Um homem que eu ouço diariamente

Não lembro bem o ano, tampouco o mês. Estávamos no Hospital Marcílio Dias, no Lins. Meu avô e eu. Meu avô por necessidade, eu por preocupação. A família dava intenso apoio, fazíamos turnos, 24 horas por dia. Ele, Juarez, teve um problema no coração. Ali estava (e ainda está) uma pessoa de vida intensa (hoje em casa, bem).

Meu vô Juarez
Meu vô Juarez

Nascido em Capela, Sergipe, por volta de 1919 (nunca sei, pois há controvérsias), Juarez entrou cedo na Marinha. Hoje, aos 91 anos, não faltam histórias para contar, das incontáveis viagens que fez por dezenas de países. É uma pessoa que certamente merece mais atenção do que um simples texto – como se esta fosse a forma definitiva de registrar as coisas. Doce ilusão dos ocidentais. Fui a Capela em 2009 para conhecer de perto a cidade onde ele nasceu. Fui a uma outra cidade, certamente, buscando um pouco do meu próprio passado.

Muitas coisas aprendo diariamente com ele. A primeira é o fundamento de todas as outras: ouvir mais do que falar. “Deram para a gente dois ouvidos e só uma boca não foi à toa”, diz. Ouvi-lo atentamente é uma emoção indescritível. Da fala mansa e ponderada, surgem ironias profundas e assustadoramente simples. Uma simplicidade que desestrutura a nossa arrogância cotidiana, que mais dia menos dia acaba atingindo os mais jovens, mais inexperientes, sedentos por mudar o mundo sem mudar a si próprios antes.

O humor que tento ter diariamente devo também a ele. No exato momento em que surge aquele inesperado momento de irritação e estresse cotidiano (por parte dos outros), meu avô surge invariavelmente com duas respostas. A primeira, o silêncio. A atenta observação, como quem está sempre a avaliar o cenário, provocando inevitavelmente uma reação por parte dos outros presentes. A segunda reação é o humor – por meio da ironia, da crítica inteligente, do humor non sense, da percepção aguçada transformada em sátira.

Assistindo ao Big Brother Brasil: 'Tudo puta'. Foto: Rafael Barreto.
Assistindo ao Big Brother Brasil: 'Tudo puta'. Foto: Rafael Barreto.

“Vida inteligente em outros planetas? Não tem nem nesse…”.

Uma falha imperdoável não compartilhar com o mundo estes pensamentos. De certa forma, é bonito que fiquem aqui. Hoje, por exemplo, me convidou para tomar uma sopa. Eu respondi: “Vamos tomar juntos”. Ele não queria sopa, queria apenas que estivéssemos juntos na mesa. Pensou durante poucos segundos e retrucou: “Sim. Eu sopro”. :)

Meu avô também me ensinou o valor do trabalho. Sou incapaz de jogar na loteria. De participar de qualquer tipo de “premiação”. Nem cara ou coroa eu gosto muito – no futebol, sempre achei que o time com melhor campanha até o respectivo momento deveria escolher sempre o lado do campo. Meu avô se aposentou da Marinha cedo, após ter entrado igualmente muito cedo, para trabalhar no comércio. Primeiro com parceiros, depois numa loja própria na Tijuca que lembro inclusive, apesar de garoto.

Ao deixar o comércio, já com 70 anos pra cima (ou por aí), fez o que qualquer trabalhador honesto e lutador teria feito: não se aposentou. Passou uma década ou mais resolvendo pequenos problemas para minha mãe, que também sempre trabalhou muito, em três, quatro empregos. Ia de um canto para o outro, meu avô, e contam que quando chegava cedo demais em algum lugar, dava voltas pelo bairro a fim de conhecê-lo melhor. Andava. Ia a pé, com mais de 70 anos.

Adora contar seus sonhos – que são extremamente divertidos e sintomáticos. “Eu estava no cais do porto, chegou um navio cargueiro com um abacaxi pesando mais de 250 toneladas. Eu era o responsável”. Foi esse o valor que adquiri. Não o da riqueza fácil. Não o da recompensa sem esforço. Não o da exploração do outro para obter facilidades. O valor que ganhei ao conviver com meu avô foi o valor da honestidade, que para mim é mais fácil diante de um homem como ele. Sou um socialista incorrigível e devo isso a meu avô.

