Creio que poucos filmes tiveram um mosaico tão diverso e criativo sabendo seguir à risca a mesmíssima fórmula estrutural dos mitos universais e reelencar os mesmos fundos filosóficos e psicológicos. Se o universo Matrix fosse um baralho, os naipes seriam filosofia (oriental e ocidental) com Platão como rei e Aristóteles como Ás, quadrinhos e anime (desenhos animados japoneses) com Akira como rei, teologia e, por último, literatura, com Lewis Carroll como rei e Baudrillard como Ás. .
É
clara uma intenção de atingir o público oriental,
mais culturalmente sublocado por essas perspectivas apocalípticas
em cenários futuristas e ação acrobática e
rápida. Nesses tempos de antiamericanismo um filme que prime pelo
caráter estritamente supracultural, adotando perspectivas e leituras
de diversas culturas expressas em suas respectivas mitologias, está
sujeito às mais diversas interpretações e pode ascender
a aceitação hollywoodiana num momento mais “intimista” do
mercado cinematográfico, em que, como resposta das culturas ao movimento
acelerado da globalização, têm-se valorizado cada vez
mais o mercado de filmes nacionais em todo o mundo. Essas interpretações
vão desde uma visão cosmopolita, que alguns tentarão
pauperizar denominando “globalizada”, que pode vir a expressar, sob alguns
pontos de vista, o fadado “sinal dos tempos” de que hoje em dia nenhuma
cultura mais faz sentido sozinha e sim em relação a outras
ou como negação de outras, como também de uma possível
e provável tentativa muito bem sucedida de se agradar a gregos e
troianos, já que num mosaico tão grande há sempre
alguma peça que toque mais profundamente a uma cultura específica.
Misturando os quadrinhos de Mobius, uma narrativa de John Woo, os simulacros
e simulações de Baudrillard, os rostos de John Malkovich
e o balé marcial do Tigre e o Dragão, existem milhares de
gatilhos específicos, engatilhados para fornecer a catarse[1]
aos mais diversos tipos de expectadores. Marketing genial.
Moda e cultura
Talvez um paradoxo sobre essa questão seria a visão superficial, já que estamos falando de roupas, indumentárias, superfícies, de que Neo parece ser um foco de resistência a uma espécie de movimento de dominação planetária que o filme representa. Quem siga essa nova “moda” pode não ter compreendido muitas das mensagens do filme. Pré-história do
cristianismo e a figura do Messias
São muitas as referências ao cristianismo. Neo é o próprio messias, uma espécie de Jesus high tech com amnésia. Ao mesmo tempo ele descreve, e isso tratarei mais à frente com maior profundidade, a mesma trajetória expressa por Joseph Campbell em O Poder do Mito, sobre a trajetória do Herói. Neo poderia muito bem ser uma abreviação de neófito, ou “iniciado”. Amigo de Apoc (apocalipse) e amante de Trinity (trindade). O último refúgio dos humanos é Zion, referência a Sião, a antiga terra dos judeus, e a nave de Morpheus – deus do sono e dos sonhos grego – é Nabucodonosor, rei babilônico que acorda com sonho enigmático que precisa ser decifrado. Budismo, até onde importa...
Ao mesmo tempo, sob certas cenas do filme, em que ele precisa compreender a escolha que já fez, em que antes de estar apto a fazer uma nova escolha Neo deve entender todas as implicações de sua primeira escolha, o filme volta a aproximar-se do caráter contemplativo do budismo. Mas essa percepção da ausência de individualidade seria um caos para os irmãos Larry e Andy Wachowski, responsáveis pelo roteiro e direção do filme. Perderiam, com certeza, boa parte dos seus investimentos. A que serve a Hollywood ou à cultura individualista atomizada do ocidente contemporâneo a possibilidade de uma ausência de individualidade? Seria um inferno para o mercado que se movimenta nas ondas da contínua necessidade dos indivíduos de imporem-se pela diferenciação. Seria um inferno para o mundo político, porque facilitaria a ocorrência de associações em prol de benefícios civis em políticas públicas. Não que um filme possa causar tudo isso. Isso só demonstra o quanto essa possibilidade é perigosa para os controladores da “nossa Matrix”, da nossa economia, das nossas relações de poder - na política, dos nossos desejos - no marketing. Essa possibilidade foi completamente eliminada do filme. É perigoso demais lidar com isso num mundo globalizado. Já é fácil demais se organizar. Platão e Aristóteles,
amiguinhos?
