13/05/2013

A quem interessa a crucificação policial no Rio de Janeiro?

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Foto: Jornal Extra/reprodução.

Foto: Jornal Extra/reprodução.

Em qualquer ditadura, um governo tem uma forma muito simples e tradicional de agir: os opositores devem ser calados. Se não por bem, que seja pela violência direta, encomendada a milícias ou realizada pelo próprio aparato estatal.

Há diferentes ditaduras pelo mundo, até hoje, mas todas elas – sem exceção – assim agem. Elas podem ser aplicadas pelo mais alto escalão do governo, nos piores casos, ou por grupos paramilitares atuando à margem da lei, porém sempre com apoio de oficiais de governo, com ou sem apoio de agentes privados e necessariamente com apoio de parte da população e da imprensa.

Esse modelo segue um padrão linear e é acompanhado, igualmente sem exceção, por um sem número de execuções sumárias, arbitrárias ou extrajudiciais.

Por oposição, entendemos aqui apenas isso mesmo: o oposto, indesejável, que deve ser eliminado. Por qualquer que seja o motivo ou intenção.

A operação ocorrida no dia 16 de agosto de 2012 em uma favela em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, é tão normal que (infelizmente) é de fácil explicação. Cinco suspeitos foram perseguidos pela polícia civil, executados sumariamente e, no boletim de ocorrência, os assassinatos viraram “resistência à prisão”, uma mera consequência da troca de tiros. Um vídeo obtido pelo jornal EXTRA mostra claramente o contrário.

A chefe da Polícia Civil resumiu a posição sensata, porém (apenas) oficial do Estado: “O papel do policial é proteger vidas e agir dentro da lei. O princípio da Polícia Civil é prender e não matar”.

Para defender a população da Favela da Rola, os policiais precisavam executar sumária, arbitrária e extrajudicialmente os suspeitos à luz do dia? Não. Mesmo o mais limitado dos leitores de jornal há de concordar que, vivos, os cinco suspeitos servem muito mais para o combate ao crime do que mortos.

Além disso, atirar a partir de helicópteros em uma área densamente habitada não parece ser a atitude mais inteligente para a devida proteção da população. A singela prova disso é que a mesma polícia civil não chegou atirando para prender o bicheiro Anísio Abraão David. Os demais moradores do luxuoso apartamento de andar inteiro de frente para a praia de Copacabana talvez ficassem incomodados. Em uma hipótese, claro.

Os que são a favor das execuções sumárias são os que verdadeiramente estão “defendendo bandido”, ao meu ver, ao crer que o fim da violência só acabará com a morte de todas as pessoas do “Mal”, e não com a devida punição e efetiva investigação de suas causas. É isso o que faz o crime diminuir – e não apenas políticas sociais inclusivas, como pensam muitos liberais e socialistas.

As políticas inclusivas são, sim, importantíssimas e essenciais, mas sem a devida punição exemplar, dentro do Estado de Direito, não há um único país em todo o mundo que não tenha retomado índices alarmantes de insegurança pública e de execuções extrajudiciais. A certeza da impunidade mata muito mais que as armas de fogo.

O que vigora atualmente, no entanto, é resumido por um velho (e irônico) ditado que circula aqui no Rio: “Para acabar com a violência só com muita porrada”.

A violência maior, no entanto, está ocorrendo no dia a dia dos próprios agentes públicos do Rio de Janeiro. Sufocados pela política estadual irresponsável do confronto, muitos destes policiais entram numa espiral de vingança e de ódio contra o ‘outro’ que ocupa o mesmo lugar que ele: o oprimido pelo sistema de (re)produção da morte e do medo.

Isso fica evidenciado na fala de um policial da Core ouvido pelo jornal que estava na operação de agosto de 2012, ao comentar sobre o vazamento do vídeo: “Colocamos a vida em risco e acontece isso. Estamos sendo crucificados”.

