Uma
visão consciente da guerra
Análises do jornal Consciência.Net acerca do cenário internacional |
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Terça, 25 de março de 2003
Bush unindo povos. Voluntários egípcios estão viajando ao Iraque para lutar contra o que consideram tropas invasoras. Segundo informações publicadas pelo jornal libanês Al Zaman, cerca de 1,4 mil egípcios teriam conseguido visto de entrada no Iraque desde que a guerra começou. Na Jordânia, que faz fronteira com o Iraque, a guerra está levando exilados iraquianos, que escaparam justamente do regime de Saddam Hussein, a voltarem para defender o país. O empresário egípcio Abu Hassassin, de 42 anos, resolveu deixar a família no Cairo para lutar no Iraque e disse que o sentimento de "irmandade árabe muçulmana" explica a decisão. "Eu quero lutar contra os invasores em defesa dos meus irmãos iraquianos. A Jihad é mais importante do que a minha família", disse o empresário. "Essa guerra é um ataque contra nossa terra, nossa religião. Vou defender minha dignidade, a dignidade do povo árabe", acrescentou o egípcio, após conseguir o visto na embaixada do Iraque no Cairo. Um estudante de 17 anos também havia conseguido o visto e disse estar disposto a morrer defendendo o Iraque. "Os muçulmanos têm a obrigação de lutar. Não tenho medo de morrer. Se não fizermos nada, seremos os próximos", disse o jovem, que pediu para não ser identificado por temer a reação do governo egípcio. As informações são da BBC. O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda financeira dos Estados Unidos no mundo, atrás apenas de Israel. O país recebe anualmente US$ 2 bilhões, que representam a principal fonte de receitas da economia egípcia. Eleições de 2004 nos EUA. Dos seis pré-candidatos democratas no páreo, apenas dois fizeram forte oposição à guerra, e são os dois com menos chance de ganhar - o ex-governador Howard Dean, do pequeno Estado de Vermont, e um excêntrico reverendo negro de Nova York, Al Sharpton. Aliás, o líder nas pesquisas até agora, senador Joe Lieberman, é o mais “falcão” de todos os pré-candidatos democratas. Segundo os analistas, ele sabe, melhor do que os outros, que essa guerra será um “mau negócio” para o partido da oposição. Em 2004, não haverá um Eugene McCarthy, senador democrata que liderou o movimento pacifista em 1968. [Agência Estado] Após meses de denúncias e investigações para fundamentar uma guerra, ainda não apareceu nenhuma forte evidência de que o Iraque tenha armas de destruição em massa. Agora, depende da força invasora dos EUA encontrá-las... se é que elas existem. As acusações americanas e britânicas de que o Iraque ocultava armas químicas, biológicas ou nucleares foram o mais freqüente motivo alegado por Washington para atacar o Iraque. Se as unidades americanas informarem rapidamente que encontraram programas clandestinos de armas, os críticos poderão questionar a autenticidade das versões ou insinuar que a informação sobre sua presença não foi informada aos inspetores da ONU e, neste caso, se perguntará por quê. Se se encontrarem poucas dessas armas, a mesma premissa para a guerra será colocada em dúvida. O ceticismo sobre as afirmações americano-britânicas ficou claro na semana passada com a renúncia do líder da Câmara dos Comuns, Robin Cook, do gabinete britânico, em protesto contra o apoio do governo de Londres aos planos bélicos de Washington. "O Iraque provavelmente não tem armas de destruição em massa, segundo o que se entende comumente por esse termo, ou seja, um artefato capaz de ser lançado contra um alvo urbano estratégico", afirmou Cook, que tinha acesso a informações britânicas de alto nível. Enquanto isso, no Congresso americano a revelação de que uma nova denúncia dos EUA sobre o suposto programa nuclear estava baseada em um documento falsificado levou o senador Jay Rockefeller a solicitar ao FBI que investigue se existe "uma campanha maior de enganos" sobre o Iraque, informa a Agência Estado. Um