Uma visão consciente da guerra
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acerca do cenário internacional

Quarta, 26 de março de 2003
23h30 em Brasília e 05h30 em Bagdá

Clóvis Rossi escreveu na Folha de S. Paulo em 23 de março:

"Já é lugar comum dizer que, na guerra, a primeira vítima é a verdade. Mas o ataque norte-americano ao Iraque permitiu, talvez pela primeira vez na história, que se comprovasse, ao vivo e em cores, no mundo todo, como um presidente norte-americano mente descaradamente. O mentiroso chama-se George Walker Bush. A mentira: dizer que que o objetivo do ataque era livrar 'o mundo de um grave perigo'.

O 'grave perigo' foi exibido pela TV: soldados iraquianos em penca rendendo-se sem disparar um mísero tiro; patética defesa antiaérea, que nem cócegas faz em um inimigo que dispara grande parte de suas bombas e mísseis de muito longe; pouco ou nenhum uso de armas convencionais, quanto mais de armas químicas ou biológicas.

O que está havendo no Iraque não é uma guerra nem mesmo um ataque. É um massacre. É verdade que seres humanos, mortos ou vivos, pouco frequentam o noticiário sobre a guerra, mas o editorial de ontem desta Folha foi ao ponto ao dizer: "Por maiores que tenham sido os avanços da tecnologia bélica e por mais que tenha crescido a precisão das bombas e dos mísseis, o ser humano permanece suscetível a explosões de grande magnitude. É preciso desprezar a vida humana para lançar um ataque como o de ontem (sexta-feira) sobre uma cidade povoada por milhões de pessoas, a esmagadora maioria deles civis tão inocentes quanto os norte-americanos mortos nos atentados terroristas de 11 de setembro".

A desumanização do mundo sob o império da superpotência ensandecida aparece também nas comemorações, em meio à guerra, pela alta da Bolsa de Nova York. Seria ingênua tolice esperar que o capitalismo e os capitalistas trocassem o lucro pelo luto, ainda mais se os mortos são 'estrangeiros'.
Mas, pelo menos, em respeito aos mortos norte-americanos, poderiam evitar a cerimônia de encerramento do pregão em que um cidadão com sorriso apalermado bate o martelo".

Do Na Cara do Gol: Ironia? O dia escolhido para o primeiro bombardeio maciço sobre Bagdá é o dia do ano novo iraniano. Aladim, Sinbad e Ali Babá devem estar todos acuados em seus abrigos subterrâneos.

A organização defensora dos direitos humanos Anistia Internacional (AI) disse esta quarta-feira que as duas partes envolvidas no conflito no Iraque podem ter cometido crimes de guerra durante os combates entre as tropas anglo-americanas e iraquianas.

Numa outra nota, a Anistia pede uma "investigação imparcial e imediata sobre a morte de civis durante o conflito no Iraque", após o bombardeio, hoje, de um mercado de Bagdá, que deixou pelo menos 14 mortos e 30 feridos. "Há informações que aumentam a preocupação de que ambos os lados tenham cometido crimes de guerra no recente conflito", indicou a entidade. [AFP]

A polícia prendeu hoje duas vencedoras do Prêmio Nobel da Paz e outras 60 pessoas que protestavam contra a guerra nos arredores da Casa Branca, em Washington (EUA). Mairead Corrigan Maguire, Nobel da Paz de 1976 por sua atuação no conflito da Irlanda do Norte, e Jody Williams, vencedora em 1997 por seu trabalho contra as minas terrestres, foram algemadas depois que se recusaram a deixar o parque Lafayette, que fica em frente à sede do governo norte-americano.

Também foram detidos líderes religiosos e o ativista Daniel Ellsberg, famoso desde a época da guerra do Vietnã. O grupo estava sentado em círculo, no parque, gritando "Paz, Shalom [paz, em hebraico]''. Eles traziam rosas e fotos chocantes de vítimas de guerra. Antes de ser presa, Maguire disse que pretendia fazer manifestações contra a guerra diariamente até 18 de abril, Sexta-Feira Santa. "Na Irlanda do Norte somos incentivados a resolver nossos problemas com o diálogo, e eu gostaria de ver o mesmo aqui", afirmou Maguire, que pediu uma reunião com o presidente George W. Bush.

Ellsberg, ex-analista do Pentágono que em 1971 revelou vários segredos da guerra do Vietnã à imprensa, foi aclamado pelos demais manifestantes no momento em que era levado pela polícia. Entre os detidos estão também um bispo católico, outro metodista e um importante rabino. A manifestação foi organizada pelo grupo católico Pax Christi.

Em Tampa, a poucos quilômetros do lugar onde Bush se encontrava, cerca de 250 pessoas fizeram outra manifestação contra a guerra. "O povo da Flórida diz não à guerra", disse Mauricio Rosas, porta-voz da coalizão de entidades pacifistas que convocou a manifestação. Em Nova York, 16 pessoas foram detidas quando faziam uma manifestação contra Israel. Unido por correntes, o grupo atrapalhou o trânsito da Quinta Avenida, em Manhattan, durante quase uma hora, segundo a polícia. [Reuters]

Servindo de exemplo. O presidente da Libéria, Charles Taylor, afirmou hoje que irá ignorar abertamente um embargo de armas imposto pelo Conselho de Segurança (CS) da ONU, argumentando que "se outros podem tomar atos preventivos" - uma referência à guerra americana contra o Iraque -, então a ONU não pode proibi-lo de comprar armamentos para defender sua nação. O CS impôs à Libéria embargo de armas, proibição de viagens de altos funcionários do governo e veto à venda de diamantes depois de determinar, em maio de 2001, que Taylor forneceu apoio militar e financeiro aos rebeldes da vizinha Serra Leoa.


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