Jésus Rocha, cronista da Tribuna da Imprensa, jornal carioca.
Amor & relacionamentos

A fidelidade é uma traição às outras — outubro de 2003

Amar é... já não amar e continuar amando — dezembro de 2003

Assim que a Força-Tarefa da ciência vencer a AIDS, vou lançar um livro com depoimentos de todos os paqueradores responsáveis que foram torturados. Título: Repressão, Nunca Maisoutubro de 2003

Desde que parei de mentir pra minha mulher, ela parou de acreditar em mim — outubro de 2003

O casamento começa a se deteriorar quando marido e mulher percebem que não se conhecem muito bem - ou que se conhecem bem demais. — junho de 2004

Brasil

Quando estou pessimista, não acredito na salvação deste país nem se seus salvadores de plantão desistissem. A propósito, no momento, quem quiser conseguir alguma coisa, a primeira coisa a fazer é não ter nenhuma esperança no futuro: concentrar todas no presente. — agosto de 2004

A situação do país, hoje, poderia ser outra, sem dúvida melhor, se tivessem respeitado o prazo de validade (4 anos) de FHC. — maio de 2004

Devo a este país tudo que tenho (e portanto devo) e tudo que devo (e portanto não tenho). — junho de 2004

Houve tempo em que, quando eu me sentia muito brasileiro, tinha a sensação de estar sendo patriota... Hoje, a sensação é de estar sendo paranóico. — junho de 2004

Mãe e País a gente só dá valor quando perde... — maio de 2004

Neste país, as coisas certas só acontecem por acaso. Ou ao acaso. — junho de 2004

No âmbito da Justiça brasileira, até a falência está se tornando uma instituição falida. — junho de 2004

O Brasil precisa sair desse beco-sem-saída. Não há outra saída — fevereiro de 2004

O Brasil só vai mudar se mudar seu estilo de mudar. Mesmo assim, espero mudar de opinião — dezembro de 2003

O governo quer arranjar mais dinheiro como pode.
O governo quer arranjar mais dinheiro, como? Pode?
O governo quer arranjar mais dinheiro. Como pode?
 — março de 2004

Só vamos acabar com pelo menos metade da miséria neste país quando acabarmos com pelo menos metade dos que prometem acabar com a miséria neste país — novembro de 2003

Tem acontecido tanto escândalo financeiro que até os intervalozinhos entre eles deviam ser investigados pela polícia" — outubro de 2003

Cinema

Existem dois tipos de filme bom: o que a gente gosta de ver e o que a gente só gosta de ter visto — março de 2004

Dinheiro & Consumo

O amor não é tudo.
A segurança não é tudo.
O sucesso não é tudo.
O dinheiro, não: é tudo!
 — fevereiro de 2004

Meu sonho de consumo é sobreviver a tudo que consumo — novembro de 2003

Governo Lula

A oposição só está esperando Lula voltar para acusá-lo de estar indo longe demais... maio de 2004

Humanidade

A história da humanidade é a história do esforço humano para diminuir o número altíssimo de perguntas, e aumentar o número ridículo de respostas — fevereiro de 2004

A Humanidade só vai melhorar quando der chance ao impossível — julho de 2003

“O que estou fazendo neste mundo?”. Bons bempos quando esta pergunta era feita pelos filósofos. E não pelos desempregados.— junho de 2004

Errar é humano! Claro. Que outro animal erra? — maio de 2004

Perspectiva

A esperança é a última que morre... Às vezes acho que seria mais negócio se ela fosse a última que nasce. — maio de 2004

Crer no fim do mundo já não é uma questão de princípio — março de 2004

Estou otimista quanto ao futuro; caso exista — janeiro de 2004

Uma retrospectiva dos futuros até hoje anunciados para o Brasil deixa claro que os futuros futuros serão bem mais duros que os futuros atuais e os futuros passados. — junho de 2004

Política

No neoliberalismo, os poderosos fazem o que querem. A (falta de) regra é clara!junho de 2004

O mau político, hoje em dia, não vale um quinto da verba que desvia.junho de 2004

Televisão

Mais uma vez o Congresso ameaça acabar com o “lixo” na televisão. Sou contra. O que vai sobrar? E como eu já disse aqui, TV só faz mal a quem vê: não veja pra você ver! — novembro de 2003

Se não fosse a solidão, eu já teria morrido de televisão — setembro de 2003

Vida

A vida me ensinou tanta coisa... Ainda bem que a metade eu já esqueci — julho de 2003

Violência

Ao ser assaltado pela décima vez em uma semana, um assaltado revoltado perseguiu e assaltou um de seus assaltantes. O assaltante assaltado pediu ajuda à polícia mas o assaltado assaltante fugiu — fevereiro de 2004

Bons tempos quando 'bala perdida' era a bala com a qual não se podia mais contar — outubro de 2003

Nos últimos anos, só uma coisa aumentou mais que a violência no Brasil: as causas da violência no Brasil — fevereiro de 2004

Outros

A corda só rebenta pro lado do mais fraco quando não tá no pescoço dele.