Não há como discordar do agente. De fato, o que ele diz é ainda mais importante do que a da chefe da polícia civil, pois está no cotidiano da cidade. Os agentes colocam a vida em risco sob o mandato de suas chefias, que continuam a ignorar todo o aparato de inteligência que poderia ajudar o poder público a diminuir os índices de criminalidade – quando se tratam dos pobres. É um corte de classe, como sabemos. Computadores e Habeas corpus para uns, chumbo grosso e execuções para outros.

No lugar da “Inteligência”, o que fazem? Atiram sobre bairros superpopulosos da periferia, a qualquer momento, em uma caça insana a um punhado de garotos obedecendo a um sistema de varejo, cujos maiores beneficiários eles sequer conhecem e cuja estrutura nunca entenderão. (E quem quer receber balas de policiais nas suas cabeças a qualquer tempo? Alguém aí? Imaginei.)

Os policiais colocam sua vida em risco em nome do quê? De quem? Dos cidadãos de “bem”? Da luta contra o “mal”?

Se você é do tipo que considera que há seres humanos melhores que outros, parabéns – faz todo o sentido apoiar as execuções. Seres deste tipo – como os judeus na Alemanha nazista ou os negros da África do Sul durante o Apartheid – ficariam no mínimo ultrajados com este tipo de pensamento à mesa de jantar.

No entanto, se quisermos buscar uma compreensão mais equilibrada sobre como lideranças políticas oportunistas conseguiram obter apoio de seus agentes da lei para arriscar suas vidas diariamente sem questionarem quem são seus verdadeiros inimigos, vamos ter que nos esforçar um pouco mais.

Os policiais são os agentes públicos que mais se expõe ao crime. São eles que efetivam as operações da Secretaria de Segurança Pública. Se não começar por dentro da própria polícia o questionamento sobre a pertinência destes tipo de ações suicidas e assassinas, pouco mudará. Continuaremos ostentando números de homicídios maiores dos que o de uma guerra como a da Síria e, mesmo assim, reconduzindo para os mais altos cargos seus regentes.

A polícia que persegue pobres favelados e expõe numerosas pessoas a um tiroteio de classe, aquele que só atinge bairros da periferia, está colocando a vida de todos nós em risco – policiais ou não. A política do confronto poderia ser um atestado da nossa falta de inteligência para lidar com a questão, mas infelizmente é muito mais do que isso: é um projeto político muito bem estruturado. Reconhecê-lo é fundamental.


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07/05/2013

Entre a ressocialização, a vingança e a simples burrice

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matematico

A mediocridade do pensamento limitado a polos pré-fabricados pelo senso comum continua a fazer mais vítimas, incluindo muita gente bem intencionada.

SE POLICIAIS TOTALMENTE despreparados começam a atirar que nem loucos sobre um bairro residencial densamente povoado, isso é uma barbárie sem possibilidade de qualquer tipo de argumentação contrária. Basta se colocar no lugar e fim.

Quem discordar dessa posição deve necessariamente aceitar – formalmente, favor enviar assinatura autenticada no cartório – ‘levar bala’ e arriscar sua vida apenas para que seja realizada a captura de um traficante, que será substituído uma semana depois (provavelmente com ainda mais contatos dentro de corporações oficiais). Mas deve fazê-lo sozinho(a), ou seja, deve morar num bairro bem afastado, apenas com pessoas que aceitem levar tiros mesmo com toda a tecnologia criminal disponível.

SE ESTES MESMOS POLICIAIS são alvo sistemático de ataques, estes são fatos igualmente importantes e a política de confronto deve parar imediatamente, a não ser que não haja qualquer outra alternativa, com a vida desses agentes públicos preservadas sem mais demora.

Quem discordar dessa posição deve se colocar na pele destes policiais imediatamente, cujo estresse profissional é um dos mais perversos, com prejuízo também para familiares, amigos, conhecidos.

A absoluta maioria dos policiais é composta de profissionais íntegros, recebendo ordens para prevenir o crime ou prender pessoas perigosas, e em muitos casos silenciados pela banda podre das polícias civil e militar, prejudicados pela mediocridade da formação da categoria ou impotentes diante da ineficiência das corregedorias.

