Uma coisa é a nação, outra é a gente


(Imagem: Agência Brasil)

É lamentável que mais de 90% dos meios de comunicação brasileiros sugiram insistentemente que um determinado grupo de pessoas é o mesmo que seus nacionais.

Os “espanhóis” teriam dito frases racistas contra os brasileiros, os “chilenos” invadiram o Maracanã, os “argentinos” isso, os “ingleses” aquilo. Os estereótipos são reforçados tão intensamente que muitos sequer se lembrem que, antes de qualquer coisa, são todos humanos – e não “raças” ou etnias.

Em termos culturais, o corte nós é que escolhemos – e esta é uma opção que pode ser tão livre quanto absurda.

Existem dois problemas principais quanto ao uso da nacionalidade como elemento central: a generalização (“os” chilenos, “os” argentinos, como se um grupo coeso fosse) e a eliminação de qualquer outro corte social que possa existir (o que se conforma à usual preguiça de buscar entender o personagem por trás da ação).

Na Copa do Mundo, fica um pouco mais fácil separar: tem um time só de chilenos, outro só de argentinos, outro só de brasileiros etc, todos representando a “Nação” – sem esquecer que metade do time da França, por exemplo, é composta de imigrantes, apenas para citar um dos casos mais evidentes.

Na vida real, cidadãos de um país não podem ser categorizados de forma tão simples: entre os nacionais, há uma variedade tão grande de pessoas que seria impossível, quando não ridículo, categorizá-los com apenas um dos cortes.

Seria mais ou menos como tentar entender o índice global de homicídios a partir do corte nacional. Matou porque era brasileiro. Como se o crime, nesse exemplo, não fosse algo presente em todo e qualquer país, toda e qualquer classe social, bem como em todos os demais critérios sociais, como ideologia, etnia, geração etc. Ignora-se, sobretudo, o contexto que levou ao crime. Obviamente que ninguém aceitaria seriamente tal metodologia. Mas na cobertura desta Copa – e no jornalismo esportivo em geral – aceitam, diariamente.

Há centenas de motivos para que eu me identifique mais com um chileno ou com um marfinense do que com um brasileiro, ao passo que há o mesmo número de motivos, potencialmente, que nos distancia.

O corte nacional, a princípio, é um dos mais pobres que eu conheço. Dizer que alguém é brasileiro ou argentino ou camaronês não me diz nada – exceto o idioma que, talvez, esta pessoa fala –, até porque ter nascido num país representa muito pouco em relação ao que essa pessoa se tornou ao longo dos anos.

Por que um grupo de chilenos invadiu o Maracanã? Não sei. Duvido, no entanto, que o termo “chileno” guarde qualquer relação com o ocorrido. Há tantas variantes gritando para serem incluídas no mínimo como hipótese – preço salgado dos ingressos, falta de controle do acesso, desorganização evidente, oportunidade devido ao contexto etc. [http://bit.ly/1jBYxaj] – que a inclusão do fator nacional me parece mais um indício da falta da qualidade do jornalismo brasileiro e, pior, da ausência quase que plena de auto-reflexão da imprensa “nacional”.

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