Renato Kress..Poesia e prosa
Liberdade

Comera pouco, toda a noite sob um bate-estacas infinito entre vultos de carne translúcida e as rusgas d´água que lhe tatuavam a testa e os seios. Uma pílula e uma garrafa d´água. Mãos entrelaçadas sobre a cabeça e o quadril levava todo o corpo na cabeça que pendia de cabelos negros encharcados de sorriso em suor. Sete lábios sobre sua boca, quatorze mãos sobre sua pele, pescoço, cintura, costas, coxas. Era tão certa e de tão lívida foi-se cálida e azul, era toda azul sob aquela luz negra que envidraçava os olhos, sombras engarrafadas. Desceu de um pé que deslizou perdendo-se entre outras duas pernas que em tropeço levaram o pouco de sanidade que inda borboleteava frente aos seus olhos que se embaçaram (envergonhados). De uma noite havia levado o que pensava fosse a liberdade, de uma festa havia restituído toda solidez que lhe dera o mundo, perdeu-se em abrir-se em flor para um manequim oco, era nada. Dos toques líquidos que se perdem no vácuo onde haveria atrito, sente que de tanta liberdade, ela mesma não a quis.

Renato Kress 
23/12/2004
 
 

De avião.

Rio de Janeiro
E a cidade era um rio de lava, meio tensa meio seca, era minha carne que líquida se esgueirava a mil por hora em desejo e vida. Eu que pulso em sincronia, te delicio imagem e memória, é a minha carne que queima. Se a cidade arde é através da minha íris, esfumaçada do desejo em teu, em corpo, em torno.

São Paulo
E a cidade era um computador. Cortado, mil placas, modem´s, som, multimídia, um imenso corte epidérmico de um laptop. Todo luz e chips, chips, chips até onde os globos oculares tocassem. Chicotes de luzes. E a cidade era a Matrix. E era através de mim, dos meus olhos digitalizados.

Cuiabá
E a cidade era pequena. Dividida em células, muitas casas, poucos prédios, a cidade era um horizonte e se perdia. Ela era salgada de cores. E era madrugada. Não fazia muito tempo que o sol fora e já se esgueirava entre os dedos claros da aurora. Os ventos impediam as nuvens, o sol corria invulnerável. E a cidade era quente. E eu era carne, em suor seco e cheiro.

Renato Kress
31-08-2004

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Des-envolvido.

É crueldade dizer que nosso povo não é desenvolvido, que somos atrasados.
Nunca vi povo mais des-envolvido que o brasileiro.
A gente se des-envolve com a política.
A gente se des-envolve com a religião.
A gente se des-envolve com a mídia.
A gente se des-envolve uns com os outros.
A gente se des-envolve dos problemas sociais.
A gente se des-envolve dos problemas civis e jurídicos.
A gente des-envolve até nossas tecnologias:
Desenvolvemos a fibra ótica. E logo nos des-envolvemos dela também.
Falta ainda a Amazônia, a Petrobrás, Furnas e a biomassa. Mas eu não me preocupo. O Brasil é um país em francas vias de des-envolvimento.

Renato Kress
2004-09-17

Secos & Molhados
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