SE CRIMINOSOS FORAM identificados como autores de ataques contra a população, tráfico de drogas e armas ou qualquer outro crime, hediondo ou não, devem pagar na forma da lei e dentro do Estado de Direito, pois não se trata de ganhar o campeonato nacional da barbárie.

A civilização já tentou a alternativa do ‘olho por olho, dente por dente’, atingindo apenas ainda mais barbárie, intolerância e regimes de apartheid contra minorias excluídas do jogo político dominante. Simplesmente nunca deu certo. A punição exemplar, essa sim, temos centenas de exemplos para exibir.

O QUE EU QUERO ENTENDER é: quem é que determinou que estas posições são inconciliáveis? Quem anunciou que acreditar na justiça e na igualdade é algo intangível, de ordem ilusória? Aqueles que ganham com esse caos e depois pintam de heróis. Os ‘xerifes’ e ‘justiceiros’. Enquanto eles estão vendo o circo pegar fogo, muitos continuam a se debater em torno de falsas polêmicas, criadas por quem está contente com nossos números de país em guerra, mesmo sem contestação do poder central por parte de qualquer grupo rebelde.

Quais foram os países que resolveram seus problemas de segurança pública? Países que fecham prisões, abrem escolas e acreditam no ser humano – não por bondade, mas sobretudo por uma questão de inteligência.

Dá certo nos países que decidiram não mais apostar na indústria da morte. Eles entenderam que a ressocialização gera cidadãos, enquanto a vingança gera assassinos.

PARA OS QUE VIRAM na TV as cenas do despreparo dos policiais na ação que executou o traficante Matemático, no Rio de Janeiro, fica a impressão de que a imagem deste texto é uma reprodução das filmagens da polícia civil.

Não é. São cenas de soldados norte-americanos e ingleses assassinando sem qualquer critério cidadãos iraquianos, em imagens liberadas pelo site Wikileaks. Porque, no final, o princípio é o mesmo. E o resultado final muito semelhante.


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30/04/2013

Rio de Janeiro, cidade olímpica, 27 de abril de 2013

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As imagens registradas aqui mostram diversas — e gravíssimas — violações de diferentes direitos humanos.

E ninguém é processado, julgado ou punido.

Já está mais do que claro qual é o legado social dos megaeventos — uma cidade que não ouve ninguém a não ser os empresários. Autoridades pagas pela população para jogar bombas em crianças, jovens e adultos pelo simples fato de reivindicarem direitos — o tal direito a manifestação, consagrado em qualquer legislação existente, nacional ou internacional.

Um dos policiais deixa transparecer que quem era manifestante estava sendo preso. Não contentes, prendem agora jornalistas. De modo totalmente ilegal e, repito, mais uma notável e flagrante violação dos direitos humanos.

Eu tenho vergonha de viver em uma cidade como o Rio de Janeiro. E a mesma vergonha de quem elegeu gente dessa categoria.


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14/04/2013

A covardia da criminalização juvenil

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O Brasil registrou nos dados consolidados de 2010 um número impressionante de homicídios, 49.932 – um aumento de 259% em relação a 1980. O Brasil é – qual a novidade? – um país violento.

O aumento das taxas de homicídio no país aumentaram quase que linearmente até 2003, quando começaram a apresentar eventuais quedas, como a notável queda entre os anos de 2003 e 2007, porém apresentando igualmente número que fazem inveja a qualquer país em conflito civil.

Para se ter uma ideia, a ONU calcula que, somente dentro da Síria, devido a uma guerra declarada, já morreram mais de 70 mil pessoas em dois anos. No Brasil morreram mais de 100 mil, no mesmo período, sem que nenhuma milícia tenha contestado a autoridade do poder central. Em 2010, por exemplo, morreram 137 pessoas por dia, em média – número superior ao do massacre do Carandiru (111). E todos os dias.

Os números absolutos são assustadores – e também o são percentualmente.