"Admira-se mais, neste país, o político que tenta resolver um problema assumindo várias posições, com a mesma cara-de-pau com que assume uma só posição tentando resolver vários problemas" — janeiro de 2004

"As consequências de uma guerra mundial, hoje, seriam mais agudas, mas não tão mais graves que a continuidade da atual paz mundial" — novembro de 2003

Assim como é impossível se banhar duas vezes nas mesmas águas de um rio - como dizia o filósofo antigo - é impossível mencionar duas vezes a mesma cifra de nossa Dívida — julho de 2003

Boa parte das pesquisas no Brasil e outras partes do mundo terceirizado revelam mais as tendências do órgão pesquisador do que as do cidadão pesquisado. — junho de 2004

Classificado: Vendo DVD, videocassete, filmadora, microondas, 500 CDs, quadros e outros objetos de arte. Motivo: mudança (para a classe média baixa) — janeiro de 2004

É um crime genético não existir uma tecla “delete” no computador mental. Um crime ou uma bênção. Depende — março de 2004

Houve tempo em que o brasileiro que chegava ao fim da vida sem realizar nada, morria frustrado, sentindo-se um fracasso por isso. 
Hoje, esse tipo de brasileiro morre com a consciência tranquila, sentindo-se quase um herói, exatamente por não ter realizado nada, ou seja, por não ter contribuído em nada para isso que se vê por aí — abril de 2004

"Lula enviou carta ao Presidente do STF, Maurício Corrêa, criticando a “morosidade” do Judiciário. O ministro contestou veementemente - cinco dias depois" — fevereiro de 2004

“Maluf é mesmo ladrão”. O ex-governador gostou da manchete, por dar a entender que havia certa dúvida. — outubro de 2003

Não é verdade que a História só se repete como farsa. Repete-se também como tragédia clássica. Assim como há séculos — por exemplo — existiam as carpideiras que, nos funerais, eram contratadas pra chorar, existem hoje os desempregados, que choram pra ser contratados. — junho de 2004

Não me conformo em ter me conformado. Eis o que sobrou do meu inconformismo passado. — junho de 2004

Não existe elemento mais trágico, numa tragédia, do que a incompetência honesta e bem intencionada. — junho de 2004

Não existem só o Brasil que come e o Brasil que tem fome. Existe também o Brasil que come o pão que o Brasil que come amassou — março de 2004

Ninguém é tão honesto que não mereça um elogio de Maluf — abril de 2004

O povo brasileiro sempre esteve em jogo. Nunca no jogo — janeiro de 2004

O preço da cesta básica é a eterna vigilância — abril de 2004 [Thomas Jefferson, em famoso pensamento, disse: "O preço da liberdade é a eterna vigilância"]

O que me deixa realmente intranquilo é não entender nem 20% do que me deixa realmente intranquilo — abril de 2004

"Ontem, na Praça Sete, dois estranhos se aproximaram de mim. Como não pediram meus documentos, relaxei. Era apenas um assalto!" — novembro de 2003

"Ou o Brasil realmente baixa os juros, para os brasileiros, ou continua baixando as calças, para os americanos" — outubro de 2003

"Penso (inclusive que não existo), logo, existo" — dezembro de 2003

"Pode até parecer exagero, mas às vezes penso que só existem dois tipos de político: o desonesto e o que a gente quer acreditar que não" — novembro de 2003

"Quando ouço meu filho adolescente conversando com seus colegas, fico orgulhoso porque entendo 5, às vezes até 10% do que eles falam. E acho natural eles usarem seu dialeto tribal. Deve ser duro, hoje, ser adolescente em português. A propósito, leitor, você já experimentou escrever a cifra de nossa Dívida em reais?" — novembro de 2003

"Quem janta seus males espanta" — fevereiro de 2004

"Réu primário é aquele que ainda tem muito crime pela frente..." — setembro de 2003

"Sem querer exagerar nas proporções, o que eu já disse aqui, sobre FHC, repito em relação a Bush e Saddam: não tenho nada contra, isto é, nenhum antídoto" — dezembro de 2003

"Sexo é a pergunta para todas as respostas" — outubro de 2003

"Taí uma das debilidades violentas de nosso sistema político: o cara é julgado e condenado nas “urnas”, mas continua solto - sob a custódia de seu partido. E permanece em cena, embora com status de foragido moral, limitado aos comerciais publicitários que a Lei patrocina" — janeiro de 2004

Trabalhador sem trabalho sempre dá trabalho, numa boa democracia. — junho de 2004

Pesquisas eleitorais
Vem aí, a encheção de saco: pesquisas sobre a performance dos candidatos a prefeito... Essas pesquisas, na verdade só comprovam a tendência ideológica e a preferência político-partidária do pesquisador - ou do instituto que “cumpre” o trabalho...

