Da Tribuna da Imprensa: ‘Jornalista que não é de oposição é melhor que abra um supermercado’

Caricatura: tribunadaimprensaonline.blogspot.com.br

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A “Tribuna da Imprensa” continua viva – e cada texto de Helio Fernandes continua sendo uma aula de História e um lembrete de que o jornalismo pode ser feito com mais coragem. Por Gustavo Barreto (*)

Aos colegas mais “antigos” (digo, experientes), uma nota interessante sobre a Tribuna da Imprensa que eu particularmente desconhecia, nossa conhecida e amada (com todos os poréns que deixa pra lá, quem sabe sabe).

Entrei esses dias no endereço tribunadaimprensa.com.br – o impresso foi encerrado no primeiro dia de dezembro de 2008.

Há atualizações diárias. E colunistas “da antiga”, como os grandes Carlos Chagas e Sebastião Nery (sem, no entanto, o Argemiro Ferreira e outros). Mas e o Hélio Fernandes? Cadê?

Continua muito vivo, brigando, incluindo uma mal explicada pelo Carlos Newton: http://tribunadaimprensa.com.br/?p=77267

Resumindo, Newton ficou com o domínio depois do fim do impresso, e recentemente (no final de 2013) Helio brigou com ele – e aparentemente Newton manteve-se como “dono do domínio”, creio que de forma pouco amigável (não conheço as circunstâncias e nem achei ao pesquisar).

É incompreensível porque o Hélio não ficaria com o registro.

Por que a divisão? Qual o sentido de uma Tribuna da Imprensa sem Helio Fernandes, ainda vivo e atuante? São perguntas que cabem a Carlos Newton, “dono” do domínio.

Helio – irmão de Millôr Fernandes, e que família! – escreve agora apenas no http://tribunadaimprensaonline.blogspot.com.br – e curiosamente Carlos Chagas e Sebastião Nery, dois “da antiga”, são publicados nos dois lugares.

Para quem não conhece, fica mais difícil entender a importância de uma figura como Helio Fernandes. Até porque ele não vai sair na TV, por motivos declaradamente políticos. Mas, apenas para resumir, conforme descreve Nilson Mariano, “Helio Fernandes pode ser considerado o último rebelde de uma estirpe de jornalistas que se caracteriza pela contundência do texto – às vezes panfletário e sem medir as consequências, mas inegavelmente corajoso”.

A Tribuna da Imprensa foi inegavelmente um dos principais meios de comunicação de oposição à grotesca ditadura civil-militar. O jornal foi perseguido de todas as formas, incluindo no final, por meio de uma bomba em março de 1981 que destruiu sua sede na rua do Lavradio.

O próprio Helio foi visitante assíduo nos porões de tortura, comenta Mariano, e sofreu também com a fuga dos anunciantes a partir de ameaças impostas por autoridades.

Na ultima edição de Tribuna, Helio acusa o Supremo Tribunal Federal (STF), e mais especificamente o ministro Joaquim Barbosa, de adiar o julgamento de uma ação de indenização que rola por tribunais há 35 anos. A mesma indenização já foi concedida a nomes como Carlos Heitor Cony, Ziraldo e Jaguar. “Alguns dos contemplados com a bolsa-ditadura nem incomodavam tanto assim os generais”, alfineta Nilson Mariano.

Foto: reprodução

Foto: reprodução

A Tribuna, lembra Mariano, foi criada em 1949 pelo político e jornalista Carlos Lacerda. Apelidado de “O Corvo” pela virulência dos seus artigos, “cada palavra era como uma bicada em vísceras abertas, Lacerda foi implacável contra o governo Getúlio Vargas (1951-1954). O nome ganhou forma a partir de uma charge do cartunista Lan, publicada no jornal Última Hora”.

Helio dirigiu o jornal a partir de 1962, após uma rápida passagem pelas mãos de Manuel Francisco do Nascimento Brito, então dono do Jornal do Brasil. Por dez anos – de 1968 a 1978 – ficou sob censura prévia, com Helio colecionando passagens pelos porões da ditadura.

Um dia, chamaram Helio na Polícia e reclamaram: “Os censores estão se queixando de que a Tribuna tem um restaurante, mas que o senhor não deixa eles nem tomarem um cafezinho”. Ele retrucou: “Olha, só dou uma cadeira para eles sentarem, para não atrasar o jornal. Mas não vou alimentar quem está querendo matar o jornal”.

Para além da bravura com que enfrentou o regime militar, Mariano lembra um notável episódio.

