Enquanto você grita gol

Fotos e texto de ELLAN LUSTOSA

As pessoas da Ocupação do antigo prédio do IBGE, na Mangueira, Zona Norte do Rio de Janeiro, estão torcendo pela Copa, pela cozinha, pela sala, pelo saneamento, pela comida, pela dignidade…

Hoje, dia do jogo do Brasil, eu e amigos ativistas visitamos os moradores da Ocupação IBGE. As cenas que presenciamos foram verdadeiros cortes em nossos corações. Deparamo-nos com pessoas vivendo em total falta de tudo, sem qualquer possibilidade de uma vida digna. No primeiro andar da Ocupação havia há dois dias um vazamento de esgoto que vinha de fora e inundava tudo. As pessoas estão tendo que viver com esgoto em seus pés, por todo chão de suas “casas”. É, elas chamam de casa. Crianças convivendo com um mar de insalubridades, expostas a sorte de qualquer doença por causa da grande quantidade de lixo e bichos que lá existe.

Isso tudo acontecendo bem ao lado de onde milhões foram gastos para atender as necessidades do capital. Ao lado, o Maracanã brilha ostentando seus gastos e servindo aos que lá enfiaram dinheiro público para o bel prazer da “classe rica”. Que governo pode ser tão cruel que deixa seu povo tentar sobreviver numa condição sub-humana dessas?

Fiquei lá dentro por muito tempo registrando esse absurdo que me cortou o coração e me afastei de todos. Ao sair completamente transtornado e encontrar com o grupo, vi em cada rosto de meus colegas resquícios de lágrimas, fruto da experiência vivida. Até quando num país rico como esse, as pessoas terão que passar por isso?

Viver, moradia, dignidade, não se pode aceitar e nem permitir mais isso. Cantar o hino com a mão no peito ao entrar da seleção não é e nunca foi ser patriota. Patriota é tratar seu país e seus irmãos com amor. Permitir que esse ser humano tenha uma vida digna.

Divido agora um pouco do meu pranto:

Exército na Maré: o Brasil pré-Copa

Exército na Maré, complexo de favelas do Rio de Janeiro: esse incidente, pelo que chequei, aconteceu no local conhecido como Campo da Paty, na Nova Holanda.

O notável despreparo do Exército ocupando ruas na favela carioca vem acompanhado do total descaso em relação aos serviços sociais. Bem-vind@ ao país da Copa.

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A barbárie, declarada por um dos torturadores

“(…) Ex-agente do DOI contou que, ao chegar, o preso era levado à “sala do ponto”, um lugar tão terrível que “até o diabo, se entrasse ali, saía em pânico”.”

Mais um capítulo da estupidez promovida pelos militares durante a ditadura. Crimes imprescritíveis, crimes contra a humanidade.

Disse o ex-agente, Riscala Corbaje: “Não tem necessidade de fazer nenhum outro sofrimento, choque, nem nada. Os outros davam tapa, davam soco. Cada um trabalhava de um jeito lá. Tu já viu estudante? Você pega um estudante, você bota ele com o peso do corpo numa barra de ferro e deixa ele 15 minutos pendurado no pau de arara. Não precisa dar choque. O cara urra de dor. Sabe por quê? Atinge os nervos da perna. O cara quer descer de qualquer maneira”.

E, ao final, declarou: “Não tenho o menor peso na consciência”. (leia aqui a matéria)

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SP: Mais pessoas devolvem apartamento por não poder arcar com aumento do aluguel

Belíssimo legado da Copa — e da falta de políticas públicas que realmente trarão desenvolvimento, como as de moradia.

“Uma pesquisa divulgada neste mês pelo Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo (Creci-SP) mostra que, em um ano, dobrou a proporção de pessoas que devolveram as chaves de apartamentos por não conseguir arcar com o aluguel. O índice de entrega por problemas financeiros passou de 15% do total das devoluções, em fevereiro de 2013, para 30%, no mesmo mês deste ano. A pesquisa foi feita com 402 imobiliárias.”

Entendeu como os 25 bilhões da Copa voltam? Leia aqui a matéria.

Na Folha: “Eu costumava morar no centro de Itaquera, mas, de dois anos para cá, o meu aluguel passou de R$ 300 para R$ 700”, conta Luciana. “Aí não tive mais como ficar na minha casa.”

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Enquanto isso, na Polícia Militar do Rio mais um corrupto está impune…

Do jornal O Dia: “PM suspeito de ser um dos chefes de quadrilha está na ativa em outro batalhão. Rômulo Oliveira André trocou de unidade mesmo após O DIA revelar com exclusividade detalhes da ação do grupo.”

Taí o porquê do fracasso da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Este não é um caso isolado: a instituição não tem corregedoria.