informe do Departamento de Estado em dezembro afirmou que o Iraque havia tentado importar em segredo urânio de Níger - afirmação repetida por Bush em sua mensagem anual à nação. Mas, no início de março, El Baradei informou que a base da denúncia - que, segundo se afirmava, era um documento oficial do governo do Níger - era uma falsificação. Agora que os inspetores da ONU tiveram de se retirar por causa da guerra, fica a cargo das forças americanas localizar as armas proibidas e convencer o mundo sobre sua existência. Mas especialistas dizem que as provas que balizariam os ataques podem ser plantadas pela inteligência americana. Uma unidade da empresa norte-americana de serviços petrolíferos Halliburton será a responsável pelo combate a incêndios em poços de petróleo e pelas obras de reconstrução no Iraque, como aconteceu em 1991, após a Guerra do Golfo, informaram autoridades norte-americanas. As companhias Boots & Coots International Well Control e Wild Well Control, ambas subsidiárias da Halliburton, serão responsáveis pela tarefa de combate aos incêndios. A Halliburton era comandada pelo hoje vice-presidente dos EUA, Dick Cheney. Ele renunciou cargo na empresa em 2000 para se inscrever na chapa republicana para as eleições presidenciais daquele ano. Em 1991, a companhia supervisionou os esforços de combate a incêndios em 320 poços de petróleo no Kuwait após a retirada das tropas iraquianas. Dentro do argumento de que é necessário "libertar os iraquianos" do ditador Saddam Hussein, eu pergunto: por que o Iraque? Na Turquia, com 80% do armamento turco sendo proveniente dos Estados Unidos, mataram 50 mil curdos e fizeram 3 milhões de refugiados. É ali do lado, por que não atacar lá também e "libertar os curdos"? Na Chechênia, não gosto nem de falar em números de separatistas mortos pelos russos. Transcende o imaginário humano. Li em uma lista que o Oriente Médio é uma "região famosa pela produção de déspotas sangüinários". Pergunto qual a origem disso tudo. Afinal: por que essa prioridade com o Iraque? Sugiro que se pegue um mapa do petróleo e o se compare com o mapa dos conflitos promovidos pela CIA. "Humanitários". O ministro do Exterior da Turquia, Abdullah Gül, confirmou que Ankara está planejando o envio de tropas para uma zona-tampão de 20 quilômetros dentro do norte do Iraque se uma "situação de crise" se desenvolver. Gül disse à agência de notícias Associated Press (AP) que seria uma força humanitária que iria cuidar dos grandes números de refugiados fugindo do conflito do Iraque. Planos anteriores da Turquia de enviar tropas ao Iraque alarmaram os Estados Unidos e a União Européia, que temem que os curdos iraquianos podem lutar contra a presença da Turquia, provocando uma "guerra dentro de uma guerra", informa a BBC. Ao responder sobre o número de soldados turcos que seriam enviados, Gül disse que dependeria da "necessidade". A Turquia mantém uma presença militar no Iraque há anos, no conflito com rebeldes curdos turcos Os trapalhões. Um caça F-16 americano atacou uma bateria de mísseis Patriot dos próprios Estados Unidos, depois de ter sido interceptado pelo radar do equipamento. Esta é o segundo incidente que parece ter sido causado na guerra iraquiana por uma aparente incapacidade do sistema Patriot de distinguir entre forças amigas e inimigas dos americanos. No fim de semana, um caça Tornado britânico foi derrubado por um míssel Patriot perto da fronteira entre o Kuwait e o Iraque, informa a BBC. O
presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, incluiu a Colômbia
entre os beneficiários de seu orçamento de cerca de US$ 75
bilhões para cobrir os custos da guerra contra o Iraque, gastos
com a segurança interna e algumas outras operações
internacionais de emergência. Bush não especificou quanto
a Colômbia, um dos únicos países latino-americanos
a apoiar abertamente a guerra, receberá, mas fontes do governo colombiano
disseram hoje que poderia ser algo na ordem de US$ 105 milhões.
