Uma
visão consciente da guerra
Análises do jornal Consciência.Net acerca do cenário internacional |
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Sexta, 21 de março de 2003
Desperdício. Em 17 minutos, a partir das 9 horas, 320 mísseis de cruzeiro tipo Tomahawk caíram sobre Bagdá, destruindo alvos estratégicos, como palácios presidenciais e centros de comando. O custo do lote de mísseis empregados no bombardeio à capital iraquiana é de US$ 384 milhões. Resumindo: US$ 384 milhões em 17 minutos. É nesses momentos
que você vê quem é quem. Há pessoas que estão
discutindo qual a reação das bolsas de valores diante da
guerra. Será boa? Será ruim? Eu sei, sem precisar de especialistas,
qual a reação de um fragmento de bomba em uma criança
iraquiana. Você sabe?
Piada. Perguntado nesta sexta-feira por que o regime iraquiano não usou até agora as armas de destruição em massa contra as tropas americanas e britânicas, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, respondeu: “Não sei”. Uma é que um grupo de generais, interessados em salvar a própria pele, teria assumido o controle dessa parte do arsenal iraquiano e o teria colocado longe do alcance de Saddam. Outra possibilidade é que o próprio ditador saiba que o emprego dessas armas justificaria a decisão do presidente George W. Bush de atacar seu país, colocaria a opinião internacional do lado dos EUA e eliminaria as únicas saídas à sua disposição: entrar para a galeria de mártires do mundo árabe ou – o que é menos provável - tentar sobreviver ao ataque e montar uma resistência clandestina à ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Foto: Reuters, 21 de março
de 2003
Praticamente ao mesmo tempo em que Rumsfeld falava das impressionantes bombas inteligentes, tentando minizar as perdas civis, um míssil atingia o Irã, na tentativa de atingir Basra, a 50 km do local. Essa deve ter repetido de ano. Existe, também, a possibilidade de Saddam Hussein não usar armas de destruição em massa contra as tropas americanas simplesmente porque não mais as possui. Embora longe de comprovada, esta tese não foi descartada por Hans Blix e Mohamed El-Baradei, os chefes das equipes de inspetores de armas das Nações Unidas. [Agência Estado] ONU. Os Estados Unidos estão oficializando na ONU um pedido de comandar politicamente o Iraque em um possível governo de transição. Se não for aprovado, já sabemos o que acontecerá. Depois de algum tempo, quando eles conseguirem colocar algum governante submisso, eles podem partir para a Síria e para o Irã. Simultâneamente, há indícios de que a Coréia do Norte pode ser atacada. O Afeganistão já retomou as atividades bélicas. E, no mundo inteiro, os protestos estão cada vez mais violentos. O pior vírus é o da violência. Pega no ar. Na Inglaterra, a oitava integrante do governo Blair renunciou em apenas uma semana. A conselheira sobre questões legais internacionais, Elizabeth Wilmhurst, pediu demissão de seu cargo em protesto pela participação da Grã-Bretanha na guerra sem o aval da ONU, informa o jornal The Guardian. Trata-se de uma respeitada especialista em questões do direito internacional que trabalhava no ministério desde 1977. Desobediência. Cerca de 1,5 mil soldados turcos entraram no norte do Iraque, poucas horas depois do anúncio de que a Turquia havia autorizado o uso de seu espaço aéreo por aviões militares americanos. Um porta-voz do Exército turco disse que a força inicial de aproximadamente 1,5 mil soldados pode ser ampliada com o envio de um número ainda maior de tropas. As autoridades turcas afirmaram que enviariam suas tropas ao norte do Iraque mesmo sem a aprovação americana. Ai, ai, ai. Imprensa. Dizer que
o fato de jornalistas estarem pela primeira vez acompanhando as tropas
norte-americanas é um avanço da mídia é uma
farsa. Isto só facilita o controle do deslocamento destes jornalistas.
É realmente engraçado ouvir de Rumsfeld, secretário
de Defesa dos EUA, que "nunca houve tanta liberdade para a imprensa na
cobertura de uma guerra.
