Meu adorável vagabundo
Luis Fernando Veríssimo,
janeiro de 1990
A gente ri da menina
que, às vésperas do vestibular, não sabe se tenta
letras, educação física ou oceanografia, sem descartar
nutricionismo e um bom casamento, mas o fato é que todos nós
passamos pelo mesmo tipo de indefinição, Eu, por exemplo,
já quis ser aviador, tocador de pistom, arquiteto e, durante um
bom período de pós-adolescência, vagabundo profissional,
e só não consegui esta última vocação
porque a família, por alguma razão, se opôs. Uma das
coisas que eu nunca pensei ser foi jornalista.
Não posso
imaginar qual seria o resultado se algum dia eu tivesse feito um teste
vocacional.
Temos aqui os
resultados de seu teste e eles são interessantíssimos, sr.
Veríssimo.
Ah, é?
Finalmente a revelação.
Eu mesmo ia descobrir para que servia.
É a primeira
vez que chegamos a um resultado assim desde que começamos a fazer
testes. Deve ser a primeira vez em toda a história da psicologia,
em todo o mundo.
Não diga!
O senhor é
o primeiro caso conhecido de alguém que tem vocação
para aposentado!
Aposentado é
o vagabundo sem culpa e com renda. Embora, no Brasil, renda insuficiente.
O problema seria
que eu precisaria ser aposentado de alguma profissão. Não
há curso de aposentado. Como entrar em fila, como sentar em banco
de praça, como não fazer nada e incomodar em casa. Pós-graduação
em azucrinar empregada. Começando a vida como aposentado, eu, nem
que fosse só pela juventude, seria um aposentado ativista. Seria
imbatível em todos os jogos de aposentados que requeressem esforço
físico.
Se bem que, com
a minha vocação de aposentado realista, para que entrar em
qualquer coisa que requeresse esforço físico? Não.
Jogos de damas, longas sestas, muita leitura. Eu subiria lentamente na
carreira de aposentado, ficando cada vez mais indolente, até chegar
a hora de parar e pedir a aposentadoria, claro.
Não podendo
seguir meu pendor natural para não fazer nada, acabei fazendo tudo.
O sonho de ser aviador não sobreviveu à infância, mas
cheguei a providenciar o começo de uma possível carreira
como pistonista. Nos Estados Unidos, onde moramos uma certa época,
procurei um curso de música que emprestava instrumentos. Não
tinham pistom no momento. Peguei saxofone mesmo. Ainda toco, eventualmente,
se bem que haja discussões sobre se tocar é o verbo exato
e ainda imagino que um dia possa me dedicar ao show bizz em tempo
integral, se 72 anos não for muito tarde para começar. Geriatric
rock, por que não?
Arquitetura, tradicionalmente,
é a primeira escolha de quem sabe ter uma profissão séria,
mas não tão séria assim. É a engenharia de
quem não quer fazer engenharia, e o refúgio dos indecisos.
Há provavelmente mais ex-estudantes de arquitetura fazendo outra
coisa normalmente nas artes do que ex-estudantes de qualquer outro
curso. Querer arquitetura, portanto, era querer fazer alguma coisa criativa,
que até podia ser a arquitetura.
No meu caso não
foi. Nem comecei nada. Parei de estudar e só quando entrei, quase
por acaso, no jornalismo, muitos anos depois, numa época em que
o diploma ainda não era obrigatório, descobri uma vocação
ou pelo menos uma maneira de passar o tempo até a aposentadoria,
quando finalmente poderei exercer minha aptidão natural. Não
sou um exemplo muito edificante, eu sei. Só queria mostrar que a
indecisão não é incomum, e não é tão
grave. A vocação da pessoa pode, inclusive, ser a indecisão.
Luis Fernando Verissimo,
OESP,
11 de janeiro de 1990
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