A qualidade maior do pesquisador é saber onde encontrar o que ele quer ouvir dos candidatos, sobretudo, o seu...Ou os seus...

A relação pesquisador-pesquisado se estabelece no plano psicossomático, muito semelhante à relação do analista-analisando e à do assaltante-assaltado.

A atividade está cada vez mais profissional - para os institutos de pesquisa, claro. O pesquisado não leva nada... Mas algo me diz que isso vai mudar. Que a categoria - dos pesquisados - há de tomar consciência de sua importância, como “inquirido”, no processo sócio-democrático. Afinal, sem pesquisado, não há pesquisa... Bom, para alguns institutos, até que há...
 — junho de 2004

Brincadeira tem hora...
Taí um ditado 
que não faz o menor sentido 
em nosso país. 
Faria algum, 
se fosse:
SERIEDADE TEM HORA...
 — junho de 2004

Viva a Violência
Eu vivo - e sofro na carne - a violência que produz seres humanos 
famintos, e é produzida por violentos abastados.

A violência dos que transformam o País em campeão das desigualdades.

A violência da lei contra os humildes, e sua submissão a beneficiários da impunidade.

A violência dos herdeiros (da mentira) contra os posseiros (da verdade).

A violência das balas perdidas pela incompetência das autoridades.

Eu vivo - e sofro na carne - a violência que escreve a estatística dos excluídos - mortos - e a que celebra a supervida dos privilegiados.
maio de 2004

“A mente humana é o mais perfeito computador que existe”
Até concordo, exceto por uma limitação triste: não é possível – como nos computadores desumanos, digo, não-humanos - deletar arquivos indesejáveis exilando-os na lixeira, ou manter até a lixeira vazia. Livre. Só no computador da mente demente a tecla “delete” funciona. Involuntariamente.

Outro problema: os técnicos. Além de careiros, são imprecisos, indecisos e incompetantes. Desde o pai de todos eles, o vienense que “explica” que todo defeito de soft está no hard do inconsciente. E tudo tem a ver com o id e o ego. Eu, hein? — maio de 2004

Compromisso
Doem muito os pontos que levei na cara.
Perdi dois dias no hospital, e um dente.
Mas eu concordo: a dor não se compara
à tua, se analisarmos friamente.

Lealdade é nobre, eu sei, “virtude rara”,
raríssima – e havia entre a gente.
Quero que tudo se resolva, cara,
mas, por favor, civilizadamente.

O que aconteceu não foi maldade.
É a vida, apenas... Esse compromisso
não vou assumir, não vou sair da cidade.

Estou implorando com respeito e empenho:
exige seja lá o que for, não isso!
Tua mulher é tudo que eu tenho.

A quem interessar possa
Eu, em pleno uso da razão, me nego
a continuar honesto. Como pude,
aliás, manter-me tanto tempo cego
à justa concepção dessa atitude?

É como honesto cidadão que entrego
os pontos. O que impede que eu mude,
se os anticorpos éticos do meu ego
perdi ao perder o emprego e a saúde?

Estou otimista, pesquisei (com lupa)
riscos, hipótéses, CPIs, perigos
do que me espera...E só me preocupa

um ponto pessoal: será que sou
tão competente quanto Pita e amigos
que arrasam cada vez mais com seu show?
 — maio de 2004

Os três tipos de briga
Digo por experiência própria: existem, no casamento, três tipos de briga.

Tipo 1. Briga em que marido e mulher têm razão. São as brigas rápidas e rasteiras que geralmente acabam em cama.

Tipo 2. Briga em que só um dos dois tem razão. Nestas, quem tem razão geralmente perde, e se enfraquece no Risco-Relação (mais oscilável que o Risco-Brasil).

Tipo 3. Briga em que marido e mulher não têm razão. São as brigas mais levadas a sério, e que mais levam à separação.

Elaborei esta tese no primeiro ano de meu primeiro casamento, só para publicar na minha coluna. Mas minha mulher viu, e tivemos uma briga do Tipo 2, em que só um tem razão: infelizmente, eu tinha. Não me conformei e partimos para uma briga Tipo 3, e em pouco mais de três minutos, nos declaramos “ex-marido” e “ex-mulher”, cada um em seu lado da cama: eu nos pés, ela na cabeceira.

