Matrix, uma visão antropológica
Como Joseph Campbell e Claude Lévi-Strauss nos demonstraram, há uma certa estrutura inerente aos mitos, uma “fórmula do sucesso” supracultural. O que os psicólogos Junguianos chamariam de “a linguagem universal do inconsciente”. Por Renato Kress, junho 2003
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“A raça humana / Não pode suportar muita realidade” – T. S. Eliot (1888 - 1965), Norton Queimado.
Cartas Marcadas
Creio que poucos filmes tiveram um mosaico tão diverso e criativo sabendo seguir à risca a mesmíssima fórmula estrutural dos mitos universais e reelencar os mesmos fundos filosóficos e psicológicos. Se o universo Matrix fosse um baralho, os naipes seriam filosofia (oriental e ocidental) com Platão como rei e Aristóteles como Ás, quadrinhos e anime (desenhos animados japoneses) com Akira como rei, teologia e, por último, literatura, com Lewis Carroll como rei e Baudrillard como Ás.
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“Matrix conseguiu misturar estilo e substância de uma maneira que outros filmes não foram capazes” – Chistopher Grau, filósofo da Universidade da Flórida.
Mosaicos engatilhando catarses
É clara uma intenção de atingir o público oriental, mais culturalmente sublocado por essas perspectivas apocalípticas em cenários futuristas e ação acrobática e rápida. Nesses tempos de antiamericanismo um filme que prime pelo caráter estritamente supracultural, adotando perspectivas e leituras de diversas culturas expressas em suas respectivas mitologias, está sujeito às mais diversas interpretações e pode ascender a aceitação hollywoodiana num momento mais “intimista” do mercado cinematográfico, em que, como resposta das culturas ao movimento acelerado da globalização, têm-se valorizado cada vez mais o mercado de filmes nacionais em todo o mundo. Essas interpretações vão desde uma visão cosmopolita, que alguns tentarão pauperizar denominando “globalizada”, que pode vir a expressar, sob alguns pontos de vista, o fadado “sinal dos tempos” de que hoje em dia nenhuma cultura mais faz sentido sozinha e sim em relação a outras ou como negação de outras, como também de uma possível e provável tentativa muito bem sucedida de se agradar a gregos e troianos, já que num mosaico tão grande há sempre alguma peça que toque mais profundamente a uma cultura específica. Misturando os quadrinhos de Mobius, uma narrativa de John Woo, os simulacros e simulações de Baudrillard, os rostos de John Malkovich e o balé marcial do Tigre e o Dragão, existem milhares de gatilhos específicos, engatilhados para fornecer a catarse[1] aos mais diversos tipos de expectadores. Marketing genial.

Moda e cultura
Outra indagação atinge aos que lêem as críticas e opiniões sobre o filme em jornais e revistas. Muitas revistas de cinema, cultura e, principalmente, moda estão querendo gerar uma espécie de “cultura visual Matrix”, inclusive misturando com o visual dos mutantes no filme X-Men2, em que os alunos do professor Xavier usam roupas de motoqueiros e não roupas inspiradas nos mantos de monges orientais, muito parecidas com as roupas dos padres católicos quando não estão celebrando missas, como no Matrix2. É provável que consigam disseminar essa moda mesmo. Mas a questão é que não foram esses filmes que criaram nada. Filmes não podem criar cultura por si próprios numa sociedade atomizada em que só se valoriza o último, o lançamento, a novidade. Eles podem se apropriar de outras culturas e usar a plasticidade delas, até certo ponto relativizá-las. Criar moda é ridiculamente fácil, já uma cultura nova é muita pretensão, e marketing fraco.
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“Was glänzt, ist für den Augenblick geboren; / Das Echte bleibt der Nachwelt unverloren” [Nasce o que brilha apenas para o já; Para o porvir, o que é real, viverá] – Goethe (1749 – 1832), Fausto, Prólogo no teatro.
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Talvez um paradoxo sobre essa questão seria a visão superficial, já que estamos falando de roupas, indumentárias, superfícies, de que Neo parece ser um foco de resistência a uma espécie de movimento de dominação planetária que o filme representa. Quem siga essa nova “moda” pode não ter compreendido muitas das mensagens do filme.