O editorial da revista The Nation, talvez a maior publicação da esquerda norte-americana, traz um curioso comentário em seu editorial: "Outro assunto que precisa ser considerado é o cenário pós-guerra no Oriente Médio. Os Falcões já estão sustentando que os Estados Unidos deveriam usar o Iraque já dominado como uma base para um aumento da pressão militar no Irã e na Síria, com o objetivo de se ir mais longe nas 'mudanças de regime'. Se o governo escolher este caminho, estará provando ser mentira a retórica sobre trazer democracia para a região".Não preciso dizer mais nada. O texto completo em português está aqui. E em inglês, aqui. Foi publicado ainda no jornal um fundamental depoimento de Jennifer Lowenstein, que passou boa parte dos últimos três anos em campos para refugiados no Estreito de Gaza, Cisjordânia e Líbano. Ela é membro da Aliança Palestina/Israel para Paz & Justiça (PIPAJA) e fundadora do Projeto Rafah-Madison Cidades Irmãs. Entre outras coisas, ela
nos lembra que, quando um morador do Oriente Médio se cansa de tantas
notícias ruins e de tantas mortes, ele não tem a opção
de simplesmente desligar a tevê ou o rádio. Eu, o povo brasileiro,
o povo norte-americano e os povos de diversas outras nações
têm esta opção. Mas quem mora no Oriente Médio
não.
Apoio? A "coalizão dos países voluntários" do presidente dos EUA, George W. Bush, passou a contar com 45 nações, segundo a Casa Branca, mas sua garantia de que cerca de 1,2 bilhão de pessoas apóiam o conflito é contestada pelo crescente sentimento antiamericano mesmo nos países aliados. A administração Bush acrescentou na quinta-feira à lista países como Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Kuwait, Ilhas Marshall, Micronésia, Mongólia, Palau, Portugal, Ruanda, Cingapura, Ilhas Salomão e Uganda. No entanto, pesquisas têm mostrado consistentemente uma grande oposição à guerra em muitos outros países da coalizão, como Hungria e Eslováquia, onde três em cada quatro pessoas se colocaram contra a guerra. O sentimento antiguerra é alto na Grã-Bretanha, Itália, Japão, Holanda, Espanha e outros países da coalizão. A Bulgária é um dos mais ardorosos aliados dos EUA, tendo oferecido 150 tropas não-combatentes e apoio logístico. Mas seu presidente, Georgi Parvanov, afastou-se do primeiro-ministro na quinta-feira e denunciou o conflito. "Não aceito essa guerra", disse ele, num discurso televisionado à nação. O modesto apoio militar e moral oferecido pela maioria dos governos da coalizão não deve ser confundido com a posição de seus povos, advertiu Jonathan Stevenson, um analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, em Londres. "Muito disso é lorota", afirmou. "A visão sobre os Estados Unidos, mesmo entre aqueles nomeados como partidários da política dos EUA no Iraque, tem despencado". A lista completa dos países da "coalizão dos voluntários" é a seguinte: Afeganistão, Albânia, Austrália, Azerbaidjão, Bulgária, Cingapura, Colômbia, Coréia do Sul, Costa Rica, Dinamarca, El Salvador, Eritréia, Eslováquia, Espanha, Estônia, Etiópia, EUA, Filipinas, Geórgia, Grã-Bretanha, Holanda, Honduras, Hungria, Ilhas Salomão, Ilhas Marshall, Islândia, Itália, Japão, Kuwait, Letônia, Lituânia, Macedônia, Micronésia, Mongólia, Nicarágua, Palau, Polônia, Portugal, República Checa, República Dominicana, Romênia, Ruanda, Turquia, Uganda e Uzbequistão. Palau?
Micronésia? Os protestos
continuam. A guerra contra o Iraque desencadeou uma das maiores ondas de
protestos contra o governo norte-americano nos últimos anos, com
manifestações e atos de desobediência civil em dezenas
de cidades de todo os Estados Unidos. Mineápolis, Chicago, Baltimore,
Washington, Michigan, Los Angeles, São Francisco, etc. Dá
mais ou menos 45 cidades...
