Enquanto você grita gol

Fotos e texto de ELLAN LUSTOSA

As pessoas da Ocupação do antigo prédio do IBGE, na Mangueira, Zona Norte do Rio de Janeiro, estão torcendo pela Copa, pela cozinha, pela sala, pelo saneamento, pela comida, pela dignidade…

Hoje, dia do jogo do Brasil, eu e amigos ativistas visitamos os moradores da Ocupação IBGE. As cenas que presenciamos foram verdadeiros cortes em nossos corações. Deparamo-nos com pessoas vivendo em total falta de tudo, sem qualquer possibilidade de uma vida digna. No primeiro andar da Ocupação havia há dois dias um vazamento de esgoto que vinha de fora e inundava tudo. As pessoas estão tendo que viver com esgoto em seus pés, por todo chão de suas “casas”. É, elas chamam de casa. Crianças convivendo com um mar de insalubridades, expostas a sorte de qualquer doença por causa da grande quantidade de lixo e bichos que lá existe.

Isso tudo acontecendo bem ao lado de onde milhões foram gastos para atender as necessidades do capital. Ao lado, o Maracanã brilha ostentando seus gastos e servindo aos que lá enfiaram dinheiro público para o bel prazer da “classe rica”. Que governo pode ser tão cruel que deixa seu povo tentar sobreviver numa condição sub-humana dessas?

Fiquei lá dentro por muito tempo registrando esse absurdo que me cortou o coração e me afastei de todos. Ao sair completamente transtornado e encontrar com o grupo, vi em cada rosto de meus colegas resquícios de lágrimas, fruto da experiência vivida. Até quando num país rico como esse, as pessoas terão que passar por isso?

Viver, moradia, dignidade, não se pode aceitar e nem permitir mais isso. Cantar o hino com a mão no peito ao entrar da seleção não é e nunca foi ser patriota. Patriota é tratar seu país e seus irmãos com amor. Permitir que esse ser humano tenha uma vida digna.

Divido agora um pouco do meu pranto:

Professores do Rio querem direitos e governo responde com… a polícia!

Mais uma vez, nesta quarta-feira (28/5/2014), os professores da rede municipal esperavam para serem recebidos pela Prefeitura há mais de duas horas para conversar, e nada.

Os professores decidiram então se manifestar: queriam ser recebidos para dialogar. E como reagiu o governo? Com a polícia e uma truculência muito maior do que a que pode ser visto neste vídeo. Ao final, muitos feridos e até sangrando.

Este é o governo da cidade do Rio de Janeiro, cujo diálogo se dá prioritariamente por meio da violência, neste caso contra aquele que é o profissional mais importante de todos — o professor!

Todos os trabalhadores têm duas coisas em comum: são detentores dos direitos humanos e, antes de serem o que são, foram formados por PROFESSORES.

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Uma professora foi presa (clique aqui).

O momento da sua soltura:

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Imprensa livre?

O jornal O Dia estampa na capa do online: “GREVE ILEGAL — Docentes que não voltarem às salas de aula nesta quarta terão o ponto cortado”

Dentro, e só dentro, se vê que a decisão, da Justiça, vale apenas para o Estado (e não para os docentes da Prefeitura).

Pior: o tom de ameaça parece ter sido escrito por algum assessor da Prefeitura…

Lamentável essa modalidade de “imprensa livre”.

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Pelo Facebook esta semana

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Enquanto isso, no Rio…

“O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou as quadrilhas lideradas pelo traficante Marcelo Santos das Dores, o Menor P, no Complexo da Maré, e pelo Nem, na Rocinha. Entre os 29 denunciados estão cinco policiais da UPP da Rocinha que seriam informantes da quadrilha de Nem.” (Jornal Extra)

“Pelo menos 28, dos 52 PMs que tinham sido expulsos da corporação no ano passado, acusados de receberem propina do tráfico drogas em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, já conseguiram ser reintegrados à corporação por decisões judiciais. Presos durante a Operação Purificação, realizada em dezembro de 2012, os militares, a maioria à época lotada no 15º BPM (Duque de Caxias), já estão soltos desde julho do ano passado.” (Jornal Extra)

“Um adolescente foi agredido com tapas no rosto, depois de ser detido por militares da Brigada de Infantaria Paraquedista, no Complexo da Maré, no início de maio. A agressão durou pelo menos 57 segundos e foi registrada em um vídeo.” (Jornal Extra)

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São Paulo: Vídeo mostra cenário de guerra provocado pela PM para dispersar protesto na Brasilândia. Manifestantes foram alvo de bombas de gás lacrimogêneo. Comandante da operação é acusado de falta de comando, após quase ser alvejado. (SpressoSP)

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Cooperação internacional nos anos 70: o que uma democracia nos ensinou.