Entre 1980 e 2010 – 31anos portanto – o país perdeu 1 milhão de pessoas para a violência, com cerca de 70% deles por decorrência do uso de alguma arma de fogo. Em quase 20 anos de guerra na Somália (1982-2000), foram 30 mil mortos. A guerra civil na Colômbia deixou 45 mil vítimas em 36 anos. A guerra civil de Angola meio milhão de pessoas em 27 anos. A guerra civil na Guatemala fez 400 mil vítimas em 24 anos.

As perdas humanas somente no Brasil equivalem, em média, às perdas humanas nos 12 principais conflitos armados pelo mundo – incluindo alguns dos mais sangrentos, como Iraque, Sudão, Afeganistão, Paquistão e República Democrática do Congo.

Alguém tem dúvida de que trata-se – não de uma guerra, mas – de uma tragédia humanitária absolutamente bárbara e desumana? Eu não.

E não adianta tentar argumentar que o Brasil é um país de dimensões continentais. Trata-se de um notável falso argumento. O país tem taxas de homicídios por armas de fogo quatro vezes superiores aos da China, que tem sete vezes mais população que o Brasil. A Índia, com 6 vezes mais habitantes que o Brasil, tem 12 vezes menos assassinatos com armas de fogo.

E quem são as maiores vítimas por aqui? Pobres, negros/pardos e… jovens.

Enquanto 73,2% dos jovens brasileiros – 15 a 24 anos – morrem por “causas externas”, entre os não-jovens essa proporção não chega a 10%. Enquanto 38,6% dos jovens morrem por homicídios no país, entre os não-jovens essa proporção é de 2,9%.

Os dados do ‘Mapa da Violência’ de 2012, por exemplo – para deixar evidenciado para os que ainda não entenderam – mostram que entre 1980 e 2010 morreram no Brasil, segundo os registros do Ministério da Saúde, um total de 799.226 cidadãos vítimas de armas de fogo. Sendo que 450.255 mil deles eram jovens entre 15 e 29 anos de idade.

Dois em cada três vítimas fatais das armas de fogo são jovens. Quase meio milhão, e contando. E – na outra ponta – dos cerca de 26 milhões de jovens e adolescentes entre 12 a 18 anos, menos de 0,2% estão em conflito com a lei.

O Brasil segue um padrão às avessas quando se trata de encerrar – por comparação – um conflito civil de grandes proporções.

Segundo os órgãos internacionais mais experientes neste tema, você encerra uma tragédia como esta com três medidas nada simples, porém essenciais: (1) Fim da facilidade de acesso a armas de fogo; (2) o fim da cultura da violência e do discurso do ódio; (3) exemplar punição por meio de um processo justo e idôneo e a reconciliação “entre as partes”, inclusive com a adoção de conhecidos métodos de ressocialização e entendimento mútuo.

Quando a sociedade brasileira se depara com um assassinato bárbaro ou uma chacina, entra em pânico. Morrem 137 pessoas por dia, mas somente quando algo “aparentemente” grave acontece, queremos resposta.

A tática generalizada é muito simples: elencam-se estes e outros problemas – falta de controle das mais de 15 milhões de armas de fogo (registradas e não registradas), a cultura da violência que dá origem aos motivos fúteis ou aos impulsos, o baixíssimo grau de resolução dos inquéritos policiais – para, então, relacioná-los diretamente a qualquer outro motivo menor para tais crimes.

Como – por exemplo – à maioridade penal de 18 anos.

E o motivo é mais do que óbvio: é mais fácil criminalizar uma parte vulnerável da população do que enfrentar as causas do problema já devidamente constatadas. O lobby da indústria bélica é notavelmente maior do que o lobby a favor das crianças e adolescentes.

É como se um país em meio a uma guerra civil sugerisse que as suas crianças-soldado paguem pelos terríveis crimes contra a humanidade que cometeram, após terem sido arrancados de suas famílias, escolas, comunidades. Quer dizer, é a mesma coisa.

Conhecemos muito bem o desafio: a posição de que devemos ser mais “duros” com as crianças e adolescentes é um fruto inequívoco desta mesma cultura da violência que, em um ciclo perverso, mantem reféns pessoas ingênuas, numa espiral de medo e pânico. O desafio é conhecido, porém nada simples.

