Uma visão consciente da guerra
Consciência.Net: (des)cobrindo a guerra no
Iraque, Síria, Irã e sabe lá Deus mais quem

Sábado, 5 de abril de 2003

O presidente americano, George W. Bush, disse hoje que a guerra do Iraque deixou claro que "as nações livres não podem sentar e esperar" enquanto inimigos planejam outro ataque ao estilo do 11 de setembro.

É isso aí, Bush! As nações livres devem fazer o que você diz: se levantar e promover elas próprias um 11 de setembro. A Jihad islâmica já foi convocada. Agora que Bush se levantou, é só sentar e esperar.

Anota aí! O secretário de Estado americano, Colin Powell, negou que a Síria e o Irã serão os próximos alvos dos Estados Unidos. Em uma entrevista ao jornal árabe baseado em Londres, al-Hayat, Powell disse que os Estados Unidos não têm intenção de invadir esses dois países depois da ação militar no Iraque. Segundo Powell, ninguém na administração americana falou sobre possíveis ataques ao Irã ou à Síria e a idéia de um ataque a esses dois países é "absurda".

Hafid Katham, um iraquiano que mora em Bagdá, perdeu 11 parentes em um ataque aéreo norte-americano que o deixou terrivelmente queimado. Katham, 39 anos, estava sendo tratado, no sábado, por queimaduras severas no rosto e nas mãos em uma clínica a céu aberto instalada na cidade de Nassiriya, sul do Iraque, pelas forças dos EUA que conquistaram o lugar e que ele culpa pelo ataque aéreo. 

Perto dele, seu sobrinho Talal Ali Katham, ferido no mesmo ataque, está deitado de bruços em uma padiola, sofrendo de queimaduras severas em quase todo o corpo. A história de Katham, narrada aos solavancos por intermédio de intérpretes militares norte-americanos, revela parte do custo civil da guerra liderada pelos EUA contra o Iraque.

Katham disse que 11 pessoas foram mortas e seis saíram queimadas daquilo que descreve como um ataque aéreo contra sua casa, 13 dias atrás. Os 11 mortos eram todos seus parentes, incluindo seu pai e mãe, contou ele, enquanto os enfermeiros norte-americanos faziam curativos em suas mãos e limpavam as queimaduras em seu rosto. Ele disse que as pessoas estavam em casa e não tinham nenhuma arma quando o ataque aconteceu. 

Tradução ao "pé da letra". Perguntado quanto aos seus sentimentos com relação aos norte-americanos que o estavam tratando, o intérprete disse que Katham "não estava ressentido com o que aconteceu. Ele não está levando para o lado pessoal. Sabe que estamos tentando libertar seu país".

Uma testemunha disse à Reuters que não foram vistos soldados dos EUA na região sul e no centro de Bagdá no sábado, apesar das declarações norte-americanas de que suas tropas entraram no coração da cidade. "Fui até os subúrbios do sul, sudeste, sudoeste, aos palácios presidenciais e aos principais edifícios do setor de segurança". disse o correspondente Khaled Yacoub Oweis, após uma volta de carro pela cidade. "Não vi tropas norte-americanas".

Ele disse que soldados iraquianos e paramilitares estão se preparando para a guerra na capital e que podia ouvir o barulho de artilharia pesada. Um porta-voz militar dos EUA disse antes que suas forças haviam entrado no coração de Bagdá e que o movimento era "mais do que uma patrulha que vai e volta".


Sexta, 4 de abril de 2003

A televisão iraquiana mostrou imagens do que disse ser o presidente Saddam Hussein caminhando por áreas residenciais de Bagdá na sexta-feira, mesmo dia em que os Estados Unidos anunciaram a tomada do aeroporto internacional da capital do país.

A ansiedade e o medo permanente dos bombardeios anglo-americanos provocou abortos espontâneos e vários nascimentos prematuros entre as iraquianas grávidas, abaladas pela guerra. Hind, uma jovem de 22 anos, colocou em sua filha o nome de Hawassen (batalha decisiva). A mulher teve uma forte hemorragia e sua mãe a levou com urgência ao hospital, onde foi submetida a uma cesárea. "Eu a chamei assim para que traga sorte para o Iraque", afirma Hind, exausta, mas feliz por se tornar mãe.

Para a fundadora e diretora do Hospital Católico de Bagdá, sóror Bouchra, os efeitos da guerra são evidentes sobre a população e sobre as mulheres grávidas. Elas estão estressadas, desorientadas, muito assustadas. "A ansiedade permanente, o choque causado pelas bombas, o medo têm um efeito devastador sobre as grávidas", afirma.