Pré-história do cristianismo e a figura do Messias
“Os humanos eram ignorantes do que não podiam ver. Havia muitas ilusões, como se eles estivessem mergulhados no sono e se encontrassem em pesadelos. Eles estavam fugindo, perseguindo outros, envolvidos em ataques, caindo de lugares altos ou voando mesmo sem ter asas. Quando acordam, eles não vêem nada. Ao deixar a ignorância de lado, não estimam suas obras como coisas sólidas, mas as deixam para trás como um sonho.” – Parece uma fala de Morpheus, no filme? Na realidade esse fragmento é uma parte do Evangelho da Verdade, manuscrito que a igreja católica data como do século 4, encontrado em 1945 em um jarro enterrado no Egito. Parte de um conjunto de manuscritos chamados Nag Hammadi, que descreve a crença dos gnósticos, uma seita que existia antes do nascimento de Jesus Cristo e que, segundo muitos teólogos, se aproxima muito da filosofia pregada pelo messias dos católicos. O que leva alguns teólogos a crer que, no seu exílio no deserto, Jesus tenha entrado em contato com essa seita e apreendido sua filosofia. Os gnósticos acreditavam que iríamos acordar do mundo material e perceber que essa não era a realidade verdadeira. Não foi Jesus que disse: “Meu reino não é deste mundo”?

São muitas as referências ao cristianismo. Neo é o próprio messias, uma espécie de Jesus high tech com amnésia. Ao mesmo tempo ele descreve, e isso tratarei mais à frente com maior profundidade, a mesma trajetória expressa por Joseph Campbell em O Poder do Mito, sobre a trajetória do Herói. Neo poderia muito bem ser uma abreviação de neófito, ou “iniciado”. Amigo de Apoc (apocalipse) e amante de Trinity (trindade). O último refúgio dos humanos é Zion, referência a Sião, a antiga terra dos judeus, e a nave de Morpheus – deus do sono e dos sonhos grego – é Nabucodonosor, rei babilônico que acorda com sonho enigmático que precisa ser decifrado.

Budismo, até onde importa...
O ponto em comum com o budismo é a idéia de samsara ou maya, segundo a qual as nossas vidas são uma grande ilusão montada pelos nossos próprios desejos. Acho difícil alguém desejar ser favelado, mas vá lá, talvez para a classe média a idéia faça sentido. Um indivíduo reforçaria no outro a ilusão de “realidade” nesse estado. Superando esse estado perde-se a noção de indivíduo e alcança-se o nirvana. As semelhanças com o budismo param por aí. Quando Neo ultrapassa o primeiro estágio do samsara no primeiro Matrix ele não perde, de forma alguma a sua percepção de indivíduo, pelo contrário reforça ela. Ele é Neo, “the one”, o escolhido, o messias, uma espécie de ser humano único. Isso reforça ou elimina o individualismo? 

Ao mesmo tempo, sob certas cenas do filme, em que ele precisa compreender a escolha que já fez, em que antes de estar apto a fazer uma nova escolha Neo deve entender todas as implicações de sua primeira escolha, o filme volta a aproximar-se do caráter contemplativo do budismo.

Mas essa percepção da ausência de individualidade seria um caos para os irmãos Larry e Andy Wachowski, responsáveis pelo roteiro e direção do filme. Perderiam, com certeza, boa parte dos seus investimentos. A que serve a Hollywood ou à cultura individualista atomizada do ocidente contemporâneo a possibilidade de uma ausência de individualidade? Seria um inferno para o mercado que se movimenta nas ondas da contínua necessidade dos indivíduos de imporem-se pela diferenciação. Seria um inferno para o mundo político, porque facilitaria a ocorrência de associações em prol de benefícios civis em políticas públicas. Não que um filme possa causar tudo isso. Isso só demonstra o quanto essa possibilidade é perigosa para os controladores da “nossa Matrix”, da nossa economia, das nossas relações de poder - na política, dos nossos desejos - no marketing. Essa possibilidade foi completamente eliminada do filme. É perigoso demais lidar com isso num mundo globalizado. Já é fácil demais se organizar. 

Platão e Aristóteles, amiguinhos?


Real (latim medieval realis, de res: coisa) que existe, que diz respeito às coisas, aos fatos. Oposto ao fictício, ilusório, aparente. Que pode ser objeto de nossa experiência, de nosso conhecimento. – Hilton Japiassú e Danilo Marcondes, Dicionário Básico de Filosofia.

