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1/3 de Terra, 2/3 de Céu
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Um terço de TERRA, dois terços de AR
{+3/4 de FOGO x 27/18 de ÁGUA}

Ontem cortei as unhas. Falava ao telefone com ela. Uma gota rubra, de um pus viscoso e quente pingou sobre o chão de taco, muito próximo ao pé prateado da mesa. Essa pasta de vida, esse líquido de mim, imprimiu da minha história um ponto por sobre a casa. Água fria, coloquei o pé na privada e dei pitadas de salcicatrizando ou temperando?. Tive sono. A gota permaneceu vermelha, tensa, de uma coagulação quase carnal, sobre o chão de taco, muito próximo ao pé prateado da mesa. Era uma gota, tinta do meu corpo, corpo da minha letra em literatura e vida, como um extrato de pensa-pele por sobre meu espaço.

Hoje, menos de doze horas da gota. Está preta, nenhuma formiga veio vampirizar minha tinta, nenhum inseto, nada. Quanto tempo durará qualquer obra se meu sangue, se meu corpo e minha tinta duram menos de doze horas? O que me restará além da queratina por sobre o cérebro? Hoje a carne tem sequer vestígio donde veio a gota, hoje nem minha mãe poderia saber de qual dedo pingou a marca tão preta, carnuda e morta de hemoglobina e plaquetas por sobre o chão de taco, muito próximo ao pé prateado da mesa. E tenho medo do que estou construindo, e tenho medo do poder avassalador do tempo. Essa gota, incerteza carnal se cristalizando por sobre os meus espaços, essa bibliografia das minhas veias por sobre minha biografia em espaço, em sala, em som, essa gota que ejetou sem dor lembra a agonia da ausência de raízes.

Puxo o pé prateado da mesa, muito próximo à gota, agora entre o taco e a prata. Vou pra academia.

“Sometimes i feel that i don´t have a partner,
sometimes i feel that my only friend is the city i live in
the city of angels, lonely as i am, toghether we cry”

Red Hot Chilli Peppers, Under the Bridge.


Renato Kress
31-08-2004
 

________ANGÚSTIA

‘Mihi pinnas inciderant’me cortaram as  asase é preciso aprender a andar. Na literatura, como ‘homme de letres’, é preciso reaprender a nadar. E o que quero, como me vejo? Não creio no homem genótipo, na carne de raiz, prefiro o Renato lego, a personalidade construto. Lidar com escolhas não me é necessariamente brincar com a liberdade, mas flertar com a responsabilidade; tanto assusta quanto excita.

Nas tentativas de organizarmente, família, casa, estudo, projetosainda a esperança de que o hábito se torne a natureza. É questão então de escolher a natureza para construir o hábito. Que sempre me fascinou o ideal grego, o ‘mens sana in corpore sano’, fibras musculares apolíneas na mente dionisíaca. Que quando menor, o ideal fora o agente secreto: culto, inteligente, malicioso, poliglota, forte, rápido, sedutor. No estereótipo a melhor defesa era o ataque. A questão do agente secreto, do Renato ideal, esbarra na construção do hábito. Todos os dias devo malhar, ao menos uma hora e quarenta, uma hora por dia estudar italiano, rever quando possível o alemão, terminar um dia o inglês, no mínimo dois livros por semana, todos os textos da faculdadesublinhar, ficharas leituras complementares, jogar tarô para treinarestudar o tarô em casa, bater o caderno no computador e escrever um artigo por semana para o Consciência.Net para ser o que me agrade. 

A questão é o cansaço, desapego das tarefas, trepidação do ânimo. O ideal está sempre adiante, como farol na Ilha de Utopia, o ideal, adiante, dois passos para cada passo meu. A força necessária para transladar o sonho em projeto, meus sonhos em etapas com um fim alcançável, essa eu talvez não tenha sozinho, essa eu talvez tenha de ter, sozinho. Não quero mergulhar no Mediterrâneo ou buscar a luz, nem mastigar oxigênio, adeus ao Renato-Ícaro, preciso de terra! Emprego, rotina, projeto que acabe, idéia concreta, amor que dure, companheirismo que se estabeleça, forma física estável, segurança, estabilidade, equilíbrio.