Mas, uma vez chegados ao mundo, começa outro drama para os bebês - o da sobrevivência. As mães, relata entre lágrimas sóror Bouchra, assim que ouviam as sirenes ou as bombas, atiravam-se sobre os berços a fim de proteger os filhos. "Impossível tentar detê-las, ninguém pode deter uma mãe", acrescenta. "Decidimos então fechar o berçário e colocamos cada criança ao lado de sua mãe", conta. "É assim que os americanos querem fazer sua guerra de libertação?", pergunta a religiosa, "matando bebês? É inaceitável”.

Dezenas de ativistas, entre eles um conhecido defensor dos direitos civis, foram detidos depois de tentar realizar uma manifestação contra a guerra em frente a uma mesquita no Cairo, sem a permissão prévia do governo. Ashraf el-Bayoumi, de 68 anos, que lecionou Química nas universidades de Michigan (EUA) e Alexandria, telefonou à Associated Press de seu aparelho celular enquanto ele, a mulher dele e outros ativistas eram levados da mesquita Sayeda Aisha em um carro de polícia.

"Não houve provocação, a demonstração nem chegou a ser realizada, não éramos mais de 30, estávamos voltando para casa quando fomos detidos sem nenhuma razão", afirmou o ativista. "Não estou preocupado comigo, estou preocupado com o que está acontecendo no meu país".

Segundo um outro ativista dos direitos civis, Ahmed Seif el-Islam, chefe do centro Hisham Mubarak, cerca de 100 pessoas no total foram detidas durante a tentativa de protesto. Pouco tempo depois, ainda de acordo com o ativista, 20 pessoas haviam sido liberadas, enquanto as demais continuavam presas.

O Egito vem sendo duramente criticado por grupos de direitos humanos e civis por deter manifestantes, num momento em que aumenta a frustração da população com o presidente Hosni Mubarak, um aliado dos EUA, acusado localmente por ter demonstrado pouco apoio ao Iraque.

Sete civis mortos. Fuzileiros navais norte-americanos dispararam nesta sexta-feira contra um caminhão que se negou a parar num posto de controle ao sul de Bagdá. Morreram sete civis, três deles crianças, segundo um repórter da rede de televisão ABC que viajava com os fuzileiros navais.

O Iraque reagiu ao maior avanço até agora das forças anglo-americanos prometendo ataques não-convencionais. Pouco depois de o governo fazer essa ameaça, a TV iraquiana exibiu imagens de Saddam vestido em uniforme militar sendo saudado por iraquianos. Não houve condições de verificar quando as imagens teriam sido feitas. Saddam possui diversos sósias. Antes disso, a televisão exibiu um pronunciamento do presidente no qual ele se refere à queda de um helicóptero Apache dos EUA, ocorrida em 24 de março. Seria a primeira prova de que ele continua vivo depois de um bombardeio anglo-americano, na primeira noite da guerra, que tinha como alvos o líder e seus dois filhos.

Falando à imprensa, o ministro da Informação, Mohammed Saeed Al Sahaf, admitiu que "uma ilha isolada de tropas norte-americanas está às portas da capital". Ele disse que o Iraque vai reagir, provavelmente na sexta-feira à noite. "Vamos cometer um ato não-convencional contra eles, não necessariamente militar", afirmou. Os repórteres perguntaram se o Iraque estaria se preparando para usar armas químicas -- que o país nega possuir. "Não, de jeito nenhum. Mas vamos conduzir um tipo de operações de martírio".

Assustados, muitos civis buscaram refúgio no centro de Bagdá, a fim de fugir dos combates nos arredores do aeroporto, que fica a 20 quilômetros, disse a correspondente Samia Nakhoul. "Foi uma noite infernal", disse uma mulher, trêmula. Achamos que eles tinham entrado em Bagdá, havia foguetes e aviões jogando bombas a noite inteira. Segundo os correspondentes da Reuters, os moradores de Bagdá estão tensos e amedrontados, sentindo que uma tragédia é iminente. A maioria preferiu ficar em casa, deixando as ruas ocupadas apenas por milicianos. Na noite de quinta-feira, faltou energia pela primeira vez na capital desde o começo da guerra. No dia seguinte, o fornecimento havia sido parcialmente restabelecido. Os EUA negam que tenham atacado a rede elétrica. A cidade está agora no raio de alcance dos foguetes da artilharia dos EUA, que já avançaram mais de 500 quilômetros desde o Kuweit. Mesmo assim, em Washington, uma fonte do governo pediu cautela. "Ainda estamos no meio da batalha -- uma batalha que continua letal. Ainda não acabou".


