Filosofia e Sociologia como disciplinas obrigatórias no ensino médio
Reconquista que pode ser vetada pelo Presidente Sociólogo?
Por João Virgílio Tagliavini

    Eu escrevi neste jornal (nota: referência à outro jornal), no início deste ano, uma crônica para responder à pergunta: Por que filosofar? Numa sociedade, onde só têm valor aqueles objetos que produzem efeitos imediatos, produzindo lucros e aumentando riquezas, é difícil falar da preciosidade da meditação. Fazer filosofia é filosofar, mirar-se no espelho e enxergar além das aparências. É mergulhar dentro de si para encontrar o significado da vida e observar o mundo com olhos que permitam encontrar-se a si mesmo. É a integração de si e do mundo. A filosofia não produz resultados imediatos que possam ser medidos nos índices PIB. Mas dá para avaliar o seu peso quando se pergunta sobre o significado da existência humana, do mesmo homem que, entre outras coisas, é o responsável pelo PIB. Agostinho, o grande filósofo cristão da passagem do século IV para o século V, depois de ter procurado o sentido da vida por todos os lugares, declara que a felicidade já estava dentro de si mesmo.
    Quando os alunos me perguntam as razões de um curso de filosofia, eu gosto de citar um texto de Epícuro: “Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou a hora de ser feliz”.
    Nós estamos num mundo das ditaduras dos adeptos senso comum, que, muitas vezes, não traduzem bom senso, e dos especialistas que sabem quase tudo sobre quase nada. O especialista olha o mundo pelas lentes do microscópio: só vê o detalhe. A maioria enxerga o mundo pelas lentes dos óculos: vêem o que todos estão vendo, não superando o senso comum. O sonhador pode ficar olhando as estrelas pelo telescópio. Mas, olhar pelo telescópio é também enxergar longe, vislumbrar o sonho que pode ser realizado, a utopia no verdadeiro sentido. Exerce liderança aquele que tem numa das mãos o microscópio do conhecimento profundo da realidade; tem no rosto os óculos para não se desligar deste mundo concreto, onde se dão as relações humanas; mas, tem também na outra mão o telescópio da visão de longo alcance, sabendo qual o caminho a ser percorrido, rumo ao reino da liberdade!
    A reconquista da filosofia no ensino médio é a possibilidade de reintroduzir o telescópio na escola. A história não acabou. A filosofia não está pronta. Precisamos de utopias. Precisamos filosofar também, para dar respostas seguras aos questionamentos do mundo de hoje, pós queda do World Trade Center.
    “Nenhum sistema filosófico é definitivo, porque a própria vida não é definitiva. Um sistema filosófico resolve um grupo de problemas historicamente dado e prepara as condições para a proposição de outros problemas, isto é, de novos sistemas. Sempre foi e sempre será assim”, diz o filósofo italiano Benedetto Croce.
    Senhor Presidente, não vete esta conquista dos educadores e da sociedade brasileira! Cidadãos, façam pressão sobre seus representantes. Enviem e-mails para a Presidência da República, exercitando o seu direito de cidadania. O endereço eletrônico da Presidência da República é pr@planalto.gov.br.
    Eu já enviei o meu.

João Virgílio Tagliavini
Doutor em Educação. Professor de Filosofia e Sociologia na UNIARA e UNICASTELO.


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