Para entender o ataque de Serra ao governo Dutra, por Marco Aurélio Weissheimer
22/10 • 16:46 • Agência Carta Maior

Em um texto de apresentação ao livro “Breviário dos Políticos”, do Cardeal Mazarin, Bolívar Lamounier escreve que a importância que o sucessor de Richelieu dava a pequenos expedientes de manipulação era um dos sintomas da debilidade institucional do Estado absolutista francês, em meados do século XVII. A retórica da dissimulação, do cinismo e da hipocrisia, cultivada com afinco por Mazarin, refletia o fim de uma era e expunha as entranhas de um sistema político em decomposição. Algo semelhante pode ser dito do virulento ataque desferido, no programa eleitoral do candidato José Serra (PSDB), contra o governo de Olívio Dutra (PT) no Rio Grande do Sul. O tucano ressuscitou uma retórica macartista que parecia ter sido varrida do cenário político nacional.

O seu súbito ressurgimento veio acompanhado do que pode haver de pior no debate político: calúnia, deformação de dados, mentira pura e simples. Na reta final da campanha eleitoral, o candidato José Serra apresentou ao povo brasileiro um espetáculo de cinismo e hipocrisia. O que não deixa de ser um pano de fundo adequado aquilo que José Luis Fiori chamou de “o triste fim da fronda tucana”.

É preciso entender, porém, por que o governo do PT no Rio Grande do Sul foi escolhido como alvo do ataque. A vitória do partido no Rio Grande do Sul tem um simbolismo muito forte. As sucessivas administrações petistas em Porto Alegre e a primeira experiência no governo estadual tornaram-se uma referência mundial, concretizada de modo exemplar no advento do Fórum Social Mundial.

Quando esteve em Porto Alegre, em janeiro deste ano, o lingüista Noam Chömsky disse que Porto Alegre tornou-se um símbolo mundial que deve ser cultivado com atenção: um símbolo da resistência e da luta para a construção de uma contra-hegemonia, de uma contra-retórica. Segundo Chömsky, o que está sendo feito em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul é “algo único no mundo”. Não é por outra razão que Serra e seus aliados escolheram o alvo do ataque. A virulência do ataque foi diretamente proporcional à força simbólica do alvo atingido.

A retórica arcaica de um modelo moribundo

A retórica primária e rasteira adotada no programa de Serra, que mais uma vez esconde-se covardemente atrás de rostos bonitos e bem-maquiados, expõe a fragilidade de um modelo político e econômico que, durante oito anos, transformou o país em um laboratório de idéias fracassadas. A grosseira manipulação de informações e depoimentos, mais do que uma tática de propaganda para tentar atingir a candidatura Lula, representam a falência de um discurso que se apresentou como porta-voz da democracia e da modernidade. Candidato de um consenso moribundo, Serra assumiu uma retórica autoritária e arcaica, carregada de ódio e morte.

A natureza e a virulência do ataque recomenda que ele não seja respondido com números, mas com as tripas de quem foi atingido. Mas algumas manipulações foram tão grosseiras que a realidade violentada exige um grau mínimo de reparação. Serra incorporou, em seu ataque, tudo aquilo que há de mais atrasado no debate político que acompanha o governo de Olívio Dutra. Desde o primeiro dia do seu governo, uma oposição raivosa, aliada a uma mídia ressentida, Olívio Dutra e o projeto que ele representa, foram alvo de ataques sistemáticos e calculados.

Tudo começou com a bandeira de Cuba. Um militante petista cometeu o hediondo crime de ostentar uma bandeira cubana na posse de Olívio. Algo inaceitável para políticos da estirpe do ministro Pratini de Morais, para quem o “o PT deve ser erradicado do Estado”. A expressão é forte e precisa. As lideranças do conservadorismo gaúcho nunca esconderam seu ódio pelo projeto plebeu do PT. Nunca deixaram de manifestar, sob as mais variadas formas, que gostariam que os petistas simplesmente não existissem. Foi justamente essa gente que, generosamente, abriu as portas de seu arsenal de preconceitos e forneceu a munição para o ataque tucano.

Os "crimes" do governo Olívio

As falsidades apresentadas no programa de Serra são tantas que respondê-las uma a uma dissolveria a essência da própria resposta. O governo de Olívio Dutra navegou contra a corrente, em um país dominado pela retórica neoliberal do Consenso de Washington.

Aos olhos dos defensores deste modelo, cometeu vários crimes: interrompeu o processo de privatizações iniciado no governo anterior do PMDB, questionou a adoção da guerra fiscal como instrumento de desenvolvimento, implantou um processo de participação popular da definição do orçamento e da gestão pública, criou uma Universidade Estadual, investiu, com verbas estaduais, em reforma agrária, na alfabetização de adultos, na construção de casas populares e, o pecado supremo, tornou-se uma referência internacional.