Quinta, 3 de abril de 2003

A Anistia Internacional expressou esta quarta-feira sua preocupação com o uso de bombas de fragmentação "durante ataques do exército americano em áreas muito povoadas", e pediu que não sejam usadas minas terrestres no Iraque.

"Trinta e três civis morreram, entre eles várias crianças, e 300 ficaram feridos ontem nos ataques da coalizão contra a cidade de Hilla (...) A Anistia sente-se particularmente incomodada com as informações de que foram usadas bombas de fragmentação nesses ataques, que poderiam ser as responsáveis pela morte de civis (...) Nenhum dos protagonistas do conflito no Iraque deve recorrer a armas que atinjam alvos de forma indiscriminada", disse a Anistia. "Se os Estados Unidos querem proteger verdadeiramente os civis, devem se comprometer publicamente a decretar uma moratória do uso de bombas de fragmentação", acrescentou.

O Comando Central dos Estados Unidos no Qatar anunciou que as forças americanas lançaram hoje no Iraque, "pela primeira vez em um conflito armado", um novo tipo de bomba de fragmentação, capaz de driblar o vento e o mau tempo.


Quarta, 2 de abril de 2003

Aviões dos Estados Unidos atingiram na quarta-feira uma maternidade do Crescente Vermelho em Bagdá, um prédio comercial e outros prédios civis, matando diversas pessoas e ferindo ao menos 25, disseram fontes do hospital e uma correspondente da Reuters.

Os ataques aconteceram às 9h30 (3h30, em Brasília) e pegaram motoristas de surpresa, nas ruas durante um intervalo de bombardeios. Ao menos cinco carros foram destroçados e motoristas queimados dentro deles, afirmou a correspondente da Reuters Samia Nakhoul. Ao menos três médicos e enfermeiras trabalhando no hospital do Crescente Vermelho no Iraque ficaram feridos, assim como pacientes que procuravam auxílio no local. Os mísseis destruíram partes do prédio de comércio de Bagdá, que fica próximo a um escritório de segurança do governo – aparentemente ileso dos bombardeios.


Terça, 1 de abril de 2003
21h37 em Brasília e 03h37 em Bagdá

"Apesar das possíveis conseqüências arriscadíssimas do conflito militar, a reação praticamente instintiva do governo dos EUA consistiu em direcionar o confronto para o terreno da força, solapando as possíveis oportunidades diplomáticas e até expressando uma profunda apreensão ante a hipótese de que outros se sentissem tentados a procurar 'esvaziar a crise' por meios diplomáticos, o que as metas geralmente buscadas pela comunidade internacional, mas sem uma demonstração decisiva da eficácia do poderio e da determinação militares norte-americanos".

Este trecho foi escrito por Noam Chomsky em dezembro de 1990. Qualquer semelhança é mera coincidência.

Como havia informado no dia 30, o governo da Suiça publicará na Internet uma lista com o nome de todas as vítimas civis do conflito armado deflagrado pelos Estados Unidos contra o Iraque, atualizando-a regularmente com o objetivo de mostrar o horror da guerra. Os dados serão recolhidos por intermédio de diversas fontes. "Somente vendo a lista completa poderemos nos dar conta de quanto isto é terrível", explicou a chancelaria suíça.

Quando a notícia saiu na Agência Estado, o endereço estava errado. O Editor Assistente do Portal Estadão, Carlos Orsi Martinho, nos informa que o endereço correto é o seguinte:
http://www.dfae.admin.ch/eda/e/home.html

E já está funcionando. Em inglês, francês, italiano e alemão.

Três soldados britânicos feridos descreveram como sobreviveram a um ataque de um avião Thunderbolt A-10 americano, que matou um dos seus companheiros e destruiu dois veículos blindados. Um dos sobreviventes criticou o piloto americano por mostrar "nenhuma preocupação com a vida humana" e o acusou de ser "um caubói" que tinha "saído para festejar".

Outro sobrevivente disse que tinha saído, cambaleante, dos destroços de seu tanque leve e acenara freneticamente ao piloto americano para tentar parar o segundo ataque. O chamado incidente com fogo amigo aconteceu a 40 quilômetros ao norte de Basra, quando um avião americano atirou contra um comboio de cinco veículos. Como conseqüência, um soldado está desaparecido – presumidamente morto – e outro está sob tratamento intensivo no RFA Argus, o navio-hospital das forças britânicas no Golfo. Um terceiro escapou ileso e três outros com ferimentos mais leves. [BBC]
 

Memória
Saddam também chora
Gustavo Barreto

O golpe de que tanto se fala. Iraque, 1963. A CIA colocara o Ba'ath, grupo político de Saddam Hussein – à época apenas um "promissor" líder estudantil e famoso por seu jeito "durão" –, no poder. Um golpe de Estado, sem especulações, que ninguém esconde hoje em dia. Apenas não divulga muito.

