A tal Marcha da Família e outros assuntos

Por Gustavo Barreto (*)

A tal “Marcha da Família com Deus” tá dando o que falar.

Em São Paulo, o registro: “(…) Nas proximidades da rua Xavier de Toledo, eles cruzaram com jovens vestidos de preto, que se encaminhavam para o show da banda Metallica. Confundidos com black blocs, foram agredidos.”

Caetano, diz aê:

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Aliás. Acho essas marchas pró-ditadura ótimas. São minúsculas, não é novidade — o que um neoliberal adora é ignorar a História –, mas sempre nos relembra os crimes genocidas do passado.

Essa é uma das funções mais bonitas da História: nos precaver de repetir a estupidez. Viva a memória! Parabéns conservadores, nos lembrando dos horrores cometidos pelos genocidas militares com apoio de parte da imprensa e de parte da sociedade civil.

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Falando nisso. Argentina: 370 torturadores da ditadura condenados; país julga, inclusive, juízes.

Brasil: anistia ilegal sob o direito internacional. Nenhum condenado. Comemorações e pedidos, por militares impunes, da volta da ditadura.

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Registro histórico. Na foto, a Passeata dos Cem Mil, em 26 de junho de 1968, na cidade do Rio de Janeiro, contra a ditadura civil-militar. Trilha sonora: Geraldo Vandré.

Foto de Evandro Teixeira, que à época trabalhava para o Jornal do Brasil.

Sobre as fotos de Evandro à época, escreveu Carlos Drummond de Andrade [http://bit.ly/1plR6Xs]:

“Diante das Fotos de Evandro Teixeira

A pessoa, o lugar, o objeto estão espostos e escondidos ao mesmo tempo so a luz, e dois olhos não são bastantes para captar o que se oculta no rápido florir de um gesto. É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana e do real de cada coisa um mais seco real extraia para que penetremos fundo no puro enigma das figuras.

Fotografia – é o codinome da mais aguda percepção que a nós mesmos nos vai mostrando e da evanescência de tudo, edifica uma penanência, cristal do tempo no papel.

Das luas de rua no Rio em 68, que nos resta mais positivo, mais queimante do que as fotos acusadoras, tão vivas hoje como então, a lembrar como a exorcizar?

Marcas de enchente e do despejo, o cadáver inseputável, o colchão atirado ao vento, a lodosa, podre favela, o mendigo de Nova York, a moça em flor no Jóquei Clube, Garrincha e Nureyev, dança de dois destinos, mães-de-santo na praia-templo de Ipanema, a dama estranha de Ouro Preto, a dor da América Latina, mitos não são, pois são fotos.

Fotografia: arma de amor, de justiça e conhecimento, pelas sete partes do mundo a viajar, a surpreender a tormentosa vida do homem e a esperança a brotar das cinzas.”

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Por falar no Geraldo Vandré. Só vi essa entrevista hoje. Fiquei confuso.

Mas aqui, em 1982, ele não deixa dúvidas:

Hoje, não se sabe, talvez esteja ele próprio confuso.

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No Correio da Manhã, 14/12/1955:

Correio da Manhã, 14/12/1955.

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Bandido bom é bandido que sabe psicografar:

Do site do 'Estadão'

Do site do ‘Estadão’

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Uma boa notícia. “Ex-comandante da PM é condenado a 36 anos de prisão por morte de juíza. O tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira, que comandava o 7º BPM (São Gonçalo) na época do crime, cumprirá a pena em regime fechado.”

Seria ótimo que a punição a crimes contra pessoas comuns seguisse a mesma lógica que a punição a crimes contra juízes.

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Caso Claudia da Silva Ferreira. “(…) “Mesmo correndo riscos, moradora deu um depoimento bombástico e incriminador. Ela disse que não houve confronto, não houve troca de tiros. Foi um assassinato. O PM estava de frente para Cláudia e fez o disparo de curta distância, atravessou o peito da vítima e bateu num muro . Não há dúvidas de que foi a PM”, revelou o advogado João Tancredo, do Instituto de Defensores de Direitos Humanos.” (original)

E não foi só a Claudia, nesse dia.

No Economist: “(…) Every year Brazil’s police are responsible for at least 2,000 deaths. The victims are generally recorded as having been “killed while resisting arrest” (the exact phrase used varies from state to state). But a recent case of a 38-year-old mother of four, who was struck by gunfire during a shoot-out between police and suspected criminals, has horrified even this violence-hardened nation.”

Uma análise minha aqui.

A resposta com humor:

O clipe original, para quem não conhece, aqui.

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E continuam as violações no Rio. “(…) Denúncias de maus tratos de oficiais contra alunos no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cfap) continuam chegando à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj.

Isso acontece mesmo depois da morte do recruta Paulo Aparecido após um treinamento, que mais pareceu uma sessão de tortura. É uma memória seletiva que apaga uma tragédia quando acontece outra.” (mais aqui)

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E na área de saúde… a manchete: “Jovem morre na porta da UPA após ter socorro recusado. Momentos de agonia foram filmados”.

Motivo imediato: falta de médicos. Motivo já há muito anunciado: privatização do sistema de saúde, o que tem feito com que as prestadores “cortem custos” para manter seus lucros.

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Mas vai ter Copa. “(…) você tem dito que o que penso não lhe importa. Não vejo como ser diferente, porque o que penso, como ajo e o que falo sempre tem o objetivo de mostrar para todos, da minha forma, a nossa realidade. Agora, se você acha normal gastar mais de R$ 1 bilhão na reforma de um estádio como o Maracanã, enquanto se enxerga ao redor deste mesmo estádio, hospitais sucateados, escolas precárias e transporte público de má qualidade, segurança temerosa e acessibilidade zero, realmente, você não deve se importar nem um pouco com o que eu digo. Objetivos diferentes.”

Deputado federal Romário, craque dentro de fora do campo, em nota. Ele convocou Ronaldo convocou a prestar esclarecimentos na Câmara dos Deputados.

Falcão, o craque, ídolo, quatro vezes melhor jogador do mundo no futsal, fez coro.

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Homenagem. 21 de março foi o Dia Internacional das Florestas e da Árvore.

Dois brasileiros que são heróis da floresta, segundo a ONU: José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo. Por dedicarem suas vidas à floresta e aos povos, foram brutalmente assassinados:

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Em Berlim. Escultura “Políticos discutindo o aquecimento global”:

(*) Gustavo Barreto (@gustavobarreto_) é jornalista. Acesse também pelo GBlog (www.consciencia.net/gblog) ou pelo Facebook (www.facebook.com/gustavobarretorj)


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