Tom Segev, historiador israelense: "Sem um Estado próprio, os palestinos não passarão do nível do terrorismo"
Sylvain Cypel, enviado especial

JERUSALÉM, Israel Um historiador e cronista do diário "Haaretz", Tom Segev é um dos intelectuais israelenses mais destacados na atualidade. Muito conhecido nos países anglo-saxônicos e na Alemanha, ele é o autor do livro "Septième million" ("Sétimo milhão", publicado pela editora Le Seuil), um estudo da maneira com a qual Israel acolheu os sobreviventes da Shoah. Segev também publicou na França, em 2000, o livro "C'était en Palestine au temps des coquelicots" ("Era uma vez na Palestina no tempo das papoulas" - editora Liana Lévy).
    Em entrevista ao "Le Monde", o autor analisou a atual situação de guerra entre israelenses e palestinos. A seguir, trechos dessa entrevista.

Le Monde - O seu último livro em hebreu, "Os Novos Sionistas", publicado há um ano e meio, desenvolve a idéia segundo a qual Israel ingressou numa nova fase, "pós-sionista". Considerando os eventos que têm ocorrido nos últimos meses, o senhor mantém esse diagnóstico?

Tom Segev - Acho que a minha tese permanece verdadeira apesar das terríveis evoluções atuais. A nossa sociedade está cada vez menos israelense e cada vez mais "judia". A idéia inicial do sionismo - criar um "novo judeu" - está se apagando em proveito do judeu histórico, aquele que pertence à diáspora. Paralelamente a esse processo, a sociedade está se tornando menos ideológica, menos coletiva, e portanto mais disposta ao pluralismo. Evidentemente, diante dos atentados, os israelenses voltam a ter os seus reflexos unitários. No entanto, há um ano e meio, um acordo estava em vista. Estávamos quase chegando ao termo da missão do sionismo, que consiste em viver em segurança, num Estado judeu que seja aceito pelos seus vizinhos. Infelizmente, o acordo não foi concluído. Mas a OLP havia cumprido um longo caminho, da rejeição do sionismo até a aceitação de Israel. E nós mesmos havíamos passado da idéia segundo a qual os palestinos "não existem", para o reconhecimento da OLP, e então à partilha de Jerusalém. No dia em que essa guerra acabará, as tendências mais consistentes voltarão a ser dominantes. A maioria dos israelenses está disposta a desmembrar uma grande parte das colônias e a aceitar um Estado palestino. Este fio condutor será mais forte que os atentados.

Le Monde - Estaria Ariel Sharon executando um "plano", que teria por objetivo desgastar os palestinos até a sua capitulação?

Tom Segev - Ele não tem nenhum projeto político. O seu programa é deixar os seus impulsos repressores se expressarem livremente. Querer expulsar Arafat sem saber nem como nem quando, você chama isso de um programa? Não, hoje, politicamente, ninguém tem o controle da situação. Em casos como esse, os loucos tomam conta do espaço que foi abandonado pelas pessoas sensatas. Predominam os terroristas suicidas do lado palestino, e, no campo dos israelenses, figuras tais como o ministro da segurança interna, Uzi Landau, ou Benny Elon, o qual está pleiteando abertamente a "transferência" dos palestinos. A idéia de que tudo isso possa acabar com uma nova expulsão dos palestinos me deixa apavorado. Na minha qualidade de cidadão israelense, esta seria a minha linha vermelha, e, no dia em que ela for transposta, considero que aquele será o momento em que deixarei de identificar-me com este país.

Le Monde - Uma expulsão igual a que aconteceu em 1948 ou em 1967 lhe parece possível?

Tom Segev - Infelizmente não se pode excluir essa possibilidade. O terror palestino nos remete para os anos 30, quando o movimento sionista começou a refletir a respeito da "transferência" dos palestinos. Dessa vez, seria preciso que uma conjuntura excepcional se estabeleça, mas com alguém como Sharon, que acredita que a guerra de 1948 "ainda não terminou", nenhuma eventualidade deve ser excluído. Pode-se imaginar vários cenários catastróficos de uma guerra regional em que os nossos dirigentes estariam tentados por essa idéia maluca.

