Costa do Marfim

Costa do Marfim, o segundo adversário do Brasil na Copa do Mundo: história e política

Gustavo Barreto | 20 de junho de 2010 | Área(s): diario | Comentários (0)


O Brasil enfrenta neste domingo (20) a seleção da Costa do Marfim, no Grupo G da Copa do Mundo da África do Sul. É o segundo jogo da seleção brasileira e se espera uma partida disputada, especialmente pelo estilo de jogo tático e forte dos africanos, apontados como uma das melhores seleções do continente que sedia a Copa do Mundo.

Esta é a segunda participação do país no torneio. Na primeira, em 2006, foi eliminada na primeira fase. Esse ano, apesar do complicado grupo no qual caiu, ninguém parece se surpreender com uma possível classificação dos “Elefantes” às oitavas-de-final da competição (veja mais ao final).


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No cenário político, a Costa do Marfim vive há décadas um quadro de instabilidade bastante marcante. O país está dividido em dois e luta para conseguir sua reunificação e realizar eleições justas. A ONU mantem a Operação das Nações Unidas para a Costa do Marfim (UNOCI), que tem como objetivo solucionar a questão e trazer paz à região.

História

A Costa do Marfim permaneceu inexplorada até meados do século XV devido principalmente à sua exuberante vegetação, que não permitia a criação de grandes impérios. Os primeiros europeus a chegar na região foram os portugueses, no século XVI, quando iniciaram o comércio de marfim e escravos. Um século depois, os franceses instalaram entrepostos comerciais no território e, em 1893, a Costa do Marfim se tornou um protetorado francês. Em 1895, a Metrópole instituiu a África Ocidental Francesa (AOF), agrupando o Senegal, o Sudão francês (hoje Mali), a Guiné e a Costa do Marfim, aos quais acrescentou mais tarde os territórios do Chade, Burkina faço (ex-Alto Volta) e Mauritânia.

O processo de independência começou apenas em 1946. Neste ano, foi criada a Agrupação Democrática Africana (RDA), partido com ramificações no Senegal, Mali e Guiné, que se propunha a conquistar a Independência e a unidade das colônias francesas da região. Félix Houphouet-Boigny, herdeiro da liderança da etnia baulê, foi designado presidente da RDA por sua experiência à frente da agremiação de agricultores, que havia enfrentado a política agrária colonial.

A RDA era aliada ao Partido Comunista francês, o único que sustentava posições anticolonialistas. Promovia greves, manifestações e boicotes aos comerciantes europeus. A repressão a essa luta causou dezenas de mortes e milhares de detenções e deu argumentos a Boigny a romper sua aliança com o PC e aceitar um pacto com a França.

A independência plena veio em 1960, dois anos depois da proclamação da República da Costa do Marfim, autônoma dentro da Comunidade Francesa. Entre 1958 e 1960, por sinal, toda a África Ocidental Francesa se tornara independente. Os novos Estados ingressaram nas Nações Unidas. Boigny, no entanto, continuou enxergando os franceses como aliados. Ao proclamar a Independência, no dia 7 de agosto de 1960, o dirigente marfinense declarou: “Não dizemos adeus à França, mas sim até logo”.

Costa do Marfim, com uma população atualmente de 20 milhões de habitantes, é um dos maiores produtores e exportadores de cacau, café, borracha e diamantes. O país atraía então investidores oferecendo estabilidade política – decorrente do autoritarismo paternalista de Boigny – e mão-de-obra barata, proveniente em grande proporção de países vizinhos.

Apresentou grandes taxas de crescimento entre 1966 e 1979, quando teve início uma importante crise internacional. As exportações agrícolas caíram, o índice de desemprego subiu para 45% e a dívida externa quintuplicou entre 1981 e 1985.

Até 1990, a RDA se manteve como único partido e Houphouet-Boigny ficou no poder até 1993, ano de sua morte. O governo vinha enfrentando já há alguns anos sucessivas crise em decorrência da política de austeridade fiscal, com seguidos cortes nos gastos públicos e manifestações em massa de diversos segmentos da sociedade civil, incluindo a Guarda Republicana, setores da educação e movimentos sindicais. A Costa do Marfim chegou a ter nos anos 1990 a maior dívida externa per capita do mundo.

Após a morte de Boigny, em 1993, a presidência foi assumida pelo ex-presidente da Assembleia Nacional, Henri Konan Bédié. Ele chegou a ganhar um pleito eleitoral em 1995, mas o processo foi extremamente questionado pela oposição, que não reconheceu a idoneidade das eleições. Neste mesmo ano, no entanto, o aumento do preço do café e do cacau no mercado internacional melhorou sensivelmente a situação da balança comercial da Costa do Marfim, a ponto de o comércio bilateral com a França apresentar um superávit pela primeira vez em 10 anos.