Antes de fazer minha mala, propus um brinde civilizado. Ela recusou me chamando de grosseiro por me sentir “feliz” na separação. Propus o brinde, respondi, porque seus olhos brilhavam de satisfação.

E brigamos: ela gritando que eu era grosseiro por estar feliz, eu gritando que ela era fingida por esconder que estava explodindo de satisfação. Ou seja, briga Tipo 1, em que os dois têm razão.

Terminamos, portanto, numa apoteose orgástica, ao som de Vando. E entramos pelo cano - porque o casamento durou mais seis anos.
 — maio de 2004

Humores da História
Jovem candidato escreveu a Mozart com perguntas a respeito de como compor uma sinfonia. Mozart respondeu que era um gênero complexo, exigente, e sugeriu que ele começasse com algo mais simples. E o jovem, em outra carta: “Mas Mozart, o senhor já compunha sinfonias quando era muito mais moço do que sou agora”. Resposta de Mozart: “Mas eu nunca precisei fazer perguntas”.
 — março de 2004

Cigarro dá câncer
Cigarro dá câncer. E daí? 
Podia dar AIDS, lepra, 
dengue, osteoporose,
dor de barriga, o diabo. 
O quadro só vai mudar 
se descobrirem que o 
cigarro não dá lucro.
 — abril de 2004

POEMITO
Estou otimista
quanto ao futuro;
caso exista.
 — abril de 2004

A lentidão da Justiça
Nossa Justiça é lenta - o que é ruim.
Nossa Justiça dorme - o que deprime.
Nossa Justiça falha - o que é o fim.
É um crime a forma como trata o crime.
Não entendo nem lei de botequim.
Mas discordo da mídia que comprime
(culpando a lentidão) tudo que, assim,
provoca o caos judicial do regime.
Em um processo, no final das contas,
julga-se mais quem mais “domina” a ação,
vencendo quem melhor segura as pontas.
Em suma: vence uma razão postiça.
E é nesses casos que a lentidão
faz até bem: atrasa a injustiça...
 — março de 2004

POEMITO
A chuva deixa 
os vidros opacos 
os vidros deixam 
os longes fracos
os longes deixam 
os olhos densos 
os olhos deixam
água nos lenços
os lenços deixam 
adeuses no ar.
 — março de 2004

SAIR NO RIO
Sair no Rio é maravilhoso
quando você se solta e não se abala
diante da hipótese de perigoso
sequestro momentâneo, assalto, bala...
Praia e futebol, Cristo, ar gostoso,
ao som do samba e tiros - tudo exala
paixão, violência, medo, vida, gozo
surpreendentemente sem escala.
A esperteza é tudo. Exemplo, cara:
o sinal é um sinal de que você
é otário, se não avança ou se pára.
Mas dia e noite a maioria vaza
porque a verdade nua e crua é que
se borra de pavor também em casa.
 — março de 2004

CONSCIÊNCIA
Tento compreender da melhor forma
a rota que conduz o não ao sim,
qualquer hipótese de lei ou norma,
princípio por princípio, fim por fim...
O que nos ameaça ou nos deforma
pra que falemos mal de nós assim?
"Falemos" não! Eu não! Não me conforma
ver fantasmas, e medo, e dor, enfim
A minha consciência está tranquila
Pois apesar da situação infeliz
Que a todos (quase todos) aniquila,
Estou otimista! E luto, e sonho, e posso
continuar amando este País
como se ele ainda fosse nosso.
 — março de 2004

POEMITO
O segredo
do heroísmo
está no medo
que o herói
guarda em
segredo.
 — fevereiro de 2004

POEMITO
Batidas de carro
no trânsito
Batidas policiais
na noite
Batidas de espera
no tempo
Batidas do coração
no peito.
Ainda bem que existe
a “de limão”,
senão, irmão, 
não tem jeito.
 — janeiro de 2004

POEMITO
Sem dúvida
nenhuma
o coração
são duas partes
divididas
em uma.
 — janeiro de 2004

POEMITO
A crise brasileira,
a crise atual,
foi provocada
pela crise anterior,
que foi provocada
pela crise anterior,
que foi provocada
pela crise anterior,
que foi provocada
pela crise anterior
que começou
nos anos 30.
Do século
XVIII.
A novela 
“Celebridade” 
vai mostrar como 
o Brasil que come 
come o Brasil que come 
e o Brasil que tem fome.
E como o Brasil 
que tem fome não come
o Brasil que come.
 — outubro de 2003

POEMITO
Não é de hoje
que violência
gera violência,
(e como gera!)
Só que hoje,
exagera.
 — janeiro de 2004

POEMITO
O carnaval
com seus
eterno 
foliões,
mostra 
que o sexo
é diferente
das demais
religiões.
 — janeiro de 2004


Contagem: Perdi a conta

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