“(…) Documentos e depoimentos obtidos com exclusividade pela BBC revelam um lado pouco conhecido da ditadura militar brasileira – a de que autoridades da Grã-Bretanha colaboraram com generais brasileiros – inclusive ensinando técnicas “avançadas” de interrogação equivalentes a tortura.

(…) “Desta vez, a cela estava limpa e esterilizada, com um cheiro nauseante. O ar condicionado era muito frio. A luz estava permanentemente acesa, então eu não tinha ideia se era dia ou noite. Eles alternavam sons muito altos e depois muito baixos. Eu não conseguia dormir de jeito nenhum.”

Alvaro [Caldas] conta que a sensação avassaladora que sentia era medo. De tempos em tempos, alguns oficiais entravam na cela, o encapuzavam e levavam para interrogações. Ele sentia que o objetivo era desestabilizá-lo, fazendo-o confessar algum crime que não havia cometido.

Isso não era tortura física, mas sim uma pressão psicológica intensa. “Por sorte, só passei uma semana lá. Se tivesse ficado duas semanas ou um mês, teria enlouquecido.” Esta nova técnica de interrogação ficou conhecida como “sistema inglês”.

(…) “Os americanos também ensinam, mas os ingleses é que são os mestres em ensinar como arrancar confissões sob pressão, por tortura, de todas as formas. A Inglaterra é o modelo de democracia. Eles dão cursos aos seus amigos”.

O general Fiuza de Castro disse que os britânicos recomendam deixar os prisioneiros nus antes de interrogá-los, para deixá-los angustiados e deprimidos – um estado que favorece o interrogador.

As técnicas teriam sido criadas nos anos 1960 em territórios britânicos na Ásia e aperfeiçoadas contra militantes na Irlanda do Norte.

O método ficou consagrado em inglês como “Five Techniques”, ou “Cinco Técnicas”:

  • Manter a pessoa de pé contra uma parede por muitas horas
  • Encapuzar
  • Sujeitar a grandes barulhos
  • Impedir o sono
  • Pouca comida e água”

Leia a matéria da BBC clicando aqui.

‘O Rio de Janeiro mostra seu lado mais agradável’

O desparecimento forçado do pedreiro Amarildo é uma síntese do Rio de Janeiro contemporâneo. Foto: Fernando Frazão/ABrEstá n’O Globo: “Criminosos atacam quatro UPPs e ferem chefe da base de Manguinhos (…) Em nota, Cabral disse que essa é mais uma tentativa da marginalidade de enfraquecer a política vitoriosa da pacificação, que retomou territórios historicamente ocupados por bandidos. Ele afirmou ainda que mantém o firme compromisso assumido com as populações das comunidades e de todo o estado de não sair, em hipótese alguma, desses locais ocupados e manter a política da pacificação.”

O que tem a ver o projeto da UPP — as autoproclamadas “Unidades de Polícia Pacificadora” — com o que está acontecendo hoje no Rio de Janeiro? Nada. Eis o porque:

01. Segundo dezenas de relatos nas comunidades, teve início há algum tempo uma ofensiva do Estado para promover uma “limpeza social” na cidade antes da Copa. Segundo alguns relatos populares, a milícia age onde pode agir, às vezes apoiando. As políticas repressoras são apoiadas pelas remoções em massa — com até 250 mil pessoas ameaçadas — e pela especulação imobiliária. Toda sorte de violações dos direitos humanos foi cometida.

02. Aos poucos, o tráfico reagiu. Com a ofensiva persistindo, as reações se tornaram mais violentas. Não se trata de um FlaxFlu: há milhares de vidas em jogo. As pessoas vivem entre estes interesses. E estão morrendo.