Hoje a alma oscila, a mente cambaleia, emoções tropeçam, corpo desaba. Mas os dias avançam, a carne trespassa os cronológicos caminhos e já não mais corto ou quebro, a descida na trajetória do herói está feita, o distanciamento, o corte, o estranhamento, toda a desconstrução está. É preciso erguer algo – como Arquimedes, para que mova minha ‘Terra’, necessito de um ponto de apoio, referência, algo sólido -, meu castelo, meu espaço dentro de mim. ‘Estamos em obras para melhor servi-lo’ seria a placa mais propícia a encontrar numa autópsia do cérebro ou coração.

Um fim-de-semana é fenomenal para colocar as pendências em dia, livros vão com cópias acumuladas da faculdade e demais questões: a angústia se vai nas letras. Nestas que desenho sobre o caderno, nas que li e e as que me lambem as sinapses durante o dia, as que se lambuzam na baía de mielina.

Este corpo, espaço e angústia são meus e estranhamente não mais sinto falta dela, dessa musa, dessa idéia. Aristófanes me perdoe mas não posso sentir falta do que nunca tive, ou do que não me lembro. A quem tenha óculos cor-de-rosa esse é o melhor momento, o lapso em que se está apto a aceitar o outro, a matar o leão. A quem hasteia ceticismo é o olho-do-furacão, instante de arrumar estantes, templo zen em duração fast-food. A alma de um instante ampliado à exaustão.

Entrando num ritmo, não o celerado das multifacetadas personas do eu Renato-lego, mas um ritmo outro, que agrade. Não o ser a cada palpitação, mas o serdesarmônico e incompleto em dois, quatro dias ou uma semana. Esse ser em lastro, ser histórico; ‘Estrela da vida inteira’. Existem momentos de tanta leveza que se pensa ter tropeçado, pela manhã, no tal ‘Manual de Instruções da Vida’ e tudo ainda tem o seu peso, mas se fez o que pode e, além disso, um bom e velho ‘que se foda’, sim, encaixa.

O zen em mim é estado, não essência. Às vezes – as piores delas – preciso flechar a essência que traga um caminho na insana bifurcação da bifurcação do atalho daquele continuum hip-hop, trance, samba de roda mnemônico.

Tem dias que só observar a beleza – de longe – é a melhor forma de (re)viver aquela felicidade que eu sei que pode ser vivida, em terceira pessoa. Noutros resvalo na leveza de espírito e a tal completude parece mais tranqüilidade estanque de pós-madrugada. A mais das vezes – como Nietzsche – todo extremo me parece patológico e, lógico, me coloco no ‘phatos’ e me embebedo. Esse mergulho no extremo tem um quê de resistência ao ritual de passagem, a esse ‘ser adulto’; ou a toda uma imagem de ‘ser adulto’ como um ‘ser tolido’ um ser aquém do limite da adolescência, recheado de novos limites – e a novidade afronta, o novo desconstrói o que era certo, o claro e óbvio, cria o instante liminar, lugar em que se chupa a alma por cada poro da fortaleza das certezas.

Ainda tenho que admitir o medo, o limite, o humano em mim. Esse desprender dos cipós do pântano – caverna, útero – tem uma certa dor, uma carne que não se ejeta – numa passagem pós-modernamente ‘clean’ esterilizada – mas que se rasga, que fere, arranca tripa, ventre, eviscera e transmuta. Mas deixa a íris oca, nada é novo porque não há carne, o oco impermeabiliza, suprime a cicatriz. É preciso aceitar a morte e a bengala. O que em mim deixa de ser para que alguns algo-outros me deixem ser. Esse mesmo que é um outro, esse ‘lux feros’ – esse portador da luz – que é Lúcifer, o desconstrutor da ordem vigente Ser Bhrama, Vishnu e Shiva ou aceitar a responsabilidade de retirar Excalibur da pedra, arcar com seu reino, relações e deveres.

Esse desfazer-se da pedra básica de Excalibur, do todo da ‘mãe-terra’, para construir Camelot, um espaço autônomo ‘para além da antiga terra’, teu novo reino, espaço da instituição das novas regras, é o rompimento psíquico e social do umbigo, a dor e a liberdade primordial. A senha de Eros e Thanatos, onde a permissão da vida exige a aceitação da morte.

