In nomine pater, in nomine mater... Amén, por Ruben G. Nunes
“O próprio ser eu canto, uma simples pessoa em separado,
embora diga a palavra Democracia, a expressão Massa”
Whitman

 1. Laden & Bush Ltd. Arriba, anti-americanistas! É fato: todos nós estamos tristes e temerosos com esse embroglio suicida a que Laden e Bush estão levando o mundo. Não nos enganemos. No cartório do planeta ambos têm ficha de culpados, covardes, perversos-desastrados e supinamente irresponsáveis. Não há bobos, nem inocentes, ambos são mutreteiros do terror e do horror - um a longo prazo, outro a curto prazo. São in-dignos um do outro. Julgar um sem julgar outro - seria muito, muito, injusto. Serão julgados pela história. O terrorismo suicida e covarde de Bin Laden tem seu correlato nesse massacre absurdo e covarde de Bush. Nós, filósofos de carteirinha e conscientes, não podemos acolher posições nem neutras, nem unilaterais. É preciso olhar-e-ver o desvario de ambos. Nossas florestas e riquezas não estão seguras com nenhum dos dois. Ambos seguram a navalha pelo fio da qual teremos que caminhar. Carrascos e maníacos à altura de Hitler. Criminosos os dois. Um em nome de Alah. Outro em nome de argumentos humanitários tem sido o governo mais guerreiro do planeta. E arrastam seus povos. Um com o Alcorão. Outro com a Doutrina Monroe, a National Security e um fajuta sonho americanodemocráticoprivado.

2. O paraterrorismo dos americanistas. Defender Laden é defender o terrorismo, única arma, porém, diga-se logo, de um povo massacrado e humilhado há dezenas de anos. Agora, defender Bush é defender não o antiterrorismo – isso seria um ledo, inocente, deslumbrado, interesseiro ou maquiavélico engano, escolham.  Defender Bush é defender um paraterrorismo duplo, tão horroroso quanto o terrorismo de Laden – paraterrorismo in nomine pater, o poder militar, paraterrorismo in nomine mater, a democraciamericana. Paraterrorismo que se torna ainda pior na forma de americanice dogmática e com conteúdo inteligente. E por que? Porque como a estátua da Liberdade americana nada vê, nem quer ver e tem raiva de quem vê. O paraterrorismo americanista é uma espécie de psicose-ideológica, vazada num complexo de superioridade cronificado – tudo que é bom é americano, forever and ever. E, isso forma não só opinião, mas um estado arrivista de consciência superior que estimula e organiza movimentos beligerantes. E, lembremos, é um paraterrorismo saido de um país militarmente mais forte e que se apresenta como democrático. País que, no contexto político-econômico-financeiro dos últimos cinquenta anos tem sido perversor, massacrador, humilhador de povos, países, culturas, fabricando guerras, apoiando ditaduras ou as destituindo, segundo seus interêsses monetários, financeiros, produtivos – e, hipostasiando toda essa zorra paraterrorista in nomine mater: a democracia. Argumentar, com estatística, que 10 entre 8 americanos querem ajudar os países do terceiro mundo – simplesmente não é argumento nenhum. A estatística deles é a nossa verdade e nosso convencimento? – por que razão? Há verdades que são mais mentirosas do que a própria mentira. Esse tipo de argumentos cansa o intelecto e o espírito. Isso é mais uma imposição opinativa de paraterrorismo autoflagelador, in nomine pater, in nomine mater, na ordem da humilhação: aceitar, defender e se deixar ser humilhado. Sentimento que desliza e se recalca no inconsciente como sendo o ‘american dream’. E tome de coca-cola. (Que, aliás, eu gosto  também, como gosto da música, de Whitman, de Henri Miller, de Bukowski, de Woody Allen – grande povo, péssimo país!).