03. Acompanhe o relato: “A ‘limpeza social’ da cidade antes dos Jogos não se resume às remoções. Nas áreas centrais e outras frequentadas pelos turistas, tem se intensificado a perseguição a vendedores ambulantes (“camelôs”), moradores de rua (especialmente as crianças), guardadores de automóveis (“flanelinhas”), etc. A repressão e retirada das ruas dessa “população indesejável” é feita sob o rótulo de campanhas como ‘Operação Zona Sul Legal’ (…).”

Não é de 2014, e sim de 2007, pouco antes Jogos Pan-americanos que aconteceram no Rio de Janeiro.

04. Antes ainda havia no Governo do Estado um ensaio de projeto social das UPPs — a “UPP Social” — que hoje está praticamente inoperante. Perdeu poder político, de mobilização e recursos. Mais uma vez — e às vésperas do fim do segundo mandato — o Governo do Estado esquece os investimentos sociais para dar lugar a uma prioridade pré-megaeventos: a área de segurança. Uma reprise de 2007.

05. Ainda fazendo um paralelo com o Pan 2007: em 2006, o governo federal falava no “Legado Social do Pan” como sua principal preocupação, prometendo que 500 mil moradores de 50 comunidades populares que viviam no entorno das atividades do Pan seriam atendidas através de programas sociais, de cunho esportivo, educacional e cultural.

Posteriormente, foi anunciado o valor de R$ 562 milhões para a segurança do Pan. O então secretário nacional de segurança, Luiz Fernando Corrêa, e o secretário estadual, José Mariano Beltrame, afirmaram que os equipamentos adquiridos eram o legado do Pan para o Rio de Janeiro.

O mesmo acontece agora: o orçamento da Copa era inicialmente de R$ 23,5 bilhões e, atualmente, já passa de R$ 26 bilhões, e subindo. Mesmo assim, apenas 5 das 41 obras de mobilidade urbana foram concluídas. Algumas delas são de baixíssimo custo, como uma passarela entre uma estação de trem e o complexo do Maracanã.

06. Mas o pior legado — e o que explica em parte a revolta nacional — diz respeito ao tipo de investimento: em 2007, anunciou-se que a Copa seria 90% financiada com dinheiro privado. Atualmente, sabe-se que 98% do dinheiro da Copa é público, e sem qualquer contrapartida para a população em geral.

Há quem ganhe? Sim: o setor hoteleiro, os patrocinadores, o Pelé, outros grandes empresários e — numa escala infinitamente menor — alguns poucos comerciantes do entorno dos estádios. E, mesmo assim, só durante os jogos. Não se assuste se eles começarem a se multiplicar nas matérias “jornalísticas” sobre o “legado da Copa”.

Ganham ainda, e sobretudo, os especuladores imobiliários — como aconteceu no Pan com a Vila Pan-Americana.

07. Antes de ficar propondo ‘previsões’, eu resgato um alerta da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência: “(…) O ‘legado do Pan’ deixará um equipamento de alto poder de fogo nas mãos de uma força policial internacionalmente conhecida como uma das mais letais e violentas do mundo. Isso não é apenas uma previsão sombria, os efeitos da mobilização de segurança pelo Pan já estamos sentindo há alguns meses.”

08. É nesse contexto que se encontram as atuais operações policiais. A partir do dia 2 de maio de 2007, sob o pretexto de ‘caçar’ os supostos assassinos de dois policiais mortos, forças das polícias militares e civil passaram a realizar incursões diárias no Complexo do Alemão, resultando em 16 mortos (2 policiais) e 53 feridos a bala, além de promover o terror na comunidade e o fechamento quase que diário do comércio e das escolas.

Um pesquisador da Anistia Internacional visitou a Vila Cruzeiro — a comunidade mais atingida pela operação — e relatou: “Além de intimidar e humilhar a população, atirar indiscriminadamente contra casas, lojas e igrejas dentro da comunidade, destruir pertences da população, a Anistia recebeu relatos de furtos cometidos por policiais, atos de violência e tortura dentro do caveirão [veículo blindado da Polícia Militar] e até relatos de possíveis execuções sumárias”.