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[Artigo de opinião, com dados de arquivo pessoal e do mapadaviolencia.org.br. Blog: www.consciencia.net/gblog]


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05/04/2013

Para onde vão os ricos, antes mesmo do purgatório

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Imagem: icij.org

Registros secretos obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) revelaram dezenas de milhares de pessoas em mais de 170 países e territórios ligados a companhias e fundos offshore.

Estas são algumas das pessoas mais ricas do planeta, que conseguem por vezes com a ajuda de funcionários de governo e habilidosos advogados levar seu dinheiro para paraísos fiscais, em supostos “investimentos” deste tipo em lugares minúsculos como as Ilhas Virgens Britânicas ou as Ilhas Cook.

As Ilhas Virgens Britânicas, por exemplo, têm pouco mais que 27 mil moradores e uma área total de cerca de 160 km². Ou seja, o tamanho e a população de Búzios, no Estado do Rio de Janeiro. Não, Búzios é maior.

A investigação (www.icij.org/offshore) revelou alguns exemplos de todo o mundo (disponíveis em http://bit.ly/14IhqFc):

>> Clarice, Leo e Fabio Steinbruch, empresários brasileiros. Membros de uma das famílias mais ricas do Brasil, detêm grande empresas têxteis e de aço, e um banco. Acionistas e diretores da Peak Management Inc. (2007), nas Ilhas Virgens Britânicas. Leo Steinbruch reconheceu a existência da empresa, que “está ativa, foi declarada nos impostos de seus proprietários e foi devidamente comunicada ao Banco Central do Brasil como um investimento brasileiro no exterior”.

>> Bidzina Ivanishvili é o homem mais rico da Geórgia e foi eleito em 2012 Primeiro-Ministro do país. É Diretor da Bosherston Overseas Corp. nas Ilhas Virgens Britânicas (2006). Segundo o governo local, a empresa ainda existe.

>> Jean-Jacques Augier, editor, foi tesoureiro da campanha de François Hollande na França em 2012. Diretor da International Bookstores Ltd (2005) nas Ilhas Caimã.

>> Bayartsogt Sangajav, político na Mongólia, ocupou a posição de Ministro das Finanças de 2008 a 2012. Foi representante no Banco de Desenvolvimento Asiático, tentando obter ajuda e investimentos estrangeiros. Atualmente é vice-porta-voz do Parlamento da Mongólia. Controlou a Legend Plus Capital Limited, uma empresa offshore administrada a partir de Hong Kong, mas oficialmente integrada às Ilhas Virgens Britânicas (2008). Os documentos mostram que a empresa foi usada para abrir uma conta bancária secreta na Suíça, controlada por ele, poucos meses antes de ser nomeado ministro das finanças de seu país.

>> José Eliecer Pinto Gutiérrez, General na Venezuela, comandante no Estado do Amazonas, responsável pela supervisão de segurança na fronteira com a Colômbia. Acionista, Diretor e Secretário da Romana International Holdings, Ltd. (2003-2006) nas Ilhas Virgens Britânicas.

>> Denise Rich, compositora dos Estados Unidos, ex-mulher do “fugitivo fiscal” mais famoso dos EUA, Marc Rich, que foi “perdoado” pelo ex-presidente Bill Clinton no último dia de Clinton no cargo. Ela é uma compositora indicada ao Grammy, já tendo trabalhado para artistas como Sister Sledge e Celine Dion. Em 2012, Rich renunciou à sua cidadania norte-americana. Doadora e beneficiária do The Dry Trust (1992) e diretora do DTD Limited (2007), ambos nas Ilhas Cook, na Oceania.

