depois de os tambores serem encontrados em Hadiyah.


Domingo, 6 de abril de 2003

"Independente dos resultados da guerra contra o Iraque, uma outra instituição também vai enfrentar o paredão social: a Ciência. Ninguém nega seu caráter revolucionário e histórico na construção de soluções para os grandes problemas e dilemas da humanidade. No entanto, cada vez fica mais patente seu poder destruidor". [Cidoval Morais de Sousa, jornalista, professor universitário (Unitau / Univap) e doutorando em Geociências pela Unicamp]


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