Sem inocência, por Conceição Lemes
Perigo ao alcance da mão

    Tal como supermercado, quase toda farmácia tem atualmente gôndolas de remédios de venda livre, sem prescrição médica. Oferecem desde anti-sépticos bucais, desinfetantes de lentes, antiácidos, vitaminas, produtos fitoterápicos até colírios, descongestionantes nasais e analgésicos. São os chamados medicamentos OTC – sigla de over-the-counter. Para observar o consumo desses produtos, ‘NO’ fez plantão nas gôndolas de OTC de três farmácias em áreas movimentadas de São Paulo: rua Augusta (área nobre dos Jardins), Praça da Sé (centro) e avenida Penha de França (Zona Leste, operária).
    Após 45 minutos em cada, a coincidência esperada: os analgésicos foram o principal alvo dos consumidores. Afinal, é a classe de remédios mais vendida no Brasil. Trinta e quatro pessoas levaram, pelo menos, uma cartela dos seguintes: ácido acetilsalicílico (AAS, Aspirina e Bufferin), dipirona (Anador e Novalgina), ibuprofeno (Advil), paracetamol ou acetaminofeno (Dôrico e Tylenol) e associações de drogas (Cibalena, Dorflex e Doril). Em tese, esses e os demais remédios de venda livre devem ser eficazes, de fácil utilização, com informações claras e objetivas na embalagem ou no cartucho e, claro, seguros. Na cabeça de muita gente, inofensivos, já que estão ao alcance da mão, inclusive de supermecados.
    "Não há remédio 100% seguro e os analgésicos podem provocar, sim, intoxicações e problemas graves, apesar da fama de grande margem de segurança e poucos efeitos adversos", alerta o médico Anthony Wong, chefe do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas, em São Paulo. O Ceatox é o centro de referência da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a segurança de medicamentos no Brasil. A base são estudos recentes chamando atenção para o risco dos analgésicos, mesmo em doses muito próximas às recomendadas.
    Três agravantes: uso abusivo, combinação de analgésicos e associação com outros remédios, como a que freqüentemente se faz com antiinflamatórios sem esteróides (que não contêm cortisona). Por sinal, dos 34 clientes observados por ‘NO’ comprando analgésicos, três tinham nas mãos caixas de Cataflam, Nisulide e Tandrilax, apanhados com vendedores no balcão. Anthony Wong reprova: "O uso concomitante de antiinflamatórios não-esteroidais e analgésicos à base de paracetamol, ibuprofeno e ácido acetilsalicílico pode causar hemorragias gastrintestinais e, eventualmente, nefrite (inflamação nos rins) analgésica, capaz de levar em meses à insuficiência renal".
    Por isso, aliás, a Agência Nacional de Vigilância de Medicamentos (Anvisa) estuda proibir, como já acontece em países como Canadá, Finlândia e Austrália, remédios que associam no mesmo produto analgésicos e antiinflamatórios não-esteroidais. Na mira restritiva do Ministério da Saúde, estão também as combinações de vitaminas com antiinflamatórios e de vitaminas com analgésicos. "São formulações absurdas do ponto de vista médico e farmacêutico", afirma Wong. "No caso da associação antiinflamatórios não-esteroidais e analgésicos, o risco é maior do que o benefício."
 
Riscos de cada analgésico

    O ácido acetilsalicílico, mais conhecido por aspirina, tem propriedades analgésicas, antitérmicas e antiinflamatórias. O ibuprofeno, de acordo com a dose, pode ser analgésico ou antiinflamatório. Já a dipirona (também denominada metamizol) possui ação analgésica e antitérmica. O paracetamol idem. Cada um tem riscos próprios:

Ácido acetilsalicílico – Em crianças e adolescentes com certas doenças virais, como gripe e catapora, eventualmente precipita a síndrome de Reye: hepatite fulminante rara, fatal em 75% a 80% dos casos. O abuso ocasiona sangramento gastrintestinal, freqüentemente grave. Mesmo risco corre quem usa com bebidas alcoólicas. Em pessoas com problemas de coagulação, aumenta o sangramento.
Dipirona – Pode provocar queda de pressão arterial. Já foi relacionada à redução drástica de granulócitos, uma das células brancas do sangue, que servem à defesa do organismo. Estudos recentes mostraram incidência de agranulocitose (queda brusca na produção de células brancas) por dipirona igual ou até inferior à que ocorre espontaneamente na população.
Ibuprofeno – Nefrite (inflamação renal) analgésica, alterações visuais reversíveis e queda acentuada de temperatura já foram relatadas.
Paracetamol – Nos EUA e na Grã-Bretanha, é a principal causa de hepatite tóxica fulminante, em geral por consumo excessivo. Nos últimos quatro anos, foi o medicamento mais mencionado em óbitos relatados aos centros americanos de intoxicação. Tanto que, para evitar a superdosagem, o número de comprimidos vendidos é controlado em diversos países da Europa. Porém, mesmo em doses usuais, o paracetamol pode aumentar o risco de lesão do fígado se estiver associado a estes fatores: febre elevada, hepatite viral, diarréia intensa, jejum prolongado, vômitos abundantes, ingestão de bebida alcoólica (inclusive vinho) e uso simultâneo de certos medicamentos – barbitúricos, rifampicina, fenitoína, carbamazepina, além dos antiinflamatórios. Outro problema: o paracetamol está presente em remédios para gripe, reumatismo, cólicas e enxaqueca. Em conseqüência, muitas pessoas tomam vários remédios com a droga, superando os limites seguros.
 