3. E, a juventude? Como fica a juventude, essa força humana mediadora e continuadora entre o que foi e o que está por vir? Como reage a um contexto con-fuso desses – em que se mata again and again and again, ao som de Cole Porter, em nome da democraciamericana: seja de bandinha como a CIA, ou descaradamente como agora e em Kosovo, por ‘motivos humanitários’? Que dizer do que nos diz Neruda dessa democracia invasora em Nome do Pai:
    “Cuando sonó la trompeta, estuvo/ todo preparado en la tierra/ y Jehová repartió el mundo/ a Coca-Cola Inc., Anaconda,/ Ford Motors, y otras entidades:/ la Compañia Frutera Inc./ se reservó lo más jugoso,/ la costa central de mi tierra,/ la dulce cintura de América./ Bautizó de nuevo sus tierras/ como “Repúblicas Bananas”/...estableció la ópera bufa:/ la dictadura de las moscas Trujillos, moscas Tachos,/ moscas Carias, moscas Martinez/... moscas de circo, sabias moscas/ entendidas en tiranía.”
    A juventude, em geral, sempre ansia pelo novo. Nós fomos jovens - lembram? Reagiamos na ânsia do novo. A França de 68, o movimento hippie, diante da insipidez do consumismo. Che Guevara. Lembram? E quem é o novo, agora? Paradoxalmente, o novo não é o novo continente, a América. A juventude, em geral, vê os EEUU-de-Bush como o Paizão ranzinza, dominador, opressor. Esse negócio de cowboy-cão-de-guerra-super-homem-and-big-boss – já era! O novo é o passado passadíssimo ressurgindo como um suicídio às avessas! O novo é o orientalismo mítico futurizado nos inconcebíveis pókemons e dígimons. O novo é o orientalismo envelhecido, místico e sensual  da dança do ventre e de mulheres de olhos misteriosos, num romantismo movido a tabla, sitar e alcorão - que afirma que a morte é vida (imagine Heidegger pensando sobre isso!).
    Não me julguem defender tal posição, mas me considerem um intelectual que, curiosamente, está pagando pra ver como nosso século ocidental e nossa juventude vai assimilar essa profunda inversão de valores - que confronta de cabeça erguida e suicida o establishment hegemônico americano.
    A juventude, em geral, ansia matar o Pai, como Édipo. O Nome-do-pai, aqui, é Tio Sam, Bush, o FMI, a CIA, Super-Homem, etc, significantes que encarnam para a juventude (não domesticada pelas seitas subvencionadas pelo congresso americano, para isso mesmo) todas as imagens malditas e psicóticas do father-big-boss. Nietzsche, no tempo dele, matou o Deus de seu tempo, que para ele era essa mistura de transcendentalismo, hipocrisia e fraqueza cristãs. Para nós, os atuais, o Deus que o dólar, a mídia e os acólitos americanistas nos impõem é um sonho: o american way of life – esse maravilhoso way of life de alta tecnologia, armas pesadas e juros altos, numa democracia capitalista invasiva, cujo resultado prático é uma pequena inversão draconiana do sonho para o pesadelo de todos - a way of life to american only.
    Nós professores e filósofos de carteirinha, temos que perguntar, sim, pra onde vai a juventude nessa grande aula de antidemocracia em nome da democracia. Eu, pessoalmente, sempre achei que democracia fosse um presente de grego. Agora penso que democracia é um vírus americano de longa duração. Já pensaram se toda a nossa juventude, toda, quase-toda, embarca nessa canoa dos ideólogos americanistas? Daqui há dez anos – cadê o Brasil? Aliás, Brazil. Certamente estaremos gozando as estranhas delícias de ser um país sem cara, i.é, descarado, sem identidade, aculturado, desflorestado, desaguado, desenergizado, etc. Sim, porque mesmo hoje já nos sentimos num país alugado, vendido e financiado - desde a ditadura militar, aliás, estimulada por eles, até essa nova democracia de medidas provisórias: a democraciaserviçal, onde pagamos em dia todos os serviços da dívida fazendo o dever de casa do FMI.
    Assim, com nosso peito varonil deitado eternamente em berço esplêndido, nos apresentamos para o mundo e para nós “com todos os adornos exteriores da soberania internacional. Na realidade, o sistema econômico e portanto o sistema político é dirigido do exterior”, como já dizia N’Krumah, há mais de 30 anos atrás.
    Aí está nosso belo sonho se realizando no contraponto de má infinitude da democraciamericana, por isso mesmo, nunca alcançando seu conceito, como diria Hegel. É um processo de difícil ruptura porque cria uma consciência per-vertida e corrupta, como cachorro criado em coleira. Os que mandam e formam opinião desejam a coleira de juros e dívidas, claro, sob contrôle, a fim de que no balanço anual recebam suas vantagens ou gorgetas. Desta forma, os americanistas podem continuar votando no Lula e viajando pra Miami. Tanto faz.