Le Monde - Por quê?

Tom Segev - Porque não existe praticamente nenhum caso, na época contemporânea, em que um exército venceu uma luta contra um movimento de liberação nacional. Os palestinos estão envolvidos numa luta nacional. Os terroristas não nos destruirão, mas tampouco destruiremos o movimento nacional palestino. No fim das contas, sempre haverá uma negociação. E isso acontecerá também neste caso.

Le Monde - Entre Ariel Sharon e Iasser Arafat?

Tom Segev - Não, esses dois jamais farão a paz. Cada um está petrificado no seu passado heróico. Eles são os símbolos do conflito, não da paz.

Le Monde - O senhor defende, assim como tem feito o general Ami Ayalon, uma retirada unilateral de Israel dos territórios palestinos?

Tom Segev - Sim. Repatriar a população de uma cidade pequena tal como Ariel levaria tempo. Mas Israel já deveria evacuar todas as colônias isoladas. Se não for mais possível, daqui para frente, "resolver" o conflito, podemos e devemos absolutamente "gerenciá-lo". As duas partes nunca chegarão a um acordo em torno de Jerusalém e dos refugiados. Mas é preciso, de maneira imperativa, devolver alguma esperança aos palestinos, e portanto evacuar os territórios, mesmo que haja o risco de instaurar uma fronteira estanque. É preciso acabar com aquelas horríveis humilhações nos postos de controle, acabar com as exações que vêm sendo cometidas pelos nossos soldados. Agora, alguns entre eles estão se dedicando a saquear as casas de palestinos, levando daquelas pessoas dinheiro, jóias. O nosso exército está perdendo a sua ética.

Le Monde - Muitos, em Israel, temem que uma retirada unilateral seja compreendida pelos palestinos como uma vitória política, como uma premiação do terrorismo...

Tom Segev - Pode ser, mas, sem essa retirada, a cobra está mordendo o próprio rabo. A ocupação engendra o terrorismo, que desperta a repressão, que fabrica um número ainda maior de candidatos aos atentados suicidas! Trata-se de um processo de pura regressão. De maneira alguma sou um pacifista. Mas estamos reconquistando militarmente os territórios palestinos, sem assumir essa situação de fato. Tudo isso carece de uma visão maior, com alcance maior.

Le Monde - Justamente, como o senhor entende o fato de que tantos jovens estejam dispostos a suicidar-se?

Tom Segev - O seu desespero é incomensurável. Os jovens que não conhecem outra coisa de Israel a não ser os seus postos de controle, os seus soldados e os seus colonos, acabam chegando à conclusão de que essa vida não vale a pena ser vivida. A isso, deve ser acrescentado o aspecto religioso, que é decisivo.

Le Monde - Mas, recentemente, alguns dos atentados suicidas foram perpetrados por membros de organizações laicas, como o Fatah e a FPLP...

Tom Segev - Isso é inacreditável. Talvez estejamos assistindo a um novo capítulo na história das lutas de liberação. De onde surgiu esse movimento? E qual é a nossa parte de responsabilidade nesses acontecimentos? Aquela garota de 17 anos, que se fez explodir, tinha 2 anos de idade quando a primeira Intifada foi declarada (em 1987). Ela pertence a uma geração perdida. Agora, será preciso esperar pelo advento de pelo menos uma geração para que uma paz verdadeira possa instaurar-se. Mas a condição para tanto é a de que os palestinos tenham seu Estado. Sem Estado, eles não sairão do nível do terrorismo. Somente muito mais tarde, juntos, israelenses e palestinos poderão tentar iniciar um processo de instauração da verdade e de busca da reconciliação, assim como aconteceu na África do Sul.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Fonte: Le Monde Diplomatique


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