Eu escrevi
neste jornal (nota: referência à outro jornal),
no início deste ano, uma crônica para responder à pergunta:
Por que filosofar? Numa sociedade, onde só têm valor aqueles
objetos que produzem efeitos imediatos, produzindo lucros e aumentando
riquezas, é difícil falar da preciosidade da meditação.
Fazer filosofia é filosofar, mirar-se no espelho e enxergar além
das aparências. É mergulhar dentro de si para encontrar o
significado da vida e observar o mundo com olhos que permitam encontrar-se
a si mesmo. É a integração de si e do mundo. A filosofia
não produz resultados imediatos que possam ser medidos nos índices
PIB. Mas dá para avaliar o seu peso quando se pergunta sobre o significado
da existência humana, do mesmo homem que, entre outras coisas, é
o responsável pelo PIB. Agostinho, o grande filósofo cristão
da passagem do século IV para o século V, depois de ter procurado
o sentido da vida por todos os lugares, declara que a felicidade já
estava dentro de si mesmo.
Quando
os alunos me perguntam as razões de um curso de filosofia, eu gosto
de citar um texto de Epícuro: “Nunca se protele o filosofar quando
se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho,
pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro
para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar
ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que
ainda não chegou a hora de ser feliz”.
Nós
estamos num mundo das ditaduras dos adeptos senso comum, que, muitas vezes,
não traduzem bom senso, e dos especialistas que sabem quase tudo
sobre quase nada. O especialista olha o mundo pelas lentes do microscópio:
só vê o detalhe. A maioria enxerga o mundo pelas lentes dos
óculos: vêem o que todos estão vendo, não superando
o senso comum. O sonhador pode ficar olhando as estrelas pelo telescópio.
Mas, olhar pelo telescópio é também enxergar longe,
vislumbrar o sonho que pode ser realizado, a utopia no verdadeiro sentido.
Exerce liderança aquele que tem numa das mãos o microscópio
do conhecimento profundo da realidade; tem no rosto os óculos para
não se desligar deste mundo concreto, onde se dão as relações
humanas; mas, tem também na outra mão o telescópio
da visão de longo alcance, sabendo qual o caminho a ser percorrido,
rumo ao reino da liberdade!
A reconquista
da filosofia no ensino médio é a possibilidade de reintroduzir
o telescópio na escola. A história não acabou. A filosofia
não está pronta. Precisamos de utopias. Precisamos filosofar
também, para dar respostas seguras aos questionamentos do mundo
de hoje, pós queda do World Trade Center.
“Nenhum
sistema filosófico é definitivo, porque a própria
vida não é definitiva. Um sistema filosófico resolve
um grupo de problemas historicamente dado e prepara as condições
para a proposição de outros problemas, isto é, de
novos sistemas. Sempre foi e sempre será assim”, diz o filósofo
italiano Benedetto Croce.
Senhor
Presidente, não vete esta conquista dos educadores e da sociedade
brasileira! Cidadãos, façam pressão sobre seus representantes.
Enviem e-mails para a Presidência da República, exercitando
o seu direito de cidadania. O endereço eletrônico da Presidência
da República é pr@planalto.gov.br.
Eu já
enviei o meu.
João Virgílio
Tagliavini
Doutor em Educação.
Professor de Filosofia e Sociologia na UNIARA e UNICASTELO.
Consciência.Net