Fórum Popular de Apoio Mútuo repudia machismo nas organizações de esquerda

Leia abaixo, na íntegra, a nota.

“Na prática cotidiana de nossas lutas vemos manifestações de machismo por parte de companheiros, não raro as discussões acerca do assunto se dão apenas em bastidores, o que culmina no afastamento de mulheres da militância e novas situações de machismo continuam ocorrendo. Entendemos que na condição de [email protected] temos que avançar na reflexão das opressões e entre nós superar esta reprodução.

Nós, mulheres que compomos o Fórum Popular de Apoio Mútuo, repudiamos organizações que se contradizem ao deixarem que persista em sua estrutura um modus operandi patriarcal, onde se reproduz opressão contra mulher, chegando ao ponto de permitir que haja uma divisão sexual do trabalho, onde à mulher cabe papéis secundários e o homem é considerado o ser político com valor e importância para a organização.

Repudiamos a omissão completa diante de casos de machismo dentro das organizações e a diferenciação e priorização de pautas encarando a questão da mulher como um apêndice, de responsabilidade apenas das mulheres em tocá-las. Isso inviabiliza o entendimento de que a luta contra opressão não pode ser dissociada das demais lutas. Empoderar grupos oprimidos a lutarem é diferente de deixá-los sozinhos tocando o barco. O oprimido que se organiza e não o todo da organização?

Repudiamos a participação de agressores que, após assumirem e se responsabilizarem publicamente e mediante a não mudança, não compartilhe de espaços de militância em que a vítima atue, precavendo danos que isso pode vir a causar e por contradizer a sociedade que
buscamos construir.

Acreditamos que espaços políticos devam ser espaços livres de preconceitos e abertos ao protagonismo das mulheres. Estamos cansadas de uma esquerda que reproduz o discurso opressor da sociedade capitalista, machista e patriarcal. Não vamos tolerar homens que passam por feministas e antirracistas com deboche, sem terem verdadeiramente a mínima preocupação com essas demandas.

Esse levantamento de tema se deu em solidariedade à companheira do Favela Não Se Cala, que tornou público situação de violência doméstica que vem sofrendo por parte do ex-companheiro, André Constantine, já conhecido na militância pela maneira opressora como trata as mulheres, no campo privado e político. E que, mesmo depois de uma autocrítica segue intimidando-a — conforme registro de ocorrência nº 912-00752/2014 — como mecanismo para se impor como protagonista dos espaços políticos que compartilham.

Repudiamos o comportamento do André Constantine, que não condiz com o de um militante humanista e sim um reacionário que acha ruim que estejam transformando seus privilégios em direitos universais. Não vamos tolerar seus assédios, agressões e hipocrisias. Não vamos minimizar ou silenciar a luta das mulheres.

Exigimos que André seja responsabilizado e que respeite os espaços onde a companheira que sofreu a opressão atua, para que esta não sofra uma segunda opressão, que é a de ter de se afastar da militância para que seu agressor continue protagonizando as lutas.

Ele, lutador e oprimido de diversas formas de uma sociedade racista e de classes, não consegue combater em si próprio um machismo que mata e, enquanto não tomar para si essa consciência de que reproduz a mesma sociedade que condena, a luta, em seus diversos aspectos, segue no mesmo lugar.

Evidentemente que não temos a pretensão de tornar esta carta o momento único e final de discussão sobre a complexidade de aspectos da superação do machismo. Esperamos com ela apenas refletir sobre a necessidade de responsabilização das organizações nestas questões.

Não paramos por aqui. Lugar de mulher é na política!

Recorremos à Lei Maria da Penha, enquanto dispositivo legal brasileiro que visa a aumentar o rigor das punições das agressões contra as mulheres quando ocorridas no âmbito doméstico ou familiar, para lembrar:

TÍTULO I
Art. 1o Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher (…)

TÍTULO II
DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER

CAPÍTULO I

Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial:

III – em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.

CAPÍTULO II
DAS FORMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER
Art. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:

I – a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;

II – a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

V – a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.”

Da redação. Comente abaixo ou pelo Facebook.com/RevistaConscienciaNet. Contato: [email protected]


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