Os cortes nos gastos públicos promovidos pelo governo trouxeram enormes problemas na assistência médica. A esperança de vida baixou para menos de 50 anos. Além do vírus da AIDS, outros flagelos como a febre amarela e a tuberculose voltaram a aparecer, após avanços anteriores.

Bédié ocupou o cargo até 1999, quando um golpe de Estado comandado pelo general Robert Guei o destituiu. Bédié deixou o país imediatamente. Guei anunciou um referendo, aprovado em agosto, para modificar a Constituição, juntamente com a promessa de eleições em outubro. O voto estava permitido, segundo uma das mudanças, para pessoas de 18 a 20 anos.

No entanto, outras mudanças geraram críticas. Uma delas estipulava que os pais dos candidatos presidenciais devem ser “de origem marfinense”. Esta era uma mudança claramente destinada a excluir o ex-primeiro-ministro Ouattara, que havia integrado o governo de Bédié e também era membro do Partido Democrático da Costa do Marfim (PDCI), no poder desde a Independência.

Em 2002, o Movimento Patriótico da Costa do Marfim retira do poder Guei, assassinando-o. Desde então o país vive um momento de instabilidade política, com uma guerra civil entre os rebeldes do norte e os conservadores do sul. Nas eleições de 2000, o socialista Laurent Gbagbo aparecia com grandes chances de vitória, mas o pleito nunca se concretizou. Com a morte de Robert Guei, Gbagbo tomou posse no dia 26 de outubro de 2000.

Guerra Civil, Reunificação e Eleições

A Guerra Civil da Costa do Marfim teve seu auge entre 2002 e 2004. Embora a maioria dos combates tenham terminado no final de 2004, o país continua dividido em dois, com rebeldes dominando o norte e o governo comandando o sul.

A Operação das Nações Unidas para Costa do Marfim (UNOCI) teve início durante a guerra civil. As Forças de Paz neste país tem enfrentado atualmente uma situação complicada. Em março de 2007, por intermédio do presidente de Burkina Fasso, Blaise Compaoré, foi assinado o Acordo de Ouagadougou, que busca acabar com o conflito e pode significar a realização de eleições e a reunificação do país.

Atualmente, dois assuntos lideram as preocupações políticas na Costa do Marfim: a reunificação do país e a convocação de eleições. As principais diferenças e disputas políticas entre as facções são relacionadas às divergências frente a estes dois temas. O campo governista quer a reunificação antes das eleições. Já a oposição quer eleições antes de reunificação, enquanto um grupo armado conhecido como “Forces Nouvelles” – Forças Novas, os rebeldes ao norte – exigem identificação nacional antes de reunificação. Para intensificar as ambiguidades, o Acordo Político de Ouagadougou permite que todos os protagonistas reivindiquem legitimidade a favor das suas posições.

Desde a eclosão da crise que dividiu o Costa do Marfim no Norte rebelde e no Sul governista, em 2002, atrasos permanentes das eleições e de vários tratados de paz tem sido uma fonte de frustração para o povo marfinense, assim como para a comunidade internacional. Analistas afirmam que o constante fracasso de manter as eleições e materializar a unificação do país tem contribuído para o agravamento das tensões entre os grupos.

Funcionários da Comissão Eleitoral Independente de Costa do Marfim se preparam para postar as listas provisórias dos eleitores para as eleições presidenciais do país em um posto de votação na Escola da Câmara de Comércio e Indústria, em Abidjan, em novembro de 2009. A Operação das Nações Unidas para Costa do Marfim (UNOCI) forneceu o transporte para os materiais. Foto: Ky Chung/UN.

O Representante Especial da ONU para a Costa do Marfim, Choi Young-jin, ressaltou recentemente que a lista eleitoral é prioridade imediata para o país. No começo deste ano, com a publicação da lista provisória e a validação dos principais candidatos à Presidência, a realização das eleições parecia estar próxima. Entretanto, as tensões começaram após o cadastro de eleitores ter sido suspenso por causa da violência no país e do surgimento de uma segunda lista provisória.

Em fevereiro, o presidente Laurent Gbagbo dissolveu o Governo e a Comissão Eleitoral Independente (IEC, na sigla em inglês). O processo eleitoral continua estagnado por medo de uma possível fraude. Um novo Governo e uma nova Comissão Eleitoral já foram estabelecidos, mas o processo permanece bloqueado enquanto persistem diferenças sobre como enfrentar a questão da fraude e definir critérios relativos a diversos aspectos, como a lista provisória.

Choi Young-Jin, Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Costa do Marfim e chefe da Missão da ONU no país (ONUCI), se dirige ao Conselho de Segurança, em junho de 2010 em Nova York, sobre a situação do país. Foto: Devra Berkowitz/UN.