No filme, Platão se encontra no seu ramo mais popular – a alegoria da caverna, escrita no livro sete da República – com Aristóteles, que prima pela realidade empirista, captada através dos cinco sentidos do corpo humano numa espécie de Arquivo X em que “a verdade está lá fora”, mas não se pode estacionar nessa visão de que não estamos aptos a reconhecer a verdade porque ela não nos está ao alcance. Deve atentar ao fato de que, no filme, o verdadeiro corpo do indivíduo, com seus verdadeiros sentidos, também está lá fora. Eis que colocamos Platão e Aristóteles como bons amigos. Eis uma revolução na filosofia? Com certeza eis algo presente na trama e que ainda não ouvi ou li mencionarem sobre o filme. Piadas cósmicas e condicionamento
A possibilidade de compreender todas as lógicas, razões e sensibilidades, essa sensitividade multi-espelhada de possibilidades, esse reverso de deja vu está muito distante de nós, prisioneiros filosóficos e biológicos da unidimensão. Todas as filosofias, religiões e culturas nas quais o filme se baseia, ou das quais ele retira inúmeros gatilhos para suas possíveis catarses incorrem no mesmo erro. Mas não estamos adestrados a percebe-lo, estamos condicionados à “revelação”, ao caminho único. O máximo que se pôde chegar até hoje foi ao respeito e a uma espécie de “compreensão” dos outros como ainda não iluminados pela nossa luz, a única verdadeira. Essa própria compreensão dá a algumas religiões um “ar superior” que não necessariamente resvala na chaga do pedantismo, mas conserva um ar próximo, uma espécie de “pena” com a qual muitos filósofos já se incomodaram ao longo dos tempos. Uma “pena” que guarda um ar de forte etnocentrismo[3]. Então existiria mesmo uma única espécie de salvação para todos, certo? Uma espera pela chegada do “verdadeiro” messias ou pela volta do mesmo de há 2000 anos, ou pelas sucessivas reencarnações do Buda. Será que estou chegando a algum padrão? Tudo bem, admitamos então a existência de uma única possibilidade, uma única salvação. Pensemos ao “caminho do herói” de Campbell, a Sigfried, a Hércules na caverna da hidra, enfim: nas dificuldades absurdas para se desbaratar todas as armadilhas, perigos e fases para se alcançar a única, possível e verdadeira felicidade, a “verdade” da filosofia, as “idéias” de Platão, seu “bom”, seu “belo” e seu “justo”, ou a estrutura essencial dos mitos de Lévi-Strauss. Essa possibilidade à qual estamos condicionados, a procurar uma única verdade que se encaixe nos mapas mentais de todos, que “esclareça” a qualquer um que entrar em contato com ela, a “luz” de Santo Agostinho, essa realidade supracultural parece-nos tão distante da realidade Aristotélica, empírica, que temos a tendência a dificultá-la ao extremo – a ponto de resvalar na via belicista, e aí se justificam as cenas de kung-fu e explosões à la Hollywood – já que, nosso inconsciente, auxiliado pelo dia-a-dia percebe que essa “única via” é inviável dentro das perspectivas diversas das realidades e visões de mundo das pessoas. A quantidade de dilemas e paradoxos que normalmente envolvem esse “único caminho” seja ele qual for, torna o caminho inviável ou dentro da estrutura dos mitos, como nas cartas do tarô, uma viagem ininterrupta com diversos meios para pequenos fins, mas sem a necessidade de um único fim, uma única e universal “verdade”. Pecados e preconceito
Matrix peca onde todas as filosofias e religiões nas quais se baseia pecam. Na existência desse “único caminho”, dessa “pedra filosofal” que descortinará a grande e única verdade. Como todas as religiões e filosofias nas quais se baseia, a Matrix se vê como o único caminho, um sol com os outros caminhos, com as outras visões e interpretações do mundo, como reles planetas gravitando em torno de sua onipotente verdade. Creio que, ao não nos atentarmos para o fato de que em nada essa perspectiva parece assustar aos expectadores ao fim do filme, estamos cada dia menos aptos a compreender a diferença, a respeitar e aceitar como válidas a alteridade e suas diferentes verdades. A perspectiva do “único caminho”,
do ultrapassado gérmen do maniqueísmo pauperizado à
nossa consciência pós-moderna de aceitação “compreensiva”
dos que ainda não alcançaram a nossa visão, a única
que seria dotada de realidade e de acesso à verdade, é a
chaga do preconceito que se amaina para permanecer. Mesmo que nosso inconsciente
dificulte ao máximo esse “grande achado” que seria o caminho único,
porque ele se recusa, em efeito, a aceitar a existência desse caminho
até a possível “matriz” religiosa ou filosófica. Dificuldades
como na compreensão total, por exemplo do termo cabalístico
sefirot[4]. Talvez já
passe da hora de compreendermos a linguagem de nossos inconscientes, de
utilizarmos mais do que um décimo de nossa capacidade cerebral.
De aceitarmos outras verdades. De não cairmos mais nas armadilhas,
por mais tentadoras e sensuais que sejam, da verdade única – mãe
de todos os preconceitos.
Renato Kress é escritor, co-editor da revista Consciência.Net e autor do livro Consciência [RJ: Garamond, 2000]. Texto publicado em 8 de junho de 2003. Contato: renatokress@consciencia.net
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