Saddam tinha grandes amigos tanto no Ba’ath quanto na CIA. Fora escolhido pelos agentes norte-americanos exatamente pela sua já conhecida voracidade, decorrente de uma infância triste e sombria. Pelo mesmo motivo, foi escolhido pelo então presidente do Iraque pós-golpe como vice-presidente em 1968.

Os líderes do partido de Saddam chegaram a afirmar que era preciso “um sujeito durão” no governo para “impor a ordem e a paz”, como destaca Naji Sabri nesta época – hoje ministro das relações exteriores.

Saddam mostrou-se mais violento do que já parecia ser – ou talvez os integrantes do partido eram pouco observadores – e impôs um golpe dentro do golpe, em 1979, tornando-se líder do regime que perdura até hoje e que já provocou a morte de milhares de civis inocentes.

A CIA sabia das crueldades de Saddam Hussein, porém estava mais preocupada em acabar com o regime comunista local e com os próprios comunistas militantes. Documentos históricos afirmam que o Ba’ath, por meio de seus capangas, chegou a eliminar 800 comunistas acusados pela CIA de subversão.

O que talvez a “inteligência” americana não sabia era como pensava Saddam. Logo que chegou ao poder, o ditador iraquiano convocou uma famosa assembléia pública e chamou, nome por nome, todas as pessoas que ele julgava que deveriam ser executadas – incluindo nesta lista integrantes do próprio Ba’ath e alguns de seus amigos há 20 anos. A razão teria sido um complô sírio. Saddam adora complôs. "Houve uma traição", disse. Em determinado momento chorou. Foi aplaudido.

O secretário-geral do Conselho da Revolução confessou o seu envolvimento no complô. Ele havia sido preso secretamente e torturado dias antes. Acabou revelando as datas, as horas, os locais de reunião dos conspiradores. E então entregou nomes. Esses detalhes só podem ser conhecidos porque Saddam queria que assim fosse. Esta assembléia foi filmada e exibida em todo o país. O recado estava dado.

Ao abrir sua biblioteca para seus novos ministros e visitantes, surpresa: muitos livros de Stálin. Sendo apoiado pela CIA em um primeiro momento, a pergunta era inevitável: seria Saddam comunista? A resposta ele mesmo deu: “Não, nem Stálin era”.

A partir daí, qualquer erro ou acerto foi sufocado por um dos mais inaceitáveis erros de toda a História da política externa norte-americana. “Inaceitável” – ironicamente – foi palavra usada com ênfase em um importante discurso de George W. Bush Pai contra Saddam no começo de 1991. Foi aplaudido.

04h30 em Brasília e 10h30 em Bagdá

Os países árabes e islâmicosdecidiram pressionar pela votação de uma resolução na Assembléia Geral da ONU contra a guerra da coalizão anglo-americana no Iraque, para mostrar a firmeza da oposição mundial. "Nós iremos à Assembléia Geral", disse o embaixador iraquiano na ONU, Mohammed Al-Douri, presidente do Grupo Árabe na ONU - que reúne 22 países -, depois de uma reunião fechada com o secretário-geral, Kofi Annan.

A Organização do Grupo da Conferência Islâmica, que tem 57 países membros, emitiu uma nota enfatizando sua inclinação de levar a questão diante da Assembléia Geral. A resolução a ser colocada em votação determina um cessar-fogo imediato, a retirada das forças estrangeiras do Iraque e o respeito à soberania e independência política do Iraque e seus vizinhos. 

Numa votação da Assembléia Geral da ONU participam todos os 191 países membros, sendo que nenhum tem poder de veto, ao contrário do Conselho de Segurança, onde os cinco membros permanentes (EUA, Reino Unido, França, China e Rússia) têm poder de veto. Uma resolução aprovada pela Assembléia Geral não tem efeito legal, embora reflita a opinião internacional.

A revista inglesa Index on Censorship outorgou à rede de TV árabe Al-Jazira um prestigioso prêmio por liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que a emissora do Catar é acusada por Washington de parcialidade em suas reportagens dobre a guerra. O prêmio - por ter "driblado" a censura - é considerado, internacionalmente, um importante reconhecimento aos meios de comunicação comprometidos na luta pela liberdade e a independência de informação. A postulação havia sido proposta por personalidades do setor e o prêmio reflete a atenção e o apreço despertados pela rede em boa parte do mundo da informação.


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