Bombas inteligentes. Uma bomba atingiu o depósito de uma refinaria de petróleo no sudoeste do Irã, na fronteira com o Iraque, causando ferimentos em pelo menos duas pessoas, disseram fontes do governo iraniano. A foi bomba lançada por um avião dos EUA que atacava Basra, no Iraque, afirmou a televisão de Teerã. As fontes governamentais disseram que o explosivo caiu em um depósito da refinaria de Abadan, cerca de 50 km a leste da cidade iraquiana de Basra. A explosão ocorreu, em território iraniano, por volta das 19h45 (hora local). Conseqüências diretas. O clérigo muçulmano Syed Ahmed Bukhari, um dos mais influentes na comunidade islâmica da Índia, declarou hoje jihad (guerra santa) contra os EUA. Logo antes das orações da sexta-feira na maior mesquita da Índia, em Nova Delhi, Bukhari disse a cerca de 6 mil fiéis que "este um ataque contra o próprio Islã. A guerra entre o certo e o errado começou. Esta é uma jihad. Temos de sacrificar nossas vidas pelo Islã". Na capital do Egito, Cairo, a polícia reprimiu cerca de 10 mil manifestantes que saíram às ruas depois das orações muçulmanas da sexta-feira. Cerca de 30 pessoas foram feridas. Em seu sermão, o xeque da mesquita Al-Azhar, uma das mais sagradas do Islã, convocou uma guerra santa em defesa do povo iraquiano. "Jihad, no Islã, significa defender aqueles submetidos à injustiça. Nós precisamos apoiar e defender o povo do Iraque", disse. O vice-chanceler da Nigéria, Dubem Onyia, acusou os Estados Unidos de suspenderem a assistência militar ao país africano depois de o governo local ter expressado sua oposição à guerra contra o Iraque. Diplomatas americanos em Abuja e Lagos não puderam ser localizados para comentar o assunto, já que as representações diplomáticas nestas duas cidades foram fechadas por razões de segurança. Rumsfeld. Nomeado em 1983, enviado especial ao Oriente Médio pelo presidente Ronald Reagan, o atual secretário da Defesa americano, Donald Rumsfeld, esteve em Bagdá numa missão até hoje muito controvertida. A imprensa dos Estados Unidos fala muito pouco dessa viagem, que na época ganhou uma cobertura do Washington Post. Rumsfeld chegou a ser fotografado durante o efusivo aperto de mão com o ditador Saddam Hussein, num de seus palácios presidenciais, atualmente sob bombas americanas. Nesse época, na década
de 80, o Iraque estava em guerra contra o Irã havia três anos
e a política americana era ditada pelo medo da extensão da
revolução iraniana do aiatolá Khomeini. Nem mesmo
as advertências de um analista do Pentágono, Paul Wolffowitz,
sobre o perigo representado pelo regime de Saddam no Iraque chegaram a
sensibilizar o governo dos EUA.
Mortes fora do Iraque. A guerra não mata apenas no Iraque, como é fácil observar. Pelo menos quatro pessoas morreram a tiros e dezenas ficaram feridas quando a polícia reprimiu cerca de 30 mil manifestantes que, aos gritos de "Morte à América!", tentavam invadir a embaixada dos EUA no Iêmen, em um dos muitos protestos contra a guerra no Iraque promovidos, pelo segundo dia consecutivo, no Oriente Médio. A informação é da Agência Estado. A Agência Estado também
informa que a organização Repórteres sem Fronteiras
denunciam censura na guerra. A página do RSF é http://www.rsf.org
e pode ser lida em francês, inglês e espanhol.
A capital iraquiana está em chamas. O primeiro grande ataque foi deflagrado. É o chamado 'Dia A', por ser o primeiro ataque de maior intensidade. É relativamente confirmado que o palácio presidencial também está em chamas. As cidades de Mosul e Kirkuk (norte do Iraque) também foram bombardeadas, informa a TV Al Jazeera, além de pelo menos mais uma cidade. Ronaldo Leão, presidente do Instituto Nacional de Defesa, faz importante análise em entrevista à GloboNews. Esta idéia de "armas inteligentes" é puro marketing. Falácia. Retórica. "A arma só será inteligente no momento em que conseguir atingir apenas o seu objetivo", afirma Ronaldo. Uma bomba de uma tonelada irá atingir um quartel militar e creches, hospitais, casas e tudo mais que estiver perto do quartel. Outra importante questão abordada foi a possível reação do povo iraquiano. A operação criminosa de hoje, entitulada "Comoção e Choque", serve exatamente para promover medo na população para que esta se renda pacificamente. Os que ainda estiverem vivos terão o direito de sentir medo. A questão não é tão simples assim. Ronaldo afirma: "A natureza humana dará duas opções neste momento. Ou o povo se renderá pacificamente com medo da intensidade dos bombardeios, ou eles lutarão como leões até a morte". Caso a segunda possibilidade aconteça, será praticamente impossível pacificar o país. Veja o exemplo do Afeganistão, que até hoje está em guerra. O resultado pode ser uma desastrosa separação do país em duas ou mais partes (que, como descrito abaixo, é um possível objetivo norte-americano). Mesmo caso a primeira possibilidade se torne majoritária e a população aja pacificamente, o cenário político já é desastroso. Relatos de brasileiros que estiveram em Bagdá nos últimos meses, no entanto, afirmam que os iraquianos estão prontos para resistir até o fim. O que parece é que ambas as reações estão sendo percebidas. Resistências e deserções. A piada do dia foi o pronunciamento
de hoje de Donald Rumsfeld, Secretário de Destruição
Étnica dos Estados Unidos, e do general Richard Myers, que disse:
"Quero pedir ao povo iraquiano que mantenham a calma". [G.B.]
