Considerações sobre o atentado terrorista em NY, por Nilo Odália
    A história é um pesadelo, diz Stephen Dedalus, no romance Ulysses de James Joyce; Nietzsche nos recomenda o esquecimento para que possamos viver. Ambas as afirmações ganham um novo sentido, quando nos deparamos com o trágico quadro de edifícios desmoronando e milhares de inocentes morrendo, homens, mulheres e crianças, civis e militares, pela única culpa de estarem no lugar errado, no momento errado. Essa visão trágica nos traz de volta, infelizmente, todos os horrores de que é capaz o homem, quando dominado por crenças e ideologias, políticas ou religiosas, que o redimem, antecipadamente, por estar a serviço de ideais que o fanatizam. Devemos esquecer a história, pois ela será utilizada para justificar o injustificável, explicar o inexplicável.

    Um ciclo da história e do homem se encerra com esse atentado, um novo se abre, cujo futuro depende de todos nós, mas principalmente daqueles que dirigem a nação que criou e nos ensinou o que é uma democracia. É explicável, porém não justificável, que o povo americano exija de seu governo retaliações. Contudo, um governo existe para governar e tomar as medidas que, no presente e no futuro, sejam as melhores para o povo que governa. O ódio não é um bom conselheiro. Destruir um povo, porque abriga um terrorista não é, nem pode ser uma resposta adequada, pois esse povo é constituído de homens, mulheres e crianças como os que morreram no WTC, com uma única diferença: já estão condenados à morte pela miséria e violência que vivem no seu dia-a-dia. A indignidade e o fanatismo de seus dirigentes, que se voltam contra o seu próprio povo, especialmente as mulheres, proibidas de ter acesso à educação, assassinadas por mostrarem o rosto, ou o calcanhar, são um castigo excessivo, não há necessidade de lhes acrescentar mais sofrimentos pelo envio de mísseis, ou bombardeamentos que reproduziriam tão somente Dresden, Berlim ou Hiroshima.
    Uma cruzada contra o terrorismo é necessária, mas, talvez, seja útil lembrarmo-nos que a maior arma contra ele é eliminar a miséria do mundo. Uma nação tão poderosa quanto os Estados Unidos da América afirmará ainda mais sua liderança se souber, neste momento, unir-se com o resto do mundo rico, não apenas para caçar os terroristas, mas, principalmente, para diminuir a distância de bem estar que os separa dos países pobres. Os direitos humanos e a democracia que foram uma conquista da nação americana que se formava, não podem ser conspurcados por retaliações cegas e baseadas no ódio. Lembremo-nos de Emerson que dizia, enfaticamente: “Compete ao homem triunfar do caos; espalhar por toda parte, enquanto vive, as sementes da ciência e da poesia, para que o clima, o trigo, os animais e os homens sejam mais doces, e que os germes de amor e de beneficência sejam multiplicados” (Para que servem os grandes homens).
    Um novo mundo e um novo homem podem surgir do caos que se abriu com o abominável atentado, mas eles não devem ser criados como frutos de um processo de desintegração, em que a violência seja seu ponto inicial. Este é o ensinamento de Emerson e a ele devemos nos ater. Como?
    O primeiro passo foi dado, quando os Estados Unidos não retalharam imediatamente e pediu um esforço coletivo contra o terrorismo. Que esse esforço coletivo não seja apenas contra o terrorismo, mas contra a violência representada pela miséria, a ignorância, em que chafurdam dois terços da população mundial. O segundo passo foi a sábia resolução de palestinos e judeus ao suspenderem e condenarem toda ação armada, por um tempo limitado, é verdade, porém um tempo que abre esperanças. Não se pode condenar um povo, o palestino, a sofrer as agruras e os sofrimentos de uma nova diáspora. Os judeus, como talvez nenhum outro povo, sabem o que isso significa e não podem desejar ao irmão semita o mesmo destino.
    Por último, last but not the least, que a América permaneça sendo a América dos pais fundadores, de Rorty, de Faulkner, de Emily Dickinson(Magnânimo o pássaro/ Visto pelo menino/ Cantou/ Para a pedra que o matou) e de tantos outros que engrandeceram a humanidade, e não a dos falcões. Que assim seja!

Prof. Nilo Odália
UNESP – Araraquara
Do Conselho Editorial do Portal Brasileiro da Filosofia


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