Jornalismo, para ser marrom, tem que ser pelo menos jornalismo

Foto: Reprodução/Facebook

Você vai ao médico, ele coloca 40 gotas de dipirona pra criança, mas diz que são 10 (até aqui, tudo o que foi explicado pela “imprensa”).

A paciente sabe disso, está bem atendida e, inclusive, elogia o médico.

Uma outra médica, como se não tivesse nada pra fazer, vê que o médico é… cubano. E decide “denunciar” o colega. Um erro do idiota do médico cubano que poderia ter matado um pequeno brasileirinho. A Globo na Bahia compra a mentira e vai fundo: http://glo.bo/I60G2n

Uma comissão ouviu a mãe, diarista, que disse: eu entendi tudo, está tudo OK, aliás o médico é ótimo.

A comissão ouviu o médico: ele confirmou que a dose deveria ser fracionada em quatro vezes. “Não estou vendo problema na prescrição fracionada porque o raciocino clínico foi correto”, afirma a comissão.

O médico, concluíram, não errou e ninguém poderia, portanto, em hipótese alguma, se prejudicar — pelo contrário, diz a mãe: “Ele me atendeu muito bem. Ele tratou meu filho super bem, porque tem médico que nem olha na cara da mãe e nem da criança. Ele me explicou direitinho como dar o remédio, disse ainda que a quantidade de gotas é definida a partir do peso da criança”.

Dois jornais locais, que não saíram no G1, deram a versão correta: http://glo.bo/I8ITaW e http://bit.ly/I8IVQg

Aí vem o G1 e apresenta a mesma informação, que deveria ser no mínimo uma retratação, da seguinte forma — “Médico cubano suspeito de receitar dose excessiva voltará a atender”: http://glo.bo/I8J8mj

O detalhe sórdido: a primeira manchete deste link acima, pasmem, foi “Médico cubano que receitou dose excessiva volta a atender na segunda”. (O caminho da URL permanece “medico-cubano-que-receitou-dose-excessiva-volta-atender-na-segunda.html”, denunciando a mudança)

É simplesmente inacreditável. Jornalismo, para ser marrom, tem que ser pelo menos jornalismo — o que não é o caso.

Até onde, pergunto, vai a estupidez de uma elite que não quer, a todo custo, melhorar a vida da população que mais precisa de serviços médicos? Que lógica um “jornalista” (o editor) — a não ser a má-fé não declarada — usa para tornar isto uma notícia?

Com a palavra, a diarista, a mãe: “Ela não teve ética. Fez algo que não autorizei. O médico me explicou certo. Eles estão com raiva porque os cubanos estão fazendo o trabalho que eles não querem fazer. Os médicos brasileiros tratam a gente como se fôssemos animais, diferente dos cubanos”.

O jornal local A Tarde registra:

“A notícia do afastamento do médico levou inúmeros moradores do conjunto Viveiros para a Unidade de Saúde para reclamar da atitude da secretária e solicitar o retorno imediato do profissional que, segundo eles, era atencioso e tratava todos com respeito.

Cristiane Araújo Fonseca fiz que levou o filho de 4 anos na quarta-feira para a unidade com febre, vômito e diarréia e que o médico fez todos os exames e o medicou. “Meu filho melhorou logo graças ao médico. Queremos o médico de volta, passamos mais de 2 meses sem médico e agora inventam coisa para tirar o médico daqui”, afirmou.

Os moradores afirmaram que, caso o médico não retorne para a unidade, eles farão uma manifestação fechando a entrada da unidade. “Se não retornar na próxima semana, iremos impedir o funcionamento do posto de saúde. A secretaria deveria ouvir a comunidade e não acreditar em uma mentira”, ameaçou Maria da Glória Martins.”

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