A guerra colonial continua. Os ataques foram intensificados nesta madrugada (em Bagdá) e pelo menos três divisões do Exército dos Estados Unidos já estão no interior do Iraque. Um contingente do corpo de fuzileiros navais da Grã-Bretanha invadiu a península de Al-Faw, ao sul do Iraque, e tem sob controle importantes terminais de petróleo, informa a BBC. Após os ataques de ontem alguns terminais foram atingidos e, supresa!, estão em chamas. Próximo destino: Basra. Trata-se da segunda maior cidade do Iraque, a cerca de 100 quilômetros da fronteira com o Kuwait e, o mais importante, possui as maiores reservas de petróleo do país. A resistência está sendo como prevista: esforçada, mas nada frente ao poderio de cavalice norte-americano. Creio que a resistência deve aumentar à medida que os fantoches dos terroristas de Estado avançam. Todos falam dos 16 coitados que morreram do lado dos aliados. Soma-se os 11 que morreram em um acidente ainda nos Estados Unidos, em Nova Iorque, notícia que foi deixada de lado. Ninguém cogitou, até o momento, mais mortes de iraquianos devido ao aumento dos bombardeios na noite de ontem, tarde no Brasil. No entanto, é compreensível a dificuldade de obter informação por lá. Estou com medo. Sinceramente.
Rumsfeld, que perdeu completamente a cabeça, declarou: "O que vem
pela frente não será uma repetição de nenhum
outro conflito", disse. "Será de uma força, espaço
e escala que vai além do que já foi visto antes". [G.B.]
Análise. No contexto da atual guerra, o historiador Mário Maestri faz importante (e intrigante) análise: "Possivelmente, a intervenção imperialista anglo-americana materializa o fim do Estado iraquiano. Ali onde é possível e necessário, a reorganização imperialista do mundo promove a substituição dos grandes Estados periféricos por pequenas e dóceis nações, incapazes de organizar uma resistência efetiva do mundo do trabalho e da sociedade civil.O texto completo está aqui. O e-mail de Mário Maestri é maestri@via-rs.net [G.B.]
Propaganda de guerra. A propaganda de guerra foi muito bem feita dentro dos Estados Unidos. A sensação de medo provocado pela Casa Branca, que deixa no ar (e na mídia comprada) que um ataque terrorista pode acontecer a qualquer momento, em qualquer circunstância, com qualquer patriota, faz com que parte da população fique assustada e, portanto, fragilizada. Diante disso, os "líderes da nação" podem tomar com um pouco mais de tranqüilidade (dentro do país) o controle do Titanic republicano. Um acontecimento exemplifica esta lógica. Um motorista norte-americano, furioso com uma manifestação em seu caminho, simplesmente jogou um carro contra a multidão de protestantes. Corrigindo: não era fúria. Era desespero. Falta de estrutura. Falta de consciência e maior esclarecimento sobre os acontecimentos mundiais. A ignorância é uma das causas da agressividade, senão a única, na minha visão. Outro aspecto que nos mostra
bem esta propaganda baseada no medo (não só, mas também)
é a total falta de apoio por parte dos povos em todo o planeta.
Lá a mídia não é tão eficiente. É
incrível o fato de que estar fora dos Estados Unidos, às
vezes, é uma vantagem para que o cidadão comum esteja bem
informado sobre este país. O uso da Internet é evidentemente
essencial. [Gustavo Barreto]
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