A única citação à Colômbia no pacote
de emergência de Bush é um montante de US$ 34 milhões
dentro da Iniciativa Regional Andina (IRA) para a luta contra as drogas
O filme Mera Coincidência [Wag The Dog], com Robert DeNiro e Dustin Hoffmann, não é exclusivamente de humor. Ele mostra muito da propaganda de guerra que se usa por parte de governos corruptos e com interesses bélicos. Tanto que este filme tem dois dos maiores atores de toda a história do cinema norte-americano e quase ninguém conhece. Uma das formas de se propagar mistificações abordadas no filme acaba de ser utilizada por Colin Powell. Uma lógica no filme em questão era a seguinte: os responsáveis pela propaganda queriam criar uma guerra para desviar a atenção do público de um escândalo interno grave. Os assessores do presidente (no filme) acharam a idéia absurda, como você leitor deve ter pensado. Mas sugiro que veja o filme para descobrir do que a retórica é capaz. Uma das táticas foi soltar na mídia um rumor de que haveria um bomber B-52 rumo à Albânia - que foi o país escolhido para a farsa (o que você sabe sobre a Albânia?). Quando as primeiras perguntas dos ditos "bem informados" repórteres viessem, eles negariam tudo sem dar nenhuma justificativa. Isso alimentaria a curiosidade da imprensa. Negar, negar, negar: provavelmente eles estão mentindo. É claro que logo se descobriria que o conflito é uma farsa, mas até lá a suposta guerra já teria tomado um bom tempo das redações. E, no filme, eles precisavam de tempo até as eleições. O processo eleitoral de 2004 não é o motivo central da guerra de Bush, porém continua sendo um dos motivos ou, no mínimo, uma agradável conseqüência. É quase científico: o apoio popular ao presidente cresce em tempos de matança maquiada. Como vimos, uma das formas mais simples de desviar a atenção do público é colocar medo nele. Isso é feito por meio dos falsos "alertas laranjas" - que indicariam um suposto risco grande de atentados terroristas. Outra forma, denunciada neste filme, é jogar a culpa do que você mesmo fez para o adversário. E a Reuters relata nesta segunda (24): "O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, disse nesta segunda-feira que os Estados Unidos ouviram relatos de que Bagdá planejava usar armas químicas contra iraquianos no sul do país e jogar a culpa nos Estados Unidos". Fica claro - tamanha a certeza de Rumsfeld e sua gangue sobre as armas químicas que o Iraque possui - que se elas não existirem, uma saída fácil seria colocá-las em uma fábrica esvaziada e argumentar: "Não disse?". Uma boa possibilidade seria um erro logístico dos militares, caso o golpe baixo fosse utilizado, colocando as armas num lugar já inspecionado pelos inspetores da ONU. Foram mais de 700 inspeções. Isso comprovaria que as armas chegaram ali depois. Na continuação da reportagem: "Segundo um alto funcionário do Departamento de Estado, que pediu para não ser identificado, há relatos de que Ali Hassan al-Majido, sobrinho de Saddam Hussein e comandante das tropas iraquianas no sul, tinha autorização para usar armas químicas contra a população muçulmana xiita. O funcionário negou-se, no entanto, a revelar a procedência da informação". Jornalismo shakespeareano: ninguém sabe quem é o funcionário. Nem de onde veio a informação. Isso é uma notícia ou um livro de George Orwell? Só não vê quem é cego. É mais do que evidente que esta informação foi criada pelo Gabinete de Influência Estratégia [Office of Strategic Influence (OSI)], concebido pelo Secretário da Defesa Donald Rumsfeld, em conseqüência do 11 de Setembro. Não se trata de uma invenção minha. Está nos jornais norte-americanos e em artigos de respeitados analistas internacionais. E mais da Reuters: "O funcionário do Departamento de Estado repetiu informações, que circularam no início do mês no Pentágono, de que os iraquianos estavam tentando adquirir uniformes iguais aos usados pelos soldados britânicos e norte-americanos 'para realizar massacres que seriam atribuídos às forças da coalizão'. Ele não deu detalhes da fonte ou da credibilidade das informações". Esta última frase,
que fecha a "reportagem" (atenção: aspas), é a mais
importante frase do texto e, por mera coincidência, a última.
O embaixador iraquiano na ONU, Mohammed Aldouri, disse hoje em entrevista para a rede de televisão CNN acreditar que a guerra em seu país "pode durar anos". Ele também acusou os Estados Unidos de atacarem áreas residenciais, inclusive na região rural do Iraque. "Os americanos estão matando o povo iraquiano", afirmou Aldouri. "Isso é uma violação da lei humanitária internacional". Primeiros beneficiados. O governo dos Estados Unidos planeja assinar contrato avaliado em US$ 4,8 bilhões com a empresa Stevedoring Services of America (SSA) para a reconstrução da cidade portuária iraquiana de Umm Qasr, onde forças do Iraque resistem ao ataque anglo-americano, informou nesta segunda-feira a mídia americana. A SSA será a responsável pela operação do porto e ficará a cargo das doações humanitárias e materiais para a reconstrução de Umm Qasr, localizada no sul do país. As forças anglo-americanas
poderiam sofrer até 3.000 baixas na guerra, já que o
secretário da defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, cometeu "um erro"
ao "subestimar" o número de soldados necessários para a campanha
militar contra o regime de Saddam Hussein. Foi o que afirmou o ex-comandante
das tropas americanas durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991, Barry
McCaffrey, que, 12 anos atrás, comandou a 24ª Divisão
de Infantaria na operação "Tormenta do Deserto".
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