Menos de dois anos depois das primeiras tratativas, parece próximo o dia em que a prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Guggenheim, de Nova York, vão bater o martelo para a instalação de uma filial do museu na cidade. Como tudo o que envolve esse assunto, até a data em que o contrato será assinado é obscura. “Próximo ao dia 17”, informou Cesar Maia (PFL) a O Globo. “Em torno do dia 20”, disse a O Estado de S. Paulo. “Provavelmente até o final de fevereiro”, escreveu em e-mail enviado na quinta 13 à CartaCapital.
A oposição ao acordo com o Guggenheim vem crescendo no Rio. Os críticos chamam a atenção para a pressa com que o processo está sendo conduzido pelo prefeito carioca. Pelo volume de dinheiro público envolvido, pelas muitas implicações do projeto na vida da cidade e pelas inúmeras questões polêmicas que levanta, a decisão de construir o museu neste momento assombra urbanistas, arquitetos, museólogos, historiadores e artistas, além de políticos que fazem oposição a Cesar Maia. Por outro lado, o projeto angaria simpatia dos que entendem que o museu será a âncora de um projeto maior, de revitalização da zona portuária do Rio, hoje decadente. O mais importante apoio é das Organizações Globo. Em editorial publicado no sábado 1º, O Globo classificou o museu como “ajuda bem-vinda” dentro de um processo de “reconquista de uma área vital que nunca deveria ter sido abandonada”.
“As pessoas estão comprando um peixe podre: a idéia de que vai ser bom para o Rio”, diz o vereador Mario Del Rei (PSB), maior protagonista de uma CPI na Câmara para investigar o assunto, ainda em curso, e também de uma ação popular contra Cesar Maia, entre outras iniciativas na área jurídica. “Nem a sociedade nem a Justiça deram até agora a atenção devida a esse problema. É um escândalo muito maior que o roubo do Silveirinha e dos outros fiscais. Equivale a dez Silveirinhas”, calcula Del Rei, que pertence ao partido da governadora Rosinha Matheus e do ex-governador Garotinho, chefes do fiscal acusado de enviar dólares para uma conta na Suíça.
Ao se referir a “dez Silveirinhas”, Del Rei acredita estar se aproximando do valor real da operação, ou seja, US$ 325 milhões (cerca de R$ 1,1 bilhão ao câmbio de hoje). Isso é o dobro do que o governo municipal admite oficialmente como custo. “Mal chegará à metade”, rebate Cesar Maia. “Quanto à agressão, ele deve voltá-la para o partido dele (PSB), que nomeou o elemento citado”.
O valor do projeto também assusta a museóloga Maria de Lourdes Parreira Horta, diretora do Museu Imperial, e a historiadora Maria Inez Turazzi, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A dupla debruçou-se sobre o Estudo de Viabilidade do museu, curiosamente realizado por uma das partes interessadas, a Fundação Guggenheim, e produziu um documento que está dando subsídios ao debate atual. Para ficar apenas em um exemplo, estima-se o custo do mobiliário do museu, projetado pelo arquiteto francês Jean Nouvel, em mais de R$ 32 milhões e prevê-se que a maior parte dele terá de ser importado.
Outros números tirados
do Estudo de Viabilidade chamam a atenção. O museu espera
obter como receita cerca de R$ 30 milhões por ano através
de projetos financiados por meio da Lei Rouanet, ou seja, recursos públicos
federais. O estudo ignora a possibilidade, já aventada pelo ministro
da Cultura, Gilberto Gil, de que a lei pode vir a ser alterada. Também
é muito otimista a previsão de recursos obtidos com a visitação
de esperadas 910 mil pessoas por ano (o Corcovado atrai 750 mil visitantes/ano).
Ainda assim, mesmo realizando
todas as receitas previstas, o Guggenheim calcula que terá,
nos primeiros dez anos, um prejuízo operacional da ordem de R$ 35
milhões anuais – valor a ser bancado pela prefeitura do Rio.
Num manifesto enviado ao presidente Lula, assinado pelo vereador Mario Del Rei, pelo colecionador Gilberto Chateaubriand e pelo produtor cultural Romaric Buel, além de uma dezena de políticos do Rio, é lembrada a grave situação que a Fundação Guggenheim, presidida por Thomas Krens, enfrenta hoje em várias de suas operações. A fundação fechou a filial de Las Vegas, demitiu quase a metade dos funcionários da sede em Nova York, cancelou o projeto de uma nova filial no sul de Manhattan e está sendo obrigada a rever inúmeros planos, adequando-os a um orçamento bem menos megalomaníaco do que o dos últimos anos. Gilberto Gil referiu-se ao projeto do Guggenheim-Rio recentemente como “obra gigantesca, grande em sua monumentalidade, mas culturalmente supérflua, vazia de significação”.
Cesar Maia, segundo O Globo, reagiu assim: “O ministro fica com a opinião dele, e o Rio com a vontade do eleitor que votou em quem no programa de governo e no debate na TV Globo disse que ia construir o Guggenheim”. A promessa é verdadeira, diz o vereador Del Rei. “Mas Cesar Maia não falou na campanha qual seria a forma e as condições da contratação do museu, que obrigam a prefeitura a fazer pagamentos milionários.”
Por que um Guggenheim e não um Louvre, ou um centro espacial?, pergunta Del Rei. É um raciocínio semelhante ao da historiadora Maria Inez Turazzi, para quem não faz sentido condicionar a revitalização da zona portuária à construção do museu. “É uma balela, uma mentira.” O que leva a um outro ponto delicado: a ausência de licitação ao longo do processo.
Cesar Maia disse a CartaCapital, em maio de 2001, que foi a Fundação Guggenheim quem ofereceu a possibilidade de abrir uma franquia no Rio e que as condições oferecidas para isso seriam muito favoráveis à cidade. Mas, se uma licitação fosse aberta, outros museus não poderiam ter oferecido condições ainda melhores? O prefeito acha a idéia risível. “Licitar um museu e sua licença é como licitar quem vai cantar num evento... Isso não dá nem para achar graça”, disparou no e-mail enviado à revista na noite de quinta-feira 13.
Depois de abraçar a idéia de abrigar um Guggenheim, a prefeitura informou que estava envolvida numa disputa com outras três cidades brasileiras pelo privilégio de erguer o museu. Posteriormente, depois de vencer tal disputa, argumentou que não haveria tempo para uma licitação. “Mas quem está com pressa?”, pergunta Maria Inez Turazzi. No documento que a historiadora produziu com a diretora do Museu Imperial, argumenta-se que o museu não trará vantagens para os moradores de baixa renda da região, mas beneficiará a especulação imobiliária. “Não é arriscado supor que já há algum tempo os imóveis e grandes espaços dos armazéns do porto venham sendo adquiridos como investimento pelos que detêm o poder para tanto.”
Na carta enviada a Lula, toca-se num outro ponto importante. O pier da praça Mauá, onde planeja-se erguer o museu, pertence à União. Em 30 de dezembro de 2002, Fernando Henrique assinou um decreto delimitando a área dos portos do Estado do Rio. No decreto, não é citada a área da praça Mauá. O prefeito Cesar Maia diz que “houve uma exclusão de áreas da zona portuária, o que permitiu a desapropriação. O próprio concessionário se adiantou e já disponibilizou o pier para a prefeitura”. Este não é o entendimento dos opositor! es do projeto. “Fernando Henrique não transferiu a propriedade para o município”, afirma o vereador Del Rei. Sem essa transferência, o projeto do museu é inviável.
Fonte: CartaCapital
Consciência.Net