Tudo pode, só tente não aparecer com o rosto no Fantástico ou fazer uma merda tão grande que vire alvo de campanha internacional. De resto, tudo pode.

A instituição funciona hoje de acordo com o vento: se o policial ou comandante é bom, tudo bem. Parabéns, toma sua estrelinha, com direito a aparecer no catálogo de “boas práticas” que será entregue à sociedade.

Se não é, aí ferrou. Corrupção, assassinatos, tudo poderá daí vir — sem consequências reais. Repito: é regra, não exceção.

Janio de Freitas, grande jornalista, em entrevista ao Fazendo Media: “Não adianta apenas substituir a farda por uma camisa esporte, vai continuar a mesma coisa”.

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Ótimo artigo sobre o direito de se manifestar, inclusive na Copa

Os direitos humanos são inegociáveis, diz Atila Roque, da Anistia Internacional Brasil, e a sociedade civil está de olho: http://glo.bo/1keIV0G

Mais de 20 mil famílias foram removidas nos últimos quatro anos no Rio

Raquel Júnia, da Agência Brasil

As obras de mobilidade prometidas para a Copa do Mundo deste ano levaram à remoção de milhares de famílias no Rio de Janeiro. Dossiê divulgado pelo Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas, em 2013, apontava que ao menos 8 mil famílias estavam ameaçadas de remoção em função de obras de infraestrutura para o Mundial.

A comunidade Metrô-Mangueira, que ficava a menos de 1 quilômetro do Maracanã, foi uma das que foram retiradas. Ex-moradora do local, Dalva Martins, 67 anos, diz que agora não tem para onde ir. “Eles demoliram a casa da amiga ali, está tudo no chão, não esperaram nem tirar as coisas de dentro. Eu tenho seis netos que eu crio, tenho um recém-nascido, uma criança especial, onde eu vou morar? Pra onde que eu vou?”

Apesar da acusação do comitê de que a cidade passa por um processo de especulação imobiliária e “higienização” de áreas turísticas, o sub-prefeito da zona norte, André Santos, negou que a retirada das famílias tenha relação com a proximidade do Maracanã.

“Nenhuma relação, é um projeto já iniciado há bastante tempo, nós vamos construir o polo automotivo, que já tem decreto. Não vai ficar pronto para a Copa do Mundo, então não tem nada a ver com a Copa”. Integrante do Comitê Popular e pesquisador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Orlando Junior afirma ser clara a intenção de, com a remoção, tirar dos olhos dos turistas as comunidades pobres.

“O processo de remoção da comunidade do Metrô-Mangueira tem relação direta com esse processo de mercantilização da cidade, de elitização da cidade”, destacou. De acordo com a prefeitura, 20,3 mil famílias foram removidas entre janeiro de 2009 e dezembro de 2013. Desse total, 9,3 mil estão em imóveis do Minha Casa, Minha Vida, 5 mil recebem aluguel social e 6 mil foram indenizadas. A prefeitura reconhece que 1.720 deixaram as casas em função de obras, o restante, segundo o órgão, estava em locais de risco.

O Comitê Popular afirma que a maioria das remoções ocorreu em áreas de extrema valorização imobiliária. Segundo Orlando Junior, o novo local de moradia das famílias também é um problema.

“Muitas famílias têm sido removidas para a zona oeste do Rio de Janeiro: Campo Grande, Vila Cosmos. A infraestrutura urbana destes conjuntos para onde parte das famílias tem sido removidas é bastante precária, o acesso a supermercado, rede escolar, mobilidade, é um processo de remoção para áreas sem estrutura para estas famílias, desde saneamento básico até rede escolar.”

Dois dos bairros que receberam famílias removidas, Cosmos e Campo Grande, não têm indicadores promissores. De acordo com Censo de 2010 do IBGE, Cosmos ocupa 117ª posição quando o assunto é alfabetização e Campo Grande a 88ª posição, em um total de 180 bairros da cidade.

O projeto que deu origem a esta reportagem foi vencedor da Categoria Rádio do 7º Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, realizado pela Andi, Childhood Brasil e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Prefeitura não entrega casas e Justiça garante ocupação por sem-tetos (MT)

“Centenas de sem-teto ocuparam casas de um conjunto habitacional no município de Itanhangá, localizado a 543 quilômetros ao Norte de Cuiabá. Detalhe: agora a medida conta com o aval da Justiça, que negou a reintegração de posse à Prefeitura, gerenciadora do programa. “Não é razoável deixar ao relento essas famílias, compostas, inclusive, por gestantes e crianças, com a possibilidade, em tese, das casas ficarem desabitadas” – apelou o defensor Diogo Madrid Horita, ao conseguir a reconsideração da liminar de reintegração.”

Do 24HorasNews: http://bit.ly/xJA88g