Tudo isso não quer dizer, obviamente, que tenha sido um governo perfeito, sem erros. Cometeu-os, muitos. Alguns por inexperiência, outros por um entusiasmo afobado juvenil próprios daqueles que querem mudar o mundo em poucos dias, e outros ainda resultantes de limitações impostas pelo modelo econômico dominante no país.

Como se viu na televisão, o programa de Serra não tratou disso. O que fez, sem qualquer tipo de mediação, foi acusar o governo Olívio Dutra de associação com o jogo do bicho, com a contravenção, com o autoritarismo e com os comunistas comedores de criancinhas (chave, aliás para entender o núcleo simbólico do ataque).

Não por acaso, o candidato tucano assumiu bandeiras históricas da extrema-direita, defendendo os valores da família, os bons costumes e a necessidade de um “choque de valores morais” na sociedade brasileira. Não por acaso, vem repetindo argumentos utilizados pelo jornal Washington Times, pertencente à seita do Reverendo Moon, que aponta um eventual governo Lula como a principal perna da articulação do “eixo do mal” na América Latina. Órfão de um consenso falido e amplamente derrotado nas urnas no primeiro turno, Serra, num gesto desesperado e raivoso, recorre ao universo simbólico de um dos subprodutos mais degradados do modelo que representa.

“O governo gaúcho nada fez”

O programa de Serra disse que o PT jogou o Rio Grande do Sul numa situação de caos social, atraso econômico e obscurantismo. O desprezo pela realidade, aqui, assumiu proporções constrangedoras. Sua metralhadora giratória atingiu inclusive as políticas do governo Olívio Dutra na área da saúde, que foram consideradas pelo próprio Serra (durante sua gestão no Ministério da Saúde) como “as melhores do país”. O Rio Grande do Sul possui o melhor sistema de saúde pública do Brasil, conforme pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde junto aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Cinco destes programas foram escolhidos, pelo próprio ministério da Saúde, como os melhores do Brasil: Municipalização Solidária, Saúde Solidária, Rede Gaúcha de Informação em Saúde, Segmento e Avaliação da Reforma Psiquiátrica do Hospital São Pedro e Projeto Morar São Pedro Cidadão. Serra ignorou os prêmios que seu próprio Ministério concedeu, dizendo que "apesar de o Ministério da Saúde ter destinado bastante dinheiro ao Rio Grande do Sul, o governo gaúcho nada fez."

O candidato tucano disse que o PT isolou o Rio Grande do Sul do progresso. Os números oficias sobre o desempenho da economia gaúcha mostram que o RS, durante o governo de Olívio Dutra, vem crescendo bem acima da média nacional. De 1999 a 2001, o PIB industrial gaúcho cresceu 6 vezes mais do que o nacional (11,7% contra 1,7%). No governo de Antônio Britto (na época do PMDB, hoje no PPS), o PIB industrial gaúcho teve uma queda de 4,7%. De 1999 a 2001, o PIB agropecuário gaúcho cresceu 41% a mais do que o do Brasil (23,8% contra 16,9%). No governo de Britto, o PIB agropecuário cresceu apenas 4,3% no RS.

Além disso, segundo dados do IBGE, nos últimos três anos a economia gaúcha cresceu 13 vezes mais que nos quatro anos do governo anterior (11% contra 0,8%). Nos últimos três anos, a economia do RS cresceu 62% mais que a do Brasil (11% contra 6,8%). Em 2001, o RS assumiu a segunda posição entre os estados exportadores. Por fim, o Rio Grande do Sul possui hoje o maior salário mínimo regional do país. Cerca de 550 mil trabalhadores recebem um mínimo que varia entre R$ 260,00 e R$ 283,00. Na área da educação, o atual governo gaúcho investiu mais de 35% da Receita Líquida de Impostos. O MOVA (Movimento de Alfabetização de Adultos) já alfabetizou mais de 140 mil jovens e adultos. Além disso, foi criada a Universidade Estadual do RS (Uergs), voltada para o desenvolvimento regional. Segundo cálculos da Secretaria do Tesouro Nacional, o RS é o Estado que mais investe em educação no país e possui a menor taxa de mortalidade infantil (caiu de 17,2 por mil para 15,6 por mil em 2001).

A paz como lema, a guerra como prática

O programa de José Serra ignorou, por um lado, e deturpou, por outro, todos esses dados e apresentou o Rio Grande do Sul como uma espécie de filial da Coréia da Norte ou da falecida Albânia. A retórica atingiu tal grau de deformação que pode funcionar como um tiro no pé de Serra e de seu candidato no Estado, o deputado Germano Rigotto (PMDB). Candidato este que, curiosamente, elegeu o coração como símbolo de campanha, a paz como lema e ausência de propostas como programa. Aliando desprezo pela realidade com manipulação de depoimentos, números e imagens, o candidato José Serra prestou um desserviço à democracia e jogou na lata de lixo parte do que havia de mais digno em seu passado político.

Marco Aurélio Weissheimer é correspondente em Porto Alegre da Agência Carta Maior

Fonte: Agência Carta Maior


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