Obra em
negro, por Waldomiro José da Silva Filho
Quase 4/5 da história ocidental
do Brasil foi marca por uma justificação étnica, religiosa,
econômica e moral do racismo e da escravidão. Nasci numa família
de lavradores mestiços expulsos de suas terras na seca de 30 entre
Pernambuco e Alagoas: conheci, sem mediações discursivas,
o sentido humano do preconceito étnico e da exclusão social;
conheci, pela voz de minha avó, Dona Adelaide da Silva, as narrativas
heróicas de bandos de homens e mulheres caminhando por meses em
busca de terra livre e fértil (mas que acabaram encontrando os coronéis
do cacau e a exploração, novamente escravocrata, nas fazendas
do sul da Bahia).
Meu sobrenome é
Silva porque meus avós não tinham sobrenome – e esse ninguém,
sinceramente, reivindicaria para si.
Para mim, o problema
moral fulcral tem sido conciliar os constructos filosóficos, notadamente
modernos, iluministas e racionalistas, com a condição objetiva
do sofrimento e pobreza sociais, na dialética da filosofia e da
vida dos afro-descendentes e mestiços, como eu. Por isso, tenho
expresso minhas reservas em relação a práticas intelectuais
que não favoreçam a invenção e defesa da democracia
(por isso, mais ainda, meu horror ao beletrismo e a coisas do tipo “café
filosófico”, “filosofia clínica”).
O dia da consciência
negra e a imagem de Zumbi são, para minha vida, eventos que constituem
minha compreensão da utopia democrática e da luta por direitos
civis. Henry David Thoureau, um dos pragmatistas pioneiros, foi um abolicionista
e ecologista radical e não posso deixar de identificar a filosofia
de inspiração pragmatista com a idéia de construção
conceitual (ideal) do espaço público da disputa por razões.
Reconheço em Peirce, Davidson, Apel e Rorty uma filosofia cuja matéria
é o espaço incerto, aberto e maleável da vida pública,
sem reducionismos subjetivistas, biologicistas, sociológicos, fisicalistas.
As idéias de inquérito, interpretação radical,
responsabilidade moral pós-metafísica e redescrição
são inspiradoras para minha vida, têm sido um motor para meu
trabalho como professor de filosofia de uma universidade pública
e, provavelmente, integrarão da educação do meu filho,
João, que hoje tem oito meses.
Recentemente, o Prof.
José Crisóstomo de Souza, da Universidade Federal da Bahia,
pariu uma das peças mais preciosas da atual filosofia brasileira,
sua Filosofia como coisa civil ou o que pode ser a filosofia entre nós
(Cadernos ARGUMENTO do Núcleo de Estudos em Filosofia da UFBA, n.
1, 2001). Nele, Crisóstomo nos convida a pensar a filosofia como
uma prática dirigida à vida civil (a nossa vida civil). Tem
sido meu manifesto...
Guardo, então,
hoje, dia da consciência negra, dia da esperança de uma terra
livre e fértil (como queria D. Adelaide), o romantismo dos que buscam
Palmares (e não Paris).
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