09. Sobre as milícias, o jornal O Globo registra em sua edição de 10/12/2006:

“(…) Criticado durante a semana por ter classificado as milícias como Autodefesas Comunitárias, o prefeito Cesar Maia, em entrevista por e-mail ao GLOBO, afirma que o termo não é de sua autoria, mas argumenta que essas milícias são, no mínimo, um mal menor que o tráfico para a realização do Pan. Questionado se essas ocupações seriam um remédio amargo a administrar às vésperas dos jogos, em um momento em que recrudesceram os crimes, principalmente nas vias de acesso do aeroporto aos principais pontos do evento, o prefeito foi enfático:

— A curto prazo, portanto dentro do Pan, as ADCs (Autodefesas Comunitárias) são um problema menor, muito menor, que o tráfico.”

Sobre o mesmo tema, o atual prefeito do Rio, Eduardo Paes — que era, em 2007, secretário de Turismo, Esporte e Lazer do Governo Sergio Cabral, e já foi aliado a Cesar Maia — também havia “elogiado” a ação ‘pacificadora’ das milícias. Paes disse:

“Você tem áreas em que o estado perdeu a soberania por completo. A gente precisa recuperar essa soberania. Eu vou dar um exemplo, pois as pessoas sempre perguntam como recuperar essa soberania. Jacarepaguá é um bairro que a tal da polícia mineira, formada por policiais e bombeiros, trouxe tranqüilidade para a população. O Morro São José Operário era um dos mais violentos desse estado e agora é um dos mais tranquilos. O Morro do Sapê, ali em Curicica. Ou seja, com ação, com inteligência, você tem como fazer com que o estado retome a soberania nessas áreas.”

No vale-tudo da política, durante as eleições de 2008, César Maia “acusou” Paes de apoiar as milícias.

Não é à toa que dois chefes de milícia presos em 2008 — o ex-vereador Jerominho e o deputado estadual Natalino –, integrantes de uma das milícias mais violentas do Rio de Janeiro, são respectivamente do PDMB e do PFL (atual DEM). Os partidos do então governador (Sergio Cabral) e do prefeito (Cesar Maia). Antes de serem um “mal menor”, são braços do poder.

10. Já em 2007, a Rede contra a Violência alertara — e isso bem antes das manifestações de junho de 2013: “Toda essa intensificação da ilegalidade e da violação de direitos na segurança pública do Rio às vésperas do Pan, é sustentada por um discurso militarista, confrontador e estereotipado, que ganha cada vez mais espaço entre os governantes e em boa parte da imprensa.”

É triste ver que este documento da Rede — disponível aqui — quase não sofreu alterações. Mudam-se alguns nomes, alguns dados, e a situação permanece a mesma.

11. Durante a “ECO92”, a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, uma reportagem perguntou a um gari o que ele estava achando do evento. Ele respondeu:

“Eu acho que está bom até agora. Há muitas pessoas e turistas. Muitos estão preocupados com a ecologia e a natureza, mas estão esquecendo o mais importante: as famílias pobres espalhadas pelo mundo, a fome, as favelas do Rio de Janeiro, as pessoas pobres que o governo não cuida.”

A reportagem acrescenta: “Nas favelas, áreas cercadas, e por toda cidade a segurança está afiada para a chegada dos chefes de Estados e de governos.”

No momento em que o repórter entrevista adolescentes na rua, ouve-se um tiro. Um jovem diz: “A lá. Dando tiro no menor”. O câmera se volta para um policial correndo com uma arma na mão.

A matéria conclui: “As ruas foram varridas e limpas. As crianças desabrigadas são levadas para campos. O Rio de Janeiro mostra seu lado mais agradável.”

12. A política do enfrentamento reaparece, por fim, com força total. Não que tivesse sumido algum dia, contudo a cada novo megaevento, o Governo do Estado e o Governo Federal abandonam a publicidade e partem para as guerras de sempre: contra as drogas, contra os pobres, contra o tráfico e quem mais estiver no caminho.

A ameaça do imediatismo

Um policial militar do século 19
Um policial militar do século 19

O comandante do 9º BPM (Rocha Miranda), tenente coronel Wagner Moretzsohn, tem versões tão contraditórias quanto ao caso do assassinato de Claudia da Silva Ferreira que chegam a doer o estômago.