4. Os maus Senhores-do-mundo. Mas que cabeça é essa do Bush, e dos que o apoiam, que não percebem a inutilidade de liquidar Bin Laden e comparsas. O terrorismo não acaba com eles. Será preciso uma guerra muito prolongada ou então exterminar de vez todos os muçulmanos do planeta. Pois bem, mesmo os muçulmanos moderados diante de tanta carnificina acabariam se tornando extremados também. E a coisa se tornaria um moto-contínuo incontrolável.
    A política externa americana, seja com republicanos, seja com democratas - com diferentes graduações, tem sido uma antipática política de Senhores-do-Mundo. Esses americanos-institucionais têm tratado o resto do mundo como simples coadjuvantes cativos de sua megaprodução de vida. Que democracia é essa? Certamente não é a que nosso doceselvagem Whitman sonhou ao poemaconjuntar eu-democracia-massa. Essa empáfia tirânica gera antiamericanismos mais rapidamente que o macartismo neurótico.
    Os americanos e os americanófilos de boa cuca precisam compreender esse contexto em toda a sua complexidade e, nas suas competências, lutar para demover a américa-institucional a mudar essa política externa egoísta e de megasuperioridade anglosaxônica. E parar essa guerra de vingança estapafúrdia.
    Outro dia, trocando idéias com o Prof. Ghiraldelli sobre essa psicótica truculência americana, disse-me ele, com certa razão, sobre os exageros e desconhecimentos dos críticos e assinalou que “Minhas posições teóricas não diferem em nada das de americanos como Debbs, já no começo do século, ou então as de Rorty ou Putnam, agora. A visão terceiro mundista que temos da América nos impede de ver que o nosso Establisment é pior do que o deles: vendemos armas para o Irã e para o Iraque na guerra entre ambos, mas temos ou vergonha ou desconhecimento de causa para falar isso para nossos alunos.”. Concordo: a crítica desinformada é inaceitável para um debate saudável. Como também o é a informação maquiada. Pois bem, eu penso que deviamos ter vergonha é de não ensinarmos para nossos alunos, seja de que área sejamos, já no segundo grau, e continuando nas Universidades, a cada semestre, o ‘espírito americanista’ da Doutrina Monroe, para melhor conhecer essa ‘indemocrática’ democraciamericana e suas decorrências históricas unilaterais, invasivas e guerreiras.

5. A filosofia do Senhor-do-mundo é neopragmática? O prof. Ghiraldelli, todos sabem, é uma pessoa de forte inteligência e muita capacidade de trabalho e de dar trabalho aos outros. Algo, certamente, a filosofia brasileira lhe deve como importador das práticas idéias anglo-saxônicas e americanas para nós. Como também, esse Grande Portal de Filosofia, idéia brilhante, que expande nosso conhecimento – e no qual vemos não um monopólio neopragmático ou ghiraldellico, nada disso, mas uma atuação diuturna, incansável mesmo, em prontamente rebater tudo que seja crítica anti-americana. Aqui, instala-se uma eficiente e inteligente ‘base de pensamentos’ pronta para a invasão neopragmática e para defender Tio Sam in nomine pater et mater, por isso a específica postura democrática do bateu-levou.
    Fico pensando como nossas pobres cabeças terceiromundistas não percebem logo que não há nenhuma nesga de razão no que argumentamos, seriamente, contra os americanos. Nada de nada. Tudo é arrazado e não fica pedra sobre pedra, mesmo que seja virtualmente e sem conteúdos consistentes, como a estatística acima mencionada dos americanos que querem nos ajudar.
    Fico pensando, do mesmo modo, nas excelentes cabeças filosóficas que temos entre nós, como a do próprio prof. Ghiraldelli, que poderiam é estar ensinando algo realmente novo a esses pensadores importados contemporâneos. Esses ‘gringos’ que sustentados por uma estrutura financeira e editorial fortíssima, podem se fazer ouvir em todo o mundo, tenham ou não méritos. E, mesmo quando não têm méritos, nós da democraciaserviçal tratamos de ‘fabricar’ seus méritos. Afinal, nosso povo quer mesmo é algo importado, nem que seja de 1,99.
    Seria injusto dizer que a filosofia neo-pragmatista americana, tão objetiva, tão pronta para a ação mental invasiva, como um fuzileiro naval, não possue nenhum conteúdo espiritual ou de sensibilidade conscientiva. Há, sim, paradoxalmente, um espírito de transcendência, pleno de mistérios românticos e ironias liberais na neo-neo-metafísica neopragmática (a neometafísica já existe, a de Hegel). Com efeito, os colegas anti-americanistas precisam prestar mais atenção às quase-redescrições impalpáveis, indefiníveis, evanescentes e utópicas mesmo, desse neopragmatismo denegador da metafísica e, por isso mesmo, dela dependente:
    “A filosofia neopragmática mostra-se como uma fábrica de redescrições. Assim, uma filosofia da educação neopragmática é uma fábrica de redescrições voltadas para questões direta ou indiretamente ligadas ao ensino, à educação. Mas a direção dessas redescrições é não tornar homens e mulheres “sujeitos”, “cidadãos” ou “críticos”, como poderia querer uma redescrição com objetivos iluministas ou românticos. A filosofia neopragmática e, portanto, a filosofia da educação neopragmática visam uma utopia onde residam os “liberais ironistas”. Pois bem, quem seriam essas pessoas? Nada que podemos concretamente saber, mas certamente pessoas que tenham muitos traços nossos, como “liberais”, ou melhor, como “liberais ironistas”.”(Ghiraldelli, O Que é filosofia da educação – uma discussão metafilosófica).
    Bem, o espanto, creio que ainda é filosoficamente livre.
    Mas, o que seria mesmo redescrever ‘sujeitos’, ‘cidadãos’ e ‘críticos’? Seria reconfigurar suas cabeças? Mudar-lhes a consciência de sujeito-cidadão-crítico? Consciência? Bom, mantenho e repito a pergunta, em alto e bom som, mesmo sabendo que o neopragmatista parece sintomatizar e denegar a palavra ‘consciência’ - só que o termo ‘percepção’, dito mais objetivo, não cobre a hiância, nem do significado, e muito menos do significante, disso que chamamos consciência. Mas, para que remasteurizar e arrancar de viventes criaturas suas identidades de sujeitos, cidadãos e de críticos? Será que é para não fazê-los pensar, para os melhor explorar?  Não-sujeito, não-cidadão, não-crítico – é isso o que seria um não-iluminismo ou um não-romantismo - é isto o neopragmatismo? Como seria, essa criatura neopragmática? Fico pensando se não é muita neo-ironia liberal, para nossa cabeça terceiromundista.

