Ações de censura



Gabriel Priolli, para o Portal Imprensa

Outro dia, uma publicação da grande imprensa me convidou a escrever uma crítica sobre o suposto caso de estupro no programa “Big Brother Brasil”, da TV Globo. Para não chover no molhado do que tantos vinham dizendo, aproveitei o gancho para tratar do marco regulatório da mídia, tema que anda congelado nas prioridades governamentais e no debate público. Enviei o texto, mas a publicação recusou sob o argumento de que ele conflitava “com os interesses dos nossos acionistas”.

Foi a terceira vez, nos últimos anos, que os tais interesses foram usados para me censurar. Em nenhuma delas escrevi qualquer coisa que criticasse ou sequer citasse os veículos e suas empresas editoras. Também não defendi o temido controle social da mídia ou fantasmas afins. E não creio que minhas opiniões possam trazer prejuízo a qualquer acionista, da empresa que for. Não estou com essa bola.

No entanto, assim julgaram, ou ao menos pretextaram, nas três vezes. E isso em publicações que, como todas da grande imprensa, se ufanam em manter “guichês separados”, a redação distante do comercial, a pauta jornalística imune a pressões de anunciantes.

Talvez eu seja Eremildo, o idiota de Elio Gaspari, mas não consigo captar a diferença entre não misturar o editorial com interesses negociais de clientes e fazê-lo com os interesses próprios. É a mesma dificuldade que tenho em aceitar que a grande mídia debata a regulação em tantos setores econômicos, até clame por ela, mas não permita a mínima discussão da regulação de seu setor, tão afetado pelas mudanças na tecnologia e na economia, e tão distinto hoje do que era décadas atrás.

Sou um nostálgico da velha imprensa liberal, que atuava num único ramo de negócios – o de vender informação confiável e debate plural dos problemas nacionais e mundiais, para leitores de todas as tendências políticas. Uma imprensa que não recuava da sua missão de informar e zelava pela liberdade de expressão, não apenas a própria mas também a dos antagonistas. Uma imprensa que não tinha medo do embate de ideias e mantinha tranquilamente nas redações, protegidos das ditaduras, “os comunistas do dr. Roberto”, do dr. Julio, dos patrões à moda antiga.

Hoje em dia, o que mais temos são tecnocratas pilotando as publicações, eugenistas da pureza ideológica neoliberal. São guardiões de interesses privados, não do interesse público ou sequer dos leitores. Soldados da tesoura, não da caneta. Duvido que isso seja bom para os acionistas e certamente não é para o jornalismo.

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Gabriel Priolli foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV. Coluna publicada na edição de março (276) da Revista IMPRENSA.

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