Excesso de informações da era digital está massacrando a memória humana
Fernanda Colavitti, da revista Galileu

Responda sem pensar: qual era a manchete do jornal de ontem? Você lembra o nome da novela que antecedeu O Clone? Não tem resposta imediata? Não se preocupe. Isso não é prova de que você seja uma pessoa desinformada. Ao contrário. Possivelmente, é apenas mais uma vítima do excesso de informação. Os especialistas atestam: enquanto cresce a capacidade dos discos rígidos e a velocidade das informações, o desempenho da memória humana está ficando cada vez mais comprometido. Cientistas são unânimes ao associar a rapidez das informações geradas pelo mundo digital com a restrição de nosso “disco rígido” natural.

O comprometimento da memória humana pelo excesso de informação da era digital é o tema da reportagem de capa da revista "Galileu" de maio.

Uma pesquisa da fonoaudióloga paulista Ana Maria Maaz Alvarez, que há mais de 20 anos estuda a relação entre audição e recordação, exemplifica o problema. A pedido de duas empresas, ela realizou uma pesquisa para saber o que estava ocorrendo com os funcionários que reclamavam com freqüência de lapsos de memória. Foram entrevistados 71 homens e mulheres, com idades de 18 a 42 anos. A maioria dos esquecimentos era de natureza auditiva, como nomes que acabavam de ser ouvidos ou assuntos discutidos.

Ana Maria descobriu que os lapsos de memória resultavam basicamente do excesso de informação em conseqüência do tipo de trabalho que essas pessoas exerciam nas empresas, e do pouco tempo que dispunham para processá-las, somados à angústia de querer saber mais e ao excesso de atribuições. 'Elas não se detinham no que estava sendo dito (lido, ouvido ou visto) e, conseqüentemente, não conseguiam gravar os dados na memória', afirma.

Nada muito diferente do que ocorre com dez entre dez moradores das grandes cidades brasileiras. 'O excesso de informação, que recebemos de maneira passiva, como as mudanças rápidas de imagens na TV ou na internet, deixa o cérebro preguiçoso e dificulta o processo de retenção', diz Ana Maria. Calcula-se que nas últimas três décadas a humanidade produziu um volume de informações maior do que nos 5 mil anos precedentes e em breve estará duplicando a cada quatro anos.

Tudo o que fica gravado na memória, seja um número de telefone ou o cheiro de uma flor, depende de mudanças nos padrões das chamadas sinapses – as conexões entre os cerca de 100 bilhões de neurônios existentes no cérebro. “Assim como ocorre em uma central telefônica, no cérebro procura-se fazer essas ligações pela via mais eficiente”, afirma o médico Cláudio Guimarães dos Santos, especialista em neuropsicologia.

Para que uma informação fique gravada por mais tempo, ela deve ser processada por uma região do cérebro chamada hipocampo. É lá que, por meio de reações químicas específicas, ocorrem as tais mudanças nas sinapses que possibilitam a memorização.

“Assim como fazemos com os bloquinhos de anotações, é nessas conexões que o cérebro escreve as informações que serão armazenadas”, compara a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, autora do livro "O Cérebro Nosso de Cada Dia". Muitos estímulos confundem o hipocampo, e isso o impede de estabelecer as associações adequadas. Por isso, ele não consegue registrar tudo na memória. A solução, nesse caso, é aparentemente simples: basta a pessoa estabelecer prioridades e concentrar-se no que interessa.

Um estudo realizado pelo biomédico Lúcio Garcia de Oliveira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com cem voluntários de 18 a 35 anos, comprova a importância da concentração para a memorização. Submetidos a testes de memória, aqueles que dedicaram atenção total a uma informação escrita recordaram-se de 50%, ou mais, daquilo que leram, do que os que se distraíram com estímulos auditivos ou visuais, que não chegaram a reter 40% dos dados.

A receita favorita dos especialistas, quando o assunto é memória, tem sido ironicamente esquecida nestes tempos de crescimento do mundo digital. O melhor modo de fortalecer as sinapses, de estimular o cérebro – sem exageros – e de desenvolver a capacidade de concentração e, conseqüentemente, de proteger e de fortalecer a memória é exatamente aquele que as pessoas estão, no fundo, cansadas de saber: é ler.

“A leitura fortalece os diversos tipos de memórias, como a visual, auditiva, verbal, e exige concentração”, diz o neurologista argentino radicado no Brasil, Ivan Izquierdo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos maiores especialistas em memória em nosso país.

Leia na íntegra a reportagem da revista Galileu de maio sobre a memória na era digital

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15/12 - Problemas de memória e excesso de informações


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