No filme, Platão se encontra no seu ramo mais popular – a alegoria da caverna, escrita no livro sete da República – com Aristóteles, que prima pela realidade empirista, captada através dos cinco sentidos do corpo humano numa espécie de Arquivo X em que “a verdade está lá fora”, mas não se pode estacionar nessa visão de que não estamos aptos a reconhecer a verdade porque ela não nos está ao alcance. Deve atentar ao fato de que, no filme, o verdadeiro corpo do indivíduo, com seus verdadeiros sentidos, também está lá fora. Eis que colocamos Platão e Aristóteles como bons amigos. Eis uma revolução na filosofia? Com certeza eis algo presente na trama e que ainda não ouvi ou li mencionarem sobre o filme.

Piadas cósmicas e condicionamento
Algumas perspectivas ninguém vê. São as piadas cósmicas. Qual o sentido da onisciência divina se carece de referenciais? Deve ser insuportável. Deus[2] deve ter enlouquecido (seguindo que ponto de vista?). Ter todas as formas, todas as leituras possíveis para se compreender as histórias humanas e a árvore que cai na floresta sem que ninguém veja é a consciência plena. Ter a certeza de que todos estão certos, parcialmente. Ou será a loucura de Deus uma parcialidade sã no mosaico do infinito? Ao mesmo tempo alguma parte da provável catatonia divina deve ser razoável para cada ser humano.

A possibilidade de compreender todas as lógicas, razões e sensibilidades, essa sensitividade multi-espelhada de possibilidades, esse reverso de deja vu está muito distante de nós, prisioneiros filosóficos e biológicos da unidimensão. Todas as filosofias, religiões e culturas nas quais o filme se baseia, ou das quais ele retira inúmeros gatilhos para suas possíveis catarses incorrem no mesmo erro. Mas não estamos adestrados a percebe-lo, estamos condicionados à “revelação”, ao caminho único. O máximo que se pôde chegar até hoje foi ao respeito e a uma espécie de “compreensão” dos outros como ainda não iluminados pela nossa luz, a única verdadeira. Essa própria compreensão dá a algumas religiões um “ar superior” que não necessariamente resvala na chaga do pedantismo, mas conserva um ar próximo, uma espécie de “pena” com a qual muitos filósofos já se incomodaram ao longo dos tempos. Uma “pena” que guarda um ar de forte etnocentrismo[3]. Então existiria mesmo uma única espécie de salvação para todos, certo? Uma espera pela chegada do “verdadeiro” messias ou pela volta do mesmo de há 2000 anos, ou pelas sucessivas reencarnações do Buda. Será que estou chegando a algum padrão?

Tudo bem, admitamos então a existência de uma única possibilidade, uma única salvação. Pensemos ao “caminho do herói” de Campbell, a Sigfried, a Hércules na caverna da hidra, enfim: nas dificuldades absurdas para se desbaratar todas as armadilhas, perigos e fases para se alcançar a única, possível e verdadeira felicidade, a “verdade” da filosofia, as “idéias” de Platão, seu “bom”, seu “belo” e seu “justo”, ou a estrutura essencial dos mitos de Lévi-Strauss. Essa possibilidade à qual estamos condicionados, a procurar uma única verdade que se encaixe nos mapas mentais de todos, que “esclareça” a qualquer um que entrar em contato com ela, a “luz” de Santo Agostinho, essa realidade supracultural parece-nos tão distante da realidade Aristotélica, empírica, que temos a tendência a dificultá-la ao extremo – a ponto de resvalar na via belicista, e aí se justificam as cenas de kung-fu e explosões à la Hollywood – já que, nosso inconsciente, auxiliado pelo dia-a-dia percebe que essa “única via” é inviável dentro das perspectivas diversas das realidades e visões de mundo das pessoas. A quantidade de dilemas e paradoxos que normalmente envolvem esse “único caminho” seja ele qual for, torna o caminho inviável ou dentro da estrutura dos mitos, como nas cartas do tarô, uma viagem ininterrupta com diversos meios para pequenos fins, mas sem a necessidade de um único fim, uma única e universal “verdade”.

Pecados e preconceito
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“...todo tipo de absoluto indica patologia” – Friedrich Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal.
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Matrix peca onde todas as filosofias e religiões nas quais se baseia pecam. Na existência desse “único caminho”, dessa “pedra filosofal” que descortinará a grande e única verdade. Como todas as religiões e filosofias nas quais se baseia, a Matrix se vê como o único caminho, um sol com os outros caminhos, com as outras visões e interpretações do mundo, como reles planetas gravitando em torno de sua onipotente verdade. Creio que, ao não nos atentarmos para o fato de que em nada essa perspectiva parece assustar aos expectadores ao fim do filme, estamos cada dia menos aptos a compreender a diferença, a respeitar e aceitar como válidas a alteridade e suas diferentes verdades. 