Já com idade avançada, o corpo começou a reclamar. Um dos momentos mais traumáticos da minha vida foi quando meu avô caiu, numa andança comigo por Botafogo. Poderia ter quebrado o fêmur, mas conforme ele mesmo costuma dizer, “vaso ruim não quebra”. :)

As pernas cederam. Ele não. Quanto mais limitações físicas surgiam, mais ele reclamava. Queria ficar em pé, andar, participar ativamente da casa. Quando morava na Ilha do Governador, montou um espaço em que construía e consertava todo tipo de coisas. Eu achava aquele lugar (um quartinho nos fundos) um mundo intangível. Uma fábrica de sonhos, espécie de refúgio de um homem cujas ideias e força raramente se expressavam pelas palavras.

Parte dos anos 2000 foram difíceis. Como é natural, dos 80 aos 90 anos, seu corpo cedeu rapidamente. As pernas não respondiam por vezes. Fez a ponte de safena umas cinco vezes. Sofreu a perda da companheira de mais de 50 anos – a mesma companheira –, minha vó Alzira. Foi diversas vezes para o hospital.

Em uma destas vezes – retomo as primeiras palavras deste texto –, lembro de uma madrugada neste hospital da Marinha, o Marcílio Dias. Era eu no turno, e meu avô tinha passado muito mal. A filha (única, minha mãe) demonstrou uma preocupação maior do que a normal. Alguns sinais de perda de força pareciam mais graves.

Foi aí que meu avô me chamou no meio da noite, de modo inesperado. “Quero me levantar”. Eu estranhei, disse que não precisaria ir ao banheiro porque havia montado um esquema na própria cama. Que qualquer coisa que precisasse, estaria ali para pegar. “Não. Quero me levantar”. Desavisado, insisti que ele deveria descansar, não fazer tanto esforço.

Foi aí que ele mais uma vez, como sempre, me ensinou uma das lições mais importantes que já aprendi:

– Eu quero me levantar. Quero conseguir levantar. Mostrar que eu posso, que consigo me levantar.

Talvez ele não tenha percebido que fui às lágrimas, pois tentei me conter. Como esquecer um momento como esses? Impossível. Segurei firme e o apoiei. Levantamos, eu fazendo o mínimo para que ele fizesse o maior esforço. E ele levantou, andou, voltou.

O olhar de quem ouve mais do que fala. Foto: Rafael Barreto.
O olhar de quem ouve mais do que fala. Foto: Rafael Barreto.

Anos depois, refletindo sobre isso, percebi que é esse o motor de grandes homens e mulheres da humanidade. São aqueles que dizem “Quero conseguir levantar”. Pelas causas justas, pelas causas impossíveis, pela demonstração de força interna, pela vontade de viver e, com isso, demonstrar a todos em volta que a vida não tem preço.

Pelo força do humor, que satiriza aqueles que contam seu dinheiro todos os dias.

Pelo força do trabalho – aquele trabalho que acredita na busca de um bem comum, honestamente, e repudia a exploração do homem pelo homem.

Pela força da esperança, desacreditada diariamente pelos “pragmáticos” e demais tipos humanos que não enxergam nada além dos números e passam a valer, portanto, pouco ou nada no frio e desumano mercado de trabalho.

Mas, antes de tudo, meu avô me ensinou a ouvir atentamente. A prestar atenção ao próximo. A tentar entender. Colocar-se no lugar. Sem esse primeiro ensinamento, não teria aprendido tanto com este grande homem que é meu avô. Por ouvi-lo tão atentamente é que, agora, depois de tantos anos, não há mais opção: o ouço diariamente, em qualquer lugar, sempre que posso. Para isso basta fechar os olhos.

Uma resposta para “Um homem que eu ouço diariamente”

  1. Impossível não ficar emocionada a ler este texto. Sim, por si já seria um texto de amor e extremamente delicado, mas para mim…alguém que conhece seu juarez é ainda mais significativo. Tenho muito carinho por ele e sempre gostei de conversar com ele. E sempre ficava muito tocada com o carinho que ele demonstrava por mim. É, sem dúvida, um exemplo de história de vida, trabalho e dedicação. Parabéns pelo texto, gustavo.

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