Aceito a provocação, Paulo Cezar, mas:
1 - Duvido que algum viticultor francês topasse plantar uvas transgênicas para fazer bordeaux. Os próprios franceses arrancariam as uvas e ainda tirariam o couro de algum produtor de vinho que tivesse uma idéia dessas.
2 - Posso garantir que a Santé e Flery Merogis (as cadeias de Paris) são incomparavelmente mais salubres do que a melhor cadeia made in Brazil, salvo a do Juiz Lalau.
3 - Acho que a polícia faria a mesma coisa lá e cá. Mandariam o gajo cair fora. Bové vive dos factóides que cria e que a imprensa (boba) compra. Processo só se a Monsanto, dona da soja, ou o produtor do bordeaux dessem queixa.
Devolvo a provocação com outra pergunta: Será que na França, o Carrefour contrataria uma ''polícia mineira'' constituída de traficantes de drogas para queimar vivos clientes cleptomaníacos, ou que roubam por necessidade? Duas mulatas pobres, Geni Ribeiro Barbosa e Andréia Cristina dos Santos, tentaram roubar protetor solar para revender na praia. Na orla, o preço do protetor sobe pelo menos quatro vezes. Questão de mercado. Necessidade elementar de sobrevivência. Mas, por isso, Geni foi espancada e torturada por traficantes da Cidade de Deus, depois de ser entregue a eles pelos seguranças do Carrefour. Mas não parou aí. Os bandidos sentenciaram Geni à morte e preparavam sua execução quando a polícia chegou.
Chegaram a colocar um pneu velho cheio de gasolina em torno de seu pescoço, a famigerada ''gravata sul africana'', um método de execução criado por negros para punir outros negros suspeitos de colaborar com os brancos durante o Apartheid. A vítima morre queimada em sofrimento atroz. Geni só escapou porque sua amiga, e cúmplice, Andréia, que aguardava no Carrefour sua vez de ser entregue aos carrascos, conseguiu escapar e chamar a polícia usando o telefone de uma loja no interior do supermercado.
As perguntas vão direto para o Sr. Frank Witek, diretor-superintendente do Carrefour no Brasil. Monsieur Witek, o que o Carrefour, na França, faz com pessoas pilhadas roubando algo no interior das lojas? Monsieur Witek, o que aconteceria com o Carrefour, na França, se as autoridades de seu país descobrissem que a segurança do mercado é subempreitada por Lolonga e Telo, dois marginais, assassinos e traficantes de drogas, encarregados de executar, sumariamente, e com crueldade, os clientes cleptomaníacos ou pobres delinqüentes apanhados em flagrante delito de roubo? O que diriam seus patrícios se soubesses que o chefe da segurança do Carrefour, Tadeu Luis Mendonça Filho, e os ''fiscais'' José Luís de Ferreira e Flávio Augusto Grachat, montaram uma ''mineira'', com poder de prender, julgar, torturar e executar? Será que há masmorras em seu supermercado?
O caso do Carrefour é extremamente grave. Tão grave que, se fosse na França, haveria piquetes de cidadãos indignados à porta desses supermercados para protestar, em alto e bom som, panfletando pacificamente, sem violência e provocações, mas com veemência cidadã. Haveria na França, (perguntem a Monsieur Witek), um movimento nacional para boicotar esse supermercado e exigir uma explicação pública do fato. Eu não ponho mais os pés nem no Carrefour nem nas Lojas Americanas (compradas pelo supermercado), enquanto a empresa não produzir uma explicação aceitável para o episódio.
Além disso, paira uma terrível suspeita no ar. Será que isso já não aconteceu? Será que alguém já não foi morto por ter roubado algo numa gôndola do Carrefour? Pela desenvoltura da ''polícia mineira,'' é possível que muita gente tenha entrado no hipermercado de Jacarepaguá (e - quem sabe? - em outros) e saído dali direto para a morte.
Não é fantasia ou paranóia. Ninguém menos que o presidente do Sindicato dos Vigilantes, Fernando Bandeira, insuspeito no caso, declarou a O Globo que vai sugerir à polícia que investigue todos os casos de desaparecimento de moradores da Cidade de Deus e outras favelas adjacentes. Será o primeiro caso de ''desaparecidos'' de um supermercado.
Imaginem se o Carrefour se chamasse Encruzilhada, fosse uma firma brasileira e se instalasse na França, numa região cheia de HLMs, conjuntos habitacionais franceses onde moram pobres, em geral árabes e negros, e onde prolifera a droga. De repente descobrem que o supermercado mantém cárcere privado e aplica a ''gravata sul-africana'' nos clientes que roubam. Aposto com Monsieur Witek que a Encruzilhada seria fechada e mandada de volta para cá. E nem imagino a multa e as sanções a que estariam sujeitos os responsáveis por esse supermercado. Em tempo: Carrefour é encruzilhada em francês. (xô, Exú!)
A opinião pública exige uma explicação. O Carrefour deve mostrar as fitas de vídeo (estranhamente sumidas) da segurança com a cena da soltura das duas ladras, sob pena de pensarmos que, ao atravessar a linha do Equador, os franceses e outros ''civilizados'' parecem esquecer os princípios morais e éticos pelos quais foram educados e aderir gostosamente à barbárie geral, convencidos de que chegaram a uma terra sem lei. Podemos estar (e estamos) mal em matéria de valores morais, mas ainda não chegamos ao ponto de matar por alguns tubos de protetor solar.
Da próxima vez que alguém roubar algo em suas lojas, Monsieur Witek, lembre-se que o seu supermercado e os de todo o mundo já contam com uma estimativa de 10% de sumiço ou inutilização de mercadorias e embutem este prejuízo previsto nos preços que todos nós pagamos. Isso é normal.
Há gente que rouba por impulso. Cleptomaníacos. Outros o fazem porque tem fome, e não é raro que consumam algo no próprio supermercado. Outros, ainda, roubam para vender, como parece ser o caso das duas ladras quase executadas. E, finalmente, há os bandidos, os que assaltam a loja ou o carro forte. Em todos os casos há maneiras diferentes de se tratar do problema. Algumas passam pela polícia, por ação dura e pela justiça, quando há banditismo. Outras passam pela compreensão, perdão e até ajuda, quando há pobreza e abandono. Nenhuma passa por cárcere privado, coação, tortura e morte. No Brasil, Monsieur Witek, apesar de tudo, ainda há lei.
Fritz
Utzeri
Fonte: Jornal do Brasil,
em 01/02/01
Consciência.Net