Não explica porque os policiais militares estava de madrugada na área, nem quantos homens estava na operação. Continua, além disso, defendendo a “troca de tiros” que, segundo todos os moradores, não existiu.

Recentemente, no dia 11 de fevereiro, o mesmo Batalhão fez uma operação que matou Gleberson Nascimento Alves e Alan de Souza Pereira, ambos sem antecedentes criminais. O motivo da morte: os policiais “desconfiaram” de um grupo que “ocupava duas motos”. Sob o comando de Wagner Moretzsohn.

Nessa região de responsabilidade do 9º BPM, só em 2013 foram 18 “autos de resistência”, ou seja, 18 pessoas mortas pela polícia — mais de uma pessoa por mês. Os roubos aumentaram de 6,9 mil para 8.146. O homicídio saiu de 143 para 173. Milícia, tráfico e o Estado estão em constante confronto. No meio disso tudo, refém, a população.

Charge: Henfil
Charge: Henfil

E, para piorar, os três policiais militares presos após o assassinato de Claudia da Silva Ferreira “constam como envolvidos em 62 autos de resistência (mortes de suspeitos em confrontos com a polícia)” e “pelo menos 69 pessoas morreram em supostos tiroteios com os [mesmos] PMs desde 2000”.

Dane-se a polícia de proximidade: o próprio coronel Frederico Caldas — comandante das UPPs — é quem dá o recado, comentando a reocupação de favelas no Complexo do Alemão e na Penha: “A resposta será extremamente dura”.

Mas o comandante Wagner Moretzsohn — que já teve diversos cargos de confiança — dá aula de “boa conduta” no Governo do Estado:

“(…) O tenente-coronel Wagner Moretzsohn detalhou como funciona e os objetivos do Sistema de Metas e Acompanhamento de Resultados. O objetivo, segundo ele, é atingir redução significativa dos índices de criminalidade, com premiação em dinheiro, para os indicadores estratégicos de Letalidade Violenta, Roubos de Veículos e Roubos de Rua.

(…) Um dos propósitos é a definição de metas conjuntas para a Polícia Militar e a Polícia Civil possibilitando ainda maior integração entre estas polícias e a Secretaria de Estado de Segurança. “Agora, o foco é no cidadão de bem e não no bandido. O foco é na prevenção. A repressão, atualmente, é qualificada, com planejamento específico e bem aplicada”, comentou o tenente-coronel Wagner.”

A boa “aplicação” da falida política do Governo do Estado está exposta, clara e transparente. Em um ato de desespero, as autoridades se reuniram com o viúvo de Claudia e com seus filhos.

Alexandre, o viúvo em luto, foi lúcido, apesar de sua dor: “Há um senso comum de que todo morador de comunidade é bandido. Sabemos que há tráfico, mas não somos criminosos. A grande maioria é trabalhadora. A polícia não pode entrar na comunidade atirando. Foi o que aconteceu no domingo. Não tivesse aquele cara na hora (filmando com um celular), ali atrás daquela D-20 (carro da PM), se minha mulher não tivesse caído, não tivesse sido arrastada, só seria mais um caso”.

Pergunto-me: Sergio Cabral Filho ajudará todas as vítimas do Estado a processar o Estado ou com programas assistenciais? Qual será o critério para a ajuda? Aparecer no jornal Extra?

Temos de esquecer o imediatismo, incluindo o das eleições. O próximo passo depende de uma reforma dessa estrutura apodrecida — é preciso aprovar a PEC 51, idealizada por Luiz Eduardo Soares e outros autores: www.luizeduardosoares.com/?p=1185

Temos que dar um fim à Polícia Militar de 1809.

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O poder das palavras
Em 18 de março

Executaram uma mulher, uma mãe. Na imprensa, os policiais a “socorreram”, após “bala perdida”.

É um crime. Na versão propagada no primeiro dia, houve “irregularidades”.

O nome dela é Cláudia da Silva Ferreira, 4 filhos . A imprensa a chama da “arrastada”.

A Polícia Militar solta, inicialmente, uma versão absurda. Em parte da imprensa, a PM “esclarece”, “explica”.