É preciso aceitar que morri para que me permita viver. Engraçado como racionalizar acaba mais paralisando o processo do que me ajudando a sair da liminaridade, da margem entre o que já não mais pode ser e o que não tem permissão ou coragem para pertencer ao novo.

Esse assumir o fraco, o ‘trágico’ do homem grego de Vernant na sua trajetória rumo à Pólis, exige assumir o fraco sem qualquer vestígio do forte, implica em mergulhar sem escafandro no lodaçal primevo das ilusões, vergonhas e desejos e reconhecer o caráter decadente da estrutura anterior, sem vislumbre da ‘Pedra fundamental’ ou qualquer tato com a nova estrutura. A essência básica da anomia de Durkheim aplicada à psique.

Nessa ‘trajetória do herói’ de Campbell, a ‘Katábasis’ – ‘descida às trevas’ – me pede uma honestidade que talvez não tenha exercitado – o espaço entre a troca de máscaras, de personas, deixa minha face à mostra e não incomoda realmente ser visto pelo outro, incomoda não reconhecer a essência, ou ter de aceitar a impureza – essa aceitação da sujeira, da baixeza, do podre, foi, quem sabe, nas poesias. O livro que sempre vêm. O livro que, fosse suficiente, não restaria a angústia. Talvez falte lançar o livro, mais uma veza questão da finalização, da completude.

A incompletude é eterna, isso entendo nos dias, é uma imagem midiática bem-vestida, sentada de braços abertos num sofá claro, ou uma liberdade de braços abertos e lábios rasgados num sorriso de jovem mulher ciclista – aliás, como são belas as coxas da liberdade. O problema é a latência de estar eternamente a ponto de finalizar o que em mim sempre se torna infinito. Essa fantástica capacidade de encerrar tudo o que seja cotidiano, pasta de dente, escova, louça, vassoura, roupa, perfume, banho, T.V., academia etc acabe me limitando terminar o extra, o novo, o fora de padrão. É a mente que avança e estupra o trabalho da idéia antiga com o nascimento da idéia nova, essa tempestade criativa que avança em idéias, projetos novos e não estrangula os quereres velhos, só cerra a ação, a resolução. É a lâmina líquida que corta a travessia da carne, a impossibilidade física – que de tão rocha seca a medula no osso do desejo – da passagem, no ritual.

Há semanas de foco, de estreito do pensamento no que fosse as vísceras do eu – desejo, carne, amor e mitos - , espaço de mentalizar o lugar – a casa, faculdade, espaços – caminho que se recheia de entusiasmo – desse en theos, do ‘haver deus dentro de si’ – e as horas passam em cor. Mas a construção do eu, que dá as lentes e constitui o horizonte dentro donde se quebra-cabeçam as tarefas, está por fazer, está longe, líquida. É preciso manter à parede do quarto algumas máscaras que se lhe deslizem ao rosto pela manhã, nunca estar líquido, sereno, sincero. Essa vastidão do eu que me extravasa e atropela, ser esse eterno homem morrendo no próprio trabalho de parto.

A falta de regularidade, essa minha ausência de ciclo e repetição, a total liberdade que excita e trava. Esse a cada dia reinventar o café-da-manhã, organização da casa, identidade visual, esse ser o demiurgo da própria vida a cada milímetro milimétrico infinitesimal do construto na personalidade, no ambiente, nas horas, é abraçar o caos onde só um elemento pode se deitar em berço esplêndido ou urrar ‘liberdade’ enquanto lhe cortam a cabeça: a vontade. O caos não é o que eu quero, esse é o problema. Como ter a vontade além da natureza, como escolher – ter a coragem de escolher – a nova natureza que vai legar o novo hábito inspirado no velho compromisso lido pelas novas lentes?

Sinceramente não sei nem espero que saiba a resposta – a maior parte das respostas rápidas para essas questões envolvem dogmas que não me atraem – para isso acima. Só estou compartilhando a angústia de ser, ainda que um pouco tardio, humano.

Renato Kress
2004-05-19
 
 


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