6. Debs, o renegado socialista americano.  "ele é mau. Pela sua própria natureza ele é fundamentalmente injusto, desumano, imbecil e não pode durar" - essa a opinião de Debs, socialista americano do início do século sobre o capitalismo contra quem militou toda a vida – e, uma das referências do prof. Ghiraldelli.  Opinião essa, bem na linha do que hoje poderia ser carimbada como a de um verdadeiro espírito antiamericanista (ou neobobo como cunhou nosso gênio ironista FHC, com todos aqueles equivocados reducionimos ideológicos com que a direita taxa o esquerdismo desteorizado, colocando no mesmo saco a esquerda teórico-fundamentada). Voltando ao Debs: pena ele não ter tido força dentro do PS americano de se impor a uma maioria racista, anti-imigração, discriminatória - que se dizia socialista. Berger, da ala majoritária, considerava negros, mulatos e amarelos raças inferiores. Certamente, ansiavam por um  modo prático de ‘redescrever’ essas raças como não-sujeitos, não-cidadãos, não-críticos. No meio disso realmente Debs é um herói. Do pouco que pude recolher de seu pensamento e atitudes, através do Droz, me parece que se afinam muito mais com uma autocrítica severa conta esse capitalismo-democrático-racista-explorador-e-dono-do-mundo que se desenvolveu no correr do século. Inclusive, contra suas mazelas decorrentes, como essa guerra insensata do Bin Bush. Debs era antiamericanista de boa cepa.

