Rio, 15 de fevereiro de 2003
Guggenheim Rio em fase de preparação
Gustavo Barreto para o Consciência.Net

A construção do Guggenheim Rio, polêmico museu norte-americano que será instalado na cidade carioca, já está em fase de preparação. Muitas coisas continuam mal explicadas e os representantes da sociedade mais ligados à cultura e à arquitetura da cidade continuam, em sua maioria, contra o projeto e apontando diversos problemas. César Maia ignora. Como ele mesmo disse no dia 14 de janeiro último, "posso prometer que, para trazer o Guggenheim para o Rio, seremos ousados além do que recomenda a prudência".

Só para se ter uma idéia de como o prefeito César Maia trabalha, no dia 25 de novembro de 2003, quatro dias antes do debate que foi realizado na Câmara dos Vereadores com a população do Rio de Janeiro promovido pela CPI aberta especialmente para o projeto o jornal Estado de São Paulo publicou:
 

O prefeito do Rio César Maia anunciou o dia 26 de janeiro para a assinatura do contrato de instalação de uma unidade do Museu Guggenheim na capital fluminense. "A parte conceitual já foi definida, e o projeto arquitetônico de Jean Novel já está praticamente pronto, embora aberto a discussões", disse Maia. "Agora, vamos para a etapa mais difícil: a negociação de custos e de onde sairá a verba para a construção, pois já está definido que a locação de recursos terá de vir da prefeitura, não poderá ser terceirizada". Hoje são esperados no Rio os diretores do Guggenheim de NY, Thomas Krens, e de Bilbao, Juan Ignacio Vidarte, para discutirem detalhes sobre custos com a prefeitura. "Se tudo der certo, dentro de três anos e meio ou quatro, o Guggenheim estará funcionando plenamente e servindo de âncora para a revitalizaçao da zona portuária do Rio de Janeiro", concluiu o prefeito.


O projeto, apesar de todas as questões colocadas no referidodebate, estava definido. E ponto final.

À frente das reclamações, o presidente do Conselho Deliberativo do Museu de Arte Moderna do Rio, o colecionador Gilberto Chateaubriand, e da diretora, Maria Regina Nascimento Brito, que na semana passada comparou o estado de penúria em que se encontra a instituição (que não tem como conseguir R$ 3,7 milhões para seus projetos e R$ 2,8 milhões para obras emergenciais), enquanto um museu estrangeiro chega com um orçamento muito maior, pago pelo poder público.

Custos
O custo inicial do município para a construção, em novembro do ano passado, era de R$ 313,8 milhões. O contrato atual, que deverá ser assinado dia 20 de fevereiro, fala em R$ 360 milhões, podendo chegar a R$ 380 milhões. No início o prefeito falava em US$ 100 milhões. Pouco tempo depois, já falava em US$ 200 milhões. Apenas pela grife Guggenheim a cidade do Rio vai desembolsar US$ 20 milhões.

Jean Nouvel, arquiteto francês responsável pelo Guggenheim Rio, vai receber R$ 43 milhões pela execução de seu projeto e gerenciamento da obra, mas terá de deixar R$ 14 milhões com o escritório de arquitetura Engineering, de Francisco Salles, que trabalhará associado a ele porque a lei brasileira não permite que profissionais estrangeiros assinem projetos aqui [Estadão, 11.02.03]. Ou seja: o francês vai ganhar mais que o dobro do que ganhará o escritório de arquitetura brasileiro.

Projeções da Prefeitura mostram que o aumento nos gastos dos turistas e nos valores das propriedades na Zona Portuária gerará R$ 21 milhões em impostos anuais para o município. João Satamini, que levou sua coleção para o Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói, lembra que é preciso não só construir o Guggenheim brasileiro, mas encontrar formas de sustentá-lo. "Mostras de arte custam muito caro porque envolvem seguros, transportes das obras e outras despesas, todas altas", disse ele num debate, no início do ano, sobre o Guggenheim carioca. "E conseguir um público de um milhão por ano é um sonho de uma noite de verão. Esse é o público do MAC em cinco anos". Este foi, em 2001, o público do Centro Cultural Banco do Brasil, que não cobra ingresso e tem fácil acesso de carro, ônibus ou metrô, ao contrário do que ocorre com o Píer Mauá.

Democracia?
Este estado de penúria já foi largamente demonstrado em matéria realizada pelo Consciência.Net sobre o debate do dia 29 de novembro. Mas em uma administração do PFL, não há espaços para questionamentos. Esta minha opinião, que pode parecer um pouco 'radical', é na verdade um argumento de um vereador do próprio partido, que em novembro de 2002 defendia a não realização do debate. Segundo ele - que infelizmente me escapa o nome, mas prometo rever meus arquivos com carinho - o povo escolheu os rumos do projeto Guggenheim Rio quando votou no César Maia em 2000.

Isso é que é democracia! Esquece-se o vereador que: (1) César não ganhou com 100% dos votos; (2) Ninguém sabia que o Rio de Janeiro abrigaria a filial do museu norte-americano no formato atual. Aliás, muita gente ainda não sabe; (3) Sabemos muito bem que uma verdadeiro democracia não consiste em ir votar e ficar quatro anos (na esfera municipal) assistindo a tudo passivamente.

O pedido é simples: um maior esclarecimento da população sobre as questões - ideológica, econômica, social, etc. - que envolvem a implementação do projeto e uma simples consulta popular, que poderia ser feita nos principais pontos da cidade, como fez o RJTV com a pesquisa em relação aos melhores serviços da cidade. Ou, mesmo, na Câmara dos Vereadores. Ou será que R$ 500 milhões e o futuro da cultura da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro não valem tal esforço?

LEIA TAMBÉM
Debate discute projeto Guggenheim Rio [30 de novembro de 2003]

Confira na íntegra o relatório do vereador Mário Del Rei comentando o relatório da prefeitura.
Leia o Manifesto Guggenheim
Saiba mais sobre a CPI Guggenheim
http://www.camara.rj.gov.br/vereador/comissoes/cpi_guggenheim.html


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