Mais de 48 horas depois e diante de todas as testemunhas — todas — terem confirmado a execução (não havia tiroteio), uma manchete afirma que a “Ação da PM na Congonha arrastada deixa dúvídas”. Deixa, repitamos, “dúvidas”.

Sergio Cabral, que é o chefe do Executivo, diz “esperar” a expulsão de presos. Ele “espera”.

A presidente da República “presta solidariedade”. Alguma medida, lembrança sobre alguma política pública, ação emergencial? Não, “solidariedade”.

Cláudia tinha 4 filhos e cuidava de outros 4 sobrinhos. Ela se junta aos que “(…) entre 2002 e 2010, segundo os registros do Sistema de Informações de Mortalidade, morreram assassinados no país 272.422 cidadãos negros, com uma média de 30.269 assassinatos ao ano. Só em 2010 foram 34.983.” (A Cor dos Homicídios. Mapa da Violência, 2013)

A resposta do Estado? “Espera” e “solidariedade”.

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Sabe quando você lê “O secretário informou que foi aberto um inquérito para investigar as circunstâncias da morte”? Então: http://glo.bo/1gyQN6m

Inquéritos policiais militares não valem quase nada. Na média, menos de 4% dos inquéritos não são arquivados, o que não é diferente da média nacional geral.

E a responsabilidade não é só da Polícia Militar. A impunidade tem co-responsáveis: Poder Judiciário, Ministério Público e Polícia Civil (a polícia judiciária).

Então tudo está perdido e nos mandamos daqui? Claro que não. Mas enxergar a cadeia do crime é essencial. Sem deixar de olhar para as fotos das vítimas, para a realidade diária que nos rodeia, mesmo que isso signifique não dormir direito, por inquietação e desejo de mudança.

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O marido de Claudia: “(…) Todo mundo viu que não houve tiroteio. Tanto que a comunidade desceu na mesma hora para protestar. Se tivesse troca de tiros, ela teria sido alvejada na frente e atrás.”

E o secretário de Segurança? “Repudia” a conduta, “abriu inquérito”. Não é elogiável executar alguém, né? E não abrir inquérito era uma opção?

Mas a tese de que era uma “conduta” (de “salvamento”) e não um assassinato floresceu ontem por muitos meios da “imprensa livre”. Didi Mocó tinha mais destaque do que Cláudia.

Hoje, a filha: “Foi só virar a esquina e ela deu de frente com eles. Eles [os policiais] deram dois tiros nela, um no peito, que atravessou, e o outro, não sei se foi na cabeça ou no pescoço, que falaram. E caiu no chão. Aí falaram [os policiais] que se assustaram com o copo de café que estava na mão dela. Eles estavam achando que ela era bandida, que ela estava dando café para os bandidos.”

Estava claro, óbvio, o que aconteceu. Execução sumária. Mas o jornalismo contemporâneo ouve primeiro a autoridade. Depois o povo, se der. Na maior parte dos casos, como leio diariamente, a voz do favelado é isolada.

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Na imagem, Claudia – mais uma Silva assassinada. E creio que a imagem dela é importante sim: uma mãe forte, negra, favelada e que teve sua vida interrompida diretamente pela ação do poder público. Infelizmente, ela é a síntese de um Brasil esquecido pelos governantes. Devemos todos nos lembrar dela, sempre, para manter vivas as esperanças e não desistir.“O mínimo que se espera dos três policiais presos é que sejam expulsos da corporação”, diz o governador. Cena de Cláudia sendo arrastada por um carro da PM é “chocante”, diz o comandante-geral da Polícia Militar.

Esse é o Estado mínimo: só reage quando pressionado por uma câmera de celular e, mesmo assim, para fazer o mínimo, muito aquém do que pede a legislação.

Reforça, assim, o sistema repressivo que mantém essa lógica: política burra de repressão às drogas e manutenção de uma estrutura arcaica de força policial militar, que não sofre reformas significativas desde que surgiu, no Império (os mesmos relatos tenho acompanhado em jornais nos últimos 200 anos).

As “providências” nos dão a certeza de que mais Claudias e Amarildos estão por vir.