7. Terceiro-Mundo – o que é isso?  Os americanistas dizem que nós, anti-americanistas temos uma visão tão só terceiromundista. O que quer dizer mesmo terceiromundo? Se, pensar que o Brasil e outros países explorados e expoliados estão destinados somente a ser um contraponto de assimetria política e econômica dos americanos e outros países ricos – é ser terceiromundista – então, sim, temos a visão terceiromundista, sim - ora! Que diabo de visão queriam que tivessemos? Americanista? Segundomundista? Primeiromundista? Por que? Que papo é esse? Por que ter a visão terceiromundista é algo tabu para certos intelectuais?
    Nossos erros (ou erros dos nossos governos, vender armas, vender nossas riquezas, entregar a Base do Maranhão na moita aos americanos - vocês souberam disso?, etc) não devem servir de argumento para justificar uma visão não-terceiromundista. Mesmo essa classificação inadequada sob certos pontos de vista sociológicos, - o carimbo de terceiromundo - não deve ser argumento consistente para se passar a ser americanista fanático. Também, o esquerdismo desteorizado não deve servir de argumento para abandonarmos sem mais nosso ponto captor-emissor de pensar e agir sobre o mundo: Brasil, América do Sul, uma região sócio-econômica tida e havida como pertencendo ao terceiromundo. Samaranch, pensador espanhol vivo, assim se expressou sobre Aristóteles: "Así es la Política de Aristóteles; estimulante y viva, porque se escribió tomando partido.". E até prova em contrário nosso Grande e Pequeno Partido, i.é nossa dimensão política e identidade cultural, ainda é nosso Brasil, antes de tudo. Aqui nascemos, aqui vivemos, aqui lutamos por aqui. É uma questão mesmo de identidade. Isso não quer dizer que não autocritiquemos nossos erros. E o mais grave desses erros é recusarmos a nós mesmos.
    Os EEUU quando praticam unilateralmente taxações ou retaliações financeiras e econômicas - estão sendo o que? Primeiromundistas? Americanistas? Pois, muito bem, eles estão, de certo modo, certos. Resta saber até quando podem manter uma política policialesca e protecionista dessas sem criar ressentimentos ou fazer explodir o ponto-de-basta – que , aliás já explodiu com Bin Laden. E, resta, também, saber porque des-razão temos nós que como vacadepresépioaprovarmos, sua política contra nós.
    O que há com os brasileiros americanistas? Pensam mesmo que os americanos querem nos ajudar para ficarmos igual a eles, no mesmo nível deles? Ou não pensam nada disso e nesse caso pensam o quê? Que somos super estóicos? Que somos sadomasoquistas? Por que é que: pensar que eles querem mesmo é nos manter sob a coleira da dívida externa para melhor controlar nossas riquezas é um nonsense fantasioso da esquerda neoboba? – e não a realidade histórica que está acontecendo? Que wonderful neorecalque é esse que foge de sua realidade e prefere sonhar com o sonho deles.
    Mas, como é mesmo o sonho americano?
    Pois bem, o caipira texano, em pleno desvario de grandeza, ataca: "Aquele que não estiver ao nosso lado estará contra nós, e será considerado inimigo". Não foi isso que disse Bin Bush, lembrando os melhores dias do nazismo, com ar de mau comediante da Broadway? Ora, isso não é sonho – é delírio e ameaça! A demo-cracia do porrete, ein, velho cowboy? Nem é preciso ser neobobo, nem dominar a teoria, nem mesmo ser ativista porra louca, basta ter bom senso e uma boa bússola cultural ao olhar a história e localizar quem segura e usa o porrete contra todos os mundos - mesmo quando os ajuda a sonhar. Seja lá como for, uma coisa salta em close: o sonho dos americanos não é o mesmo sonho dos brasileiros americanistas. Mas como consciência é coisa do passado não-pragmático – certamente nossos amigos-inimigos americanistas não têm consciência clara de sonhos equívocos.
    O meu anti-americanismo tem razões semelhantes ao de Terezinha Fernandes de Oliveira Caldas: “Sou anti-americana, como diz minha filha, anti-estadunidense em todos os sentidos por detestar a prepotência,a exploração e o desrespeito para com os demais povos destes que se intitulam a polícia do mundo.”.
    Ou, como o de Ricardo Eugênio Lima: “sou anti-americano (mas gosto do  cinema americano, da Coca-cola, etc) não por inveja, mas porque não concordo com a exploração e intervencionismo liderados pelos Estados Unidos sobre o Brasil e outros países do Terceiro Mundo. Mesmo sendo anti-americano não posso concordar com nenhum ato terrorista feito por bandidos que merecem e precisam ser  severamente punidos, tomam ideais de liberdade para mascarar seus atos de covardia.”.
    É possível que as pessoas que pensam assim estejam brincando de pensar? É possível que encarar a história corrente do ponto de vista brasileiro, de nossos interêsses autênticos e não impingidos de fora – seja um sacrilégio e não tenha uma grama de razão?
    O meu antiamericanismo terceiromundista, claro, não é contra nenhum indivíduo em particular - é contra o sujeito americano institucional se desenvolvendo historicamente numa truculenta complexidade materialjurídicofinanceirapolicial que ajuda tirando, atirando e matando pessoas e culturas. Sujeito-institucional americano que não tem nada a ver com meus amigos americanos de carne, osso e espírito. Sou anti-americano como Chomski, americano, o é. Amén.

* RUBEN  G  NUNES, prof. de Filosofia Política, Cultura e Ética, da UFRN.
   Natal, RN 12/12/01


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