01/03/2011
< Por Manoel de Barros >

12/04/2010
Em tempos de tragédias no Rio, por causa da incompetência dos governantes, lembremos também dos escafandristas e a tragédia do amor interrompido:
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Eu tava mexendo no violão, comecei a fazer a melodia e a primeira coisa que apareceu foi exatamente a cidade submersa, isolada de tudo. Cantarolando, parecia que a música queria dizer isso. Eu tinha que ir atrás depois, tinha que explicar a cidade submersa, tinha que explicar essa história. Apareceu a cidade submersa antes de qualquer outra coisa. Aí eu coloquei esses escafandristas [que usam escafandros, aquelas roupas de mergulhadores] e esse amor adiado, esse amor que fica pra… pra sempre. Essa idéia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde. Que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios e aquele amor vai ficar até debaixo d’água e vai ser usado por outras pessoas. Um amor que não foi utilizado, porque não foi correspondido, então ele fica ímpar, fica pairando ali, esperando que alguém apanhe e complete a sua função de amor.
14/02/2010

Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína.
Embora eu saiba que ruínas é uma desconstrução.
Minha idéia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para
abrigar o abandono
, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma
criança presa num cubículo
O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR.
A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela.
Queria construir uma ruína para salvar a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas; como um lírio pode nascer de um monturo.” E o monge se calou descabelado.
(Manoel de Barros)