Houve 22.533 vítimas de desaparecimentos entre 2007 e 2011 no Rio de Janeiro, enquanto só em 2012 há 5.900 casos de desaparecimentos no Estado. Em grande parte dos casos observados atualmente no Rio de Janeiro, o modus operandi permanece o mesmo: é pobre, favelado, pode matar e dar um sumiço.

Neste e em outros vídeos, é possível observar a certeza da impunidade dos policiais que, ao mesmo tempo, são eles próprios atacados por traficantes e outras forças criminosas, em meio à política repressiva totalmente sem fundamento.

E as mortes que não possuem vídeos? Só com espetáculo se consegue um pouco mais de respeito aos direitos humanos?

Útil relembrar o relatório internacional sobre execuções sumárias no Brasil de 2010, ainda atual: http://bit.ly/1gKGEEb

Na imagem, Claudia – mais uma Silva assassinada. E creio que a imagem dela é importante sim: uma mãe forte, negra, favelada e que teve sua vida interrompida diretamente pela ação do poder público. Infelizmente, ela é a síntese de um Brasil esquecido pelos governantes. Devemos todos nos lembrar dela, sempre, para manter vivas as esperanças e não desistir.

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Uma sequência de “jornalismo” brasileiro
17 de março

Portal G1, 17 de março de 2014
Portal G1, 17 de março de 2014
01. Dois elementos para os assassinatos do Estado hoje no Rio: (A) Claudia da Silva Ferreira foi colocada no porta-malas, e não no banco de trás (que seria o normal); (B) além disso, os policiais não permitiram que nenhum parente acompanhasse o “salvamento”, incluindo um relato de uma briga entre parentes e os policiais para que isso acontecesse.

Sempre no limite do possível, há uma imprensa que tenta a todo custo limpar a barra dos assassinos ao não fazer perguntas básicas, como as que fiz acima.

02. No jornalismo, não faltam pingos nos “is”. Ou você usa “A PM alega” ou “A PM esclarece”. Um apenas dá o outro lado, tentando se distanciar dele o máximo possível; o outro usa o mesmo adjetivo usado por fascistas quando fazem juízo de si mesmos: “esclarecidos”.

03. Um tenente-coronel, ao ver as imagens, disse que “viu irregularidades”. Como um carro com o vidro do retrovisor quebrado, por exemplo, uma “irregularidade”.

04. “(…) As avarias na viatura possivelmente foram causadas pelos moradores do Morro da Congonha, que bateram no carro tentando impedir que os policiais levassem o corpo da vítima sem que a filha acompanhasse”.

A matéria ouve a filha? PRA QUÊ, NÉ MESMO?

05. “Irmã de Cláudia, Juçara da Silva Ferreira, de 39 anos, disse que os policiais colocaram armas ao lado do corpo de um homem que também foi baleado na comunidade”.

06. Na maior parte das formulações, a mulher foi “arrastada por um carro”. O carro — esse assassino!

07. Entrem no portal G1, agora (reprodução na imagem), e tentem achar a notícia. Ela está na página de trânsito, porque os moradores fecharam uma via e PREJUDICARAM O TRÂNSITO. No destaque: “Cadela ajuda polícia a achar drogas e explosivos em favela de Ribeirão. Veja galeria com mais imagens do dia”.

Não tenho estômago, por hoje, para continuar. As observações acima foram feitas com apenas 10 minutos de leitura crítica. Como respeitar o jornalismo contemporâneo?

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Imagem: reproduçãoVídeo mostra viatura da PMERJ arrastando mulher por rua da Zona Norte do Rio: http://glo.bo/1iwSqq2

Os policiais disseram que retiraram ela com vida da comunidade. A secretaria de Saúde afirma que ela chegou morta ao hospital. Cláudia era mãe de quatro filhos, tinha 38 anos e trabalhava como auxiliar de limpeza.

“Outra cousa não esperamos”, senhor governador!

Reprodução do jornal O Globo de 23 de maio de 1930.

O governador Sérgio Cabral Filho poderia seguir o exemplo de pelo menos um de seus antecessores no que diz respeito ao trato do dinheiro público quando o assunto é o metrô (acesse aqui a matéria envolvendo a corrupção na gestão Cabral).