>> Tomás Uribe Moreno e Jerónimo Alberto Uribe Moreno, filhos do ex-presidente da Colômbia, Alvaro Uribe. Durante os oito anos de mandato de seu pai, foram acusados de tráfico de influência em dois escândalos, incluindo um caso em que adquiriram as terras em uma área cujo valor disparou depois que as autoridades concederam um estatuto livre de impostos. Eles foram absolvidos em ambos os casos, mas os promotores começaram a investigar novas pistas relacionadas à aquisição de terrenos. Acionistas do Asia America Investment Corporation (2008) nas Ilhas Virgens Britânicas.

>> Hassan Mohammed e Fady Mohammed Jameel, empresários sauditas. Filhos de um dos homens mais ricos da Arábia Saudita e executivos do Abdul Latif Jameel Group, um dos maiores distribuidores mundiais da Toyota, com operações no Oriente Médio, Reino Unido, Ásia Central e China. Diretores (2002-2003) da Costa Azzoura Limited (incorporada em 2002) e diretores (2004-2009) da Hillbeck Limited (incorporada em 2004), nas Ilhas Virgens Britânicas. Hassan também foi acionista da Hillbeck Limited (desde 2004).

O PARAÍSO NATURAL — E PRINCIPALMENTE FISCAL

Ilhas Virgens Britânicas: menor que Búzios. Foto: Fiyah Dawta/ICIJ

As Ilhas Virgens Britânicas são um micro Estado, cujo hino nacional é o “God Save the Queen”. As ilhas são constituídas por pouco mais do que alguns trechos de praia tropical, com pouco mais que 27 mil moradores e uma área total de cerca de 160 km². Tem o tamanho e a população de Búzios, no Estado do Rio de Janeiro.

Advogados britânicos perceberam pela primeira vez durante a Era Thatcher, nos anos 1980, que poderiam legalmente fazer dinheiro com a venda de sigilo financeiro neste pequeno “território britânico ultramarino” no Caribe. A abolição do controle cambial por Thatcher permitiu que o capital britânico se mova livremente.

Alguns anos mais tarde, quando o próximo Panamá — o local tradicional para obscuras entidades offshore — foi interrompido pela invasão dos EUA de 1990, a demanda mundial pelo anonimato das empresas fez as ofertas nas Ilhas Virgens Britânicas decolarem como um foguete.

Mais de 1 milhão de empresas foram incorporadas no território desde 1984, de acordo com os últimos números, já podendo ser considerado o maior fornecedor mundial de entidades offshore. (Saiba mais em http://bit.ly/14Ihox0)

A investigação completa está disponível em www.icij.org/offshore


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24/03/2013

Remoção forçada da Aldeia Maracanã: não é assim que se faz uma Copa do Mundo

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Por Raquel Rolnik, urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

Sexta-feira (22) de manhã fomos surpreendidos com a notícia da remoção violenta da Aldeia Maracanã, que ocupava o antigo Museu do Índio, nas imediações do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Reproduzo abaixo um texto da professora Fernanda Sánchez, da Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre o ocorrido.

(Vídeos do ‘A Nova Democracia’ e Luana Laux)

É assim que se faz uma Copa do Mundo?

Por Fernanda Sánchez (*)

Nesta sexta-feira, o Batalhão de Choque da Polícia Militar invadiu a Aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio, e agiu com extraordinária truculência. Os policiais jogaram bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, gás pimenta, bateram nos manifestantes e prenderam ativistas e estudantes. A Aldeia estava ocupada desde o ano de 2006 por grupos representativos de diferentes nações indígenas que, nos últimos tempos, diante do projeto de demolição do prédio (para aumentar a área de dispersão do Estádio do Maracanã, estacionamento e shopping), vinham resistindo.

As lideranças indígenas são apoiadas por diversos movimentos sociais, estudantes, pesquisadores, universidades, comitês populares, organizações nacionais e internacionais de defesa dos Direitos Humanos, redes internacionais e outras organizações da sociedade civil. A luta dos índios e o conflito estabelecido entre o governo e o movimento resultaram num importante recuo do governo, que diante da pressão social desistiu da demolição do prédio e passou a defender a sua “preservação”. A desocupação do prédio foi decretada, com hora marcada. Os índios, no entanto, continuaram a resistir, apoiados por diversas organizações.

