Teorias da verdade, por Simon Blackburn
verdade como coerência, teoria da

Perspectiva de que a verdade de uma proposição consiste em pertencer a um certo conjunto apropriadamente definido de outras proposições: um conjunto consistente, coerente e possivelmente ainda dotado de outras virtudes, desde que não sejam definidas em termos de verdade. Esta teoria, apesar de surpreendente à primeira vista, tem dois pontos fortes: (1) é verdade que testamos as crenças quanto à sua verdade à luz de outras crenças (entre elas crenças perceptivas); (2) não podemos sair do nosso melhor sistema de crenças, para ver como está ele se saindo em termos de sua correspondência com o mundo. Para muitos pensadores, o ponto fraco das teorias puras da coerência é não conseguirem incluir uma noção adequada acerca da maneira como os sistemas reais de crenças são suportados por pessoas com experiências perceptivas produzidas pelo seu meio ambiente. Para um defensor da coerência pura, a experiência só é relevante como fonte de crenças perceptivas, que tomam o seu lugar como parte do conjunto coerente ou incoerente de crenças. Isso não parece fazer justiça à nossa idéia de que a experiência tem um papel especial no controle dos nossos sistemas de crenças, mas os coerentistas têm contestado.

verdade como correspondência, teoria da

Aristóteles disse que uma afirmação é verdadeira se diz do que é que é, e do que não é que não é (Metafísica, Iv. 1011). Mas uma teoria da correspondência não é apenas a perspectiva segundo a qual a verdade consiste na correspondência com os fatos, mas antes que é teoricamente interessante nos darmos conta disso. A afirmação de Aristóteles é, em si, uma banalidade inofensiva, comum a todas as teorias da verdade. Uma teoria da verdade como correspondência distingue-se por defender que as noções de correspondência e fato podem ser desenvolvidas o bastante para transformar a banalidade numa teoria interessante. Os adversários desta teoria defendem que tal coisa não é possível, sobretudo porque não temos acesso aos fatos independentemente das afirmações e crenças que mantemos. Não podemos olhar por cima dos nossos ombros para comparar as nossas crenças com uma realidade apreendida por outros meios que não essas crenças, ou outras, talvez. Não temos por isso um controle sobre as estruturas as quais as nossas crenças possam ou não corresponder. Ver também verdade como coerência; verdade como identidade; verdade como redundância; verdade, teoria pragmática da; verdade, teoria semântica da.

verdade como descitação, teoria da

A formulação mais simples é a afirmação segundo a qual expressões da forma "S é verdadeira" significam o mesmo que expressões da forma S. Alguns filósofos não apreciam a idéia de identidade de significado; se ela for recusada, a tese é a de que as duas formas são equivalentes em qualquer dos sentidos relevantes do termo "equivalência". Isto é, tanto faz dizer que a frase "os cães ladram" é verdadeira, como dizer que os cães ladram. Na primeira representação do que se diz, a frase "os cães ladram" é mencionada, mas na última parece ser usada; logo, a afirmação de que as duas são equivalentes tem de ser cuidadosamente formulada e defendida. Aparentemente, uma pessoa pode saber que a frase "os cães ladram" é verdadeira, sem saber o seu significado (por exemplo, se encontrar tal frase numa lista de verdades conhecidas, apesar de não saber português), o que é diferente de saber que os cães ladram. As teorias descitacionistas presentam-se geralmente como versões da teoria da verdade como redundância.

verdade como limite ideal, teoria da

Teoria da verdade como aquilo acerca do qual se concordaria no limite ideal da investigação. Esta perspectiva foi sugerida por Peirce em seu ensaio "How to Make our Ideas Clear" (1868). Seu principal mérito consiste em conjugar a idéia de verdade como objetivo da investigação com a idéia das virtudes (simplicidade, abrangência) que caracterizam qualquer investigação. Contudo, carece de uma teoria adicional que explique o que faz dessas características virtudes, sem pressupor que estas propriedades funcionam como parteiras da verdade. Tem também o problema de não se descortinar uma determinação empírica que permita determinar se o limite ideal foi alcançado nem que permita saber se, na ausência desse critério, a noção de limite faz sentido.

verdade como redundância, teoria da

Teoria introduzida por Frege e Ramsey, também conhecida como minimalismo ou teoria deflacionária da verdade. A tese essencial é a de que o predicado "... é verdadeira" não tem um sentido, i.e., não exprime qualquer conceito substantivo, profundo ou explicativo que deva ser um tópico de investigação filosófica. Há várias versões possíveis desta idéia básica, mas todas afirmam que (1) "é verdade que p" não diz mais nem menos que "p" (daí a redundância); (II) em contextos menos diretos, tais como "tudo que ele disse é verdadeiro", ou "todas as conseqüências lógicas de proposições verdadeiras são verdadeiras", o predicado funciona como um dispositivo que nos permite generalizar, em vez de funcionar como um adjetivo ou um predicado das coisas que ele disse, ou dos tipos de proposições que se seguem de proposições verdadeiras. Por exemplo, a segunda frase pode traduzir-se por "(Vp, q)[(p ^ q -»q]", onde não se usa a noção de verdade.

Há problemas técnicos nessa forma de interpretação de todos os usos da noção de verdade, mas em geral não se pensa que sejam intransponíveis. A teoria precisa fornecer uma explicação que invalide os usos aparentemente substantivos da noção, tais como "a ciência tem por objetivo a verdade", ou "a verdade é uma norma que regula o discurso". Na realidade, as obras pós-modernistas defendem muitas vezes que temos de abandonar tais normas, juntamente com uma concepção "objetiva" já desacreditada da verdade. Mas talvez possamos ter as normas mesmo que a objetividade seja problemática, uma vez que podem ser enquadradas sem mencionar a verdade: a ciência quer que seja o caso que, sempre que a ciência afirma que p, então p; o discurso deve regular-se pelo princípio segundo o qual é errado afirmar p quando não-p. Ver também verdade como descitação, teoria da.

verdade, teoria pragmática da

O ponto de vista, especialmente associado a James segundo o qual a verdade de uma afirmação pode ser definida em termos da utilidade que há em aceitá-la. Apresentado desta forma tão simplificada, este ponto de vista torna-se alvo fácil de objeções, uma vez que há coisas que são falsas mas que pode ser útil aceitar e, de forma inversa, há coisas que são verdadeiras mas que pode ser prejudicial aceitar. No entanto, existem conexões profundas entre a precisão de um sistema de representação e a probabilidade de sucesso dos projetos e objetivos elaborados pelo seu detentor. A evolução de um sistema de representação, tanto perceptivo como lingüístico, parece condenada a ligar o sucesso àadaptação evolutiva, ou à utilidade no seu sentido mais lato. A doutrina de Wittgenstein de que o significado é o uso partilha a ênfase pragmática na técnica e na prática como matriz no seio da qual o significado é possível. Ver também pragmatismo.

verdade, teoria semântica da

Perspectiva segundo a qual, se se proporcionar uma definição de verdade para uma dada linguagem, obtém-se uma caracterização suficiente do seu conceito de verdade. Não há mais nada a ser escrito em termos filosóficos sobre a verdade em si ou sobre a verdade enquanto partilhada por várias linguagens. Este ponto de vista é semelhante ao da teoria da verdade como descitação. Ver também verdade como redundância, teoria da.

Extraído de: Blakcburn, S. Dicionário de Oxford de Filosofia. Trad. Danilo Marcondes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.


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