É o que nos lembra uma matéria do jornal “O Globo” de 21 de maio de 1930 (vide fotocópia), quando o então prefeito do Rio de Janeiro, Antônio Prado Júnior (1926-1930), tinha em mãos um projeto para construir o serviço na cidade.

O projeto não saiu do papel, é verdade – só viria a ser inaugurado muitas décadas depois, em 1979. Mas o exemplo de Prado Júnior é válido. Veja na fotocópia e abaixo o texto do diário na íntegra:

“O prefeito Antonio Prado Junior vetou o projecto que mandava conceder privilégio a determinado engenheiro, para construir o ‘metro’, e fez muito bem. Os serviços publicos dessa natureza devem sempre obedecer ao criterio da concorrencia a fim de se apurar quem maiores vantagens offerece. O projecto do Conselho Municipal deveria mandar o prefeito abrir concorrencia, estabelecendo nella todas as condições indispensaveis aos interesses da cidade e de sua população.

O problema do trafego urbano aqui está exigindo uma prompta solução. Os transportes subterraneos resolvem de golpe os perigos dos congestionamentos, que tanto perturbam o transito hoje em dia. Todas as grandes capitaes adoptaram o ‘metro’, desde que o trafego suspenso trouxe grandes inconvenientes para Nova York.

O veto do prefeito agora veio restabelecer a possibilidade de se organisar o serviço sob perspectivas mais seguras, mediante a concorrencia. Por intermedio della, a prefeitura poderá impôr condições e exigir vantagens em beneficio do publico. Outra cousa não esperamos.

Ao mesmo tempo o prefeito combateu (…) veso do Conselho, que costuma conceder favores nominaes, sem outros motivos além dos que inspiram os empenhos. É tempo de se estimularem os progressos da cidade por processos claros e honestos, que possam ser examinados sem [?].”

Promotor chama maior abrigo da prefeitura do Rio de Janeiro de ‘depósito infecto de seres humanos’

Do Jornal O Dia

Depósito infecto de seres humanos. Essa foi a definição utilizada pelo promotor Rogério Pacheco Alves, da 7ª promotoria de Justiça de Tutela Coletiva da Cidadania, sobre o Rio Acolhedor – maior abrigo para pessoas em situação de rua no Rio.

“Um mero depósito infecto de seres humanos. É disso que se trata. Não há nenhuma perspectiva de restabelecimento de laços sociais, reinserção no mercado de trabalho, nenhuma politica de educação, não há nenhuma atenção para os que precisam de atendimento de saúde mental”, afirmou Alves.

Do lado de dentro, a sala para oficinas de qualificação está entulhada e sem uso. Foto: Divulgação

Em entrevista coletiva concedida na manhã desta terça-feira (11), o promotor informou que fará uma nova Ação Civil Pública na próxima semana contra a prefeitura do Rio pelo descumprimento do Termo de Ajustamento de Conduta realizado em 2012. Na semana passada, o MP fez uma vistoria no local e verificou condições insalubres, denúncias de violência e superlotação: a capacidade de 150 pessoas está 200% acima no normal.

Além disso faltam serviços de qualificação profissional, como definido pelo TAC. Os abrigados denunciam que sofrem com as picadas de percevejos que infestam os colchões da unidade. O Ministério Público divulgou um vídeo com as imagens colhidas durante a vistoria.

Secretário diz que unidade está dentro do ‘padrão’

O vice-prefeito e secretário de Desenvolvimento Social do Rio, Adilson Pires (PT), negou a falta de condições de higiene. Ele disse que acha a situação “inadmissível”, mas que a dedetização do abrigo é feita com regularidade.

Para ele, os insetos são levados pelos moradores de rua. “Muitas vezes o percevejo é levado para o abrigo”, afirmou Pires.

Sobre a superlotação, o secretário disse que a prefeitura considera que o local tem capacidade para 350 pessoas. A prefeitura informou que está construindo duas unidades novas: uma em Bonsucesso e outra na Ilha do Governador.

Para Adilson Pires, o Rio Acolhedor está no “padrão”. “Está no padrão do que são abrigos do Rio ou de qualquer outro lugar do Brasil. Ele tem, dentro daquilo que é um abrigo, condições de higiene que são normais”, finalizou.

(Informações do jornal O Dia)