De acordo com os Acordos de Paz de Ouagadougou, o processo está agora concentrado nas demais prioridades – incluindo as relacionados às eleições, o desarmamento e a reunificação do país. Tal como acordado pelas partes em 2008, a reunificação de fato será concluída dois meses antes da eleição presidencial.

MINUCI e UNOCI

A Missão das Nações Unidas na Costa do Marfim (MINUCI) foi instituída pelo Conselho de Segurança em maio de 2003 pela resolução 1479, com o objetivo de facilitar a aplicação do acordo de paz assinado pelos partidos da Costa do Marfim em janeiro do mesmo ano. Terminou seu mandato em abril de 2004, quando a Missão foi substituída pela Operação das Nações Unidas para Costa do Marfim (UNOCI) em busca de maior efetividade na resolução dos conflitos.

A UNOCI conta hoje com cerca de 8.500 membros, incluindo 7.195 soldados, 180 observadores militares e 1.128 policiais, apoiados por 401 funcionários civis internacionais, 697 agentes locais e 294 voluntários das Nações Unidas. O Brasil é um dos 41 países que enviou membros para as Forças de Paz. Desde o início da Operação, dia 4 de abril de 2004, já houve 66 perdas entre membros da UNOCI.

Atualmente, a oposição defende o fortalecimento da presença da ONU no país, enquanto alguns observadores defendem sua expulsão, argumentando que o atraso das eleições não justifica mais a presença da Operação no país. No momento, a UNOCI mantém três objetivos prioritários: manter a paz e a estabilidade, incluindo a proteção a civis; prover suporte permanente para a implementação da reunificação e das eleições; e ajudar na realização da lista eleitoral sem fraudes.

Recentemente, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon, após muitas deliberações no Conselho de Segurança, recomendou que a UNOCI mantenha a atual força, com componentes militares e policiais na região, até o fim de 2010. O Conselho mantem um comitê, estabelecido pela resolução 1572 de 2004, para monitorar a efetivação das medidas e resoluções da Organização.

Processo de desarmamento no norte do país teve início

O desarmamento e a desmobilização de 600 ex-combatentes já teve início na cidade de Korhogo, região ao norte do país controlada pelos rebeldes, apontou um relatório da UNOCI divulgado esta semana.

Em uma cerimônia realizada na semana passada na Costa do Marfim, o Representante Especial do Secretário-Geral para a região disse que a UNOCI faria sua parte para fazer do processo de desarmamento um sucesso e incentivou os parceiros da iniciativa a se integrarem. O processo está sendo monitorado pela Missão das Nações Unidas e por outras partes.

Costa do Marfim na Copa

A Copa do Mundo da África do Sul é apenas a segunda participação da Costa do Marfim na história dos mundiais. A primeira foi em 2006, na Alemanha, quando a seleção foi desclassificada ainda na primeira fase, depois de perder por 2 a 1 para Holanda e Argentina e ganhar por 3 a 2 de Sérvia e Montenegro.

Desde a última Copa, a Costa do Marfim vem sendo considerada uma das mais fortes equipes africanas. No ranking da FIFA, é a 17ª colocada, atrás apenas de Camarões (11ª). No entanto, a exemplo do que aconteceu em 2006, o sorteio dos grupos não foi muito favorável aos marfinenses. Se naquele ano entre os adversários estavam Argentina e Holanda, dessa vez eles terão pelo caminho Brasil e Portugal.

Didier Drogba, Embaixador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Foto: PNUD.No entanto, se há esperança para os “Elefantes”, como são conhecidos os jogadores marfinenses, ela atende pelo nome de Didier Drogba. Principal jogador da seleção, o atacante que atua no Chelsea da Inglaterra é ídolo não só nacional, mas de toda a África.

Com 44 gols em 66 jogos pela seleção, Drogba é a grande arma do time marfinense, mas ficou no banco de reservas durante a maior parte da partida contra Portugal. Às vésperas do Mundial, ele sofreu uma lesão grave no cotovelo durante um amistoso, teve de ser operado e ainda está em fase de recuperação. Mesmo assim, é presença garantida para o jogo contra o Brasil, neste domingo (20). A próxima partida da Costa do Marfim é na sexta-feira (25), contra a seleção da Coreia do Norte.

Juntamente com o francês Zinedine Zidane, Drogba é atualmente Embaixador da Boa Vontade do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e está promovendo atualmente uma campanha recém lançada estimulando o mundo a fazer um esforço concentrado para ajudar milhões de pessoas a se libertarem da pobreza (vídeo abaixo).

A versão em espanhol pode ser acessada aqui. O vídeo de Zidane e Drogba também pode ser visto no novo website do PNUD dedicado ao tema, www.kickoutpoverty.org, que dá às pessoas a oportunidade de participar da luta contra a pobreza.

(Com pesquisa UNIC Rio e Editora Terceiro Milênio)

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