Uma visão consciente da guerra
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acerca do cenário internacional

Quinta, 20 de março de 2003
18h32 em Brasília e 00h32 em Bagdá
RAMZI HAIDAR/AFP
O número de mísseis lançados pelo Iraque é conhecido e fartamente divulgado: até agora seis, do tipo Scud. Quantos por parte dos Estados Unidos? Sabe-se que são muitos, mas não se fala. Uma coisa é você saber que um bombardeio desumano está sendo lançado sobre Bagdá (foto). Outra, mais impactante, é saber isso com um número. Do tipo: 300 mísseis foram lançados hoje. É um chute, mas posto que desde 15h de Brasília (21h de Bagdá) o bombardeio não cessou, não seria exagero.

Violência gera violência. E não demorou nem um dia para se verificar esta máxima. Alguns protestantes, pelo mundo inteiro, se indignaram e partiram para a briga com policiais que tentavam proteger embaixadas dos aliados e governos locais. Por mais que pareça coisa de criança, os governantes dos Estados Unidos não entendem que o medo é um sentimento comum a todos os seres humanos. [Gustavo Barreto]
 

17h43 em Brasília e 23h43 em Bagdá

O presidente norte-americano George Walker Bush declarou há pouco que 40 apíses apóiam a ação bélica de seu país, ou o que eles chamam de 'intervenção de paz'. Quem? E, mesmo assim, o placar fica 141 a 40, já que são 191 países oficialmente representados na ONU.

Donald Rumsfeld falou antes, censurando o vazamento de informações, que prejudicariam a ação dos militares. Quer que a equipe da Casa Branca fique calada e fale só o que interessa. Para eles. Está oficializando a guerra da informação. Bush está com os discursos cada vez menores. O primeiro teve quatro minutos. O segundo, hoje, menos do que isso.

O número de mortes, como era previsível, é indefinido. A CNN, rede de grande influência no planeta, se esforçou durante a guerra do Golfo para vender a idéia de que quase ninguém havia morrido. Comprovou-se que milhares morreram. Agora o governo iraquiano já fala em 4 mortes, enquanto apenas uma morte foi admitida oficialmente. [Gustavo Barreto]
 

16h30 em Brasília e 22h30 em Bagdá

Falácias. A CNN, juntamente com a Casa Branca, está propagando a idéia de que autoridades iraquianas estão pondo fogo em alguns poços de petróleo. A agência de notícias Reuters desmente, pelo menos até o momento. As fontes de informação também divergem sobre o aumento ou diminuição de bombardeios. De qualquer maneira eles estão acontecendo. Recomeçaram por volta das 15h (Brasília), 21h (Bagdá). Saddam Hussein ordenou a retaliação, que já aconteceu, atingindo o Kuait. Ninguém foi ferido. Em Bagdá um taxista jordaniano foi morto e 14 pessoas foram feridas, afirma a Cruz Vermelha. A entidade pede respeito à Convenção de Genebra e aos direitos humanos.

Há uma outra guerra talvez muito maior e por poucos percebida: a guerra de informações. As incoerências existentes em muitas notícias nos mostram que há uma forte estratégia para se plantar informações.

Há uma discussão sobre se o video liberado ontem com um depoimento de Saddam teria sido antes ou depois do primeiro ataque. Nele, Saddam teria dito que Bush comete crimes de guerra. Novidade. A Casa Branca está cautelosa quanto à veracidade do video.

Estranho. Quando Osama bin Laden aparece em seus discursos contra o 'Satã', mesmo que a dúvida seja enorme sobre a autenticidade da fita, os Estados Unidos a apresentam como prova definitiva. Agora a CIA diz que "o vídeo precisa ser melhor avaliado". Estranho. [Gustavo Barreto]


Quarta, 19 de março de 2003

Pouco antes do começo da guerra, no dia 19, o ministro do Exterior do Iraque, Naji Sabri, deu um depoimento já ciente do iminente ataque a seu país por parte do governo criminoso de George W. Bush. A propaganda de guerra estava se intensificando com a onda de boatos e ficou mais patética quando, durante o pronunciamento de Sabri, as grandes redes internacionais – exceto a BBC, que é independente – cortaram a transmissão para exibir o pronunciamento de um Secretário de Estado norte-americano que claramente estava apressado para cortar Sabri.

Este, entre outras coisas, disse que “é o senhor Bush que deveria ir para o exílio”. E segue: “Os Estados Unidos jogam toneladas de bombas e ainda falam em direitos humanos. Vão contra a opinião pública do mundo inteiro e ainda falam em democracia. Como este homem [Bush] pode ter se tornado presidente de pessoas inteligentes como os norte-americanos?”

A tevê faz um histórico criminoso de Saddam Hussein. Em nenhum momento, no entanto, se preocupa em voltar não apenas 10 anos na história, mas 20 ou 30 anos – o que confirmaria o passado comum de criminosos como Saddam e dirigentes norte-americanos. Por outro lado, o número de vezes que se repete que “Saddam não cooperou com os inspetores da ONU” – quando até mesmo George Bush e Tony Blair já admitiram o contrário – é uma típica forma de convencimento pela repetição. A expressão “armas de destruição em massa”, as que Bush possui, nunca foi tão repetida a fim de condenar Saddam.

A paranóia instalada nos Estados Unidos, com os sucessivos “alertas laranjas”, nada mais é do que uma forma simples de se provocar medo e conseguir apoio popular, pelo menos dentro do país. Só a cidade de Nova Iorque gastará US$ 20 milhões por semana para a chamada “Operação Atlas” – um clima de histeria oficial que traz um medo real baseado em ficção promovida pela Casa Branca.

Além do medo, o xenofobismo invade a nação oficialmente. Todos os iraquianos residentes nos Estados Unidos serão convocados pela Casa Branca para as famosas “entrevistas” em que se adota o método Bush – uma forma já denunciada e até admitida pelo governo de pressionar psicologicamente e, algumas vezes, fisicamente os entrevistados. Tortura.

Os franceses – pequena porcentagem da imensa população mundial que se opõe à guerra – são culpados pelos norte-americanos mais conservadores (inclusive deputados e senadores) pelo discurso de Chirac. O que uma parcela menor da população norte-americana faz – confundir Estado e povo – não devemos fazer. A política de Bush, como demonstram os corajosos manifestantes norte-americanos, nada tem a ver com a opinião do público de uma forma geral.

E o que dizem os norte-americanos e seus aliados? Que irão reconstruir o país. Não é preciso ir muito longe para ver que o discurso é vazio e sem qualquer tipo de realidade. A mesma promessa foi feita em relação ao Afeganistão. Hoje, os jornais anunciam um “recomeço das operações no Afeganistão”, nada muito claro, pois, como informam os jornais independentes, a guerra nunca acabou neste sofrido país.

Faço minhas as palavras do embaixador da ONU no Iraque: “O ultimato dado por Bush neste domingo (16) para que Saddam deixe o país em 48 horas está levando o mundo de volta à lei da selva”.

O que sabemos sobre a guerra? Quase nada. Melhor: insuficientemente. As informações que nos chega são editadas e re-editadas muitas vezes, e muita coisa, como se sabe, simplesmente não chega. É preciso muita atenção na observação dos detalhes. Eles nos mostram grandes incoerências informativas que ajudam a entender o que realmente está acontecendo. Pistas. É tudo o que podemos ter da guerra.

As primeiras imagens de bombardeios a Bagdá – da tevê portuguesa RTP – são entristecedoras. Porém, as revoltas em todo o planeta contra uma ação criminosa animam e dão força para que continuemos a lutar pela democracia e pela paz. [Gustavo Barreto]


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