Oito de
outubro. Data histórica, que marca o assassinato de Che Guevara
na Bolívia. No Brasil de 2001, entretanto, foi dia de trapalhadas.
E quem foi o trapalhão? Ninguém menos que o Presidente da
República, acadêmico até pouco tempo atrás e
acima de qualquer suspeita.
Trapalhada
Um. Às oito da noite, em cadeia nacional, o Presidente chora lágrimas
sobre cinco brasileiros mortos na tragédia de Nova York. Para sorte
de muitos, o primeiro citado, o Alex, está vivinho da silva e deve
ter ficado muito agradecido pela oportunidade de nascer de novo, agora
na Globo, SBT e telinhas mais. Por esta FHC está desculpado e esperamos
que aprenda de vez a qualidade de sua assessoria.
Trapalhada
Dois. Na manhã, tarde ou noite do mesmo oito, ouvida a assessoria
do Ministério da Educação, FHC comete outra gafe:
veta o Projeto de Lei 3.178/97 de minha autoria – que introduzia no ensino
médio a filosofia e a sociologia, e que havia sido aprovado na Câmara
e no Senado.
A trapalhada
não está no veto em si: este é um direito do Presidente,
como também o de ocupar o horário nobre da TV. Só
que é preciso ter razões. E que razões FHC aduziu
para cortar a filosofia e sociologia no currículo do ensino médio?
Lendo
as "Razões do Veto", publicadas no Diário Oficial de 9 de
outubro, concluí:
1. "a
inclusão da Filosofia e da Sociologia no currículo do ensino
médio implicará na constituição de ônus
para os Estados e o Distrito Federal, pressupondo a criação
de cargos para a contratação de professores de tais disciplinas";
2. "não
há no País formação suficiente de tais profissionais
para atender a demanda que advirá caso fosse sancionado o projeto"
Ora,
a inclusão de qualquer disciplina no currículo de um curso
de ensino médio, como a segunda língua estrangeira preceituada
pela LDB ou outra proposta pela autonomia de cada sistema e cada escola,
não implica um aumento da carga horária anual de 800 horas.
A composição
das áreas de conhecimento pode-se alterar internamente sem aumento
da totalidade de horas semanais ou anuais. Mas, admita-se que alguma escola
queira ampliar o tempo diário ou semanal de aulas. A própria
LDB, lei de iniciativa parlamentar do deputado Octávio Elyseo, do
PMDB de Minas Gerais – aumentou a antiga carga curricular de 720 horas
e autorizou maior aumento ainda, ao dizer que a carga horária mínima
no ensino fundamental e médio é de 800 horas. Mais: no caso
do ensino fundamental, diz que nas escolas das rede urbanas até
2005 todos os cursos fundamentais devem ser de tempo integral, o que elevaria
a carga anual até 1.600 horas!
O segundo
argumento é maior trapalhada ainda. Quantos professores de filosofia
e sociologia seriam necessários para o cumprimento da Lei, perguntaria
eu aos informantes de FHC, citados como da Secretaria de Educação
Média e Tecnológica? Eles nunca saberiam informar porque
cada sistema e cada escola poderiam dimensionar livremente a obrigatoriedade
em uma, duas, três, quatro ou mais horas por curso e a necessidade
de cargos irá variar de acordo com a disponibilidade já existente
de professores aptos a ministrar os novos conteúdos, o que não
é monopólio dos licenciados em filosofia e sociologia. Esta
informação do MEC está cheirando à que o Itamaraty
mandou sobre os mortos da torres gêmeas: lá errou por 20%
a menos e aqui não se sabe por quanto por cento a mais.
Oito
de outubro era aniversário de morte do grande Chê. FHC não
levantou com o pé direito. O mais grave é que dia nove as
TVs e a realidade devolveram a vida ao Alex, mas não é fácil
derrubar um veto de um presidente trapalhão seguido de um cordão
de parlamentares que não adquiriram o senso crítico da filosofia
e da sociologia. Em 1996 o Fundef foi ferido com três vetos, um deles
racista e discriminatório, que está impedindo o estudo de
40 milhões de jovens e adultos nas escolas públicas. Em janeiro
o Plano Nacional de Educação foi descaracterizado, com nove
vetos já repudiados pela sociedade mas até hoje mantidos.
E agora,
esta trapalhada! Se FHC não quer a filosofia e a sociologia, que
convencesse sua base parlamentar a desaprovar o Projeto no Congresso. Mas,
usar de seu poder trapalhão para impedir a conscientização
da juventude e o cultivo da verdade e da ética, é muita trapalhada
para um dia só.
Assessoria de Imprensa do Deputado Federal Padre Roque
(PT/PR) – (61) 318-5568 ou 9988-3384
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