Certamente essa posição política ensina muito mais aos cidadãos cariocas e ao mundo sobre preservação, direitos e cidades do que as violentas ações que vêm sendo mostradas nos diversos meios. Para os índios e para as organizações sociais que os apoiam, preservar o prédio vai muito além de preservar sua materialidade. A essência da preservação, neste caso como em muitos outros, está na preservação das relações sociais, usos e apropriações que lhe dão sentido e conteúdo. Seria um exemplo para o Brasil e para o mundo a preservação da Aldeia Maracanã, o reconhecimento de seu uso social e a pactuação democrática acerca da reabilitação arquitetônica do edifício.

Cada vez que se comete um ato de violência que coloca em risco a integridade de um grupo social indígena, se esfacela sua cultura, seu modo de vida, suas possibilidades de expressão. É uma porta que se fecha para o conhecimento da humanidade, como dizia Levi-Strauss. É essa a Copa do Mundo que o governo quer fazer? É esse espetáculo da violência, a lição civilizatória que o Rio de Janeiro tem para mostrar ao mundo? A política-espetáculo tem um efeito simbólico: mostrar que o avanço do projeto de cidade, rumo aos megaeventos esportivos, far-se-á a qualquer custo.

Direitos humanos, democracia e pactuação estão fora da agenda deste projeto de cidade. Os manifestantes, em absoluta condição de desigualdade frente à força policial e seu aparato de violência, lançaram mão de instrumentos bem diferentes daqueles utilizados pelo Batalhão de Choque: ocuparam o prédio para apoiar os índios, resistiram à sua desocupação e manifestaram, no espaço público, nas ruas e avenidas do entorno do complexo do Maracanã, sua reprovação e indignação frente à marcha violenta desta política.

(*) Fernanda Sánchez é professora da UFF e pesquisadora sobre megaeventos e as cidades.

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O deputado estadual Marcelo Freixo fala, antes da invasão, ainda em janeiro de 2013:

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Uma salva de palmas

Por Gustavo Barreto

Lendo comentários sobre o episódio da Aldeia Maracanã – o próprio nome do famoso estádio de origem tupi: “maracá-nã” é o que imita o maracá, instrumento semelhante ao chocalho usados nas celebrações indígenas — vê-se a importância da cultura como ferramenta de luta para um mundo mais justo. Sem ela não dá.

Percebo, por exemplo, que o Rio possui muitos apoiadores do modelo político-cultural Eike Batista — o (modelo) beneficiário direto da maior parte das obras (culturais) em andamento.

A polícia do Rio mata e abusa mais do que cenários de conflito que acompanho no meu dia a dia na África e sul da Ásia. No vídeo do jornal “A Nova Democracia”, para citar apenas um exemplo, um manifestante foi preso porque foi atingido por bombas (imagens claras e até a repórter da Globo estupefata com a cena). E a ordem judicial era clara: sem violência.

Mas a polícia “está de parabéns” mesmo (como sugeriram comentaristas de última hora) — assim como estão de parabéns todos os fascistas que sustentam um Estado autoritário por meio do Direito aplicado para o bem dos mais abastados.

Todos de parabéns. Uma salva de palmas.

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Na foto, a Aldeia Maracanã na década de 40 com o Derby Club e suas baias para cavalos no entorno do prédio do Museu do Índio. Este foi o primeiro museu indígena da América do Sul, criado por Darcy Ribeiro e Marechal Rondon. O prédio tem quase 150 anos e foi residência da Família Real durante a Monarquia. Ali foi oficializado legalmente o Dia Nacional do Índio e o Parque Nacional do Xingu.

Na foto, a Aldeia Maracanã na década de 40 com o Derby Club e suas baias para cavalos no entorno do prédio do Museu do Índio. Este foi o primeiro museu indígena da América do Sul, criado por Darcy Ribeiro e Marechal Rondon.

O prédio tem quase 150 anos e foi residência da Família Real durante a Monarquia. Ali foi oficializado legalmente o Dia Nacional do Índio e o Parque Nacional do Xingu.


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