Erva-de-são-joão e colírios

    Nas gôndolas de remédios OTC, há outros riscos potenciais à saúde. Um deles é a erva-de-são-joão, consagrada pelo uso popular como antidepressivo natural. O alerta é da OMS: o hipérico interfere na ação de outros remédios, diminuindo em até 40% a eficácia de anti-retrovirais para Aids, ciclosporina (para evitar rejeição de transplante), pílulas anticoncepcionais, tranquilizantes e remédios cardíacos. Ou seja, perdem parte do efeito terapêutico, o que é particularmente grave em Aids e transplantes de órgãos.
    "Algumas rejeições decorrem de a pessoa usar a erva-de-são-joão sem informar o médico, achando que, por ser natural, não faz mal", observa Anthony Wong. "Muitos médicos também desconhecem esse risco."
    Entre eles, o próprio presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, José Osmar Medina Pestana. "Como faltam estudos sobre interação medicamentosa, orientamos os pacientes transplantados a não utilizar plantas medicinais, mas do risco da erva-de-são-joão eu não sabia", admite Medina Pestana, também coordenador da equipe de transplantes renais do Hospital do Rim/Unifesp. "Vou passar já esse alerta aos médicos dos nossos ambulatórios."
    Como ele, freqüentemente muitos médicos não têm idéia de que remédios à base de cânfora e mentol algumas vezes são perigosos, desencadeando convulsões e problemas cardíacos em pessoas sensíveis. Outro risco: os descongestionantes nasais e colírios à base de substâncias como nafazolina e oximetazolina. Se por engano o produto de adulto for usado em criança, é desastroso. Em bebês com menos de um ano de idade, podem provocam queda de pressão e parada cardiorrespiratória.
    Isso sem falar dos riscos dos remédios de tarja vermelha, a rigor de "venda sob prescrição médica", como está na embalagem. Na prática, o alerta é uma bobagem. Em toda Europa, nos Estados Unidos e no Canadá, não há remédios de tarja vermelha ou preta. Nesses países, o remédio é ou não é de prescrição médica. E a determinação funciona. Aqui, qualquer balconista de qualquer farmácia receita e vende qualquer medicamento. Entram aí antibióticos, diuréticos, anti-hipertensivos, antiinflamatórios esteroidais e não-esteroidais, broncodilatadores, vasodilatadores cardíacos e muito mais. As conseqüências são a autoprescrição, o abuso e – o que poucos se dão conta – a perigosa interação entre vários medicamentos.
    "Use o mínimo de remédios possível", recomenda Anthony Wong. O risco de efeitos adversos e até de intoxicação aumenta exponencialmente de acordo com a quantidade usada. Até três remédios diferentes por dia, a chance de a interação causar problema grave é inferior a 1%. De quatro a sete, 7%. De 8 a 15 medicamentos diários, salta para 27%. De 16 a 19, atinge 30%. Já de 20 a 24 diferentes remédios diariamente, o risco de danos à saúde alcança 47%.
    Portanto, com remédios livres ou não, cautela é a melhor receita. Devido a características próprias, há pessoas mais sensíveis do que outras aos efeitos adversos, mesmo tomando o remédio em doses usuais. Caso algum não funcione ou faça mal, comunique ao seu médico. Ele tem a obrigação de informar à vigilância sanitária. No primeiro caso, pode ser falsificação ou erro na fabricação. No segundo, pode-se estar diante de efeito adverso não mostrado em pesquisas com poucas pessoas e só detectado no uso em larga escala.
    Foi assim que o Lipobay (para reduzir colesterol) saiu recentemente do mercado, livrando a saúde de consumidores de uma associação perigosa. A substância cerivastatina produzia lesão da fibra muscular, levando à insuficiência renal, principalmente se usada junto com genfibrozila, medicamento para diminuir os triglicérides (gorduras) no sangue.

Conceição Lemes

Fonte: No.com.br


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