Filosofando
sobre quem acha que Bin Laden não é gente, por Alberto
Tosi Rodrigues
A sociologia e a antropologia
ensinam que enquanto pensarmos que todos os que agem a partir de valores
morais, crenças e, enfim, culturas diferentes da nossa não
são seres humanos "normais" não entenderemos o seu comportamento.
"Não
entender seu comportamento", se tomado meramente no plano da investigação
científica da sociologia, pode significar apenas fazer uma análise
equivocada, mas se tomado no plano da prática social, principalmente
da prática política, significa incompreensão.
Incompreensão
não no sentido da recusa de um esforço moral para aceitar
o "outro como ele é". Refiro-me a incompreensão no sentido
da incapacidade de buscar nas estruturas culturais daqueles que praticam
as ações as motivações para as ações
praticadas. Incompreensão, nesse sentido, gera incompreensão.
O resultado é o ódio mútuo. Vide a respeito o magnífico
artigo de Umberto Eco publicado outro dia a propósito das esdrúxulas
declarações do premiê italiano sobre o caráter
"bárbaro" de árabes e muçulmanos.
A insistência
em encarar Bin Laden como um monstro é o caminho mais curto para
não compreender Bin Laden. E é preciso, mais do que nunca,
compreender o sentimento que Bin Laden encarna.
A coisa
mais tola que já ouvi, de todas as tolices que ouvi a respeito destes
conflitos recentes (e foram muitas coisas tolas), é que o terrorismo
de Bin Laden representa a inveja dos pobres marginalizados contra a opulência
dos ricos. Décadas, talvez séculos de conhecimentos acumulados
à nossa disposição para reduzirmos nossa compreensão
a um conceito de botequim? Inveja? É básico: o comportamento
de Bin Laden é racional. Para usar a formulação de
Weber: ele utiliza meios que considera (subjetivamente) adequados para
a consecução de finalidades específicas previamente
autoatribuídas (também subjetivamente). Qualquer tentativa
séria de compreensão do que está acontecendo precisa
partir da pergunta: no corpo de valores no qual Bin Laden está imerso,
quais seriam as finalidades que exigiriam, como meios adequados de realização,
atos terroristas como os praticados?
O harakiri
(suicídio ritual da cultura japonesa) não é um ato
alucinado. É um comportamento absolutamente racional. Cortar a pança
e jogar as tripas na bacia é o meio mais adequado para atingir o
objetivo do praticante, que é, lavar a própria honra. Em
seu cálculo racional de custo e benefício, é bem melhor
morrer no harakiri do que continuar vivendo na desonra.
Os suicidas
de Bin Laden não são moleques loucos, nem são como
as crianças que os padres mandaram para morrer nas Cruzadas medievais.
Eles são homens na faixa dos 40 anos que têm muito a perder,
inclusive famílias com mulher e filhos (segundo reportagem que li).
Pra gente assim, para que seja racional morrer estourando um avião
contra um prédio, é preciso muita convicção,
isto é, é preciso uma enorme imersão em determinado
corpo de valores. Podemos considerá-los fanáticos, mas isso
tem pouca ou nenhuma importância, porque não nos diz nada
sobre seu comportamento.
Há
hoje, disseminado e disseminando-se cada vez mais, principalmente pelo
mundo árabe e de influência muçulmana, mas não
apenas nele, e sim também em outras partes, como a América
Latina, um forte sentimento de revolta contra a atitude crescentemente
(desculpem o anacronismo do jargão) imperialista dos americanos.
Esses bombardeios inconseqüentes patrocinados pelo limítrofe
do Bush e seu mordomo Blair (que faz revirar no túmulo todos os
líderes trabalhistas que o precederam) estão fazendo fermentar
de modo avassalador este sentimento. Multiplicam-se nas manifestações
do mundo islâmico faixas e camisetas com o rosto de Bin Laden. Bush
e Blair o estão transformando em herói vingador.
O Paulo
afirma: "O que os pacifistas precisam exigir é: 'cadê o plano
de democratização e melhoria de vida do povo afegão?'".
Por que? Outro dia, o Paulo dizia que o problema é a política
equivocada dos americanos para o Oriente Médio. A meu ver esse raciocínio
é absurdo. Os americanos não têm que ter plano nenhum
de democratização de lugar nenhum. Eles têm é
que cultivar sua própria democracia e deixar o resto do mundo em
paz. Eles não têm que ter política para o Oriente Médio.
O Brasil ou a Bolívia têm uma política para o Oriente
Médio? Mesmo entre os ricos, a França ou a Alemanha têm?
Claro que não. Só os americanos têm uma política
para o Oriente Médio, porque imaginam que o triunfo histórico
do capitalismo sobre o comunismo lhes dá o direito de ter uma política
sobre cada polegada de chão do planeta Terra. Como querer que esta
sua ostensiva atitude de intruso não se transforme num imenso oceano
de insatisfação e revolta?
O Paulo
tem razão: as coisas estão parecendo grandes agora porque
é a primeira vez que o aparvalhado e ignorante americano médio
está sentindo na pele o que significa a expressão "bombardeio
cirúrgico". Mas a carnificina sempre houve, e sempre patrocinada
por esta arrogante idéia americana de que eles podem ter uma "política"
de "exportação da democracia" e do "mundo livre" aplicável
a qualquer situação que lhes aprouver.
Não
é só no mundo árabe. A próxima frase que vou
dizer pode parecer um panfleto, mas é a mais pura realidade: Todos
os povos do século XX que tiveram que levantar-se pela liberdade
e contra a opressão, no terceiro mundo, tiveram que fazê-lo
contra os Estados Unidos da América. Desconheço contrasenso
maior, desconheço traição maior aos próprios
princípios: a pátria-mãe da democracia pluralista
transformou-se numa usina de sangue e lágrimas mundo afora. Lembro-me
de que quando Mandela e o Congresso Nacional Africano lutavam pelo fim
do odioso Apartheid, os cartazes que mais circulavam nas passeatas no Brasil
em apoio a Mandela tinham a inscrição: "Reagan, tire sua
Botha suja da África do Sul" (referindo-se ao último presidente
do regime racista, Peter Botha). A expressão que talvez tenha se
tornado um marco do discurso de esquerda anti-imperialista na América
Latina a partir dos anos 60 é: "Yankees, go home!"
Será
que este sentimento de estar sendo vítima de invasão, de
ultraje às próprias instituições e à
própria cultura não é um sentimento legítimo?
Será que o fenômeno Bin Laden não é algo mais
do que a encarnação do sentimento de inveja dos ricos?
Sinto
muito, não tenho mais paciência para discutir se a "política
externa" norte-americana para o Oriente Médio, para a África
ou para o Afeganistão é boa ou ruim. Se a política
externa dos Democratas é melhor do que a dos Republicanos. O que
os povos do Oriente Médio, do Afeganistão, da África
e, porque não dizer, da América Latina querem é que
os americanos não tenham mais política nenhuma para essas
regiões. Querem que os Estados Unidos limitem suas iniciativas econômicas
ao campo da economia, sem estendê-las ao campo bélico. Apenas
isso.
Claro
que é perfeitamente racional para os americanos impor sua força
militar, já que não têm rival à altura, mas
se esta sanha colonial de caráter bélico prosseguir, não
haverá para gente como Bin Laden e seus seguidores outra racionalidade
possível senão a do terrorismo.
Alberto Tosi Rodrigues
Fonte: http://www.filosofia.pro.br/
Consciência.Net