Na seqüência... Ivana Bentes
Apresentadora do Curta Brasil desde 1998, Ivana Bentes é também grande teórica do cinema brasileiro e defensora de produções que “excitem” não só os olhos, mas também o pensamento. Na entrevista que se segue, ela fala sobre sua carreira, o surgimento da “geração estação”, a legitimidade do curta-metragem, a atual fase de descobertas do cineasta brasileiro. "Acho que o cinema nacional vem tomando choques de realidade, que o faz acordar e buscar um frescor de temas e propostas", diz Ivana, que se doutorou em Comunicação Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com uma tese sobre Glauber Rocha. Entrevista concedida em outubro de 2002 a Andressa Camargo, do Portal Rede Brasil.

Você já assinou vários artigos de crítica cinematográfica e, hoje, é professora da Escola de Comunicação da UFRJ. Qual é sua formação? Conte um pouco sobre o percurso da sua carreira até o momento em que se firmou como apresentadora do Curta Brasil.
Sou do grupo inicial da "geração Estação" que, no final dos anos 80, fundou a rede de cinemas de arte Estação Botafogo. Esse foi um movimento importante, na medida em que fez renascer a cinefilia no Rio, gerou debates, cursos e encontros em torno de um cinema diferencial, que excitava os olhos e o pensamento. Éramos todos cinéfilos de profissão. Fiz minha formação assistindo aos filmes veiculados no Estação e na cinemateca do MAM e escrevendo críticas de cinema para a revista TABU, com a qual colaborei de 1986 a 1990. Nessa época estava acabando meu curso de jornalismo na Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ e fui convidada para escrever no Suplemento Idéias e Ensaios do Jornal do Brasil, onde fiquei como redatora, publicando ensaios sobre cinema e cultura, de 1991 a 1995. Fiz mestrado e doutorado na ECO. Na verdade, nunca mais sairia de lá, pois, quando terminei de estudar, comecei a dar aulas na graduação e na pós. Acabei deixando o JB por conta dessa opção. O cinema foi muito importante pra mim, pois abriu todo um campo de reflexão sobre a cultura contemporânea, as imagens e o pensamento. Levar essas questões para um programa de TV foi um desafio, e acho que encontramos o tom certo: ao mesmo tempo informal e denso, com conteúdo. Faço o Curta-Brasil com prazer e utilizo freqüentemente exemplos do programa em sala de aula e em conferências por todo o Brasil.

Como você recebeu o convite para apresentar o programa? Quais eram suas expectativas?
Recebi o convite para apresentar o Curta-Brasil em 1998. A idéia era partir dos filmes para debater não só sobre cinema, mas também sobre a produção das imagens e temas relevantes da cultura brasileira. Queríamos consolidar um espaço para discussão e dar visibilidade a um formato extremamente vital e criativo no cinema, que é o curta. Cada edição do programa apresenta dois curtas (em filme ou vídeo) que trazem questões próximas, mas abordagens diferentes. É sempre interessante relacionar propostas distintas sobre questões comuns.

Em um de seus trabalhos mais recentes, você organizou e apresentou ao público a correspondência de Glauber Rocha, que foi lançada no mercado pela Companhia das Letras. Qual foi a metodologia de pesquisa?
Fiz pesquisas durante 4 anos no Acervo Tempo Glauber, aqui no Rio, para selecionar, entre mais de 500 cartas, as que estão no livro. Procurava as cartas mais conceituais, nas quais Glauber analisava sua própria obra, falava de cinema, de projetos, de propostas, da constituição do Cinema Novo. Descobri que Glauber não tinha isso que chamamos de "vida privada", ele misturava tudo num só fluxo, vida-obra, o que transformou o livro numa combinação de biografia e teoria, biografia e pensamento sobre cinema. O livro se chama Cartas ao Mundo, pois, nas suas quase 900 páginas, fica clara essa vocação de entrega total ao mundo e ao Brasil. O livro traz um ensaio que resume as questões da minha tese de doutorado, na qual abordei esse mesmo tema.

Em que sentido o Cinema Novo influenciou a geração de cineastas que, nesse início de século, desponta no Brasil?
De forma radical e positiva, o Cinema Novo mostrou que era possível fazer um cinema original no Brasil e que havia uma contribuição brasileira para a estética do cinema internacional. Vejo a influência do Cinema Novo em temas que sempre retornam, como o sertão, a favela, o desejo de mapear o Brasil cinematograficamente, como nos novos documentários. Até pra fazer algo diferente é preciso conhecer o que foi realizado nesse período extraordinário.

Como você vê a fase atual do cinema brasileiro?
Estamos rompendo os dogmas do cinema de mercado, aquele discurso de que o cinema brasileiro tem que estar preocupado apenas com o retorno de bilheteria, as facilidades da linguagem, o público. Hoje sabemos que há espaço para todo tipo de cinema: cultural, experimental, documental, etc. Vejo, apesar da grande inquietação, um resultado pouco ousado na tela, um certo receio em se experimentar mais. Mas acho que o cinema nacional vem tomando choques de realidade, que o faz acordar e buscar um frescor de temas e propostas.

O curta-metragem é, hoje em dia, um tanto marginalizado pelas grandes produtoras. Entretanto, como disse o próprio Plínio Bariviera (diretor do programa) em entrevista concedida a nossa equipe, é fato que o cinema surgiu e se solidificou perante o público com filmes que duravam poucos minutos. Qual é a importância do curta-metragem e porque seu espaço é tão limitado no circuito?
O curta, paradoxalmente, é super-prestigiado hoje, com grandes festivais e mostras dedicados a ele em São Paulo, no Rio, no Brasil todo. Ao mesmo tempo, não é valorizado comercialmente. O Curta-Brasil é um programa pioneiro na exibição desse formato de filmes na TV aberta, e só agora vemos o curta chegar nas TVs à cabo. Os exibidores ainda acham que o curta-metragem é um "complemento" dispensável do longa. Não cumprem a lei que obriga toda sala de cinema a passar um curta antes de qualquer longa. Então, o valor que se dá ao curta cresceu muito nos últimos anos, com festivais, concursos, etc., mas ele ainda não tem a visibilidade que merece nas TV aberta e nos canais à cabo. Muitas vezes, é usado como "tapa-buraco" da programação.

Seguindo essa mesma linha de pensamento, qual é o papel de um programa com o perfil do Curta?
Formar um público para o cinema brasileiro, dar visibilidade ao curta, dar visibilidade a nova geração de diretores, atores, roteiristas, fotógrafos, e outros, saídos das Universidades, dos cursos de cinema e comunicação. Legitimar do curta-metragem como produto cultural relevante e partir dele para discutir temas de interesse mais amplo. Trata-se de um programa estratégico dentro de qualquer política de valorização desse formato de filmes e do cinema brasileiro.


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