A perspectiva do “único caminho”, do ultrapassado gérmen do maniqueísmo pauperizado à nossa consciência pós-moderna de aceitação “compreensiva” dos que ainda não alcançaram a nossa visão, a única que seria dotada de realidade e de acesso à verdade, é a chaga do preconceito que se amaina para permanecer. Mesmo que nosso inconsciente dificulte ao máximo esse “grande achado” que seria o caminho único, porque ele se recusa, em efeito, a aceitar a existência desse caminho até a possível “matriz” religiosa ou filosófica. Dificuldades como na compreensão total, por exemplo do termo cabalístico sefirot[4]. Talvez já passe da hora de compreendermos a linguagem de nossos inconscientes, de utilizarmos mais do que um décimo de nossa capacidade cerebral. De aceitarmos outras verdades. De não cairmos mais nas armadilhas, por mais tentadoras e sensuais que sejam, da verdade única – mãe de todos os preconceitos.
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“Os homens de convicção simplesmente não tecem considerações no que toca aos fundamentos do valor e desvalor. Convicções são prisões. (...) A grande paixão usa e volta a usar convicções, não se submete a elas...” – Friedrich Nietzsche, O Anticristo.
sobre o autor

Renato Kress é escritor, co-editor da revista Consciência.Net e autor do livro Consciência [RJ: Garamond, 2000]. Texto publicado em 8 de junho de 2003. Contato: renatokress@consciencia.net


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para saber mais

[1] Catarse [sf. ‘purgação, purificação, limpeza’ (Psic.) efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida’ ‘(Teat.) o efeito moral e purificador da tragédia clássica’ XX. Do inglês catharsis, derivado do grego kátharsis ‘purificação’]

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
para saber mais

Os irmãos Wachowski, diretores e roteiristas do filme.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
para saber mais

[2] Deus (do latim dei) Os símbolos da divindade são, principalmente, os do pai, do juiz, do todo-poderoso, do soberano. E porque o estudo de Deus (teologia) está ligado ao do ser (ontologia), esses dois termos foram, muitas vezes, confundidos, e cada um deles foi tomado por símbolo do outro, no sentido em que um repete ao outro no conhecimento imperfeito que possamos ter dos dois. O nome de Deus seria apenas um símbolo para recobrir o desconhecido do ser: e o ser um outro símbolo que remete ao Deus ignoto. Não há outro nome para Deus além do que ele mesmo se conferiu: “eu sou aquele que é” [Êxodo, 3, 14]

 
 
 
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[3] Etnocentrismo. No seu primeiro sentido etnocentrismo é uma cegueira para diferenças culturais, a tendência de pensar e agir como se elas não existissem. No segundo sentido refere-se aos julgamentos negativos que membros de uma cultura tendem a fazer sobre todos os demais. Conforme a antropologia deixou bem claro, as culturas diferem muito entre si, mas há também grande variação no grau em que pessoas estão conscientes desse fato simples ou querem aceitá-lo. O etnocentrismo pode ser considerado a contrapartida sociológica do fenômeno psicológico do egocentrismo. A diferença é que, em vez de indivíduos se definirem com o centro do universo, em relação ao qual tudo o mais deve sua existência e significação, uma cultura inteira é colocada nessa posição elevada. Tal como o egocentrismo, o etnocentrismo é como um prisma, através do qual tudo é percebido e interpretado em relação a um único arcabouço cultural, com exclusão de todas as demais possibilidades.
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para saber mais

Sephirot, os atributos divinos dos judeus da cabala que tem seu correspondente na árvore da vida, Ygdrassil, dos celtas.
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[4] Sefirot. O simbolismo muito complexo dos Sefirot, elementos essenciais da tradição cabalística, só pode ser objeto, aqui, de alguma considerações sumárias. Sefirah tem o sentido da numeração. Dissemos que os números estabelecem a relação entre o princípio e a manifestação – estamos vendo um código binário e uma Matrix nisso? -. Este também é o papel dos Sefirot, raios, qualidade, atributos de Deus cuja atividade descendente elas manifestam e cuja mediação permite, inversamente, ascender de volta ao princípio, apreender a inapreensível essência, Ayn Soph. (Soph, como abrevisção de “Sofia – sabedoria?” Encontramos mais um padrão, uma coincidência ou como diria Jung uma “sincronia”?]

 
para saber mais

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