Enquanto corria ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, Helio Fernandes teria sido lambuzado por um balde de tinta marrom (a cor do sensacionalismo), que teria sido jogado pelo colega Zuenir Ventura.

Ele confirma, mas parcialmente: “É verdade. Mas não vi se foi ele. Provavelmente não, ele é muito covarde para isso. Ele mandou alguém”. Fizeram, então, as pazes? “Nunca! Nem falo com ele.”

Foi na redação de diários como a Tribuna – ao lado d’O Pasquim, Movimento, Opinião – que a imprensa enfrentou o brutal regime genocida dos militares de 1964 a 1985.

À época do encerramento “temporário” do impresso, Helio admitiu que a Tribuna poderia nunca mais voltar. “Não vivemos sob uma verdadeira democracia”, atacou.

Em uma entrevista à imprensa no começo de dezembro sobre o interrupção da circulação da Tribuna, citou seu irmão Millôr para afirmar: “Jornalista que não é de oposição é melhor que abra um supermercado”.

Sobre a Internet, um repórter pergunta como é para Helio, “que começou com a velha máquina de datilografia”, migrar para o jornalismo na internet?

“É a mesma coisa. Inclusive, há computadores que funcionam como a máquina de escrever”, diz.

Confusões à parte, o “blogspot” da Tribuna é de leitura obrigatória para mim, que me interesso pela posição de um dos maiores jornalistas, senão o maior, vivos da contemporaneidade: http://tribunadaimprensaonline.blogspot.com.br

Quando à outra “Tribuna”, eu sei lá. Tenho minhas dúvidas.

De qualquer maneira, ler Helio Fernandes é lembrar não só de toda a sua História contra a ditadura e os esquemas sujos do poder como igualmente lembrar que o jornalismo pode ser diferente do que, infelizmente, é hoje.

Quem souber de mais informações sobre o tema, fique à vontade para compartilhar aqui.

Em 16 de outubro de 1969, o jornalista Helio Fernandes foi recebido por 4 dos 5 filhos na pista do Aeroporto Santos Dumont depois de ter ficado quatro meses detido e incomunicável em diversas prisões do Brasil, por ordens do governo militar depois do AI 5. Da esquerda para a direita vemos os filhos Isabella, 10 anos, Ana Carolina, 6 anos, Rodolfo, 7 anos, e o Bruno, que aparece encoberto.  A foto foi feita pelo lendário Alberto Jacob que sempre reclamou que o Jornal do Brasil o mandou fazer as fotos desse acontecimento, mas não teve coragem de publicá-las.  "Todo o horror do seqüestro, do desterro e do esquartejamento físico e intelectual da prisão de Fernando de Noronha se apaga, se desvanece e desaparece com a VOLTA (assim mesmo em maiúscula) com esses abraços dos meus filhos, mais do que um abraço, apoteose sentimental. Comovente, fascinante, eterna, imortal e duradoura", assim Helio Fernandes definiu para o blog Images&Visions, de Fernando Rabelo, esse dia tão marcante em suas vidas.

Em 16 de outubro de 1969, o jornalista Helio Fernandes foi recebido por 4 dos 5 filhos na pista do Aeroporto Santos Dumont depois de ter ficado quatro meses detido e incomunicável em diversas prisões do Brasil, por ordens do governo militar depois do AI 5. Da esquerda para a direita vemos os filhos Isabella, 10 anos, Ana Carolina, 6 anos, Rodolfo, 7 anos, e o Bruno, que aparece encoberto.
A foto foi feita pelo lendário Alberto Jacob que sempre reclamou que o Jornal do Brasil o mandou fazer as fotos desse acontecimento, mas não teve coragem de publicá-las.
“Todo o horror do seqüestro, do desterro e do esquartejamento físico e intelectual da prisão de Fernando de Noronha se apaga, se desvanece e desaparece com a VOLTA (assim mesmo em maiúscula) com esses abraços dos meus filhos, mais do que um abraço, apoteose sentimental. Comovente, fascinante, eterna, imortal e duradoura”, assim Helio Fernandes definiu para o blog Images&Visions, de Fernando Rabelo, esse dia tão marcante em suas vidas.

Leia o texto mais recente de Helio Fernandes, de 6 de março de 2014, clicando aqui.

Texto de Nilson Mariano em 2008 no Observatório da Imprensa: clique aqui.

Referência do Images&Visions: http://imagesvisions.blogspot.com.br

(*) Gustavo Barreto (@gustavobarreto_) é jornalista. Acesse também pelo GBlog (www.consciencia.net/gblog) ou pelo Facebook (www.facebook.com/gustavobarretorj)


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